A angústia que nos aflige, já admito, pode ser paradoxalmente um estímulo. O fato é que vivemos num mundo tão pleno de possibilidades quanto aquele de festa, descrito por Ernest Hemingway ao falar da Paris dos loucos anos 1920, quando, no sentido inverso ao que hoje ocorre, nutria-se uma enganosa certeza de prosperidade, ignorando-se os sinais vindos de uma Alemanha ressentida e desesperada pós derrota e humilhações na I Guerra Mundial.
Há, sim, importantes semelhanças conceituais quando olhamos para esses dois momentos separados por 100 anos deste período frenético da História. Semelhanças opostas, sem dúvida, pois a angústia que nos domina toca não a música de uma ilusão alegre e distraída dos horrores do nazifascismo que se avizinhava, mas a música esquizofrênica de um neonazifascismo que já está aí, à vista de todos, perturbadoramente poderoso, sincero e debochado.
O bom, se assim podemos dizer, é que finalmente, graças à ascensão desse extremismo, as hipocrisias vêm sendo superadas, substituídas em ritmo desconcertante pela exposição nua e crua da milenar impostura nas relações humanas — em todos os planos em que elas se dão. Os códigos de conduta, os costumes, as leis reguladoras, os tratados que ordenam as relações de Estado vêm sendo, todos, ignorados, jogados no lixo, como só o fascismo ousa fazer.
No texto anterior — “Cem anos de confusão” —, falei desse novíssimo processo disruptivo em que os alicerces do nosso fracassado modelo de civilização se dissolve no ar, a serviço de um mundo controlado por meia dúzia de info-oligarcas praticantes de um neomarionetismo, manipuladores de linhas de códigos algorítmicos destinados a emascular a sociedade planetária, dela extraindo apenas a imprescindível força física para tarefas braçais.
Imaginei que esse processo se estenderia por mais uma ou duas décadas, antes de se completar, mas parece que errei no prognóstico. Tudo indica (pois agora a velocidade se mede em dias, talvez horas) que a info-oligarquia e seus agentes estão apostando alto, jogando todas as suas fichas, pagando para antecipar o fim desta civilização sedimentada em falsas amabilidades — ainda que pelos motivos errados e objetivos mais torpes, como o estabelecimento de uma sociedade planetária servil — ainda que isto custe maiores tragédias sociais e mais sofrimento individual.
Esse grupo de indivíduos está cacifado?
Não sei. Talvez sim. Ou apenas pense que está. Ou, quem sabe?, venha apenas tensionando os nervos de seus oponentes, caminhando sobre o fio da navalha que pode nos levar a uma III Guerra, nuclear, derradeira. Mas há uma espantosíssima possibilidade: o jogo estaria combinado, e o objetivo dos principais players seria fomentar inesperados impasses geopolíticos, os quais, de tão inéditos e assustadores, só poderiam mesmo se resolver com medidas extremadas. Por exemplo: estabelecer um novíssimo modelo de colonialismo, dividindo o planeta entre os dois verdadeiros blocos de poder — o americano e o sino-russo. Não acredito nessa hipótese, mas, como diz um amigo, o impossível hoje também deve ser considerado.
O fato é que estamos, paradoxalmente, vivendo um tempo a se ‘comemorar’. A era (ou seria a festa?) da falsidade, do fingimento, da brincadeira de faz de conta destinada a distrair adultos infantilizados, desinformados, iludidos, crentes e passivos, essa era está chegando ao fim — mais rápido do que se imagina. Mesmo que o desfecho seja aquele jogo combinado e inacreditável, os meios não levarão ao fim desejado — e numa velocidade tão rápida quanto esta em que a sociedade sedimentada na hipocrisia vem sendo desmascarada e destruída. E se a catástrofe nuclear vier, o que se haverá de fazer?! Teremos nos angustiado em vão.
A escrita é a grande invenção. Foi a escrita, na verdade, aquilo que transformou um certo ser irracional em humano, esta espécie que domina o planeta para o bem e para o mal. Com a escrita, apenas, este blog se propõe a analisar e opinar sobre alguns dos principais temas da atualidade, no Brasil e no mundo, como qualquer cidadão faz ou deveria fazer. Meu nome é Oswaldo de Mello. Sou jornalista.
Há angústia no mundo
“Cem anos de confusão”
Em 2007, um documentário de grande impacto sobre corações e mentes nos apresentou uma devastadora visão retroantropológica, digamos assim, projetada a partir da repentina subtração da nossa espécie da casca deste planeta — The World without Humans/O mundo sem os humanos.
Hoje sabemos que nossa existência na Terra um dia terá fim, só desconhecemos quando ou como isso se dará. E nem precisamos que um meteoro gigante volte a nos alcançar, uma guerra atômica ocorra, ou um vírus mortal desperte, desses que estão depositados nas profundezas das geleiras em acelerado derretimento pelo aquecimento global.
Nada disso. Um novo e até recentemente insuspeitado caminho de destruição, este humano, demasiadamente humano, salta à frente nessa corrida rumo ao nosso inevitável fim: o autossuicídio decorrente deste processo de retorno à barbárie, projeto em que estamos firmemente engajados.
Um amigo me disse, outro dia (em outras palavras, claro!): “Parece que teremos de chegar a um momento de consciente confronto, em que uma ou duas potências nucleares coloquem todas as suas fichas do Juízo Final na mesa, apostando em que no derradeiro instante o outro lado recuará. Não porque se viu derrotado, mas porque finalmente entendeu a imensa e definitiva grandeza do que está em jogo”.
É, parece que só essa opção nos dará uma chance de interromper a corrida anticivilizacional em que estamos firmemente engajados — uma aposta no tudo ou nada. O aspecto retrógrado, de retorno à barbárie a que me refiro, é este em que vemos todas as normas, leis e códigos de convivência internacionais sendo simplesmente revogados (quando deveriam ser aperfeiçoados), em prol dos interesses de alguns indivíduos, em quantidade que podemos contar nos dedos das mãos — sim, nem mesmo dos interesses de nações, mas de privilegiados indivíduos!
Há uma série lançada no final de 2025 — Pluribus, da Apple TV, cuja segunda temporada já se encontra em produção —, em que, de repente, quase todos os 8,3 bilhões de habitantes da Terra são transformados num único ‘indivíduo coletivo’ que se intercomunica e interage com seus iguais por meio de um banco de dados planetário instantâneo, que tudo sabe sobre tudo e sobre todos, transformando cada ‘indivíduo coletivo’, simultaneamente, num sábio e num idiota, pois subtrai desses seres a sua cognição, o seu poder de pensar diferente do que já foi pensado, transferindo essa tarefa à Inteligência Artificial (e às corporações que administram seus algoritmos).
Isso é apenas ficção científica delirante? Penso que não. E, se não, vejamos: que tipo de sociedade está sendo construída hoje? Não ontem, hoje, neste exato 2026? Tudo aponta para um projeto destinado a, num primeiro momento, neutralizar, e depois eliminar qualquer vestígio ou possibilidade de contestação social, seja proveniente dos segmentos intelectualizados, seja da juventude por natureza rebelde, seja da massa de miseráveis. Para cada um desses segmentos há um subprojeto em andamento, todos convergindo para o mesmo fim — emascular a vontade das pessoas.
Como isso se dará?
Já está se dando, já está em andamento. Há duas décadas, pelo menos, as informações sobre os desejos, as fraquezas, os medos, as manias, os gostos, os vícios, os dados sobre a saúde física e mental de todo e cada indivíduo do planeta vêm sendo coletados, categorizados, segmentados, etarizados, hierarquizados, etnicizados, de modo a que se venha a construir esse ‘indivíduo coletivizado’ que a série Pluribus nos apresenta.
Não estou aqui a denunciar nada (talvez nem a série se proponha a isso), apenas constato que essa sociedade sedimentada em relações sociais amorfas — suave barbárie — já está em plena construção. Seus proponentes, patrocinadores e executores sabem que para efetivá-la é preciso pôr abaixo, desmontar e enterrar a estrutura de relacionamentos humanos ora vigente. Tanto aqueles que regulam a convivência entre as pessoas, quanto os que intermedeiam a vida em sociedade, e os que sustentam os pactos entre as nações. Tudo deve vir abaixo. Paulatinamente, mas em ritmo sempre mais acelerado.
O método é implantar a desordem.
Aquele mesmo amigo que apontou a “necessidade de confronto”, chegou a pensar num livro, a ser escrito por um Gabriel Garcia Márquez redivido, com o título “Cem Anos de Confusão”. Um século de confusão, sim, é no que estamos metidos neste XXI d.C. O que me conforta, como sempre, é que ninguém cavalga o caos. Se o plano cósmico é regulado pelo acaso, o projeto humano tem a marca do fracasso.
Últimas perguntas
Somos átomos tocados por energia, e por isso em movimento. Sendo átomos, nada nos distingue de qualquer mineral, gás ou partícula de energia; de uma pedra, de uma gota d’água, do sopro de ar que movimenta a cortina, da luz que invade o quarto.
Ocorre que os minerais e seus agrupamentos constituintes da pedra, os elementos químicos que, unidos, resultam em água, os gases que se combinam em ar e os fótons que compõem a luz são todos perenes. São entes cósmicos; estão aqui desde sempre, para não dizer (religiosamente) desde o começo.
Se somos átomos e se os átomos são perenes, isto significa que somos imortais? Não! A vida orgânica (isto é, o que nos organiza como um instrumento destinado a cumprir um papel) é essencialmente dissolúvel; está em permanente expectativa de retorno aos elementos primários que a constituem. O próprio Gênesis se encarrega de afastar qualquer ilusão a respeito dos seres geneticamente formados — está lá: Do pó viestes, ao pó voltarás.
Ocorre que nós, este agrupamento de átomos biologicamente organizados, provisoriamente existentes graças (ah, as armadilhas da linguagem...) à energia que nos toca, criamos — sim, criamos! — a ideia da morte como evento funesto, porque nos rebelamos — sim, nos rebelamos! — contra a perenidade atômica e incontornável que nos define.
Criamos e nos rebelamos por que possuímos poderes para tal? Não, ao contrário, porque somos imperfeitos instrumentos do acaso cósmico, fadados a realizar a ação a que estamos destinados (buscar a organização molecular perfeita, tanto quanto são perfeitos a pedra, a água, o ar e a luz), ainda que estejamos aquém dessa tarefa; pelejar contra a imperfeição é o que nos justifica.
O diabo (ah, as armadilhas...) é que nossa condição de instrumentos extremamente complexos (pois reunimos num mesmo indivíduo uma variada e delicada conjugação de átomos) nos proporciona a chance (alguns diriam o dom, a benevolência) de desafiar nossa própria sina, e nos inconformarmos de ser tão somente átomos, pó eterno. Para isso inventamos a ideia de uma perenidade só nossa, humana (e a partir dela erigimos religiões), dando-lhe o nome de consciência, alma (simplesmente outros nomes para energia).
Isto não nos fez melhor, mais seguros, mais fortes, menos dependentes, mais destemidos frente aos trovões e diante dos raios que os céus despejavam e despejam sobre as nossas cabeças, mas nos permitiu construir uma (imperfeita) esperança.
A (esperança) de — ainda que sejamos matéria energizada e, portanto, átomos em provisório movimento, substancialmente perenes — podermos nos apropriar da energia que nos anima e, através de sua (imperfeita) compreensão, conquistar essa improvável eternidade terrena, essa perenidade vulgar, consubstanciada na aquisição e disseminação de conhecimentos.
Desta forma, como organismo, órgão, instrumento capaz de imperfeitamente compreender a alma (ou a energia que nos anima), justificamos nossa interminável busca por explicações. Somos átomos energizados que, enquanto se mostram ativos, perguntam. E quando não perguntam, perdem sua energia e voltam ao que são/somos — pó. Perguntar é o que nos move.
Convivo, eventualmente, com duas pessoas extremamente idosas. Todos os dias elas se aproximam dos mais moços da casa, e lhes perguntam o dia do mês e da semana; anotam numa folha de papel e agradecem pela informação. São pessoas centenárias, que pouco enxergam, quase não ouvem, e que demonstram limitadíssimo interesse pelos assuntos mundanos.
Seus universos se reduzem a expressar difusas memórias (ainda assim, apenas quando provocadas), ao calor, ao frio, ao horário das refeições, aos remédios receitados pelo médico em quem confiam, às preces acompanhadas pela tv, aos esporádicos contatos com filhos, netos, bisnetos e, é claro, a saber o dia do mês e da semana. Trata-se de um genuíno, vivo interesse, sua última pergunta. Penso que — como cada um de nós — só abandonarão sua específica curiosidade quando voltarem a ser átomos.
O impasse visto de cima
À moda dos programas de tv que mostram o mundo visto do alto, nos proporcionando um olhar às vezes surpreendente da vida aqui embaixo, convido-os para uma visão de cima daquilo que hoje me parece incontornável sobre a nossa existência — o impasse a que chegamos com este modelo de civilização que construímos. O cenário desse sobrevoo são as relações pessoais e internacionais inauguradas após a II Guerra Mundial (1945) e seus agudos efeitos sobre a psique humana.
Parece evidente que todo ato individual produz repercussões sobre a coletividade, tanto quanto toda ação coletiva impacta sobre cada um dos indivíduos. Trata-se de uma via de mão dupla, um bumerangue existencial que, a partir de uma superestrutura(*) essencialmente distópica, adiciona desordem àquilo que já é disfuncional, a mente dos indivíduos e o conjunto da sociedade, dali transportando, de volta à superestrutura, renovados impulsos desordenadores — é o caos permanentemente retroalimentado.
Sempre foi assim, a bem da verdade — o contexto molda o homem, que molda o contexto. O que há de diferente nos últimos oitenta anos é o ganho exponencial na dinâmica desse processo. E o momento emblemático dessa aceleração foi a divisão do planeta em dois blocos tensionados pelo uso da energia nuclear para fins bélicos. Essa corrida por hegemonia patrocinou um inédito salto científico, mas igualmente gestou um novo paradigma psicossocial.
O salto se traduziu na expansão das fronteiras da linguagem matemática, bem como da física e da química, entre outras ciências, acompanhado (particularmente no bloco ocidental) do desenvolvimento de variadas tecnologias de aplicação civil, tendo como maiores consequências um inédito mercado de consumo de massas; um sentimento generalizado de prosperidade; e um ceticismo frente aos impactos ambientais que se seguiriam.
A euforia da parcela majoritária do bloco ocidental, o capitalista, confrontada com os obstáculos estruturais enfrentadas pelo bloco oriental, o socialista, ambos vencedores da II Guerra mas oponentes nesse novo momento geopolítico, esse confronto de realidades e expectativas impediu que as lideranças dos respectivos blocos enxergassem, além da ameaça ao meio ambiente, também estes desastres psicossociais a caminho: a hiperexposição da imaturidade dos indivíduos, o colapso das relações pessoais e a deterioração da vida em sociedade.
Do ponto de vista da psicologia social, o fruto podre dessa dinâmica geopolíticaeconômica foi a exacerbação do individualismo e a retomada, escancarada e intensa, das ideias extremistas predominantes nas primeiras décadas do século passado, que levaram o mundo aos horrores dos totalitarismos de direita (nazifascismo) e de esquerda (stalinismo). Elas haviam sido vencidas nos campos de batalha, mas nunca foram verdadeiramente extirpadas dos corações e mentes dos indivíduos imaturos, que sempre foram a maioria.
O advento da internet e das redes sociais foi o grande impulsionador das intolerâncias (produtos da imaturidade), nas primeiras décadas deste século XXI. Graças à instantaneidade na circulação de informações, e a seu alcance global, cultivamos uma ilusão de proximidade e empatia, quando, na verdade, nossas relações virtualizadas sempre foram em essência superficiais, inteiramente submetidas à imaturidade nunca superada da espécie e, portanto, volúveis, inconfiáveis, constituindo terreno fértil para a frustração e o fortalecimento do individualismo e do extremismo.
Faça-se estas perguntas: Quais de seus verdadeiros amigos, aqueles em que você de fato confia e dos quais recebe de volta empatia e solidariedade, têm origem no mundo virtual? Você tem certeza de que seus amigos virtuais de fato existem, ou são aquilo que dizem ser?
Voltemos ao sobrevoo. A agudização dos nossos problemas existenciais, até o ponto em que nos encontramos hoje, resulta do já referido sistema contraditório indefinidamente retroalimentado — a superestrutura impactando o indivíduo, que responde impactando a superestrutura —, do qual não temos tido forças para escapar. Nossa sina tem sido continuar dançando na borda desse precipício.
Ocorre que nos encontramos a caminho do cerne do Terceiro Milênio (**), e novos ganhos cognitivos se fazem necessários. Não podemos nos limitar, por exemplo, a praticar apenas a novíssima ideia de geoeducação — ou seja, apostar na conscientização dos indivíduos sobre a biodiversidade do planeta, com vistas a desenvolver a percepção do espaço geográfico e fortalecer a relação das pessoas com o meio ambiente — isto já não nos basta. É preciso buscar o amadurecimento espiritual da nossa espécie, traduzido no conceito e na prática de uma verdadeira cosmoinserção.
Não existe uma definição precisa, que eu conheça, sobre o que é e quais os modos de pôr em prática esse conceito. Este texto, naquilo que está a meu alcance, destina-se a propor um entendimento preliminar sobre essa ideia, à luz do que tenho exposto em meus livros — veja aqui —, e do que tenho publicado neste espaço virtual.
Para começar, tais reflexões não são exclusivamente minhas, insisto. Cada ser humano, do mais simplório ao mais sábio, é resultado de sua herança genética, da cultura em que está inserido, das circunstâncias pessoais, familiares, sociais e históricas que lhe coube viver, ou seja, da superestrutura de seu tempo, fatores que lhe proporcionam inclusive a ocorrência de clarezas intuitivas — insights, como bem define a língua inglesa.
O que penso e exponho, portanto, decorre de uma vida de experiências herdadas, mas também de aquisições obtidas através de leituras, observações, reflexões e percepções, exatamente como faz, poderia ou deveria fazer todo indivíduo na casca deste planeta. A particularidade (e aqui não se trata de um mérito, mas de uma obrigação) talvez esteja em que procuro submeter minhas ideias ao crivo da coerência lógica e da factualidade científica, confrontando-as com conhecimentos já consagrados, até que novas provas surjam em contrário.
A que se destina a cosmoinserção que defendo?
Em essência, seu objetivo é a conquista do conhecimento e a interiorização daquilo que verdadeiramente nos falta — a maturidade. Não apenas a maturidade de nos reconhecermos como integrantes e responsáveis (e não possuidores, exploradores e predadores) deste planeta, como defende a geoeducação; não apenas a maturidade de nos aceitarmos como indivíduos iguais e equivalentes (não obstante as diferenças tópicas que nos distinguem), como bem demonstrou o Socialismo Científico.
Essas ‘maturidades’ já estão suficientemente dadas, embora ainda sejam contestadas e/ou combatidas. O que importa agora é adquirirmos a sabedoria que decorre de compreendermos e aceitarmos o nosso pertencimento cósmico, ou seja, a nossa cosmoinserção.
O ponto crucial (e irônico) em que nos encontramos é que a compreensão e a aceitação desse pertencimento parece ser a chave, a derradeira peça que nos falta, exatamente para que conquistemos o conhecimento e a interiorização das duas outras ‘maturidades’ — a social e a planetária.
É como se estivéssemos empreendendo, às avessas, uma viagem em busca da redenção da nossa espécie. Primeiro, nos defrontamos com as necessidades materiais e, ao buscarmos sua superação, produzimos isto que hoje somos — uma civilização fracassada, assentada em privilégios e individualismo. Frente a este impasse, o que nos resta e cabe, agora, é darmos o primeiro passo rumo ao que poderíamos ter sido, se esse passo ainda nos for possível e desejável. Para isso pode servir este voo por sobre a tragédia dos nossos dias.
(*) Superestrutura é o conceito formulado por Karl Marx (1818-1883) para designar o conjunto de ideias, cultura, política e instituições (como leis, religião, arte) que “se erguem” sobre a base material/econômica de uma sociedade, sendo por ela influenciadas.
(**) O que se dará em 2.672, daqui a 647 anos, segundo dizem respeitados astrólogos.
É quase verão aqui no Sul
Não sou (ou talvez me recuse a ser) saudosista. Penso que cada época encerra suas próprias aspirações e gera seus particulares impulsos rumo ao futuro, sempre rumo ao futuro. E é sem nostalgia que tentarei aqui delinear o contexto com que a geração de minha juventude se defrontou, em comparação, se disso for capaz, com o quadro geral destes dias.
Volto a meados dos anos 1960, até o fim dos 1970.
Sim, apesar do ambiente repressivo que literalmente nos envolvia naqueles tempos, a verdade é que nunca de fato capitulamos. Sabíamos que não há mal que sempre dure, porque, como se dizia, não éramos alienados. O ambiente social dos emergentes centros urbanos, em que vivíamos, somado à qualidade do estudo que as escolas de então nos proporcionavam, ainda não havia sido privado dos ideais humanistas (o que aconteceria pouco depois).
As ditaduras vêm e passam, sabíamos, intimamente. Só precisávamos de resiliência (adjetivo emprestado da Física, popularizado neste século XXI por influência norte-americana); só precisávamos aguardar a virada dos ventos. Aguardar ativamente, mas aguardar.
Enquanto isso, nosso espírito se voltava ao novo, todos os novos que o mundo nos trazia, especialmente deste lado do Atlântico. Se as décadas anteriores, pré ou imediatamente pós-I e II guerras mundiais, haviam produzido grandes expressões na filosofia (existencialismo, em especial), nas artes plásticas (expressionismo, cubismo, dadaísmo, surrealismo etc.), na música erudita (atonalidade, serialismo, dodecafonismo etc.) e na popular (jazz, blues etc.), a juventude de minha geração experimentava os ares de renovada e popular rebeldia.
Embalada desde os anos 1950 pela Geração Beat (Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.), seguimos adiante na construção do que se denominou contracultura, sempre em busca de outras experiências existenciais; não aquelas herdadas de nossos pais, pois já as percebíamos como falidas.
Se eu pudesse enfiar uma faca no meu coração
Cometer suicídio no palco
Seria o suficiente para o seu desejo de adolescente?
Ajudaria a aliviar a dor?
Aliviaria a sua consciência?
Se eu pudesse penetrar fundo no coração
Haveria sensacionalismo nos jornais
Isto iria te satisfazer? Passaria desapercebido?
Você acharia o garoto louco? Ele não é louco?
Eu disse que sei que é só rock'n'roll, mas eu gosto
Eu sei que é só rock'n roll, mas eu gosto.
Os Stones desempenhavam nos palcos, nós queríamos mudar o mundo, e o mundo ansiava por mudança. Aqui, em nosso Brasil, sabíamos que um novo tempo chegaria. E chegou com a Tropicália, encetada pelos bahianos, continuada pelos mineiros, pernambucanos, cearenses, piauienses, gaúchos, paulistas e tantos mais. Nenhuma ditadura resistiria a tanta intensidade, como não resistiu, como sabíamos, intimamente, que não resistiria.
O mundo ainda se definia por compartimentos, zonas de influência, certo e errado — a rebeldia de nossa geração não fora capaz (nem a isso se propusera) de mudar a geografia política, a geopolítica. Então veio o esgotamento, o cansaço que sucede toda rebeldia e se transforma em perversão. O que era amor livre virou promiscuidade; o que era usar alucinógenos em busca de experiências enriquecedoras virou instrumento de yuppies, os tais jovens profissionais urbanos; o que era valorizar a comunidade humana virou, gradativamente, explorar com método e crueldade os habitantes da Terra.
Estávamos, então, em pleno século XXI. A (inevitável) rede mundial de computadores, gestada na barriga dos senhores da guerra, deitava seus primeiros tentáculos em direção ao ambiente civil-comercial (e, depois, ao político-ideológico). E nosso mundo já não poderia deixar de ser outro.
Um outro mundo em que, aliás, não cabem rebeldias.
Rebelarmo-nos contra quem, contra o quê, se somos nós mesmos os agentes e pacientes de todos os males que nos afligem? A única rebeldia que nos resta, parece, é a de aprofundarmos esta espiral de impossibilidades em que estamos metidos, até que alguma singularidade seja alcançada. Aí, sim, como um Big Bang existencial, talvez nossa espécie inaugure e expanda uma nova chance.
Tamo junto!
Em postagem no Instagram, não sei se recente ou antiga, o notório Edward Snowden denuncia o estado de monitoramento a que todos nós, usuários da rede planetária de comunicação, estamos permanentemente submetidos pelas plataformas ou serviços que frequentamos na internet.
Não é nada pessoal, eles só querem recolher, registrar, catalogar e empacotar nossos hábitos de navegação na rede mundial, para fins exclusivamente comerciais e usos político-ideológicos, com isso ganhando muito dinheiro em cima das fraquezas de 8,2 bilhões de otários. Talvez um pouco menos, descontando os que ainda não possuem computador e/ou celular, e eles próprios, os caras que nos monitoram.
Ocorre que, nesta altura do jogo da História, sejamos realistas: ninguém pode mais alegar ignorância sobre nada do que acontece no ambiente digital; todos os riscos e perigos estão ditos, expostos e repetidos à exaustão nas próprias redes sociais globalizadas. E mais: elas, as redes, não se importam de serem ‘denunciadas’, enquanto nós, seus usuários, não nos importamos de termos nossos acessos mapeados.
Não damos ouvidos aos alertas, e não nos precavemos porque a exposição de nossos gostos, preferências, necessidades e medos são o preço a pagar pelas conveniências e necessidade de estarmos dia e noite conectados, sentindo-nos pertencentes a este bravo novo mundo. E mais: sabemos que não há saída — talvez nunca tenha havido. O polonês Zygmunt Bauman (1925-2017) nos alertou disso há muitos anos: quanto mais liberdade queremos, menos segurança teremos, e vice-versa.
Fato é que a tal ‘era da inocência’, quando as massas eram manipuladas e submetidas, ficou para trás; não temos mais a quem, ou a quê culpar. Hoje, com graus diferentes de consciência, que vão da indiferença ao cinismo, somos agentes e pacientes de nossas próprias misérias — esta é a ironia deste nosso tempo.
E se é assim, por que personagens como Snowden ainda vêm a público, via redes sociais, para nos alertar de que estamos sendo permanentemente vigiados; de que tudo o que fazemos dentro da rede mundial é identificado, copiado, transferido para bancos de dados que armazenam toda a nossa vida e a combinam com a vida de milhões de outras pessoas, produzindo pacotes de grupos de interesse destinados à venda de produtos, ideias e ideologias?
Alguns dirão: “Alguém precisa denunciar!”
Eu também penso assim; melhor que denunciem. Só não podemos nos enganar esperando qualquer reação institucional a essa nova realidade, a esses novíssimos instrumentos de controle dos indivíduos, dos grupos sociais, das sociedades nacionais, dos países, da humanidade.
Nenhuma organização transnacional, nenhum governo de qualquer país, nenhuma pessoa, acredito, está verdadeiramente interessada — e muito menos empenhada — em pôr fim à nova dinâmica da comunicação globalizada, objetivamente traduzida nas redes sociais turbinadas pela Inteligência Artificial.
Ninguém abre mão das facilidades proporcionadas pela informática; todos querem mais automação de tarefas repetitivas, menos trabalho monótono, mais acesso com apenas um toque a produtos e serviços, menos obrigação de pensar, mais informações geradas por bancos de dados que facilitem suas vidas, mais, menos, mais, menos, mais, menos, e mais rápido.
Nas escolas brasileiras, por exemplo, os estudantes vêm adotando a prática de recorrer às plataformas de IA para realizar suas tarefas diárias e, principalmente, seus trabalhos de conclusão de curso. Não entendem nada do que a Inteligência Artificial lhes fornece como respostas, mas as copiam e entregam como se fossem suas. Não enganam ninguém, porém constrangem seus professores a aceitá-las, embora ambos saibam que com isso não estão se qualificando para o mercado de trabalho, onde se tornarão párias.
O emburrecimento de sucessivas gerações não é fenômeno novo. Tem origem no modelo massificado e tecnicista de ensino (que a partir da segunda metade do século XX passou a priorizar os interesses do mercado de consumo de massas, em detrimento da formação humanista dos jovens), complementado pelo amesquinhamento social do professor (péssima formação acadêmica, péssimos salários, péssimos ambientes de trabalho etc). A diferença para o desastre que se constrói nestes nossos dias é que, hoje, o impacto se dá sobre todo o planeta.
Tamo junto!
Um homem de coragem
Edgar Allan Poe (1809-1849), talvez o mais importante escritor norte-americano de todos os tempos — apontado como o primeiro daquele país a viver exclusivamente de literatura, apesar das necessidades materiais que enfrentou durante sua existência de apenas 40 anos, treze deles ao lado de Virginia Clemm (1822-1847), a prima de 13 anos com quem se casou em 1836 —, considerou antes de morrer que a obra-prima de sua carreira não foi nenhum de seus magníficos poemas existenciais, ou de suas inovadoras obras de suspense, terror psicológico, ficção científica ou policial, gênero este que, afinal, é tido como o inventor.
Não, a obra máxima de Poe, segundo ele próprio, foi “Eureka – Um poema em prosa”, definido como “um ensaio sobre o universo material e espiritual”. Escrito em 1848, um ano antes de sua morte (ele foi encontrado nas ruas de Baltimore, com roupas que não eram as suas, em estado de delirium tremens, e levado para o Washington College Hospital, onde veio a falecer quatro dias depois), contém uma teoria cosmológica em que, por exemplo, previu o Big Bang oitenta anos antes dele ser formulado. Não se trata de um trabalho científico, mas de um ensaio intuitivo e, “ainda assim, verdadeiro”, afirmou Poe.
Destaco, abaixo, alguns trechos de suas reflexões:
“Sendo atração e repulsão inegavelmente as únicas propriedades pelas quais a matéria é manifestada para a mente, estamos justificados de assumir que a matéria existe somente como atração e repulsão. Em outras palavras, que atração e repulsão são matéria, não havendo caso concebível no qual não possamos empregar o termo ‘matéria’ e os termos ‘atração’ e ‘repulsão’, tomados em conjunto, como equivalentes e diante disso conversíveis, expressões da lógica.
“Ora, a própria definição de atração implica particularidade — a existência de partes, partículas, ou átomos; pois nós a definimos como a tendência de ‘cada átomo, etc., para todo outro átomo, etc.,’ de acordo com uma certa lei. É claro que onde não há partes, onde há absoluta unidade, onde a tendência à unicidade é satisfeita, não pode haver nenhuma atração. Isso foi plenamente mostrado, e toda filosofia o admite.
“Quando, na realização de seus propósitos, então, a matéria tiver retornado para sua condição original de una (uma condição que pressupõe a expulsão do éter separador cuja província e cuja capacidade são limitadas a manter os átomos apartados até aquele grande dia quando, não sendo esse éter por mais tempo necessário, a pressão assoberbante da atração, finalmente coletiva deverá, eventualmente, predominar justo o suficiente e expeli-lo), quando, digo eu, a matéria, finalmente expelindo o éter, deverá ter retornado para a absoluta unidade, será então (falando paradoxalmente no momento) matéria sem atração e sem repulsão: em outras palavras, matéria sem matéria; em outras palavras, novamente, não mais matéria.
“Ao afundar na unidade, afundará de imediato naquele nada que, para toda percepção finita, a unidade tem de ser, naquela niilidade da qual unicamente podemos concebê-la tendo sido evocada, tendo sido criada, pela volição de Deus. Eu repito, então, esforcemo-nos para compreender que o globo dos globos final instantaneamente desaparecerá, e que Deus permanecerá total na totalidade.
“Mas estaremos aqui pausando? Não assim. Sobre a aglomeração e a dissolução universais, podemos prontamente conceber que uma nova e talvez totalmente diferente série de condições poderá suceder-se; outra criação e irradiação, retornando para dentro de si própria; outra ação e reação da divina vontade.
“Guiando nossas imaginações por aquela oniprevalecente lei das leis, a lei da periodicidade, não estamos, de fato, mais do que justificados de apascentar uma crença — digamos, mais ainda, de indultar uma esperança — de que os processos que aqui nos aventuramos a contemplar serão renovados infinitamente, e infinitamente, e infinitamente; um inovador universo inchando para a existência, e logo entrando em subsidência no nada, em todo pulso do coração divino?
“E agora — este coração divino — o que ele é? É o nosso próprio.
“Não permita que a meramente ilusória irreverência desta ideia intimide nossas almas daquele frio exercício de consciência, daquela profunda tranquilidade de autoinspeção através da qual unicamente podemos ter esperança de atingir a presença desta, a mais sublime das verdades, e olhá-la serenamente na face. Os fenômenos sobre os quais nossas conclusões têm de, neste ponto, depender, são meramente sombras espirituais, mas, nada obstante, meticulosamente substanciais.
“Nós vagueamos, em meio aos destinos de nossa existência-no-mundo, abarcada por turvas mas sempre-presentes memórias de um destino mais vasto — muito distante no tempo decorrido, e infinitamente péssimo.
“Nós vivenciamos uma juventude peculiarmente assombrada por tais sombras, ainda nunca as confundindo com sonhos. Como memórias nós as conhecemos. Durante nossa juventude a distinção é demasiado clara para nos enganar mesmo por um momento.
“Enquanto essa juventude perdura, o sentimento de que existimos é o mais natural de todos os sentimentos. Nós o entendemos meticulosamente. Que houve um período no qual não existíamos — ou que poderia assim ter acontecido que nunca tivéssemos existido de forma nenhuma — são as considerações, de fato, que durante essa juventude encontramos dificuldade de entender. Por que podíamos não existir é, até a época da maturidade, de todas as indagações, a mais irrespondível.
“Existência — autoexistência — existência desde todo o tempo e para toda a eternidade — parece, até a época da maturidade, uma condição normal e inquestionável. Parece, porque é.
Bom, paremos por aqui — e-Book está disponível na Amazon, em tradução de Paulo Otávio Barreiros Gravina. Não é uma leitura fácil (precisa ser lido e relido, muitas vezes, até que tenhamos incorporado o ritmo da escrita), nem uma fonte de conhecimentos científicos (diz-se, até, que nesse sentido contém muitos erros, à luz do que já se sabia à época e do que veio a se saber depois), mas, sem dúvida, são pensamentos poderosos de um homem de coragem — Edgar Allan Poe.
Para terminar, uma derradeira reflexão:
“Nenhuma alma única é inferior a outra, que nada é, ou pode ser, superior a qualquer alma única, que cada alma é, em parte, seu próprio Deus — sua própria criadora. Em poucas palavras, que Deus — o Deus material e espiritual — agora existe unicamente na matéria e no espírito difundidos do universo, e a nova reunião dessa matéria e desse espírito difundidos não será senão a reconstituição do Deus puramente espiritual e individual. (…) Tenha em mente que tudo é vida — vida — vida dentro da vida — o menor dentro do maior, e tudo dentro do espírito divino. (…) Para que Deus possa ser total na totalidade, cada um tem de tornar-se Deus.”
“O pulso ainda pulsa”
Sei que para bom entendedor, meia palavra basta. Mas também sei que mesmo os bons entendedores preferem se fazer de desentendidos, a enfrentar a realidade. Refiro-me ao que afirmei no texto anterior aqui publicado — O básico, o mistério, o ridículo e o ceticismo —, em que no tópico “o ridículo” critico o caminho da ideologia progressista, ou de esquerda, para alcançarmos a emancipação do ser humano.
Defendo ali que “os embates intermináveis por poder, de um lado centrado no acúmulo de riquezas, privatização e privilégios; de outro na mobilização de vontades em prol da coletividade de indivíduos” são igualmente ineficazes. Nesta altura do jogo da História, quando tanto já experimentamos desses dois remédios (capitalismo e/ou socialismo), quem mais tem o direito intelectual de se iludir com tais alternativas ideológicas?
Quanto à primeira, centrada em individualismo, acumulação de riquezas, privilégios de classes, exploração do trabalho de terceiros, preconceitos, xenofobias, etc., não resta mais dúvida de que está e sempre esteve fadada ao fracasso, embora continue livre — porque detém o poder da força e do dinheiro — para impor sofrimentos de toda a ordem à maioria da sociedade e ao planeta inteiro.
Mas a segunda não fica atrás. Há ainda muitos indivíduos apegados à ilusão de que a via distributivista seria o caminho adequado, quando ele não é. E não é porque a generosidade dessa proposta esteja formalmente incorreta. Não é porque se trata de tão somente de uma visão, um ideal, uma expectativa, e não um verdadeiro caminho.
Todas as tentativas já realizadas (União Soviética e China, em especial) demonstraram, para quem estiver disposto a enxergar, que a prática socialista na verdade se frustrou. E não avançou porque esses países tenham enfrentado resistências geopolíticas e geoeconômicas, como de fato ocorreu. Não avançou porque o socialismo não é um meio, mas um fim.
Não se realiza uma mudança política e cultural pelo fim. O fim tem de estar lá, como uma visão, uma luz a ser alcançada, mas também como um farol a nos alertar para os perigos do caminho. E o maior perigo que ignoramos é a imaturidade do próprio ser humano, o agente e paciente do ideal socialista.
Quando me refiro a imaturidade, estou falando de todas as travas psicológicas e mentais que têm impedido nossa espécie de se libertar de seu medo primordial, aquele que o espelho diariamente nos mostra — a nossa solitária e incontornável individualidade e, consequentemente, solidão cósmica.
A convivência social foi o motor que nos possibilitou chegar até aqui, construindo este modelo de civilização que temos. Mas o meio social não é suficiente, nem adequado, para a resolução da agonia existencial de nossa espécie. Ah, inventamos religiões e a elas delegamos a tarefa de aquietar nossos desassossegos... Mas como está provado, as religiões também não possuem esse poder; a maioria nem a isso se dedica, verdadeiramente.
Estamos diante de um impasse? Sim e não.
Sim, porque intelectualmente (ou seria por medo?) resistimos em ver a realidade claramente posta diante de nossos olhos, depois de tantos milênios reiterando erros. Não, porque ainda não conseguimos extinguir a vida humana; estamos próximos disso, mas ainda não chegamos ao fim. E se "o pulso ainda pulsa" — como cantam os Titãs —, por que desistir?
O verdadeiro caminho é a conquista da maturidade, caros amigos.
A conquista da maturidade!
O básico, o mistério, o ridículo e o ceticismo
A vida humana se reduz a um aglomerado de partículas subatômicas que formam átomos, que se juntam em moléculas, que se organizam em células, que constituem tecidos, que se agrupam para criar órgãos, os quais, providos de eletricidade bioquímica através de suas células, desempenham funções específicas e essenciais para o funcionamento geral do nosso organismo.
Isto é o básico.
Tendo chegado a essa compreensão dos elementos (quase) invisíveis de que somos compostos, regidos pelos princípios da física quântica, só nos resta aceitar que integramos, em essência, a mesma grandeza capaz de produzir ação, movimento ou calor, ou seja, a mesma energia presente em nosso sistema solar, em nossa galáxia e no Cosmos. Foi a isto que se referiu o astrônomo Carl Sagan (1934-1996), quando afirmou que somos “poeira de estrelas”.
Essa energia, que não pode ser criada nem destruída, é a mesma a que somos ligados ao nascer, e da qual somos desligados ao morrer. É aquela que determina a existência da nossa espécie, e que pode ser entendida como a mais aproximada expressão (para a nossa limitada capacidade cognitiva) do que denominamos espiritualidade, a corrente misteriosa e sutil que nos vincula ao Universo.
Este é o mistério.
Quando nos referimos a tal entidade, a energia, estamos falando do Uno, do Um a que todo conhecimento mais antigo já se referia, com menções encontradas na Suméria (3500 a.C.), no Egito Antigo (3000 a.C.) e na Grécia (1400 a.C.), trazida até os nossos dias, embora de forma corrompida (no sentido de “rompimento”), primeiro pela apropriação do enigma da vida (a morte), colocando-o a serviço da manipulação da insegurança dos indivíduos; depois, pelo progressivo deslumbramento científico proporcionado pelas facilidades tecnológicas desenvolvidas ao longo do caminho até aqui. E, finalmente, por esses dois fatores (manipulação e deslumbramento) operando em conjunto, que é o que temos hoje.
O deslumbramento garantiu o crescente domínio de conhecimentos úteis à via do prosseguimento (processos desencadeados desde o advento dos primeiros humanos, destinados a prover e aprimorar nossa condição física e mental), e assim bloqueou a possibilidade de nos entendermos como aquilo que somos, entes atômicos, moleculares, e celulares eletrificados. A manipulação do medo pelo cultivo da insegurança dos indivíduos se deu por caminhos mais tortuosos, pois não foi capaz (nem poderia!) de oferecer mais do que dogmas, crenças e vãs esperanças.
Ambas se complementaram, porém, produzindo o que temos: seres humanos dependentes dessa simplificação existencial deslumbrada e temerosa, afastados de nossa origem e essência, ignorantes de nosso pertencimento cósmico. Só não conseguimos fugir da morte — a inevitável finitude de nossa constituição orgânica. Esse é o fantasma que nos assombra desde sempre.
Para dissimulá-lo, nos dedicamos a chorar os mortos, em invés de celebrar o valor de suas transitórias existências e legados. E o fim de cada vida, ao contrário de significar o inevitável desligar de um indivíduo por essência finito, transformou-se em motivo de desespero pela consciência da iminente perda de nossos individuais privilégios de existir — privilégios nutridos por benesses proporcionadas através de um sempre mais sofisticado sistema de exploração de outros indivíduos, blá, blá, blá; blá, blá, blá.
Aqui mora o ridículo.
Neste terreno grassam as ideologias, os embates intermináveis por poder, de um lado centrado no acúmulo de riquezas, privatização e privilégios; de outro, na mobilização de vontades em prol da coletividade de indivíduos. Ambos tragicamente ineficazes e/ou risíveis, porque incapazes de nos levar ao bom desfecho. Incapazes porque deixam de considerar o básico (materialidade efêmera) e o mistério (espiritualidade imanente) do ser humano.
Se as ideologias não conseguem apreender a coexistência dessas duas vertentes, como assimilarão o fato de que nossa espécie é um caminhante solitário e angustiado de uma senda sutil e imprevisível? Se cada indivíduo é uma insegurança em si, e se nos interditam o direito de desenvolver nossa maturidade — que se define na consciência de nossa existência cósmica, a tal convergência matéria-espírito —, como é possível vislumbrar (ou prometer) alguma esperança?
Aqui resta o ceticismo.
Para muitos, essas reflexões podem soar irrelevantes — e admito que o são, frente às dores físicas e/ou mentais que estejamos sofrendo —, mas não nos deixemos enganar. Tenhamos a humildade de reconhecer que somos apenas isto: um aglomerado de átomos energizados por elétrons, com prótons específicos em seus núcleos, protagonizando um mistério que insistimos em ignorar.
“Gente quer saber o um”
A consciência da espiritualidade é um dos pilares da condição humana. Não me refiro à espiritualidade vulgar, hierarquizada, opressora, punitivista, que se manifesta em religiões, crenças e cultos, mas à verdadeira, à única, a que nos vincula ao Universo e está presente na materialidade do planeta, viva, ativa e pulsante em nossa existência cotidiana.
As provas de que esta espiritualidade é real estão, literalmente, em todo e qualquer lugar — ela atravessa o Cosmos, as Galáxias, as Estrelas, nosso sistema Solar e esta Terra a que pertencemos. Para qualquer ponto que olhemos, tal qual um fractal (padrão geométrico que se repete em diferentes escalas, com cada parte menor sendo uma cópia do todo, um conceito conhecido como autossimilaridade), a espiritualidade lá está.
Não há quem desconheça sua existência, mesmo que se trate de pessoa comum, dita simplória, sem educação formal, pois estamos falando de um conhecimento intuitivo, que dispensa intermediações, inerente aos indivíduos de nossa espécie desde o primeiro choro, quando o ar invade os pulmões e o sistema nervoso é, literalmente, ligado ao Todo. Ao Um.
Por isso que o nascimento de uma criança é compreendido, em qualquer cultura, como um milagre, graças às potencialidades que aquele novo ser nos traz e oferece ao mundo dos fenômenos, este onde existimos. Não há nascimento sem alegria, sem estímulo, sem esperança por parte daqueles que recebem o novo ser. Todos sabem, embora não verbalizem, que um mistério ali se corporificou.
A consciência desse milagre está impressa e confirmada em nossa memória pessoal e coletiva; sabemos que ele aconteceu fruto do enigma de uma concepção, daquele átimo em que duas células, dois gametas complementares se uniram para constituir um indivíduo completo e pleno de vir a ser, sob as bênçãos do Desconhecido.
No melhor dos mundos, a consciência cósmica que o milagre do nascimento suscita seria preservada e nutrida, lançando adiante a compreensão transcendente da existência da espécie humana. Mas, como sabemos, não é isso que ocorre. Fieis às nossas “vãs filosofias”, imediatamente projetamos um futuro feliz e brilhante para o recém-chegado, a ele almejando a realização de tudo o que não fomos capazes de ser e construir em nossa existência mundana.
Ao seja, lançamos em seus ombros nossas frustrações e o peso de uma civilização fracassada, sedimentada em falsas expectativas, valores superficiais, certezas imodestas, ganhos passageiros, heranças de sucessivas gerações de seres espiritualmente pervertidos pelo medo de estarem sozinhos no espaço.
É neste exato instante que se inicia o processo de corrupção do novíssimo indivíduo, e ele perde a chance de incorporar sua real espiritualidade cósmica. Em seu lugar, lhe impingimos dogmas, mandamentos, superstições; religiões, crenças, cultos. E o milagre da grandeza humana se esgarça. E nossa espécie retroalimenta o conformismo desse simulacro de humanidade, essa vida de vanglórias.
Quase não há força interior que faça esse indivíduo desde o berço corrompido escapar da armadilha da História, como também não há vontade exterior — isto é, nas diferentes instituições de poder que constituem as sociedades — disposta a enfrentar tamanho desafio existencial.
O indivíduo, porque é refém de sua própria conveniência imediatista e vítima da manipulação promovida pelos grupos perpetuadores da submissão interesseira; as instituições de poder, porque enxergam na emancipação espiritual do ser humano uma ameaça à sua permanência, o que de fato é, pois quem se emancipa não se submete.
Resta-nos, como tenho dito, as possibilidades que se abrem a partir do caos em que estamos metidos. E para ilustrar, ocorre-me esta música de Caetano Veloso, onde já no primeiro verso está posto: “Gente olha pro céu, gente quer saber o um”.
“Aos vencedores as batatas”
Em 2001, quando o mundo ainda estava sob o impacto do ataque de 11 de Setembro à sede do capitalismo planetário, a cidade de Nova Iorque, o renomado compositor alemão de música contemporânea Karlheinz Stockhausen (1928-2007) afirmou que aquele ato terrorista teria sido “uma obra de arte tão grande quanto qualquer outra”.
O comentário produziu grande incômodo, mas Stockhausen nunca se explicou, nem se desculpou; afastou-se, ou foi afastado de apresentações públicas a partir dali, até sua morte. A frase, no entanto, é importante, pois nos dá a oportunidade de refletir sobre essa questão balizadora de nossa existência: o mal.
Por definição, o mal é a ausência do bem, isto é, a falta da capacidade de compreender e compartilhar os sentimentos dos outros (empatia) e de refletir sobre o certo e o errado (ética). Trata-se de uma construção da mente e, portanto, exclusivamente humana — se um peixe grande come um peixe pequeno, ele não age assim por maldade, mas por instinto, em favor da sobrevivência de sua espécie.
Nossa espécie, resultante de singularíssima conjunção cósmica — dê-se a Ela o nome que se der —, deparou-se desde o princípio com alguns desafios existenciais, dentre eles, e talvez o mais importante, a obrigação e necessidade de superar os instintos.
Isto é: jamais teríamos constituído os laços sociais fundadores de nossa civilização — por mais fracassado que seja este modelo civilizacional que erigimos —, sem que estivessem presentes em nossa consciência os conceitos de bem e de mal. O problema fundador desta nossa realidade esquizofrênica é que fomos incapazes de realizar aquela obrigação e necessidade: os instintos nunca foram superados, porque nunca de fato alcançamos a maturidade.
Uma explicação talvez se encontre no fato de que os instintos nos são convenientes; afinal, são eles que impulsionam a busca permanente por minorar nossas carências físicas e materiais (o que chamo de via do prosseguimento), sobrepondo-se assim, pela urgência, aos conceitos morais que balizam o bem e o mal. Estes se destinam a prover a convivência utilitária entre semelhantes, a qual pode ser, e usualmente é, relativa às circunstâncias pessoais, sociais, históricas; aqueles, os instintos, atendem às nossas demandas existenciais imediatas — tanto quanto as de qualquer animal —, sendo, portanto, condição imperativa e incontornável de sobrevivência.
Os sucessos individuais e coletivos — “aos vencedores as batatas”, como sentenciou Machado de Assis em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” —, validam a prática multimilenar da lógica relativista norteada pelos instintos. Validam, confirmam, mas igualmente consolidam os obstáculos ao avanço da consciência que fundamenta os conceitos de bem e de mal. Eis a esquizofrenia plenamente incorporada às nossas vidas.
Nesse sentido, o 11 de Setembro de 2001 nova-iorquino, se formos capazes de abstrair os sofrimentos e as destruições ocasionadas, pode ser visto, sim, como “uma obra de arte tão grande quanto qualquer outra”. A definição de Stockhausen, por mais chocante que sempre pareça, não contempla a (i)moralidade do ato; principalmente porque, como sabemos, nossa civilização relativiza o mal. Sem qualquer cerimônia.
A “arte” por Stockhausen referida está (esteve) no fato estético em si, realizado conforme os mais avançados conhecimentos disponíveis (técnica), executado com inquestionável eficácia (maestria) e produtor de efeito devastador sobre a consciência do Ocidente (mensagem) — três requisitos presentes, entre outros, em qualquer manifestação artística.
Já o mal apontado, e de fato presente naquele atentado, em nada difere de outros tantos e sanguinários males perpetrados ao longo da História de nossa fracassada civilização, com destaque para os que me vêm à memória:
Santa Inquisição;
Colonialismo predador extrativista;
Escravidão de 12,5 milhões de africanos;
Genocídio dos povos indígenas de todo o planeta;
Assassinatos em massa pelo nazismo, fascismo, stalinismo;
Bombardeio atômico de Hiroshima e Nagasaki;
Exploração continuada das nações pobres;
Fome, doenças físicas e mentais etc. etc. etc. etc., e ainda todos os males que impingimos uns aos outros, cotidianamente, mundo afora.
Amar e praticar a sabedoria
Às vezes me perguntam como definiria meu trabalho, tanto o dos livros — A primeira lição a aprender —, quanto este que publico aqui regularmente, e que na verdade se trata de analisar as mesmas ideias dos livros, sob diferentes aspectos e realidades. Sinceramente, ou talvez por ignorância, não sei em que categoria encaixar essas reflexões.
Sem assumir ares de presunção intelectual — até porque reivindico a todos os seres humanos, mais do que o direito, o dever de pensar e expor suas opiniões —, arrisco dizer que minhas balizas são a antropologia (o estudo do ser humano em todas as suas vertentes) e a cosmologia (o estudo da totalidade dos fenômenos no universo). Entendo o ser humano como um indivíduo que pertence à Terra, mas integra o Cosmos — e vice-versa.
Não se tratam de filosofia, essas ideais, disso tenho certeza. E nem me interessa que assim sejam entendidas, pois contra as imposições dessa ou daquela corrente filosófica é exatamente onde me coloco. Não que despreze o amor à sabedoria, mas porque quero estar longe da mitificação do saber; distante do exibicionismo teórico; e, principalmente, em oposição à ideia de que o saber se destina a poucos eleitos.
Sabedoria não é, e não pode ser, algo que se deva conquistar, possuir e, eventualmente, compartilhar com selecionados ouvintes e iniciados. Sabedoria é alcançar e desenvolver a capacidade de desvelar caminhos e apontar modos através dos quais todos os indivíduos, absolutamente todos, estejam aptos a amá-la e praticá-la, porque ela está (ou deveria estar) presente em cada instante de nosso cotidiano. Sabedoria é compreender e trazer à luz as potencialidades da mente humana; não é uma condição egoísta, mas um exercício de permanente deslumbramento e generosidade.
O problema, o verdadeiro problema com o qual nos debatemos em nosso cotidiano é a dificuldade de alcançarmos a compreensão dessa capacidade intrínseca à nossa espécie — a de amar e praticar a sabedoria, e de fazê-lo não de forma eventual, irrefletida, episódica, mas de modo consciente, intencional e permanente. É nesse espaço que, julgo, venho refletindo.
Penso que o único meio de nos apoderarmos da referida compreensão (amar e praticar a sabedoria) é entendermos a dupla e coexistente condição de sermos integrantes deste planeta e pertencermos ao Cosmos. Os modos e os meios para a realização dessa tarefa fundamental já estão dados. Abordo isso em vários textos aqui publicados, como em Nosso primeiro passo.
O dia em que esse entendimento for apropriado não por meia dúzia de ‘filósofos’, mas pela maioria e depois pela totalidade dos habitantes desta Terra, a partir desse instante nossa espécie terá uma chance de harmonizar a via do prosseguimento (esta que busca minorar todas as nossas carências físicas e materiais, e que perseguimos em nosso dia a dia, desde sempre) com a conquista compartilhada do saber. E, então, verdadeiramente, amar e praticar a sabedoria.
Em resposta às alegações de que ‘isso tudo é apenas ingenuidade’, recorro à maior e melhor prova do que defendo: os indivíduos que, mesmo não possuindo o status de filósofos, são sábios e inspiradores naquilo que fazem, porque exploram o máximo de suas potencialidades. Para o bem, ou para o mal (sim, porque o mal deliberado, decorrente da corrupção da humana empatia, também pode ser exercido com sociopática perfeição).
Sugiro no primeiro caso, por exemplo, que se ouça essa seleção de João Gilberto, um ser que, como tantos outros, soube valorizar sua passagem por esta Terra, e com essa sabedoria produziu o melhor que seus dons lhe permitiram, tornando-se, a seu modo, universal. Os exemplos disruptivos (melhor assim dizer, ao invés de defini-los como “maus”) são muitos, e exatamente aqueles que queremos combater.
O caos, a ordem e as distrações
Para mudar o mundo, é preciso mudar o ser humano.
Para mudar o ser humano, é preciso que a consciência da mudança promova a mobilização da vontade em cada um dos 8,2 bilhões de indivíduos deste planeta, sem exceções.
Para que a consciência e a vontade desses indivíduos tenham a chance de serem alcançadas, neste turbilhão de distrações que a luta pela simples sobrevivência nos impõe cotidianamente, é preciso que alguém ou algo dotado de inquestionável credibilidade e poder de convencimento assuma o protagonismo e a liderança do processo.
Qual a chance, para a espécie humana, de que isso — a ascensão de uma liderança protagonista capaz de conduzir a mudança do mundo — venha a ocorrer?
Nenhuma, admito.
Quê esperança nos resta, então, dado que mudar o mundo é urgente e imprescindível?
Antes de encarar a questão crucial — Que esperança nos resta? —, quero voltar ao texto anterior — ‘Eu não quero descer’ —, onde destaco a interpretação dos grandes ciclos históricos proporcionada pela Astrologia (conhecimento hermético originário da antiga Suméria, no quarto milênio a.C., que foi transformado em superstição com a decadência do Império Romano e, mais adiante, ridicularizado e/ou reduzido a mera curiosidade de salão, com o advento do empirismo científico no séc. XII d.C., quando a visão de curto e médio prazos ganhou status de verdade).
A Astrologia não nos traz conforto nem desculpa, digo logo, embora não passe de alguém que apenas respeita suas proposições — não sou um especialista, como foi meu amigo Cid Marcus, sobre quem tenho me referido com frequência em outras postagens. E não nos traz conforto nem desculpa, porque não há consolo nem alívio a serem oferecidos.
Repito o que escrevi no começou deste texto: para mudar o ser humano, é preciso que a consciência da mudança promova a mobilização da vontade de cada um dos 8,2 bilhões de indivíduos deste planeta, sem exceções.
Se nada e ninguém será capaz de deflagrar um consistente e continuado processo endógeno (que tem origem no interior de nossa espécie) no sentido da consciência da mudança e mobilização da vontade, a conclusão óbvia é de que estamos entregues ao nosso próprio fado, ou seja, submetidos a uma dinâmica exógena, além do nosso controle.
Esse é o diagnóstico proposto pela Astrologia, à luz dos ciclos cósmicos que se projetam sobre nosso planeta desde sempre.
Como já disse, a opção da mudança ser empreendida por nós mesmos sempre esteve e está à nossa disposição e alcance, mas se não a fizermos — como não temos feito, e nos recusamos a fazer —, a inevitabilidade cósmica se encarregará de fazê-la.
De que maneira?
Da forma como estamos vendo e vivendo: com sofrimento individual e coletivo crescente.
Alimentamos o caos e, como somos incapazes de domá-lo e cavalgá-lo, só nos resta esperar até que alguma ordem se estabeleça e, depois, até que um novo ciclo caótico se inicie. Porque nos recusamos a cumprir aquilo a que estamos destinados no Cosmos: conquistar a maturidade espiritual.
Escolha, sempre foi uma questão de escolha.
‘Eu não quero descer’
Ao analisarmos o quadro ora vigente de emergência planetária — que se traduz no crescimento da insegurança social produzida por uma série impressionante e convergente de fatores, envolvendo o agravamento da luta geopolítica, da xenofobia, desigualdade socioeconômica, decadência do ensino, precariedade laboral, ausência ou insuficiência de serviços básicos, violência pública, criminalidade privada, transtornos neurológicos, distúrbios e doenças mentais, tudo se dando no interior de um ecossistema dominado por extrema corrupção e inegável incompetência —, ao analisarmos esse quadro temos a sensação de que chegamos a um momento de inflexão civilizacional.
Concretamente, é isto mesmo o que está em curso.
É fato que o acelerado decaimento da qualidade geral da vida drena nossas forças, contamina nosso núcleo familiar, projeta-se para nossa rede de relacionamentos e ao conjunto da sociedade, de onde retorna, como um bumerangue, para retroalimentar e potencializar negativamente o mesmo sistema já degradado. Não é pouco o que os 8,2 bilhões de habitantes da Terra estamos enfrentando neste exato instante.
Para nosso conforto, se é possível assim definir, não há nenhuma surpresa sobre o que se passa na Terra — trata-se apenas de um processo de transição, de transformação, de evolução, enfim. Isto não diminui os sofrimentos presentes e futuros, pessoais e coletivos, mas pode nos ajudar a assimilar o entendimento, sempre necessário, de que integramos o Cosmos. Sim, o Cosmos! E, ainda que cause estranhamento ou suscite deboche, proveniente das mentes ditas racionais, a explicação para o que ocorre na Terra vem da Astrologia.
Não, evidentemente, “a pop astrology, como ela aparece em jornais e em muitos livros sobre ela publicados, mas com o que ela nos oferece desde tempos muito remotos como legado praticamente encontrado em todas as culturas, desde a pré-história, abandonado, por pressões dos representantes da ‘racionalidade’, pelas academias no séc. XVII. Nem tem a ver com a afirmação de pessoas que peremptoriamente declaram nela não ‘acreditar’, como se ela fosse uma religião, ainda que dela nada conheçam. A Astrologia, uma carta astral, nesta perspectiva, por exemplo, se parece com um hemograma [análise laboratorial dos elementos do sangue]. Não ‘acreditamos’ num hemograma; apenas sabemos lê-lo ou não. E mesmo sabendo lê-los, os hemogramas, quantos erros não se cometem na interpretação de seus dados?”
O esclarecimento acima é do amigo e sempre mestre Cid Marcus, falecido há três anos — a quem sempre recorro —, um cara que se dedicou ao estudo “sério” da Astrologia. Em um de seus textos — Os salões do séc. XVIII —, ele discorre sobre os sinais da aproximação deste momento de transição (para a Era de Aquário), na qual a humanidade finalmente ingressará em 2.672, daqui a 647 anos.
Preparem seus corações e mentes, caros amigos, pois o que já vem se impondo é de fato uma grande mudança:
“Urano [regente de Aquário] é essencialmente um planeta variável, eletromagnético, espasmódico, intuitivo, impulsivo, excêntrico, pioneiro, independente, súbito, político, comunitário, excitante, maníaco [no sentido grego de ‘estado de loucura’], explosivo, convulsivo, revolucionário, brutal, anárquico, incongruente, individualista, diferente (vedetismo), associativo, futurista, utópico, original, inédito e estéril.
“No século XVIII [quando esse processo já apresentava seus sinais], a verdade das religiões, tida como revelada, começou, por inspiração uraniana, a ser substituída por propostas filosóficas pragmáticas. A atitude, diante do mundo, começou ser inspirada pela empiria. Mesmo com todas as suas tâtonnements [tentativas e erros], como diziam os franceses, o conhecimento deveria derivar agora da experiência humana e não da revelação divina. (…) Na política, as lutas de independência de várias colônias foi um desses sintomas.
“Hoje, na ciência, temos a inteligência artificial”, as redes sociais globalizadas, a computação quântica, a robótica associada à IA etc. etc. “No campo filosófico-religioso, o fim da filosofia, o transumanismo [uso da tecnologia para superar as limitações humanas, tanto físicas quanto intelectuais] e o fim de Deus e das religiões (profecia de Nietzsche), estas oferecendo uma grande resistência, diante dos altíssimos lucros que obtêm.”
Nosso desespero civilizacional é que “o mundo aquariano nos permite obter uma quantidade cada vez maior de informações, mas talvez nunca tenhamos nos deparado com tanta falta de conhecimento e muito menos de sabedoria quanto hoje, estes dois [conhecimento e sabedoria] a serem construídos por nós a partir daquelas [informações]. A velocidade e o alcance da nossa comunicação é espantosa, enorme, mas a solidão e a depressão aumentam cada vez mais. Enquanto isso, orgulhosamente, a ciência aquariana vai nos dando condições de visitar todo o sistema solar, de colonizar alguns planetas e de explorar a nossa galáxia."
“Pare o mundo, que eu quero descer!”, me disseram outro dia.
Entendo o desespero, mas confesso que eu mesmo “não quero”.
A ironia do limite
Olhemos para o básico. A Terra nos oferece três tipos de riquezas: animais, vegetais e minerais, além de outras renováveis, como a luz solar, o ar e a água, embora esta esteja submetida à degradação continuada, à escassez crescente e ao encarecimento devido aos elevados custos de depuração ou dessalinização. Não se tratam de um legado, essas riquezas, mas de um usufruto, pois a Terra, ela mesma, é constituída desses mesmos elementos, e através deles se nutre.
Tais recursos naturais são o que garante a continuidade da via do prosseguimento, que é como defino os processos desencadeados desde o advento dos primeiros humanos, destinados a prover e aprimorar nossa condição física, mental e, se formos capazes, também espiritual.
No entanto, a exploração intensiva desse patrimônio, decorrente do crescimento demográfico (somos hoje quase 8,2 bilhões de seres) tem produzido a fragilização do planeta. Tanto porque sua utilização é intrinsecamente destrutiva (vegetais e animais), quanto por se tratarem de elementos finitos e sua extração (minérios) ser causadora de profundos impactos ambientais. Exemplo dramático são os hidrocarbonetos, que sustentam nosso modelo de civilização e estão se esgotando, enquanto seu consumo se expande.
Parte significativa da sociedade planetária, herdeira de antigas e sucessivas linhagens de poderosos indivíduos (‘as velhas famílias’), age no sentido predatório, defendendo o direito à posse privilegiada de todos os recursos naturais, não apenas para o seu próprio usufruto, mas, principalmente, para ampliar seu estoque de renda, bem como acumular patrimônio — são os praticantes da ideologia capitalista, em todos os seus matizes e localizações geográficas.
Outra parte também numerosa, orientada pela ideologia socialista, distributiva — e que, convenhamos, não existe em estado puro, pois, para que isso se realize é necessário que a humanidade, em seu conjunto, alcance o patamar da maturidade espiritual —, busca promover a exploração de tais riquezas segundo a lógica do interesse coletivo. Ou seja, feita racionalmente, de acordo com as necessidades, sem perder de vista a ameaça de fragilização planetária. Este é o segmento que se coloca no centro do espectro social.
No extremo oposto temos aqueles que se inspiram no purismo ideológico conservacionista, defendendo a tese de que as riquezas do planeta devem ser integralmente preservadas, porque Gaia (a visão da Terra como um único organismo) já atingiu seu extremo de depredação e, tanto quanto qualquer ser vivo, precisa ser protegida. Como alternativa, defendem que a humanidade adote modos de sobrevivência idealizados, voltados para a vida simples, natural e equilibrada. Não são tão numerosos, mas são os mais motivados e conceitualmente aceitos por segmentos do estrato intermediário, o distributivista, e simultaneamente instrumentalizados pelo primeiro grupo, o dos capitalistas.
De que forma superar esse complexo dilema existencial, se cada grupo possui sua força e seus argumentos? Como sempre, é preciso recorrer à Filosofia, sempre ela!
Atribui-se a Aristóteles (384-322 a.C.) a chamada doutrina do meio-termo, em que a virtude e a sabedoria residem no equilíbrio entre dois extremos, evitando tanto o excesso quanto a deficiência. Ela pode ser aplicada à maioria das atitudes e ações humanas, com exceção daquelas relativas à ética e à moral, como a honestidade, respeito ao próximo, responsabilidade, cooperação, lealdade, empatia, liberdade, altruísmo, justiça, onde a verdade ocupa uma postura intransigente.
No caso da utilização dos recursos da Terra em prol da via do prosseguimento, não há como fugir da regra aristotélica. Mesmo que venha a ser reduzido, ao custo de políticas repressivas de governos, o crescimento demográfico não será conveniente a longo prazo, pois é necessário haver equilíbrio entre morte e nascimento de indivíduos.
O caso chinês é o maior exemplo disso: sua política do filho único, implantada em 1979, passou a ser flexibilizada em 2015 porque causou desequilíbrio de gênero e um rápido envelhecimento da população. Atualmente, a China até incentiva nascimentos, mas enfrenta declínio populacional devido a fatores como o alto custo de vida e mudanças culturais.
Outra iniciativa, esta cruel e perturbadora, tem o patrocínio do primeiro grupo social, de forma cada vez menos dissimulada: reduzir a população do planeta através da imposição da fome, da disseminação de pandemias, da promoção de guerras, genocídios etc.
Essa estratégia, no entanto, está fadada ao insucesso, como temos visto. Seu ponto irreversivelmente fraco é que as desgraças provocadas (miséria, doenças, conflitos, extermínios) não se restringem ao grupo-alvo (a massa empobrecida), mas impactam todas as camadas da população planetária, dado que a sociedade é um corpo intercomunicante e interdependente. A crise migratória está aí para provar este fato.
Voltamos à doutrina do meio-termo. Não há como negar que a Terra está plenamente ocupada por seres humanos, e que cada um desses bilhões de indivíduos faz jus ao seu quinhão na via do prosseguimento — esta é uma daquelas questões éticas e morais com as quais não podemos transigir. Como oferecer os meios para que esse compartilhamento equitativo de benefícios ocorra?
Só há um modo capaz de conciliar os três grupos sociais acima descritos: rompermos o ciclo vicioso da imaturidade (e alcançarmos aquilo que denomino de consciência cósmica, ou seja, pertencemos a este planeta mas estamos integrados ao universo) e, a partir desse novo patamar espiritual, harmonizarmos nossa convivência com a Terra, dela recolhendo o estritamente necessário (alimento, água, ar limpo, energias sempre mais renováveis, insumos estratégicos reutilizáveis e recicláveis, como minerais, por exemplo) para prover e avançar na via do prosseguimento.
Isto não nos garantirá vida eterna, mas nos dará a chance de um novo paradigma de felicidade.
A ironia é que só chegamos a este ponto porque alcançamos o limite.
Sem direito, nem tempo de errar
Nossa velocidade reativa precisa aumentar. Não se trata de sair às ruas distribuindo panfletos, ostentando cartazes e faixas, feito aqueles pregadores desvairados que empunham suas bíblias mal lidas e incompreendidas nas calçadas movimentadas. Nem mesmo é o caso de nos pendurarmos nas redes sociais, dissipando nossa energia ao disparar mensagens ineficazes ao léu.
Não. A velocidade começa na mente de cada um, nesse lugar onde tudo sempre tem e teve início. É na mente das pessoas que já compreenderam o estado caótico em que se encontra nosso planeta, e que se põem do lado certo da História, o lado que busca a harmonização da espécie humana, é nessas mentes que a reação primeiro se constrói.
De novo: aumentar a velocidade reativa é não esvaziar nossas potencialidades, não é enfraquecer nossas defesas espirituais. Não me refiro aqui a religiões, mas à genuína espiritualidade, aquela que está mais próxima do conceito de inconsciente coletivo que nos foi legado por Carl Jung (1875-1961), definido como “uma camada da psique que contém arquétipos ou padrões de pensamento e imaginação herdados por toda a humanidade, através de gerações”.
Essa “herança psicológica universal”, ou “memória comum que se manifesta em mitos, sonhos e símbolos semelhantes em diferentes culturas”, constitui a substância imaterial que, confirmada ou desafiada por nossa capacidade cognitiva, e então mobilizada e compartilhada, é o que pode nos levar à geração de novas materialidades e resultados efetivos.
Confirmar ou desafiar esses arquétipos é nosso dever como espécie em evolução. Mobilizá-los e compartilhá-los só depende de nossa convicção e vontade. Convicção para não esmorecer, mesmo reconhecendo o poder da monstruosidade que está em curso; vontade para não nos distrairmos com inevitáveis dificuldades, e não perdermos o foco de nosso objetivo.
Atribui-se a Buda (vivido no período de 563-483 a.C.) a lição de que “toda grande caminhada começa com um primeiro passo”. Na verdade, trata-se de uma metáfora que nos conduz não ao ato físico propriamente dito, mas à determinação de agir quando e sempre que as condições apropriadas estiverem postas. E isto ocorre a todo momento de nossa existência.
Quem é de cantar, que cante com a melhor técnica e emoção; quem é de falar e escrever, que escolha as palavras mais pertinentes e compreensíveis, para que a mensagem não se perca. Quem é de correr, que o faça com determinação e leveza; quem é marceneiro, padeiro, escriturário, jornalista, jardineiro, professor, médico, serralheiro, aluno, encanador, enfermeiro, advogado, balconista, pintor, entregador, todos, de qualquer profissão, de qualquer ofício ou atividade tenhamos em mente que o “primeiro passo” é a disposição de fazer sempre o nosso melhor.
A monstruosidade que está em curso nos empurra, como indivíduos e sociedade, para a displicência, o descrédito, a impotência, o medo, a desistência. É com esses ingredientes que ela nos submete, extraindo do nosso sangue, nervos, músculos a seiva capaz de nutrir as mais efetivas e eficazes ideias de luta que possamos elaborar — a monstruosidade embota nossas ideias, logo as ideias, onde tudo começa!
É urgente que aumentemos nossa velocidade reativa. Mas ela não pode ser aleatória, descoordenada, inconstante, ingênua e débil. Para sermos efetivos e eficazes, ‘é preciso estarmos atentos e fortes’, como já nos avisaram Gilberto Gil e Caetano Veloso em 1969, no canto incisivo de Gal Gosta.
Não nos iludamos, porém. Muita desgraça ainda veremos e sofreremos pela frente. A monstruosidade está em pleno curso, apostando no aprofundamento de nossa fraqueza espiritual, festejando o individualismo, promovendo o ódio a serviço da ganância, à espera de nossa rendição. Não a deixemos passar! Não temos mais direito, nem tempo de errar.
Engano-me, que eu gosto
O sr. Bill Gates, que dispensa apresentações, acaba de publicar um ‘corajoso artigo’ em sua página pessoal na internet — Gatesnotes — em que relativiza a chamada ameaça climática, afirmando, textualmente, que “embora as mudanças climáticas afetem as pessoas pobres mais do que qualquer outro grupo, para a grande maioria delas, essa não será a única, nem mesmo a maior, ameaça às suas vidas e bem-estar. Os maiores problemas são a pobreza e as doenças, como sempre foram. Compreender isso nos permitirá concentrar nossos recursos limitados em intervenções que terão o maior impacto sobre as pessoas mais vulneráveis”.
Disse ‘corajoso artigo’ porque, lá pelas tantas, o sr. Gates admite que “alguns defensores do clima discordarão de mim, me chamarão de hipócrita por causa da minha própria pegada de carbono (que compenso totalmente com créditos de carbono legítimos), ou verão isso como uma maneira dissimulada de argumentar que não devemos levar as mudanças climáticas a sério”.
Ocorre que não é de hipocrisia e dissimulação que se trata aqui, mas de covardia e irresponsabilidade existencial. O centro do impasse planetário não é o modo como estão sendo aplicados os “nossos recursos limitados”, e o sr. Gates sabe disso — esta é a covardia. A irresponsabilidade existencial reside no fato de que uma figura pública como ele, cujas palavras e opiniões possuem alcance ilimitado, não pode ignorar, por exemplo, informações como as listadas abaixo, obtidas por meio de uma simples consulta à plataforma de Inteligência Artificial do Google:
“Os gastos militares mundiais em 2024 alcançaram um recorde de US$ 2,7 trilhões, representando um aumento de (9,4%) em relação a 2023, e a maior alta anual desde o fim da Guerra Fria (1947-1991). Esse aumento foi impulsionado por conflitos regionais e tensões geopolíticas, com mais de cem países elevando seus orçamentos de defesa, especialmente na Europa e no Oriente Médio. Os cinco maiores gastadores — EUA, China, Rússia, Alemanha e Índia — foram responsáveis por 60% do total global.
“A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Instituto para Métricas e Avaliação em Saúde (IHME) indicam uma tendência de queda no investimento em saúde após o pico da pandemia de COVID-19, o que gera grande preocupação. A entidade projetou um declínio global de 21% na assistência ao desenvolvimento para a saúde entre 2024 e 2025, passando de US (49,6 bilhões para US 39,1 bilhões).
“A expectativa é que essa tendência de queda continue nos anos seguintes. As maiores reduções da Assistência ao desenvolvimento para a saúde (DAH) devem afetar a África Subsaariana, com uma queda de 25% entre 2024 e 2025. Esse cenário pode ter consequências graves em regiões com sistemas de saúde já fragilizados.
“A OMS alertou que a queda na priorização do gasto público em saúde pode comprometer a meta de cobertura universal de saúde (UHC), deixando cerca de 4,5 bilhões de pessoas sem acesso a serviços básicos e 2 bilhões enfrentando dificuldades financeiras por causa de despesas com saúde.
“O subfinanciamento dificulta o progresso em direção à Cobertura Universal de Saúde (UHC). A OMS estima que 4,5 bilhões de pessoas no mundo não têm acesso a serviços básicos de saúde, e 2 bilhões enfrentam dificuldades financeiras por causa de custos de saúde. A fundação da OMS alerta que a saúde global está em crise, com a redução de gastos empurrando mais pessoas para pagar por seus próprios cuidados de saúde, uma forma de financiamento desigual e insustentável.
“O déficit de financiamento representa um grande risco para a saúde global. A diminuição da assistência externa e a despriorização dos gastos públicos por parte dos governos ameaçam o progresso histórico na saúde pública. A crise financeira que se estende para 2025 e além, conforme indicado por cortes previstos e déficits orçamentários na OMS, demonstra que o desafio de garantir um financiamento adequado para a saúde pública é urgente e de longo prazo.”
O sr. Bill Gates é uma pessoa inteligente; sabe que não está enganando ninguém com esse seu estranho artigo (nem mesmo as Inteligências Artificiais disponíveis). Talvez ele esteja querendo enganar a si próprio. Uma pena!
É o que mais interessa!
Sinto informar-lhes, mas a “democracia” não nasceu na Grécia, nos anos 500 a.C. Até onde já sabemos, formas democráticas de governar cidades já haviam sido postas em prática na antiga Suméria (4000 a.C.), no sul da Ásia (2600 a.C.), na China (2000 a.C.) e só então na cidade-estado de Atenas, seguida por Teotihuacan, o “Lugar dos Deuses”, entre 100 a 600 d.C. (região onde surgiria o México).
Essas informações se encontram no livro “O Despertar de Tudo - Uma nova história da humanidade”, em que David Graeber e David Wengrow se propuseram a enfrentar a interpretação da História estabelecida em 1651, por Thomas Hobbes (em “Leviatã”) e em 1754 por Jean-Jacques Rousseau (em “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens”).
Hobbes, tido como “fundador da teoria política moderna, afirmou que, sendo os seres humanos as criaturas egoístas que são, a vida num Estado de Natureza original nada tinha de inocente: pelo contrário, devia ser ‘solitária, pobre, sórdida, brutal e curta’ — na prática, um estado de guerra, com todos lutando contra todos. Se houve algum progresso em relação a esse estado de coisas, em grande medida foi exatamente por causa dos mecanismos repressivos, que Rousseau viria cem anos depois a condenar: governos, tribunais, burocracias, polícia”, explicam Graeber e Wengrow.
Já Rousseau disse que “antigamente, éramos caçadores-coletores e vivíamos por muito tempo numa condição de inocência infantil, em pequenos bandos. Esses bandos eram igualitários, justamente por serem pequenos. Foi só depois da ‘Revolução Agrícola’, e ainda mais depois do surgimento das cidades, que essa feliz condição se desfez, dando origem à ‘civilização’ e ao ‘Estado’ — o que também significou o aparecimento da literatura, da ciência e da filosofia escritas, mas, ao mesmo tempo, de quase tudo de ruim na vida humana: patriarcado, exércitos permanentes, execuções em massa e burocracia”.
É no confronto a essas duas visões que o “O Despertar de Tudo” trabalha, “reunindo evidências que vêm se acumulando nas últimas décadas na arqueologia, na antropologia e disciplinas afins, e que apontam para uma explicação totalmente nova do desenvolvimento das sociedades humanas nos últimos 30 mil anos”, dizem os autores da obra que, a meu ver, revoluciona a chamada teoria política.
A única questão pendente, no entendimento de Graeber e Wengrow, e também na minha visão por várias vezes aqui exposta, é o quanto esse tema pode interessar às pessoas deste nosso tempo politicamente errático, socialmente caótico, espiritualmente imaturo. Nesse caldo de inseguranças pessoais e coletivas, qual a importância sobre onde e quando surgiram e se exercitaram formas democráticas de governo?
Aparentemente, nenhuma importância. Mas na verdade muita, porque o fato de os humanos virem desde os seus primórdios organizando-se politicamente sem submissão hierárquica, mas buscando sistemas equitativos de autogoverno, reforça a compreensão de que, ao contrário do pensamento comum, o que erigimos ao longo de 30 milênios foi de fato uma anti-civilização.
Reconhecer um erro, como já diz a sabedoria popular, é o primeiro passo para o crescimento, a mudança e o aprendizado. É um ato de humildade e maturidade que permite evitar prejuízos maiores, aceitar as próprias falhas e, a partir delas, tomar novas decisões e corrigir o rumo. O que há de mais importante a fazer, neste momento da História, se não promovermos essa autocrítica? Isto é o que mais interessa neste instante!
Selfie, segredo
Eu, brasileiro, confesso/Minha culpa, meu pecado/Meu sonho desesperado/Meu bem guardado segredo/Minha aflição
O piauiense Torquato Neto (1944-1972) certamente partiu de suas reflexões sobre a realidade e os destinos do Brasil quando escreveu Marginália II (musicada por Gilberto Gil).
Eu, brasileiro, confesso/Minha culpa, meu degredo/Pão seco de cada dia/Tropical melancolia/Negra solidão
Mas, como sempre fazem os verdadeiros poetas, não foi apenas deste país que ele tratou.
Aqui, o Terceiro Mundo/Pede a bênção e vai dormir/Entre cascatas, palmeiras/Araçás e bananeiras/Ao canto da juriti
A partir do autorretrato deste povo, ele traça a essência de quem somos nós, os seres humanos.
Aqui, meu pânico e glória/Aqui, meu laço e cadeia/Conheço bem minha história/Começa na lua cheia/E termina antes do fim
O grande valor de sua poesia é tornar universal o que primeiro é pessoal, depois nacional. Tudo junto agora.
Minha terra tem palmeiras/Onde sopra o vento forte/Da fome, do medo e muito/Principalmente da morte/Olelê, lalá
Não há separação entre os três espaços existenciais. Esse é o grande ostensivo segredo, que guardamos ao longo de toda a vida.
Minha terra tem palmeiras/Onde sopra o vento forte/Da fome, do medo e muito/Principalmente da morte/Olelê, lalá
Dizem alguns estrangeiros que o espírito brasileiro, revelado em nossa música, principalmente, carrega o dom de mesclar tristeza com esperança.
A bomba explode lá fora/E agora, o que vou temer?/Oh, yes, nós temos banana/Até pra dar e vender/Olelê, lalá
Mestres em rir e dançar à beira de precipícios é o que somos.
Aqui é o fim do mundo/Aqui é o fim do mundo/Aqui é o fim do mundo
Vivemos assim, alegremente, nos limites da existência, sem nos importar onde ela começa ou termina.
Irresponsáveis? Ingênuos? Talvez!
Ou, quem sabe?, apenas sábios.
Nada é fácil
Não nos cabe escolher a época em que existimos, mas, se me fosse possível decidir, teria sido exatamente neste presente histórico onde eu preferiria estar, e ser. Estar como testemunha consciente deste tempo conturbado, extremado, imprevisível, mas, sem dúvida, também magnífico, pleno de possibilidades palpáveis e renovadoras. E ser a serviço deste mesmo tempo, na condição de um existente dedicado a conhecer e superar sua própria imaturidade, sem ignorar as demandas objetivas.
Como escreveu o amigo e mestre Cid Marcus — A vida como viagem interior — “todas as filosofias do ocidente, desde Platão, colocaram o homem acima do mundo, contra o mundo, diante do mundo, de costas para ele, mas não dentro dele. A nossa colocação dentro do mundo (somos parte) só acontecerá se ficarmos no aqui e no agora”.
Sim, este mundo que construímos é injusto, egoísta, dominado pela competição e o ódio, mas o planeta em que estamos, e somos, é uma bela joia cultivada pelo Cosmos. Defendê-lo não se traduz em promover revoluções, ao contrário. E de novo recorro a Cid: em vez de nos perdermos no mundo exterior, “movermo-nos em direção do nosso mundo interior, uma viagem a que alguns dão o nome de meditação, de introspecção; o oposto do movimento centrífugo, um movimento centrípeto, como uma tentativa de aproximação de um eixo de rotação”.
E por que a prática revolucionária está fadada ao fracasso? Porque nada do que façamos em favor ou contra o mundo exterior estará sob o nosso controle; tudo resulta no inesperado, e às vezes no oposto do que pretendíamos. Não se trata de cruzar os braços frente as iniquidades; nem de abdicar o direito e o dever de fazer diferente. Trata-se, em primeiríssimo lugar, de dar prova do sincero e inteiro propósito daquilo que fizermos. Ou seja, de nos revolucionarmos.
Volto ao Cid: “O ser humano está sempre em luta contra si mesmo e contra o mundo. Criou-se a máxima de que viver é competir e não colaborar. Estamos em luta contra a raiva que sentimos, contra a bebida, contra a comida, contra as forças eróticas que nos subjugam, contra o tempo, mas geralmente acabamos nos complicando, nos sentindo, na maioria das vezes, derrotados. Essas coisas, porém, precisamos lembrar, não acontecem só conosco. Desde que o homem está no mundo é assim. Uma pergunta então poderá se tornar cabível: por que esse tipo de luta nos põe sempre contra nós? Ora tomamos o partido de um lado, ora de outro. Esta luta é, no fundo, absurda”.
Fazer com sincero e inteiro propósito também é isto: viver e ser no presente, na certeza tranquila de que o futuro sempre virá, e que será tanto mais promissor quanto melhor nos dedicarmos às tarefas de agora.
Corresponder a cada momento àquilo que o momento exige não é tarefa banal. Todas as distrações nos convocam; todas carregam alto poder de atração. A começar pela mitificação do passado, quando dele retiramos as vicissitudes. A terminar pela idealização do futuro, quando nele fingimos não ver os inevitáveis imprevistos.
Não espero obter dos outros nada disso que aqui defendo. Não alimento ilusões, até porque desconheço o quanto de mim está de fato convencido, compromissado, determinado a agir conforme meus próprios argumentos. A tradição se assenta, pesada, sobre meus (nossos) ombros; sobrecarrega minha (nossa) vontade; freia o impulso das boas intenções.
Nada é fácil.