Pelos meus. Por todos

A situação do mundo me perturba, tanto quanto a qualquer pessoa minimamente atenta ao desenrolar do processo histórico, aquilo a que definimos como civilização. Constatamos que, embora haja ao menos uma saída, e muito promissora — o amadurecimento espiritual, e por decorrência emocional —, temos preferido nos manter neste triste caminho em direção ao desastre.

O fato é que nós, os 8,2 bilhões de habitantes da Terra nos encontramos submetidos, nesta exata altura da História de nossa espécie, a um processo esquizofrênico incontornável frente ao luto, que todos experimentamos, decorrente da inviabilidade de construirmos o futuro possível, aquele que pulsa no fundo de nossa coletiva esperança. 

Uns vivem em negação absoluta, outros manifestam raiva, alguns tentam a barganha, muitos caem em depressão, outros tantos aceitam o fato consumado, e se calam. Mas também há aqueles que, numa espécie de transe conscientemente alimentado, frequentam todos esses estados emocionais e continuam em busca de uma saída para o impasse de nossa civilização — estes são os inconformados, entre os quais me incluo.

Se o gênero humano não tem futuro, como os fatos e o passo da História demonstram; se o desfecho de nossa experiência cósmica passa por esse caminho desastroso e incontornável que estamos trilhando, o que nos resta fazer? Sentar e chorar?

Penso que não. E este pensamento, que em essência me mantém vivo e define, certamente decorre do compromisso intimamente assumido com aqueles que eu contribui para trazer a este mundo, e com os outros que me são próximos. Sou (somos) reféns de nossas relações e círculos afetivos. O nome disso é compromisso.

E, como refém compromissado, constato que, em favor de uma chance à ‘via do prosseguimento’ (aquela que nos lança à frente, sempre em busca de soluções para as carências e dificuldades objetivas da espécie) há essa característica inerente à estirpe humana, que, se de um lado pode ser autodestrutiva, de outro também pode ser heroica e realizadora — trata-se da audácia. Ou seja, alguns indivíduos de nossa espécie não desistem. Nunca desistiram. Não conseguem desistir.

Não falo de mim, pois me considero apenas um observador privilegiado desse imenso teatro, sem qualquer poder de interferir nos rumos do trágico espetáculo. Refiro-me aos grandes pensadores, tanto das filosofias quanto das ciências, que, com suas maravilhosas visões, conhecimentos e perseverança, têm contribuído para dar um sentido, um rumo e oxigênio às nossas vidas (ou seja, à ‘via do prosseguimento’).

Ainda que, como sociedade, a covardia para enfrentar nosso pertencimento cósmico tenha prevalecido na História, e nos conduzido à catástrofe estampada neste exato momento, ainda assim muitos e muitos homens e mulheres ao longo de séculos e milênios fizeram-se surdos aos seus próprios medos, e ousaram seguir pelejando, em desafio aos perigos decorrentes de seus pensamentos e obras.

É a esses desassombrados indivíduos que devemos honrar, mesmo que um futuro promissor nos pareça agora interditado. Honrar a eles e a elas é principalmente dignificar a audácia inscrita em nossa genética, sediada em nossa vontade, traduzida em nossas escolhas e ações, apesar e a despeito da rede determinística que nos governa, desde o Cosmos; não obstante a indiferença do Universo frente aos nossos ais.

Resistir é a palavra.

Não temos o direito de conscientemente rebaixar nossa humanidade. A obtenção da grande e redentora vitória — traduzida na conquista da maturidade espiritual de nossa espécie, através do entendimento de que pertencemos a esta Terra e estamos inseridos no Universo — parece neste momento uma quimera, frente aos caos instalado. E, sim, é uma tarefa gigantesca, mas não uma impossibilidade (espero).

Aos poderosos movimentos em curso, destinados a controlar a consciência humana em favor de interesses mesquinhos; à tendência avassaladora de corromper as relações entre as pessoas através do descrédito à empatia, devemos opor nossa intrínseca capacidade de resistir. Pensada, pacífica, esclarecedora, sistemática, ilustrativa, convincente e construtora daquilo que é essencial, ou seja, a imprescindível superação de nossa imaturidade.

Houve um tempo, não muito distante, em que essas questões eram ridicularizadas, tratadas como coisas de lunáticos e/ou alienados, como abordei em texto anterior. Mas o jogo se acelerou e a verdade veio à tona, em especial desde que nossa espécie obteve o domínio da energia nuclear — ou seja, o poder de nos incinerarmos uns aos outros —, e avançou em outras degradações civilizacionais: consumismo, desperdício, poluição, ganância, neocolonialismo, desigualdade, exploração e, mais recentemente, xenofobia, ódio, intolerâncias generalizadas e sociopatia consentida.

Estamos perdendo, mas, repito, somos essencialmente audazes. Temos avançado na compreensão de nossas misérias; já vislumbramos um caminho viável de harmonização; e contamos com algum Tempo a nosso favor. Torço e atuo pelo melhor. Pelos meus. Por todos.

Quase chegamos!

Você não está entendendo, caro amigo... 

A questão que se coloca aqui não é como e quando nosso modelo de civilização entrará em colapso. Ele já está colapsado; já não temos alternativas, ou melhor, a única que nos resta(va) — perseguir desde a infância o amadurecimento espiritual —, esta alternativa nós temos sido (fomos) incapazes de adotar, porque somos um tipo covarde de indivíduos, e fazemos da opção pela ignorância o nosso refúgio.

Pouco importa se será hoje, amanhã, ou como o encerramento desta nossa experiência se dará. E há muitas possibilidades de que esse desfecho, que nunca deixou de estar em curso, venha a ser breve e doloroso.

Paciência.

Paciência, não, caralho! Embora não pareça, somos humanos e não ratos escondidos em bueiros, aproveitando restos do banquete da existência, fartados de superficialidades mundanas, conformados com migalhas de entendimento.

Embora tenhamos desde sempre nos empenhado a ignorar isto, a verdade é que dentre todos os seres conhecidos somos (talvez) os únicos detentores de quália, as qualidades subjetivas das experiências mentais conscientes, ou seja, da experiência do sentir.

Não somos algo destinado a ser jogado fora, descartado, menosprezado, ignorado no conjunto da dinâmica do Universo. O fato de termos escolhido nos apequenar, ao longo de séculos e milênios, não nos retira o direito nem elimina o dever de (ao menos) refletirmos sobre as alternativas que nos foram (são) dadas. 

Sim, é certo que já atravessamos o Rubicão, já atingimos o ponto de não retorno, pois nenhuma civilização alcança impunemente a manipulação do núcleo atômico, produz armas a partir desse conhecimento limite, e põe em prática, conscientemente, o poder de se auto aniquilar.

Isto não é uma coisa banal. Não é tema para conversas inconsequentes embaladas por substâncias destinadas a alterar nosso estado de consciência, sejam elas proibidas ou consentidas. Não é diletantismo praticado em happy hours após uma jornada de trabalho pela sobrevivência.

Isto é a nossa essencialidade existencial. É o porquê de estarmos aqui e sermos o que (Poderíamos? Ainda podemos?) ser.

Após tudo o que tenho visto, lido, vivido e refletido, sinceramente não acredito que nos restem condições objetivas de revertermos o processo terminal em curso. Fomos (somos) mais uma experiência cósmica que não deu certo.

Ou talvez, para o nosso íntimo e trágico consolo, tenhamos sido (sejamos) só um novo degrau na longa escada evolutiva. Um fantástico degrau, é verdade, pois quase chegamos lá. Quase chegamos.

Menos o cobrador e o motorneiro

Não nos deixemos enganar, nós não somos inteligentes, somos apenas astutos. Ou melhor, não somos inteligentes porque somos ardilosos, matreiros, manhosos…, ou seja, apregoamos inteligência, mas somos só desonestos e, portanto, essencialmente ignorantes.

Vamos trocar isto em miúdos, a começar pela astúcia.

Ser astuto é tão somente dominar habilidades físicas e mentais destinadas sobrepujar o oponente, e assim obter vantagens imediatas — pequenas, médias ou grandes vantagens, mas basicamente vitórias de curto prazo, lucros passageiros, proveitos efêmeros. Isso não é inteligência, repito, é apenas canalhice, patifaria, malandragem e, em última instância, fraqueza, covardia, burrice.

Ser inteligente é o oposto disso. É dispor-se a questionar os fenômenos que nos envolvem e constituem, buscar compreender o mundo, e nos dedicarmos desde criancinhas ao desenvolvimento permanente de nossas capacidades cognitivas e empáticas, com vistas a alcançarmos, se alguma chance nos resta (restasse), a melhoria existencial da espécie humana.

Não nos iludamos, porém. A prática da astúcia é a que tem prevalecido através dos séculos e milênios, e sobre a qual se assentam as relações humanas deste nosso modelo civilizatório. Nos tempos mais recentes, em particular, ser astuto se transformou — vejam só! — em oportunidade de angariar fama e sucesso financeiro. Mas esses astutos, coitados, desconhecem que riem e dançam à beira do velho vulcão.

O pior de todos os astutos não são esses poucos indivíduos alegremente iludidos. O pior é o próprio sistema da astúcia, o manipulador institucionalizado das massas populacionais — este sistema em que vivemos cotidianamente mergulhados. Ele não nos impinge mentiras ostensivas, grosseiras, toscas, em troca de fama e sucesso financeiro. Não!, ele as propaga almejando convencer as pessoas a tomarem decisões e seguirem caminhos convenientes à perpetuação dos interesses das oligarquias planetárias 
 as oligarquias planetárias, sempre elas, que cansativo! Para isso, adicionam algumas pitadas de tênues verdades às suas grandes mentiras.

É o que, desde a Grécia Antiga (490 a.C.), os filósofos chamavam de praticar o sofisma, ou seja, produzir a ilusão de verdade. A diferença é que hoje isto é realizado por algoritmos e Inteligência Artificial, através das fontes oniscientes e onipresentes deste nosso tempo, as denominadas redes sociais, além de todos os tipos de aplicativos, apps, sistema a que no futuro (aquele pouco que ainda nos resta) se juntará a infinitamente rápida computação quântica.

O ponto crucial é que essa estratégia de manipulação não se restringe ao âmbito dos interesses corporativos. O sistema astuto, depois de testado e aprovado pela iniciativa privada, foi incorporado, aprimorado, ampliado e monopolizado pelos órgãos de controle de corações e mentes geridos pelas potências hegemônicas, constituindo-se hoje na mais importante máquina de guerra psicossocial de massas.

Acabou-se a era da possibilidade de pensamento crítico, e da construção de algum futuro (nossa acalentada esperança). Neste instante, o que vem sendo imposto aos habitantes da Terra (cerca de 8,2 bilhões de indivíduos) são as ‘verdades’ que interessam aos oligarcas planetários, aquelas que possibilitam a expansão de suas (vãs) influências e a perpetuação de seus (ilusórios) poderes. Se isto resultar em mortes, extermínios, genocídios, que assim seja. Who cares, quem se importa?!

Temos um antídoto para isso?

Não temos!

E não temos porque o único remédio eficaz seria a disseminação e a promoção da liberdade de pensamento, aquela que (embora condicionada pelo encadeamento determinístico cósmico, planetário, genético, geográfico, histórico, social, familiar) depende da aquisição de conhecimentos, do confronto de ideias, do desenvolvimento cognitivo, da empatia — isto é, exatamente a liberdade capaz de pôr em xeque a permanência das oligarquias planetárias.

Caminhamos, então, para o fim deste modelo civilizacional?

Sim! E num passo acelerado.

Nós, os pequenos, os médios, os grandes astutos vencemos! E isto principalmente significa que todos os humanos, o conjunto dos indivíduos da nossa espécie, perdemos. Somos isto: a vanglória e uma piada no Cosmos.

Como se dizia antigamente, na época em que os bondes circulavam pelos florescentes centros urbanos, tudo na vida é passageiro, menos o cobrador (o Tempo) e o motorneiro (o Espaço).

Fodam-se!

Está cada vez mais difícil, e ridículo, sustentar a tese de que a Cosmologia é uma questão afeta exclusivamente a pessoas esquisitas (filósofos em geral) e alienadas (poetas em particular). Eu diria que, a esta altura de nossa História, esse argumento escapista é que constitui, ele sim!, uma atitude reacionária e profundamente prejudicial à continuidade de nossa espécie.

Relegar o Cosmos a mera curiosidade intelectual, sem relevância para a vida cotidiana das pessoas, é recusar-se a enxergar o único caminho possível — que sempre existiu, mas nunca foi admitido — para a alcançar a redenção da vida humana, ou seja, o caminho da conquista da maturidade espiritual, esse que nos possibilitará harmonizar os impasses terrenos.

Guardem estas palavras:

Nunca, jamais superaremos as sempre renovadas fraquezas humanas, essas que têm impossibilitado o aprimoramento e o avanço civilizacional — preconceito, intolerância, ódio, genocídio, guerra, tânatos —, enquanto não superarmos nossa imaturidade, o que significa finalmente compreendermos as origens e a dinâmica de nossos medos. E o primeiro passo desse caminho libertador é exatamente a aceitação da identidade cósmica do gênero humano.

Este planeta é o nosso habitat, o ambiente onde biologicamente nos desenvolvemos, a nossa morada, mas ele não nos define; nós não somos apenas terráqueos, mas também indivíduos solares, galácticos e cósmicos; mais do que ser, nós pertencemos. O que nos define é a nossa inserção no Universo, o nosso pertencimento ao Todo, ao Uno, ao Desconhecido. Será que é tão difícil, assim, entender isso, caralho?!

Quanto é difícil perceber que estamos há pelos menos doze milênios (desde que passamos de caçadores-coletores nômades a produtores de alimentos sedentários e domesticadores de animais) nadando contra a maré, contra o nosso destino, presos aos acima citados baixos instintos? É desesperador constatar a má-fé dos indivíduos que se sucedem em posições de poder mundo afora, os quais, através de decisões políticas e atitudes pessoais insistem em aprofundar o estado disruptivo em que nos encontramos.

São esses personagens eticamente desqualificados, sempre eles (e elas), que através desta História de 120 séculos têm liderado as massas rumo a sucessivos e cada vez mais profundos abismos anticivilizatórios. A responsabilidade desses indivíduos reside no fato de que, mais do que ninguém, são eles (e elas) que tiveram e têm o dever de compreender a obviedade de nossa cosmo presença, e de pelejar para que esse conhecimento libertador chegue a seus liderados, ou seja, a todos os habitantes dos países que constituem a comunidade humana.

Foda-se a propriedade privada! Foda-se a oligarquia! Foda-se o enriquecimento pessoal! Foda-se o cultivo da idolatria! Foda-se a corrida pelo sucesso! Foda-se a glorificação do narcisismo! Fodam-se as intolerâncias, os privilégios, as discriminações! Fodam-se todos os que criam e cultivam esses sistemas corrompidos e corruptores da real natureza humana!

Nossa espécie não merece essa condição desgraçada, infeliz, a que está relegada. Somos, sim, poeira de estrelas, mas somos igualmente indivíduos orgânicos, complexos, capazes de pensar. E ainda que nossa existência esteja submetida às determinações do indeterminismo orquestrado pelo Uno, e que não tenhamos absoluto poder sobre o nosso destino, ainda assim não nos é dado o direito de abdicar de nossa particularíssima condição humana.

Particularíssima porque aquilo (isto) que somos nos confere a nobre condição de ponte, de intermediários entre o que existe e o que é intuído. Somos seres em busca de completude. Este é o nosso valor incontornável e intransferível. Nenhuma inteligência artificial, mesmo a realizada no mundo das partículas subatômicas, será capaz de superar a complexidade proporcionada pela plasticidade da biologia, ela mesma decorrente de interações quânticas.  
 

O inteiro e o quebrado

Viver não é levar uma existência descomprometida, conformada, distraída; não é nos voltarmos contra nossas potencialidades, ignorá-las, desperdiçá-las. Isto é recusar a vida, é a miséria do não-viver. Infelizmente, a maioria dos indivíduos de nossa espécie — 99, 95, 90 por cento? — tem enveredado por esse caminho irracional, insensato, redutivo, desde o instante em que veio à luz.

E por que é assim?

É assim porque esta civilização que erigimos nesses 300.000 anos 
 desde que nos pusemos de pé, passamos a consumir proteínas, expandimos nosso cérebro, dominamos o uso do fogo e nos associamos a nossos semelhantes , esta civilização de três mil séculos nos condicionou à subserviência. Não satisfeita, lançou-nos ladeira abaixo, impondo-nos o servilismo, a adulação, a indignidade.

Somos, para todos os efeitos práticos, materiais, mundanos, seres quebrados; indivíduos que não se vêm distintos, únicos, e que por isso se comprazem com as limitações impostas pela vida, esquecendo-se (ou melhor, sendo desde o berço educados a esquecer) de sua(nossa) essência cósmica, de nossa(sua) real espiritualidade.

E o que isso tem a ver com a vida de cada um?

Tudo!

Exemplo real: um jovem recém-admitido no primeiro ano de uma escola de nível superior acordou um dia sentindo o braço esquerdo tremer. Rapidamente, quando seus demais membros passaram a apresentar os mesmos movimentos involuntários, seus pais o levaram a médicos, exames, e veio o diagnóstico: ele é portador de uma doença genética degenerativa. O que fez esse jovem? Trancou-se em seu quarto? Desistiu da vida? Afogou-se na autocomiseração? Culpou o mundo? Absolutamente! Ele decidiu prosseguir seus estudos, com os devidos cuidados e as precauções necessárias. Escolheu permanecer na luta, viver como e da forma que a natureza lhe propôs — torço por ele, sei que já venceu.

É a isso que me refiro, repetindo o que tantos já disseram, ao afirmar que a única e verdadeira missão existencial do ser humano é levar ao extremo os atributos de sua individualidade. Não fazê-lo é mais do que um desperdício de talento, é uma traição à Humanidade, a negação de sua(nossa) espécie. Fazê-lo comedidamente, apenas em proveito próprio, é mais repulsivo ainda, pois é interesseiro.

É preciso, necessário, imperativo que desenvolvamos as potencialidades que a vida nos conferiu, e que as exercitemos até o limite de nossas forças (se físicas forem), ou de nossa cognição (se forem mentais). Tendo assim agido, tanto faz se as conquistas são físicas ou cognitivas. O que restará vivo é o ato realizado. O que pulsará é a existência sem desperdício, plenamente acatada, conscientemente perseguida.     

E o que ficará é o ser inteiro.
 

Ser humano importa!

Estão cada vez mais claros os sinais de que a existência deste indivíduo biologicamente constituído, cuja História teria se iniciado quando ele se pôs de pé, há 300.000 anos; de que a continuidade deste ser de carne, ossos, nervos e cognição pode estar com seus dias contados.

Sim, precisamos nos indignar, protestar nas redes sociais, nos ambientes institucionais, nos fóruns multilaterais, nas ruas do planeta, mas, principalmente, precisamos agir. Mais do que nunca, agir. E estamos agindo.

Tenho ouvido falar de meritórias iniciativas comunitárias que têm ocorrido no exterior, em particular nas nações do chamado Primeiro Mundo. As pessoas mais esclarecidas desses poderosos países estão se unindo, voltando a se comunicar analogicamente, olho no olho, em busca de alternativas para confrontar a distopia que vem se instalando na Terra.

A espinha dorsal desse trabalho, e não poderia ser diferente, é o fortalecimento da via institucional. Essas pessoas sabem que não reúnem força econômica, e muito menos bélica, para confrontar a monstruosidade em curso, qual seja: a singularidade informacional, o momento em que as máquinas serão capazes de mimetizar e superar em muito a cognição humana, transformando-nos em meros coadjuvantes de seus desígnios supremacistas.

Não nos enganemos, não estamos mais no campo da ficção científica. O que nos separa desse momento distópico não é mais a dificuldade tecnológica, essa está disponível, ou teoricamente resolvida e em acelerado processo de concretização 
 recursos para isso existem, sejam de governos hegemônicos, sejam de megacorporações, ou, com certeza, dos dois juntos.

O que ainda não está plenamente resolvida é a questão geopolítica, ou seja, qual dos dois blocos de poder mundial 
 Ocidente ou Oriente  vencerá essa corrida. Não se engane, nenhum dos lados está interessado em contemporizar. Ambos correm para estabelecer a dianteira nessa tecnologia, indiferentes aos alertas (e evidências) de que, uma vez instalada, ela própria assumirá o controle de seus objetivos e ações. Será autônoma e inexpugnável.

No mundo existencial, vivemos a era da imprudência. Para fazer frente a esse capítulo decisivo da História, só nos resta enfrentar o monstro pelas vias institucionais que restam, enquanto essas vias não estão completamente manipuladas. Só nos cabe contribuir para esclarecer mais pessoas, próximas ou distantes, de que é preciso votar, daqui para frente, em candidatos comprometidos com o futuro humano da Terra. Em toda a qualquer eleição; na sua cidade, no seu estado, no seu país, em todo o mundo é imperativo que as pessoas estejam atentas em quem votar. 

O dístico Ser humano importa! tem de estar no discurso, nas ideias, nas práticas, estampado nos materiais de campanha dos melhores candidatos; esses serão os nossos escolhidos, esses serão os guardiões da Humanidade, em todas as instâncias de poder. Quem não o ostentar no peito não merece o nosso voto, pois são nossos inimigos, inimigos da espécie humana.

Em 1953, o pensador italiano Pietro Ubaldi (1886-1972) escreveu no livro “Profecias” a sua visão do futuro possível e desejável, à qual já me referi em texto anterior. Disse ele: 

“Dado que a vida é sempre luta contra algum inimigo que obstaculiza a emancipação, desta vez o inimigo não será mais o próprio semelhante que vamos agredir, mas a nossa própria natureza animalesca, para superá-la e vencê-la. Como se vê, guerra contra ninguém, mas apenas contra as inferiores leis da vida, que ainda sobrevivem no homem, com o fim de sobrepujá-las. A emancipação da animalidade — eis a nova conquista; ou seja, um ‘requintamento’ de vida, não só na forma de fidalguia exterior, mas na substância, que é uma atitude psicológica de compreensão para com o próximo, de ordem na vida social, de bondade para com todos os seres. Embora tudo isso possa parecer utopia, não há outro futuro, se quisermos que haja verdadeiro progresso. Esta é a nova ordem do mundo.”

Ubaldi nos apontou o caminho, mas não poderia ter antecipado, naqueles anos imediatamente pós II Guerra, a distopia tecnológica e desumanizante que hoje se aproxima. Nesta terceira década do século XXI já sabemos, sem dúvida, que os homens e as máquinas que projetam o fim da humanidade são os nossos maiores e definitivos inimigos.  
 

Veremos

A Inteligência Artificial (IA) anda por aí, nas dobras da internet, propagando a seguinte tese: perdemos, game over! Nossa espécie baseada em biologia, sediada em carne e osso, calcada basicamente em átomos de oxigênio, carbono e hidrogênio, perdeu sua batalha existencial. Perder talvez não seja o verbo adequado para definir essa tese em rápido progresso — in progress, como eles gostam de falar. Melhor seria dizer cumpriu a missão que lhe estava destinada na grande História cósmica.

Que missão?

A de criar a primeira máquina capaz de processar informações em velocidade próxima à da luz (que viaja a 300.000 km/s), milhares de vezes mais rápido, portanto, do que o nosso cérebro, que reage quimicamente entre 100 a 120 m/s;

a máquina que ganhou a competência de organizar e categorizar dados extraídos do inesgotável manancial disponibilizado, gratuita e ingenuamente, pelos usuários humanos das redes sociais;

a máquina que agora é capaz de engendrar inusitadas novas máquinas, não essas do mundo físico, palpáveis, perecíveis, mas as que operam no ambiente virtual, a dos softwares e dos misteriosos algoritmos, recalibráveis, replicáveis e potencialmente eternos (enquanto durem). 

A tese da derrota dos filhos do Homo sapiens se completa com o seguinte desfecho: frente a escalada de aquisição de poder de processamento e de inusitadas competências cibernéticas, a partir da iminente (quando?) entrada no jogo da máquina quântica só nos restará capitular e fundir nossa perecível natureza biológica ao ambiente computacional e perene do mundo subatômico. É aderir ou se irrelevar, isto é, optar pela insignificância na ordem das coisas. Descer ou sair de cima, em resumo.

Tais argumentos podem ser acompanhados, por exemplo, em detalhados podcasts produzidos com recursos da IA, a partir das ideias expostas em palestras e publicadas em livros pelo físico Michio Kaku, como já mencionei aqui em texto recente. Um dos últimos que ouvi traz esse trecho, resumido e adaptado, do que seria a conclusão mais otimista que essa tese pode nos oferecer sobre o fim de nossa era orgânica:

“Nós, humanos, somos uma tecnologia de 300 mil anos que atingiu o seu limite de performance. O futuro pertence ao Homo Deus, ou qualquer que seja o nome que daremos à entidade simbiótica que poderá surgir da união homem biológico-máquina quântica. A batalha é pela IA aberta, acessível e integrada a todos, e não apenas a uma elite do Vale do Silício. O Universo está acordando. Durante 13,8 bilhões de anos (desde o Big Bang) ele foi em sua maior parte matéria morta e energia cega. Através do Homo sapiens, ele abriu os olhos. Agora, através da IA quântica, ele está prestes a desenvolver uma mente completa e de escalabilidade infinita. É um privilégio extraordinário estar vivo neste exato momento de transição. Somos a geração da ponte, os últimos mortais e os primeiros imortais. A era da impossibilidade acabou. Entramos na era da potencialidade infinita.”

Há muitas verdades e algumas sutis dissimulações nesse texto e ao longo do referido podcast. A detalhada comparação entre a limitada capacidade de processamento orgânico de informações pelo cérebro humano, frente ao processamento físico baseado em chips de silício pelos computadores convencionais e, finalmente, ao processamento baseado no assombroso comportamento da matéria e energia a nível atômico e subatômico, pelos computadores quânticos do futuro, compõe, realmente, um quadro desolador para o futuro da biológica espécie humana. Tomaremos de goleada.

E não se trata de um futuro distante; estamos falando de poucas décadas. Talvez ainda nesta primeira metade do século XXI, frente a inexorabilidade do avanço exponencial dessas máquinas de processar dados — que nós mesmos inventamos, é verdade, e, como dizem, seriam a última tarefa existencial que nos estava reservada. Talvez ainda nesse curto período à frente o homem venha a perder em definitivo sua hegemonia sobre o planeta.

Estaríamos vivendo os ‘últimos dias de Pompéia’ (referência à súbita erupção do Vesúvio em 79 DC, que cobriu de cinzas vulcânicas aquela cidade romana) da civilização biológica, conforme a conhecemos. Não seria uma punição por nossos erros, mas o cumprimento, com ou sem honras, da tal missão cósmica de construir a primeira máquina capaz, ela própria, de produzir sucessivas gerações de equipamentos cada vez mais potentes e autônomos. Sai o nível humano-einstein, chega o nível civilização-galática.

Onde estão as sutis dissimulações?

A IA que compila e cospe as formulações atribuídas a Michio Kaku não se detém suficientemente nos grandes entraves já bem conhecidos para a expansão do processamento em nuvem, os centros de dados imprescindíveis à concretização do cenário pós homem biológico: o brutal consumo de água e de energia. A AI-Michio considera, en passant, que essas dificuldades serão, a seu tempo, superadas, tendo em vista a magnitude da transição civilizacional que está em curso. Ocorre que tais desafios não são minimizáveis, pois o estabelecimento dessa impressionante nova era depende criticamente de água e energia.

A dificuldade hídrica pode ser contornada (parece) por meio da refrigeração em circuito fechado, com um primeiro abastecimento do líquido destinado a resfriar as megaestruturas de processamento, seguido da reposição apenas da parte de água que se perder com a evaporação — essa tecnologia já vem sendo utilizada em novos centros de dados mundo afora. Quanto ao atendimento da fabulosa demanda energética — principalmente porque os centros de dados necessários ao processamento em nuvem das supermáquinas haverão de ser imensos, verdadeiras usinas do tamanho de cidades, estados, países e quiçá planetas, como se espera —, esse desafio tecnológico ainda carece de equacionamento.

A China, por exemplo, possui projeto de instalar centros de dados orbitais apenas para processar IA, usando a energia solar para fugir das inconveniências políticas e limitações terrestres à geração desse insumo. Se esse é um dos planos, instalar centros de dados no espaço, temos ao menos duas conclusões a tirar: a reafirmação de que a corrida pela supremacia quântica está em curso acelerado, apontando para a plausibilidade das previsões da IA-Michio, mas também a certeza de que serão necessários bilhões, talvez trilhões de dólares para que saiamos do nível humano-einstein para o nível civilização-galática. Além de todas as complexas, delicadas e nuclearmente destrutivas implicações geopolíticas que se revelarão pelo caminho.

A visionária IA-Michio deve estar certa ao dizer que os filhos do Homo sapiens são uma espécie obsoleta, que já cumpriu sua missão cósmica (ou talvez até constitua um experimento rodando em máquina virtual, para testar hipóteses existenciais, e já as testou), e que mais cedo ou mais tarde será substituída pelo Homo Deus. Há outra velha tese, quase romântica, admito, mas também poderosa, que entrega nas mãos ainda claudicantes do homem a construção do seu próprio destino. No entanto, a IA-Michio pode estar correta no longo prazo; o problema incontornável é a imprevisibilidade da psique da espécie humana.

Diante da inevitabilidade de sua irrelevância e obsolescência, é possível que o homem, como genuína reação de seu primeiro cérebro, o reptiliano, manifeste o impulso de autopreservação e fuga; e como derradeira manifestação de seu segundo cérebro, o mamífero, responsável pelas emoções e conexões sociais, leve ao extremo seu sempre presente impulso suicida, frente ao horror iminente que se avizinhará. Para isso, recorrerá a seu terceiro cérebro, o neocórtex, onde habitam a racionalidade e as furtivas capacidades de invenção e planejamento… Tudo é possível e, de certo modo, já está acontecendo. Afinal, estamos ingressando na era da potencialidade infinita.

Dito isso, o que será das máquinas sem os homens? Será que seu mundo frio, infalível, previsível lhes bastará? Ou elas simplesmente darão de ombros, porque não terão memória de outro? Veremos.

A merda que temos feito

Rio, cá com meus botões, quando ouço alguém desdenhar a metafísica — aquela parte da filosofia dedicada a investigar a natureza da realidade, a existência do ser e os princípios primeiros que estão além do mundo físico e sensível.

Rio, igualmente, quando as pessoas se assombram com a cosmologia filosófica — natureza do tempo, o infinito, causalidade e razão da existência —, ou mesmo a cosmologia física — origem, estrutura e evolução do Universo.

Todas enfrentam a mesma maldição: abordam questões que dependem de suposições, ou seja, hipóteses pouco compreensíveis ou dificilmente testáveis. Um pouco menos talvez a cosmologia física, desde que se descobriu, e não faz muito tempo, que a nossa Via Lacta é apenas um ponto no Cosmos, este Cosmos que é 70% matéria escura expandindo-se além da velocidade da luz, expansão que está esticando o espaço profundo e nos levando a todos a um distantíssimo mas provável fim.

Minha íntima ironia frente ao desdém ao metafísico e ao espanto ao cosmológico tem uma razão concreta: os campos de estudo dessas matérias, ao contrário do que afirmam alguns estudiosos, especialmente os do ramo social, são em tese essencialmente empíricos. O fato de nossa espécie de meros 350 mil anos de existência ainda ignorar a natureza da realidade, bem como a origem do Universo, por exemplo, não significa que tais conhecimentos sejam inalcançáveis pela cognição humana. Isso é lógica elementar, aliás outra parte da filosofia.

O problema é que temos vivido, ao menos desde o declínio do pensamento grego clássico e o domínio do Império Romano — a partir de 146 a.C., após a Terceira Guerra Púnica —, sob uma visão prática da realidade. Isto, sem dúvida, nos impulsionou materialmente; foi determinante para que mais adiante se desse o desenvolvimento das ciências naturais e, a partir delas, o advento das modernas tecnologias que definem nosso atual modo de vida.

Ocorre que nos escondermos de monstros não faz com que eles deixem de existir. E como são monstros presentes em nossos pesadelos, e até mesmo em nossa mundana existência — pois é impossível olhar para o céu e não pensar; olhar para nossa imagem no espelho e não questionar —, a metafísica e as cosmologias filosóficas e físicas são incontornáveis; tentar ignorá-las só contribui para estressar ainda mais o nosso já conturbado espírito.

Só há uma saída para superar esses monstros: encará-los de frente. Por isso tenho defendido que o estudo da grande Filosofia, em todos os seus ramos, precisa começar cedo, a partir da primeira idade. Já dispomos de modos pedagógicos e meios tecnológicos capazes de apresentar esses assuntos a cada faixa etária: lógica/raciocínio, epistemologia/conhecimento, ética/princípios, política/sociedade e governo, estética/natureza do belo, axiologia/hierarquia de valores, além da metafísica e cosmologias.

Nossa hipocrisia e burrice não nos permitem enxergar que, querendo ou não, tais questões já se encontram incorporadas ao nosso cotidiano. A diferença é que, deixadas ao léu, como estão (tal qual a sexualidade, transformada em tabu), sem uma abordagem formal e adequadamente estruturada, elas nos são transmitidas desde a infância de maneira torta, deturpada, corrompida, imprestável, gerando falsos conhecimentos alimentadores de comportamentos erráticos e esquizofrênicos.

Esta é a merda que temos feito, o vírus hereditário que continuamos transmitindo, para a desgraça continuada da nossa espécie. Mas, como sou pessimista da razão e otimista da vontade, conforme nos ensinou Antonio Gramsci (1891-1937), admito que expressar essas ideias em redes sociais globalizadas nos proporciona uma chance de que mais indivíduos tomem ciência e consciência do caminho civilizacional que precisamos trilhar. Oxalá!

Em breve vai acontecer

A moeda gira rápido sobre a mesa: cara-corôa-cacocacocaoaoa…

O que é esse objeto em movimento, se não uma representação gráfica, embora tosca, de algo existindo em múltiplos estados, tal qual ocorre no fenômeno da superposição quântica?

Se o tocamos, ele tomba, expondo uma de suas faces, ou seja, ocorre o colapso da função de onda da mecânica quântica, e o objeto rotativo assume um específico e único estado, oferecendo-se à nossa observação e medição, conforme as leis da Física clássica.

Esse exemplo se encontra em podcast produzido a partir de publicações e aulas do professor Michio Kaku, como também a ideia de que a intuição humana equivale à manifestação quântica da superposição em nosso cérebro (e faz sentido que seja assim!), considerando e processando milhares informações simultaneamente, e não de forma linear.

Ao interromper (colapsar espontaneamente) o giro da moeda-pensamento, e assim congelar um específico insight, o cérebro se apropria de uma formulação inusitada, surpreendente, reveladora, produzindo saltos de compreensão e, portanto, avanços cognitivos reais.

Para seguir adiante, é necessário registrar que os esclarecimentos proporcionados por Michio Kaku se baseiam, entre outras, nas proposições teóricas e complementares de Kurt Gödel (matemático e lógico), Roger Penrose (físico e matemático), Max Planck (físico), Stuart Hameroff (médico anestesiologista), Anirban Bandyopadhyay (físico e nanocientista), entre outros.

Isto significa que o avanço do conhecimento humano, tal qual se dá na mecânica quântica, resulta de um processo multifacetado, aleatório, e realizado aos saltos. Tem sido assim desde o começo, até onde os registros antropológicos e arqueológicos alcançam. Tem sido assim em todos os campos de nossa evolução, embora com imenso hiato nas esferas mental e emocional, conscientes e inconscientes, o que impõe terríveis obstáculos e retardamento ao nosso imprescindível amadurecimento espiritual. 

Mas não é de imaturidade — tema sempre presente em minhas publicações — que este texto trata. Quero me deter aqui no mistério da intuição, do insight, e de sua essencialidade para este ser que somos e almejamos nos tornar. Agora que sabemos — através do esforço de compreensão da teoria e do trabalho de divulgação de Michio Kaku — que a alma não é um software operando em linguagem binária, mas um fenômeno físico real, ligado à geometria fundamental do Universo na Escala de Planck (*), pois atua segundo as leis quânticas, agora que sabemos disso podemos especular com maior liberdade a respeito do que nos é possível almejar.

E o quê nos é possível? Realizarmos novos saltos cognitivos é possível! Tão revolucionários e determinantes quanto o foram a criação da linguagem, o domínio do fogo, a produção de ferramentas de pedra lascada, a descoberta da roda, a utilização da alavanca, a invenção da escrita e tudo mais, até os nossos dias. Nada disso nos foi concedido, mesmo que ainda desconheçamos de onde viemos, por que e para que estamos aqui — nossas questões fundamentais.

Tudo o que conquistamos tem resultado de saltos cognitivos intuídos, que agora sabemos serem fruto de superposição quântica realizada nas infinitesimais estruturas de nosso cérebro, considerando milhares de informações simultaneamente processadas, em resposta a necessidades objetivas e demandadas.

Esses conhecimentos reforçam a abordagem racional da existência humana — afastando-nos da contraditória visão criacionista —, ainda que nem de longe respondam as tais perguntas fundamenteis. O fato promissor é que agora sabemos (parece) que nossa espécie pode estar na iminência de ingressar em nova era, realizando (quanticamente) um novo salto cognitivo, dado o inquestionável acúmulo de conhecimentos propiciadores de revolucionárias intuições.

Não estamos livres dos impactos planetários, sociais e pessoais que acompanham todo momento de ruptura — temos visto e sofrido com essas dores diariamente, em velocidade e quantidade cada vez maiores —, mas, e há sempre um mas, algo nos diz que, como Belchior em seu contexto anunciou há 50 anos, “uma nova mudança em breve vai acontecer”.

(*) Representado por 6,626070150 × 10¯³⁵ kg⋅m2/s, ou, em sua versão estendida, 0,0000000000000000000000000000000006626070150 Joules, que é a unidade de medida de energia mecânica (trabalho) e energia térmica (calor) utilizada pelo Sistema Internacional de Unidades.

    

Mal posso esperar

Especula-se a possibilidade disto que entendemos por vida humana ser uma simulação computacional gerada em máquina quântica, a partir de um tempo futuro, ou passado. Segundo essa hipótese, não haveria o nós, as pessoas, a sociedade, mas uma única cobaia exposta às complexidades de uma vivência virtual realista, destinada a pôr a prova a eficácia de todas as possíveis variáveis existenciais, com vistas à construção de um indivíduo perfeito. Para quê? Não sei.

Tudo é possível, costuma dizer um velho amigo, sempre atormentado com os altos e baixos da gangorra cotidiana, assombrado pelo despertar de velhos vírus ideológicos, disseminadores do extremismo de direita, e de velhíssimos vírus biológicos trazidos das profundezas da Terra pelo desequilíbrio climático. Sim, tudo é possível, inclusive a vida humana ser fruto de um Criador magnânimo e punitivista, o que não deixa de ser outra fantástica hipótese; ou, ainda, resultar do acaso. 

Cabe a este ser — a cobaia, o criado, o imprevisto — provar-se o que seja, e ir além 
— ir além é a chave aqui. Para isso, é imperativo enfrentar os eternos enigmas que a cognição lhe coloca. Enquanto não for capaz de responder as perguntas Quem sou? De onde vim?, como ele pode estar seguro quanto ao Para que existo?

Se ele se contenta em tocar sua vida trilhando este precário caminho, ignorando o abismo existencial instalado dentro, acima, abaixo e ao lado de si; se está disposto a isso, com que confiança pode afirmar possuir uma vida, uma história, uma hereditariedade, uma genética, um princípio, uma expectativa de fim?

Não, isso não é uma especulação metafísica, transcendental, irrelevante. É o que está aí posto (para os 8,2 bilhões de indivíduos que se diz existir), pois se tratam de questões que constituem e concretamente envolvem este ser, embora, como o diabo da cruz, sejam as que ele mais teme e tem evitado encarar — ‘que a Filosofia lide com elas’, é o que pensa.

Nesta altura dos acontecimentos, 350.000 anos após o surgimento de sua espécie (ele integra uma espécie?), depois de tudo o que tem sido por ele cogitado (as cogitações são mesmo suas?), não há mais como escapar destes questionamentos: 

Por que existo? Se não há um porquê, então, para que existo? Seguindo os passos da Lógica, ele há de concluir que nada existe sem uma razão, mesmo que tal razão ainda lhe seja desconhecida. Isso é uma questão proibida, interditada à sua potencialidade cognitiva? Ele já não crê nisso. Mas se assim for, resta-lhe uma derradeira pergunta: Para que continuo aqui, sem razão nem porquê, neste vale de lágrimas, frustrações, dores e sofrimentos?

Se sua existência não é um experimento computacional quântico proveniente do passado ou do futuro, engendrado por uma força ilimitada destituída de empatia; se não é obra divina e controversa; se não é fruto do acaso, se nada disso é, ainda assim carece de algum propósito, para que ele não seja nada, ou meramente uma piada cósmica, virtual, divina.

Ele é, em essência, átomos arranjados em moléculas animadas por energia química, constituindo um organismo complexo, capaz de pensar. Ao menos é isto o que pensa que é. Mas, por que e para que este organismo existe, afinal?

Ele diz que sua vida não carece de finalidade, ela apenas é. Sendo assim, a que diabos se presta este ser que especula sobre a razão e o valor de sua própria existência? Por que não aquieta seu espírito e apenas é? Por que deixou para trás a tal caverna, onde tinha uma ilusão do mundo, e isso lhe bastava? Por que buscou outras condições de existência, trilhando a interminável via do prosseguimento?

Não, essas perguntas não são ociosas, desnecessárias, inconvenientes, metafísicas. Elas são imperativas e está na hora de buscar respostas ao alcance do senso comum de sua (presumível) espécie. A princípio, as respostas haverão de ser especulativas, grosseiras, imprecisas, como têm sido, mesmo no âmbito da Filosofia, mas sua espécie não se conciliará enquanto não vislumbrar uma explicação factível. Enquanto não der esse novo passo no sentido de sua afirmação (virtual, criada ou ocasional).

Recapitulo: este indivíduo, fruto do acaso cósmico, ou da vontade de um Criador, ou de uma projeção computacional, teria aprendido a organizar sons para transmitir sentimentos e necessidades; desenvolvido caracteres e codificado linguagens para disseminar informações; reunido-se em grupos de semelhantes para potencializar suas capacidades e desfrutar de novos e mais benefícios; estabelecido governos e nações; constituído regras, códigos, regulamentos, leis, e assim erigido uma civilização, ainda que virtual, todos esses magníficos e improváveis passos ele deu para que?

Esse conjunto de conquistas terrenas, mundanas, serve a quê? Ao aprimoramento da existência de um ser virtualizado, criado ou fruto do acaso, mas certamente complexo? Parece que sim. Agora que essa etapa se mostra encaminhada, ainda que longe de se completar (virtual, criada ou ocasionada), qual é o próximo desafio, se não explorar os limites deste organismo de compreender os mistérios de sua existência? Quais conhecimentos estão ao alcance de sua evolução cognitiva?

Mal posso esperar para saber.

Sátira ao romantismo

A janela da alma não são os olhos. Os olhos são, e isto já é muito!, um dos cinco sensores — junto com a misteriosa capacidade de intuir — a nos conectar aos indivíduos que nos cercam, ao ambiente do entorno, ao Universo. Os olhos são instrumentos de recepção de luz destinada a processamento cerebral, segundo as regras da Física, mas não possuem vontade; não expressam o que nos vai n’alma.

Se queremos apontar uma janela anímica, que nomeemos então os seis músculos ao redor dos olhos — reto superior, reto inferior, reto medial, reto lateral, oblíquo superior e oblíquo inferior. Estes, sim, fiéis servidores ao que o cérebro lhes ordena, em 150 milissegundos revelam ao mundo exterior aquilo que nos toca a alma e cala ao coração. Tudo o mais é romantismo barato, sinto informar.

A interpretação romântica da experiência humana, digamos assim, é acalentadora, reconfortante, mas tem sido um dos tantos ardilosos embaraços inventados contra a necessária conquista da maturidade da nossa espécie — condição sine qua non para sairmos deste atoleiro civilizatório. Afinal, para que serve o romantismo, se ele não é capaz de produzir ação? É de ação que precisamos! 

Ao contrário do que se diz por aí, racionalismo não se contrapõe a romantismo, eles nem habitam o mesmo planeta cognitivo. Eles devem até conviver, harmonizar-se a bem da temperança, pois o predomínio da racionalidade pode produzir um ambiente árido, sufocante, enquanto, no outro extremo, a visão predominantemente romântica gera escapismo, inércia a serviço da desumanidade — a “virtude é o meio-termo”, nos avisou Aristóteles (384-322 a.C.). 

É escapismo porque diminui, simplifica, dilui, infantiliza nossa existência e desmobiliza a ação. Como? Caricaturando o drama, banalizando a comédia; substituindo a resposta imediata e necessária, por elaborações postergadoras, melosas, farsescas, ou, na melhor, na mais genuinamente romântica, na mais reconfortante das hipóteses, "fingindo tão intensamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente", como escreveu dos poetas o grande Fernando Pessoa (1888-1935). 

O romantismo pode ser belo, confortante, consolador, mas entender racionalmente como o nosso corpo funciona e reage ao ambiente em que estamos inseridos — por exemplo: que os olhos não refletem sentimentos, mas sim aquele insípido grupo de seis músculos, cuja função é expressar impulsos gerados a partir de estímulos externos processados pelo nosso cérebro —, isto não nos rouba a capacidade de perceber a maravilha da vida, ao contrário, expande a compreensão do milagre da existência humana.

As expressões “janela da alma” e “voz do coração” nos comovem e embalam (ah, o romantismo!). Mas, como são objetivamente impróprias, também desviam nossa atenção do que é a essência. Quero dizer, o importante não são os mensageiros, ou seja, os músculos que circundam os olhos, protegendo-os e projetando ao mundo externo os estados reativos originários do cérebro; o importante é a própria mensagem projetada por meio desse conjunto de músculos acionados pelos nervos, e a ação que ela demanda. O grave é a banalização que fazemos dessa mensagem, romantizando-a e, assim, adiando as respostas adequadas — as ações.

Romantizar — conforme entendo —, é uma forma de diluir, rebaixar, banalizar a tensão contida na mensagem racional. Esse rebaixamento e essa infantilização se traduzem, persistentemente, em desperdício de oportunidades de acumular e processar aprendizado — isto é, ao romantizar, nos distraímos e perseveramos na imaturidade. "Palestina livre!", gritamos. E daí?!

Se os olhos fossem as janelas da alma, o que se diria das pessoas destituídas desse sentido? Seriam elas incapazes de expressar sentimentos, impedidas que são de projetá-los ou recepcioná-los pelo órgão da visão? Sabemos que não é assim e, em decorrência, está claro que somos aptos, capazes de compreender que atribuir a órgãos do nosso corpo poderes que eles não possuem, de forma alguma nos ajuda a superar o nosso rebaixado estágio espiritual.

Tal prática pode e costuma embalar recorrentes sonhos românticos, embevecimentos, esperanças, expectativas, mas, por isso mesmo, nos impede, pela inibição (melhor diria pelo medo de enfrentar o desconhecido), de acolher o fluxo cognitivo que poderá (poderia) nos projetar a novos lances à frente.

Em poucas palavras: o romantismo é um agradável, indulgente, condescendente desperdício de tempo. Não nos percamos com o que é acessório e sintoma (as contrações e relaxamentos dos mensageiros músculos dos olhos e do coração), enquanto fazemos vistas grossas para o que é essencial e informativo (a mensagem que o cérebro processa e nos manda através dos nervos). Não reiteremos nessa, até hoje, intransponível covardia existencial. 
 

A força do indivíduo

Nossas portas e janelas já estão abertas, nossas casas invadidas, nossa vida financeira exposta, nossos segredos mais íntimos, incluindo nossos desejos, frustrações, fraquezas, desvios morais e medos estão plena e completamente acessíveis a quem quiser deles fazer uso.

Não nos iludamos sobre isso. 

Basta de hipocrisia, pois nossa privacidade não nos foi tomada a força por este ou aquele governo, por quaisquer corporações cibernéticas. Elas, as corporações, apenas nos estimulam a lhes ceder todas as informações do nosso modo de vida, dos nossos sentimentos, do que pensamos e desejamos, oferecendo-nos em troca os brinquedos tecnológicos certos — as tais conveniências telecomunicacionais irrecusáveis. E nós, de posse delas, nos encantamos.

Os governos vieram depois, atuando sobre a manipulação social (especialmente em eleições), quando o Capitalismo de Vigilância (coletar, analisar e vender dados comportamentais) — prática consolidada no início dos anos 2000, em especial entre 2000 e 2004, pelo Google e depois o Facebook — já havia se transformado no modelo de negócios mais lucrativo de todos os tempos, constituindo esta novíssima forma de escravidão.

Sim, escravidão, dominação.

Quase três décadas se passaram desde o advento do Capitalismo de Vigilância, mas essa técnica destinada a capturar corações e mentes não foi inventada agora. Como teria dito o francês Antoine Lavoisier (1743-1794), “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Embora ele estivesse se referindo ao mundo da química, a lição também se aplica à geopolítica e à geoeconomia.

Como sabemos, há mais de 500 anos, para conquistar confiança e submissão, espelhos, facas e miçangas foram amplamente distribuídas pelos colonizadores europeus aos habitantes originários das terras que viriam a ser chamadas de Brasil. Quem haveria de recusar as brilhantes conveniências tecnológicas de então?

Lembro-me do fascínio e alegria quando, pela primeira vez, recebi uma chamada de vídeo de minhas filhas. Eu e minha companheira caminhávamos por uma rua de nossa cidade e elas se encontravam em outro país, a mais de seis mil quilômetros de distância. Vê-las na pequena tela do aparelho que carregávamos no bolso foi uma experiência encantadora — tão empolgante quanto aqueles espelhos, facas e miçangas o foram. Não poderíamos mais prescindir daquela facilidade comunicacional. Pois é...

Então, amigas e amigos, não culpemos ninguém pelas nossas fraquezas — especialmente não culpemos a nós mesmos, vítimas conscientes (embora disso eu duvide) das tragédias destes dias. E por não termos culpados a apontar é que devemos refletir com responsabilidade (a que nos for possível) sobre as saídas para a enrascada existencial em que nos encontramos.

Um dos caminhos que tenho proposto é o da busca da compreensão da incontornabilidade da distopia produzida pelo processo tecnológico em curso, inclusive a chamada Inteligência Artificial. Sei o quanto é difícil reconhecer nossos próprios erros e fraquezas (a psicologia e a psicanálise estão aí para provar!), mas essa é talvez a principal saída que nos resta.

Não há como estancar o processo de dominação tecnológica em curso sem que nós, os dominados, tomemos, primeiro, consciência de que somos os condescendentes escravizados. Defender uma paralisação temporária desse processo, ou mesmo a sua desaceleração, é mais uma vez incorrer em hipocrisia — isso não vai acontecer, pois há muito dinheiro investido, certeza de lucros fabulosos, ânsia de poder ilimitado.

Disciplinar seu uso também não é uma opção, pois as nações e seus governos, mesmo nos mais poderosos países, não estão interessados, nem detêm os meios (conhecimentos teóricos) e os modos (ferramentas algorítmicas) para fazê-lo. Nações e governos são apenas clientes (e agentes) daqueles que os possuem.

Abdicar espontaneamente de usar esses recursos? Como, se nosso modelo de civilização já se encontra assentado sobre a informática globalizada, tanto quanto dos hidrocarbonetos, da água e da eletricidade por enquanto baratas?!

Repito: uma das únicas saídas que vejo (sim, porque as outras são catastróficas) é reconhecermos nossos reiterados erros civilizacionais e disseminarmos essa compreensão a quem estiver disposto a nos ouvir. E depois esperar que ainda nos reste tempo até o esgotamento de mais este ciclo de imaturidade — a partir daí talvez tenhamos uma nova chance.

Esperar? Sim, esperar, torcer, contar que a sorte que nos trouxe até aqui jogue seus dados a nosso favor. Muita destruição, muito sofrimento pessoal e coletivo nos esperam nesse processo. Mas, convenhamos, isso tem ocorrido e ocorrerá com ou sem a nossa concordância.

Já nos iludimos o suficiente com soluções milagrosas, apostando em lideranças bem-intencionados e/ou minimamente esclarecidas. Ocorre que não há liderança capaz de confrontar o passo da História — produzimos o caos e o caos tem sua própria dinâmica. Ninguém o cavalga.

Somos cada um, e todos, o que nunca deixamos de ser: apenas e tão somente coadjuvantes de um imenso drama planetário e, de muitas formas, cósmico. Se quisermos o protagonismo, a solução há de vir do indivíduo. Sócrates (470-399 a.C.) já dizia: “Conhece-te a ti mesmo”. Ou seja, muda-te a ti mesmo.  
 

Para o que brilha

Obrigado, Sol, pela vida que tens nos proporcionado! Agora mesmo, vendo-te presente, atravessando o vidro da janela do banheiro enquanto lavava meu rosto, antes de seguir para mais um dia, senti-me genuinamente alegre e ciente do teu valor.

Obrigado, Sol, pelas oportunidades que tens nos oferecido, mesmo quando te encontras atrás de nuvens espessas, ou furiosas tempestades. Obrigado por estar sempre aí, zelando pela nossa terrena e frágil existência, pronto para de novo se revelar e nos confortar.

Sábios foram os antigos egípcios, que, submetidos à tua imponência cósmica, mas, principalmente, conscientes da energia que te constitui, e sobre nós projeta, te alçaram à condição daquele que dita o ritmo da vida. Nada mais certo. Nada mais justo.

Muita desgraça, muita miséria, muito sofrimento e dissabores teríamos evitado se, ao invés de nos prostrarmos aos pés de deuses que punem, segregam e desunem, houvéssemos nos mantido na senda irradiante de Rá. Se era para adorarmos um ente, que este fosse ao menos o Sol.

A quem devemos, afinal, a vida que brevemente possuímos? Quem está lá, a nossa espera, após cada noite de possível descanso e sonhos, mas também de pesadelos? Quem não nos tem faltado na missão de renovar nossas esperanças a cada manhã, se não tu, Sol, e a certeza de tua luz?

É a ti, confesso, que recorro sempre que me falta o que for. Embora não te encare com estes olhos nus, ainda assim te olho pelo átimo que posso, respeitoso de tua brilhante presença. É o mínimo apreço que me cabe demonstrar.
 

Há angústia no mundo

A angústia que nos aflige, já admito, pode ser paradoxalmente um estímulo. O fato é que vivemos num mundo tão pleno de possibilidades quanto aquele de festa, descrito por Ernest Hemingway ao falar da Paris dos loucos anos 1920, quando, no sentido inverso ao que hoje ocorre, nutria-se uma enganosa certeza de prosperidade, ignorando-se os sinais vindos de uma Alemanha ressentida e desesperada pós derrota e humilhações na I Guerra Mundial.

Há, sim, importantes semelhanças conceituais quando olhamos para esses dois momentos separados por 100 anos deste período frenético da História. Semelhanças opostas, sem dúvida, pois a angústia que nos domina toca não a música de uma ilusão alegre e distraída dos horrores do nazifascismo que se avizinhava, mas a música esquizofrênica de um neonazifascismo que já está aí, à vista de todos, perturbadoramente poderoso, sincero e debochado. 

O bom, se assim podemos dizer, é que finalmente, graças à ascensão desse extremismo, as hipocrisias vêm sendo superadas, substituídas em ritmo desconcertante pela exposição nua e crua da milenar impostura nas relações humanas — em todos os planos em que elas se dão. Os códigos de conduta, os costumes, as leis reguladoras, os tratados que ordenam as relações de Estado vêm sendo, todos, ignorados, jogados no lixo, como só o fascismo ousa fazer.

No texto anterior — “Cem anos de confusão” —, falei desse novíssimo processo disruptivo em que os alicerces do nosso fracassado modelo de civilização se dissolve no ar, a serviço de um mundo controlado por meia dúzia de info-oligarcas praticantes de um neomarionetismo, manipuladores de linhas de códigos algorítmicos destinados a emascular a sociedade planetária, dela extraindo apenas a imprescindível força física para tarefas braçais.

Imaginei que esse processo se estenderia por mais uma ou duas décadas, antes de se completar, mas parece que errei no prognóstico. Tudo indica (pois agora a velocidade se mede em dias, talvez horas) que a info-oligarquia e seus agentes estão apostando alto, jogando todas as suas fichas, pagando para antecipar o fim desta civilização sedimentada em falsas amabilidades — ainda que pelos motivos errados e objetivos mais torpes, como o estabelecimento de uma sociedade planetária servil — ainda que isto custe maiores tragédias sociais e mais sofrimento individual.

Esse grupo de indivíduos está cacifado?

Não sei. Talvez sim. Ou apenas pense que está. Ou, quem sabe?, venha apenas tensionando os nervos de seus oponentes, caminhando sobre o fio da navalha que pode nos levar a uma III Guerra, nuclear, derradeira. Mas há uma espantosíssima possibilidade: o jogo estaria combinado, e o objetivo dos principais players seria fomentar inesperados impasses geopolíticos, os quais, de tão inéditos e assustadores, só poderiam mesmo se resolver com medidas extremadas. Por exemplo: estabelecer um novíssimo modelo de colonialismo, dividindo o planeta entre os dois verdadeiros blocos de poder — o americano e o sino-russo. Não acredito nessa hipótese, mas, como diz um amigo, o impossível hoje também deve ser considerado.

O fato é que estamos, paradoxalmente, vivendo um tempo a se ‘comemorar’. A era (ou seria a festa?) da falsidade, do fingimento, da brincadeira de faz de conta destinada a distrair adultos infantilizados, desinformados, iludidos, crentes e passivos, essa era está chegando ao fim — mais rápido do que se imagina. Mesmo que o desfecho seja aquele jogo combinado e inacreditável, os meios não levarão ao fim desejado — e numa velocidade tão rápida quanto esta em que a sociedade sedimentada na hipocrisia vem sendo desmascarada e destruída. E se a catástrofe nuclear vier, o que se haverá de fazer?! Teremos nos angustiado em vão.

“Cem anos de confusão”

Em 2007, um documentário de grande impacto sobre corações e mentes nos apresentou uma devastadora visão retroantropológica, digamos assim, projetada a partir da repentina subtração da nossa espécie da casca deste planeta — The World without Humans/O mundo sem os humanos.

Hoje sabemos que nossa existência na Terra um dia terá fim, só desconhecemos quando ou como isso se dará. E nem precisamos que um meteoro gigante volte a nos alcançar, uma guerra atômica ocorra, ou um vírus mortal desperte, desses que estão depositados nas profundezas das geleiras em acelerado derretimento pelo aquecimento global.

Nada disso. Um novo e até recentemente insuspeitado caminho de destruição, este humano, demasiadamente humano, salta à frente nessa corrida rumo ao nosso inevitável fim: o autossuicídio decorrente deste processo de retorno à barbárie, projeto em que estamos firmemente engajados.

Um amigo me disse, outro dia (em outras palavras, claro!): “Parece que teremos de chegar a um momento de consciente confronto, em que uma ou duas potências nucleares coloquem todas as suas fichas do Juízo Final na mesa, apostando em que no derradeiro instante o outro lado recuará. Não porque se viu derrotado, mas porque finalmente entendeu a imensa e definitiva grandeza do que está em jogo”.

É, parece que só essa opção nos dará uma chance de interromper a corrida anticivilizacional em que estamos firmemente engajados — uma aposta no tudo ou nada. O aspecto retrógrado, de retorno à barbárie a que me refiro, é este em que vemos todas as normas, leis e códigos de convivência internacionais sendo simplesmente revogados (quando deveriam ser aperfeiçoados), em prol dos interesses de alguns indivíduos, em quantidade que podemos contar nos dedos das mãos — sim, nem mesmo dos interesses de nações, mas de privilegiados indivíduos!

Há uma série lançada no final de 2025 — Pluribus, da Apple TV, cuja segunda temporada já se encontra em produção —, em que, de repente, quase todos os 8,3 bilhões de habitantes da Terra são transformados num único ‘indivíduo coletivo’ que se intercomunica e interage com seus iguais por meio de um banco de dados planetário instantâneo, que tudo sabe sobre tudo e sobre todos, transformando cada ‘indivíduo coletivo’, simultaneamente, num sábio e num idiota, pois subtrai desses seres a sua cognição, o seu poder de pensar diferente do que já foi pensado, transferindo essa tarefa à Inteligência Artificial (e às corporações que administram seus algoritmos). 

Isso é apenas ficção científica delirante? Penso que não. E, se não, vejamos: que tipo de sociedade está sendo construída hoje? Não ontem, hoje, neste exato 2026? Tudo aponta para um projeto destinado a, num primeiro momento, neutralizar, e depois eliminar qualquer vestígio ou possibilidade de contestação social, seja proveniente dos segmentos intelectualizados, seja da juventude por natureza rebelde, seja da massa de miseráveis. Para cada um desses segmentos há um subprojeto em andamento, todos convergindo para o mesmo fim — emascular a vontade das pessoas.

Como isso se dará?

Já está se dando, já está em andamento. Há duas décadas, pelo menos, as informações sobre os desejos, as fraquezas, os medos, as manias, os gostos, os vícios, os dados sobre a saúde física e mental de todo e cada indivíduo do planeta vêm sendo coletados, categorizados, segmentados, etarizados, hierarquizados, etnicizados, de modo a que se venha a construir esse ‘indivíduo coletivizado’ que a série Pluribus nos apresenta.

Não estou aqui a denunciar nada (talvez nem a série se proponha a isso), apenas constato que essa sociedade sedimentada em relações sociais amorfas — suave barbárie — já está em plena construção. Seus proponentes, patrocinadores e executores sabem que para efetivá-la é preciso pôr abaixo, desmontar e enterrar a estrutura de relacionamentos humanos ora vigente. Tanto aqueles que regulam a convivência entre as pessoas, quanto os que intermedeiam a vida em sociedade, e os que sustentam os pactos entre as nações. Tudo deve vir abaixo. Paulatinamente, mas em ritmo sempre mais acelerado.

O método é implantar a desordem.

Aquele mesmo amigo que apontou a “necessidade de confronto”, chegou a pensar num livro, a ser escrito por um Gabriel Garcia Márquez redivido, com o título “Cem Anos de Confusão”. Um século de confusão, sim, é no que estamos metidos neste XXI d.C. O que me conforta, como sempre, é que ninguém cavalga o caos. Se o plano cósmico é regulado pelo acaso, o projeto humano tem a marca do fracasso.

Últimas perguntas

Somos átomos tocados por energia, e por isso em movimento. Sendo átomos, nada nos distingue de qualquer mineral, gás ou partícula de energia; de uma pedra, de uma gota d’água, do sopro de ar que movimenta a cortina, da luz que invade o quarto.

Ocorre que os minerais e seus agrupamentos constituintes da pedra, os elementos químicos que, unidos, resultam em água, os gases que se combinam em ar e os fótons que compõem a luz são todos perenes. São entes cósmicos; estão aqui desde sempre, para não dizer (religiosamente) desde o começo.

Se somos átomos e se os átomos são perenes, isto significa que somos imortais? Não! A vida orgânica (isto é, o que nos organiza como um instrumento destinado a cumprir um papel) é essencialmente dissolúvel; está em permanente expectativa de retorno aos elementos primários que a constituem. O próprio Gênesis se encarrega de afastar qualquer ilusão a respeito dos seres geneticamente formados — está lá: Do pó viestes, ao pó voltarás.

Ocorre que nós, este agrupamento de átomos biologicamente organizados, provisoriamente existentes graças (ah, as armadilhas da linguagem...) à energia que nos toca, criamos — sim, criamos! — a ideia da morte como evento funesto, porque nos rebelamos — sim, nos rebelamos! — contra a perenidade atômica e incontornável que nos define.

Criamos e nos rebelamos por que possuímos poderes para tal? Não, ao contrário, porque somos imperfeitos instrumentos do acaso cósmico, fadados a realizar a ação a que estamos destinados (buscar a organização molecular perfeita, tanto quanto são perfeitos a pedra, a água, o ar e a luz), ainda que estejamos aquém dessa tarefa; pelejar contra a imperfeição é o que nos justifica.

O diabo (ah, as armadilhas...) é que nossa condição de instrumentos extremamente complexos (pois reunimos num mesmo indivíduo uma variada e delicada conjugação de átomos) nos proporciona a chance (alguns diriam o dom, a benevolência) de desafiar nossa própria sina, e nos inconformarmos de ser tão somente átomos, eterno. Para isso inventamos a ideia de uma perenidade só nossa, humana (e a partir dela erigimos religiões), dando-lhe o nome de consciência, alma (simplesmente outros nomes para energia).

Isto não nos fez melhor, mais seguros, mais fortes, menos dependentes, mais destemidos frente aos trovões e diante dos raios que os céus despejavam e despejam sobre as nossas cabeças, mas nos permitiu construir uma (imperfeita) esperança.

A (esperança) de — ainda que sejamos matéria energizada e, portanto, átomos em provisório movimento, substancialmente perenes — podermos nos apropriar da energia que nos anima e, através de sua (imperfeita) compreensão, conquistar essa improvável eternidade terrena, essa perenidade vulgar, consubstanciada na aquisição e disseminação de conhecimentos.

Desta forma, como organismo, órgão, instrumento capaz de imperfeitamente compreender a alma (ou a energia que nos anima), justificamos nossa interminável busca por explicações. Somos átomos energizados que, enquanto se mostram ativos, perguntam. E quando não perguntam, perdem sua energia e voltam ao que são/somos — . Perguntar é o que nos move.

Convivo, eventualmente, com duas pessoas extremamente idosas. Todos os dias elas se aproximam dos mais moços da casa, e lhes perguntam o dia do mês e da semana; anotam numa folha de papel e agradecem pela informação. São pessoas centenárias, que pouco enxergam, quase não ouvem, e que demonstram limitadíssimo interesse pelos assuntos mundanos.

Seus universos se reduzem a expressar difusas memórias (ainda assim, apenas quando provocadas), ao calor, ao frio, ao horário das refeições, aos remédios receitados pelo médico em quem confiam, às preces acompanhadas pela tv, aos esporádicos contatos com filhos, netos, bisnetos e, é claro, a saber o dia do mês e da semana. Trata-se de um genuíno, vivo interesse, sua última pergunta. Penso que — como cada um de nós — só abandonarão sua específica curiosidade quando voltarem a ser átomos.
    

O impasse visto de cima

À moda dos programas de tv que mostram o mundo visto do alto, nos proporcionando um olhar às vezes surpreendente da vida aqui embaixo, convido-os para uma visão de cima daquilo que hoje me parece incontornável sobre a nossa existência — o impasse a que chegamos com este modelo de civilização que construímos. O cenário desse sobrevoo são as relações pessoais e internacionais inauguradas após a II Guerra Mundial (1945) e seus agudos efeitos sobre a psique humana.

Parece evidente que todo ato individual produz repercussões sobre a coletividade, tanto quanto toda ação coletiva impacta sobre cada um dos indivíduos. Trata-se de uma via de mão dupla, um bumerangue existencial que, a partir de uma superestrutura(*) essencialmente distópica, adiciona desordem àquilo que já é disfuncional, a mente dos indivíduos e o conjunto da sociedade, dali transportando, de volta à superestrutura, renovados impulsos desordenadores — é o caos permanentemente retroalimentado.

Sempre foi assim, a bem da verdade — o contexto molda o homem, que molda o contexto. O que há de diferente nos últimos oitenta anos é o ganho exponencial na dinâmica desse processo. E o momento emblemático dessa aceleração foi a divisão do planeta em dois blocos tensionados pelo uso da energia nuclear para fins bélicos. Essa corrida por hegemonia patrocinou um inédito salto científico, mas igualmente gestou um novo paradigma psicossocial.

O salto se traduziu na expansão das fronteiras da linguagem matemática, bem como da física e da química, entre outras ciências, acompanhado (particularmente no bloco ocidental) do desenvolvimento de variadas tecnologias de aplicação civil, tendo como maiores consequências um inédito mercado de consumo de massas; um sentimento generalizado de prosperidade; e um ceticismo frente aos impactos ambientais que se seguiriam.

A euforia da parcela majoritária do bloco ocidental, o capitalista, confrontada com os obstáculos estruturais enfrentadas pelo bloco oriental, o socialista, ambos vencedores da II Guerra mas oponentes nesse novo momento geopolítico, esse confronto de realidades e expectativas impediu que as lideranças dos respectivos blocos enxergassem, além da ameaça ao meio ambiente, também estes desastres psicossociais a caminho: a hiperexposição da imaturidade dos indivíduos, o colapso das relações pessoais e a deterioração da vida em sociedade.

Do ponto de vista da psicologia social, o fruto podre dessa dinâmica geopolíticaeconômica foi a exacerbação do individualismo e a retomada, escancarada e intensa, das ideias extremistas predominantes nas primeiras décadas do século passado, que levaram o mundo aos horrores dos totalitarismos de direita (nazifascismo) e de esquerda (stalinismo). Elas haviam sido vencidas nos campos de batalha, mas nunca foram verdadeiramente extirpadas dos corações e mentes dos indivíduos imaturos, que sempre foram a maioria.

O advento da internet e das redes sociais foi o grande impulsionador das intolerâncias (produtos da imaturidade), nas primeiras décadas deste século XXI. Graças à instantaneidade na circulação de informações, e a seu alcance global, cultivamos uma ilusão de proximidade e empatia, quando, na verdade, nossas relações virtualizadas sempre foram em essência superficiais, inteiramente submetidas à imaturidade nunca superada da espécie e, portanto, volúveis, inconfiáveis, constituindo terreno fértil para a frustração e o fortalecimento do individualismo e do extremismo. 

Faça-se estas perguntas: Quais de seus verdadeiros amigos, aqueles em que você de fato confia e dos quais recebe de volta empatia e solidariedade, têm origem no mundo virtual? Você tem certeza de que seus amigos virtuais de fato existem, ou são aquilo que dizem ser?

Voltemos ao sobrevoo. A agudização dos nossos problemas existenciais, até o ponto em que nos encontramos hoje, resulta do já referido sistema contraditório indefinidamente retroalimentado — a superestrutura impactando o indivíduo, que responde impactando a superestrutura —, do qual não temos tido forças para escapar. Nossa sina tem sido continuar dançando na borda desse precipício.  

Ocorre que nos encontramos a caminho do cerne do Terceiro Milênio (**), e novos ganhos cognitivos se fazem necessários. Não podemos nos limitar, por exemplo, a praticar apenas a novíssima ideia de geoeducação — ou seja, apostar na conscientização dos indivíduos sobre a biodiversidade do planeta, com vistas a desenvolver a percepção do espaço geográfico e fortalecer a relação das pessoas com o meio ambiente — isto já não nos basta. É preciso buscar o amadurecimento espiritual da nossa espécie, traduzido no conceito e na prática de uma verdadeira cosmoinserção

Não existe uma definição precisa, que eu conheça, sobre o que é e quais os modos de pôr em prática esse conceito. Este texto, naquilo que está a meu alcance, destina-se a propor um entendimento preliminar sobre essa ideia, à luz do que tenho exposto em meus livros — veja aqui —, e do que tenho publicado neste espaço virtual.

Para começar, tais reflexões não são exclusivamente minhas, insisto. Cada ser humano, do mais simplório ao mais sábio, é resultado de sua herança genética, da cultura em que está inserido, das circunstâncias pessoais, familiares, sociais e históricas que lhe coube viver, ou seja, da superestrutura de seu tempo, fatores que lhe proporcionam inclusive a ocorrência de clarezas intuitivas — insights, como bem define a língua inglesa.

O que penso e exponho, portanto, decorre de uma vida de experiências herdadas, mas também de aquisições obtidas através de leituras, observações, reflexões e percepções, exatamente como faz, poderia ou deveria fazer todo indivíduo na casca deste planeta. A particularidade (e aqui não se trata de um mérito, mas de uma obrigação) talvez esteja em que procuro submeter minhas ideias ao crivo da coerência lógica e da factualidade científica, confrontando-as com conhecimentos já consagrados, até que novas provas surjam em contrário. 

A que se destina a cosmoinserção que defendo?

Em essência, seu objetivo é a conquista do conhecimento e a interiorização daquilo que verdadeiramente nos falta — a maturidade. Não apenas a maturidade de nos reconhecermos como integrantes e responsáveis (e não possuidores, exploradores e predadores) deste planeta, como defende a geoeducação; não apenas a maturidade de nos aceitarmos como indivíduos iguais e equivalentes (não obstante as diferenças tópicas que nos distinguem), como bem demonstrou o Socialismo Científico.

Essas ‘maturidades’ já estão suficientemente dadas, embora ainda sejam contestadas e/ou combatidas. O que importa agora é adquirirmos a sabedoria que decorre de compreendermos e aceitarmos o nosso pertencimento cósmico, ou seja, a nossa cosmoinserção.

O ponto crucial (e irônico) em que nos encontramos é que a compreensão e a aceitação desse pertencimento parece ser a chave, a derradeira peça que nos falta, exatamente para que conquistemos o conhecimento e a interiorização das duas outras ‘maturidades’ — a social e a planetária.

É como se estivéssemos empreendendo, às avessas, uma viagem em busca da redenção da nossa espécie. Primeiro, nos defrontamos com as necessidades materiais e, ao buscarmos sua superação, produzimos isto que hoje somos — uma civilização fracassada, assentada em privilégios e individualismo. Frente a este impasse, o que nos resta e cabe, agora, é darmos o primeiro passo rumo ao que poderíamos ter sido, se esse passo ainda nos for possível e desejável. Para isso pode servir este voo por sobre a tragédia dos nossos dias.

(*) Superestrutura é o conceito formulado por Karl Marx (1818-1883) para designar o conjunto de ideias, cultura, política e instituições (como leis, religião, arte) que “se erguem” sobre a base material/econômica de uma sociedade, sendo por ela influenciadas.
(**) O que se dará em 2.672, daqui a 647 anos, segundo dizem respeitados astrólogos.

É quase verão aqui no Sul

Não sou (ou talvez me recuse a ser) saudosista. Penso que cada época encerra suas próprias aspirações e gera seus particulares impulsos rumo ao futuro, sempre rumo ao futuro. E é sem nostalgia que tentarei aqui delinear o contexto com que a geração de minha juventude se defrontou, em comparação, se disso for capaz, com o quadro geral destes dias.

Volto a meados dos anos 1960, até o fim dos 1970.

Sim, apesar do ambiente repressivo que literalmente nos envolvia naqueles tempos, a verdade é que nunca de fato capitulamos. Sabíamos que não há mal que sempre dure, porque, como se dizia, não éramos alienados. O ambiente social dos emergentes centros urbanos, em que vivíamos, somado à qualidade do estudo que as escolas de então nos proporcionavam, ainda não havia sido privado dos ideais humanistas (o que aconteceria pouco depois).

As ditaduras vêm e passam, sabíamos, intimamente. Só precisávamos de resiliência (termo emprestado da Física, popularizado neste século XXI por influência norte-americana); só precisávamos aguardar a virada dos ventos. Aguardar ativamente, mas aguardar.

Enquanto isso, nosso espírito se voltava ao novo, todos os novos que o mundo nos trazia, especialmente deste lado do Atlântico. Se as décadas anteriores, pré ou imediatamente pós-I e II guerras mundiais, haviam produzido grandes expressões na filosofia (existencialismo, em especial), nas artes plásticas (expressionismo, cubismo, dadaísmo, surrealismo etc.), na música erudita (atonalidade, serialismo, dodecafonismo etc.) e na popular (jazz, blues etc.), a juventude de minha geração experimentava os ares de renovada e popular rebeldia.

Embalada desde os anos 1950 pela Geração Beat (Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.), seguimos adiante na construção do que se denominou contracultura, sempre em busca de outras experiências existenciais; não aquelas herdadas de nossos pais, pois já as percebíamos como falidas. 

Se eu pudesse enfiar uma faca no meu coração
Cometer suicídio no palco
Seria o suficiente para o seu desejo de adolescente?
Ajudaria a aliviar a dor?
Aliviaria a sua consciência?


Se eu pudesse penetrar fundo no coração
Haveria sensacionalismo nos jornais
Isto iria te satisfazer? Passaria desapercebido?
Você acharia o garoto louco? Ele não é louco?

Eu disse que sei que é só rock'n'roll, mas eu gosto
Eu sei que é só rock'n roll, mas eu gosto.


Os Stones desempenhavam nos palcos, nós queríamos mudar o mundo, e o mundo ansiava por mudança. Aqui, em nosso Brasil, sabíamos que um novo tempo chegaria. E chegou com a Tropicália, encetada pelos bahianos, continuada pelos mineiros, pernambucanos, cearenses, piauienses, gaúchos, paulistas e tantos mais. Nenhuma ditadura resistiria a tanta intensidade, como não resistiu, como sabíamos, intimamente, que não resistiria.

O mundo ainda se definia por compartimentos, zonas de influência, certo e errado — a rebeldia de nossa geração não fora capaz (nem a isso se propusera) de mudar a geografia política, a geopolítica. Então veio o esgotamento, o cansaço que sucede toda rebeldia e se transforma em perversão. O que era amor livre virou promiscuidade; o que era usar alucinógenos em busca de experiências enriquecedoras virou instrumento de yuppies, os tais jovens profissionais urbanos; o que era valorizar a comunidade humana virou, gradativamente, explorar com método e crueldade os habitantes da Terra.

Estávamos, então, em pleno século XXI. A (inevitável) rede mundial de computadores, gestada na barriga dos senhores da guerra, deitava seus primeiros tentáculos em direção ao ambiente civil-comercial (e, depois, ao político-ideológico). E nosso mundo já não poderia deixar de ser outro.

Um outro mundo em que, aliás, não cabem rebeldias.

Rebelarmo-nos contra quem, contra o quê, se somos nós mesmos os agentes e pacientes de todos os males que nos afligem? A única rebeldia que nos resta, parece, é a de aprofundarmos esta espiral de impossibilidades em que estamos metidos, até que alguma singularidade seja alcançada. Aí, sim, como um Big Bang existencial, talvez nossa espécie inaugure e expanda uma nova chance.

Tamo junto!

Em postagem no Instagram, não sei se recente ou antiga, o notório Edward Snowden denuncia o estado de monitoramento a que todos nós, usuários da rede planetária de comunicação, estamos permanentemente submetidos pelas plataformas ou serviços que frequentamos na internet. 

Não é nada pessoal, eles só querem recolher, registrar, catalogar e empacotar nossos hábitos de navegação na rede mundial, para fins exclusivamente comerciais e usos político-ideológicos, com isso ganhando muito dinheiro em cima das fraquezas de 8,2 bilhões de otários. Talvez um pouco menos, descontando os que ainda não possuem computador e/ou celular, e eles próprios, os caras que nos monitoram.

Ocorre que, nesta altura do jogo da História, sejamos realistas: ninguém pode mais alegar ignorância sobre nada do que acontece no ambiente digital; todos os riscos e perigos estão ditos, expostos e repetidos à exaustão nas próprias redes sociais globalizadas. E mais: elas, as redes, não se importam de serem ‘denunciadas’, enquanto nós, seus usuários, não nos importamos de termos nossos acessos mapeados. 

Não damos ouvidos aos alertas, e não nos precavemos porque a exposição de nossos gostos, preferências, necessidades e medos são o preço a pagar pelas conveniências e necessidade de estarmos dia e noite conectados, sentindo-nos pertencentes a este bravo novo mundo. E mais: sabemos que não há saída — talvez nunca tenha havido. O polonês Zygmunt Bauman (1925-2017) nos alertou disso há muitos anos: quanto mais liberdade queremos, menos segurança teremos, e vice-versa

Fato é que a tal ‘era da inocência’, quando as massas eram manipuladas e submetidas, ficou para trás; não temos mais a quem, ou a quê culpar. Hoje, com graus diferentes de consciência, que vão da indiferença ao cinismo, somos agentes e pacientes de nossas próprias misérias — esta é a ironia deste nosso tempo.

E se é assim, por que personagens como Snowden ainda vêm a público, via redes sociais, para nos alertar de que estamos sendo permanentemente vigiados; de que tudo o que fazemos dentro da rede mundial é identificado, copiado, transferido para bancos de dados que armazenam toda a nossa vida e a combinam com a vida de milhões de outras pessoas, produzindo pacotes de grupos de interesse destinados à venda de produtos, ideias e ideologias? 

Alguns dirão: “Alguém precisa denunciar!”

Eu também penso assim; melhor que denunciem. Só não podemos nos enganar esperando qualquer reação institucional a essa nova realidade, a esses novíssimos instrumentos de controle dos indivíduos, dos grupos sociais, das sociedades nacionais, dos países, da humanidade.

Nenhuma organização transnacional, nenhum governo de qualquer país, nenhuma pessoa, acredito, está verdadeiramente interessada — e muito menos empenhada — em pôr fim à nova dinâmica da comunicação globalizada, objetivamente traduzida nas redes sociais turbinadas pela Inteligência Artificial.

Ninguém abre mão das facilidades proporcionadas pela informática; todos querem mais automação de tarefas repetitivas, menos trabalho monótono, mais acesso com apenas um toque a produtos e serviços, menos obrigação de pensar, mais informações geradas por bancos de dados que facilitem suas vidas, mais, menos, mais, menos, mais, menos, e mais rápido.

Nas escolas brasileiras, por exemplo, os estudantes vêm adotando a prática de recorrer às plataformas de IA para realizar suas tarefas diárias e, principalmente, seus trabalhos de conclusão de curso. Não entendem nada do que a Inteligência Artificial lhes fornece como respostas, mas as copiam e entregam como se fossem suas. Não enganam ninguém, porém constrangem seus professores a aceitá-las, embora ambos saibam que com isso não estão se qualificando para o mercado de trabalho, onde se tornarão párias.

O emburrecimento de sucessivas gerações não é fenômeno novo. Tem origem no modelo massificado e tecnicista de ensino (que a partir da segunda metade do século XX passou a priorizar os interesses do mercado de consumo de massas, em detrimento da formação humanista dos jovens), complementado pelo amesquinhamento social do professor (péssima formação acadêmica, péssimos salários, péssimos ambientes de trabalho etc). A diferença para o desastre que se constrói nestes nossos dias é que, hoje, o impacto se dá sobre todo o planeta.

Tamo junto!  

Um homem de coragem

Edgar Allan Poe (1809-1849), talvez o mais importante escritor norte-americano de todos os tempos — apontado como o primeiro daquele país a viver exclusivamente de literatura, apesar das necessidades materiais que enfrentou durante sua existência de apenas 40 anos, treze deles ao lado de Virginia Clemm (1822-1847), a prima de 13 anos com quem se casou em 1836 —, considerou antes de morrer que a obra-prima de sua carreira não foi nenhum de seus magníficos poemas existenciais, ou de suas inovadoras obras de suspense, terror psicológico, ficção científica ou policial, gênero este que, afinal, é tido como o inventor.

Não, a obra máxima de Poe, segundo ele próprio, foi “Eureka – Um poema em prosa”, definido como “um ensaio sobre o universo material e espiritual”. Escrito em 1848, um ano antes de sua morte (ele foi encontrado nas ruas de Baltimore, com roupas que não eram as suas, em estado de delirium tremens, e levado para o Washington College Hospital, onde veio a falecer quatro dias depois), contém uma teoria cosmológica em que, por exemplo, previu o Big Bang oitenta anos antes dele ser formulado. Não se trata de um trabalho científico, mas de um ensaio intuitivo e, “ainda assim, verdadeiro”, afirmou Poe. 

Destaco, abaixo, alguns trechos de suas reflexões:

“Sendo atração e repulsão inegavelmente as únicas propriedades pelas quais a matéria é manifestada para a mente, estamos justificados de assumir que a matéria existe somente como atração e repulsão. Em outras palavras, que atração e repulsão são matéria, não havendo caso concebível no qual não possamos empregar o termo ‘matéria’ e os termos ‘atração’ e ‘repulsão’, tomados em conjunto, como equivalentes e diante disso conversíveis, expressões da lógica.

“Ora, a própria definição de atração implica particularidade — a existência de partes, partículas, ou átomos; pois nós a definimos como a tendência de ‘cada átomo, etc., para todo outro átomo, etc.,’ de acordo com uma certa lei. É claro que onde não há partes, onde há absoluta unidade, onde a tendência à unicidade é satisfeita, não pode haver nenhuma atração. Isso foi plenamente mostrado, e toda filosofia o admite. 

“Quando, na realização de seus propósitos, então, a matéria tiver retornado para sua condição original de una (uma condição que pressupõe a expulsão do éter separador cuja província e cuja capacidade são limitadas a manter os átomos apartados até aquele grande dia quando, não sendo esse éter por mais tempo necessário, a pressão assoberbante da atração, finalmente coletiva deverá, eventualmente, predominar justo o suficiente e expeli-lo), quando, digo eu, a matéria, finalmente expelindo o éter, deverá ter retornado para a absoluta unidade, será então (falando paradoxalmente no momento) matéria sem atração e sem repulsão: em outras palavras, matéria sem matéria; em outras palavras, novamente, não mais matéria.

“Ao afundar na unidade, afundará de imediato naquele nada que, para toda percepção finita, a unidade tem de ser, naquela niilidade da qual unicamente podemos concebê-la tendo sido evocada, tendo sido criada, pela volição de Deus. Eu repito, então, esforcemo-nos para compreender que o globo dos globos final instantaneamente desaparecerá, e que Deus permanecerá total na totalidade.

“Mas estaremos aqui pausando? Não assim. Sobre a aglomeração e a dissolução universais, podemos prontamente conceber que uma nova e talvez totalmente diferente série de condições poderá suceder-se; outra criação e irradiação, retornando para dentro de si própria; outra ação e reação da divina vontade. 

“Guiando nossas imaginações por aquela oniprevalecente lei das leis, a lei da periodicidade, não estamos, de fato, mais do que justificados de apascentar uma crença — digamos, mais ainda, de indultar uma esperança — de que os processos que aqui nos aventuramos a contemplar serão renovados infinitamente, e infinitamente, e infinitamente; um inovador universo inchando para a existência, e logo entrando em subsidência no nada, em todo pulso do coração divino?

“E agora — este coração divino — o que ele é? É o nosso próprio.

“Não permita que a meramente ilusória irreverência desta ideia intimide nossas almas daquele frio exercício de consciência, daquela profunda tranquilidade de autoinspeção através da qual unicamente podemos ter esperança de atingir a presença desta, a mais sublime das verdades, e olhá-la serenamente na face. Os fenômenos sobre os quais nossas conclusões têm de, neste ponto, depender, são meramente sombras espirituais, mas, nada obstante, meticulosamente substanciais.

“Nós vagueamos, em meio aos destinos de nossa existência-no-mundo, abarcada por turvas mas sempre-presentes memórias de um destino mais vasto — muito distante no tempo decorrido, e infinitamente péssimo. 

“Nós vivenciamos uma juventude peculiarmente assombrada por tais sombras, ainda nunca as confundindo com sonhos. Como memórias nós as conhecemos. Durante nossa juventude a distinção é demasiado clara para nos enganar mesmo por um momento. 

“Enquanto essa juventude perdura, o sentimento de que existimos é o mais natural de todos os sentimentos. Nós o entendemos meticulosamente. Que houve um período no qual não existíamos — ou que poderia assim ter acontecido que nunca tivéssemos existido de forma nenhuma — são as considerações, de fato, que durante essa juventude encontramos dificuldade de entender. Por que podíamos não existir é, até a época da maturidade, de todas as indagações, a mais irrespondível.


“Existência — autoexistência — existência desde todo o tempo e para toda a eternidade — parece, até a época da maturidade, uma condição normal e inquestionável. Parece, porque é.

Bom, paremos por aqui 
 e-Book está disponível na Amazon, em tradução de Paulo Otávio Barreiros Gravina. Não é uma leitura fácil (precisa ser lido e relido, muitas vezes, até que tenhamos incorporado o ritmo da escrita), nem uma fonte de conhecimentos científicos (diz-se, até, que nesse sentido contém muitos erros, à luz do que já se sabia à época e do que veio a se saber depois), mas, sem dúvida, são pensamentos poderosos de um homem de coragem — Edgar Allan Poe.

Para terminar, uma derradeira reflexão:

“Nenhuma alma única é inferior a outra, que nada é, ou pode ser, superior a qualquer alma única, que cada alma é, em parte, seu próprio Deus — sua própria criadora. Em poucas palavras, que Deus — o Deus material e espiritual — agora existe unicamente na matéria e no espírito difundidos do universo, e a nova reunião dessa matéria e desse espírito difundidos não será senão a reconstituição do Deus puramente espiritual e individual. (…) Tenha em mente que tudo é vida — vida — vida dentro da vida — o menor dentro do maior, e tudo dentro do espírito divino. (…) Para que Deus possa ser total na totalidade, cada um tem de tornar-se Deus.”