Edgar Allan Poe (1809-1849), talvez o mais importante escritor norte-americano de todos os tempos — apontado como o primeiro daquele país a viver exclusivamente de literatura, apesar das necessidades materiais que enfrentou durante sua existência de apenas 40 anos, treze deles ao lado de Virginia Clemm (1822-1847), a prima de 13 anos com quem se casou em 1836 —, considerou antes de morrer que a obra-prima de sua carreira não foi nenhum de seus magníficos poemas existenciais, ou de suas inovadoras obras de suspense, terror psicológico, ficção científica ou policial, gênero este que, afinal, é tido como o inventor.
Não, a obra máxima de Poe, segundo ele próprio, foi “Eureka – Um poema em prosa”, definido como “um ensaio sobre o universo material e espiritual”. Escrito em 1848, um ano antes de sua morte (ele foi encontrado nas ruas de Baltimore, com roupas que não eram as suas, em estado de delirium tremens, e levado para o Washington College Hospital, onde veio a falecer quatro dias depois), contém uma teoria cosmológica em que, por exemplo, previu o Big Bang oitenta anos antes dele ser formulado. Não se trata de um trabalho científico, mas de um ensaio intuitivo e, “ainda assim, verdadeiro”, afirmou Poe.
Destaco, abaixo, alguns trechos de suas reflexões:
“Sendo atração e repulsão inegavelmente as únicas propriedades pelas quais a matéria é manifestada para a mente, estamos justificados de assumir que a matéria existe somente como atração e repulsão. Em outras palavras, que atração e repulsão são matéria, não havendo caso concebível no qual não possamos empregar o termo ‘matéria’ e os termos ‘atração’ e ‘repulsão’, tomados em conjunto, como equivalentes e diante disso conversíveis, expressões da lógica.
“Ora, a própria definição de atração implica particularidade — a existência de partes, partículas, ou átomos; pois nós a definimos como a tendência de ‘cada átomo, etc., para todo outro átomo, etc.,’ de acordo com uma certa lei. É claro que onde não há partes, onde há absoluta unidade, onde a tendência à unicidade é satisfeita, não pode haver nenhuma atração. Isso foi plenamente mostrado, e toda filosofia o admite.
“Quando, na realização de seus propósitos, então, a matéria tiver retornado para sua condição original de una (uma condição que pressupõe a expulsão do éter separador cuja província e cuja capacidade são limitadas a manter os átomos apartados até aquele grande dia quando, não sendo esse éter por mais tempo necessário, a pressão assoberbante da atração, finalmente coletiva deverá, eventualmente, predominar justo o suficiente e expeli-lo), quando, digo eu, a matéria, finalmente expelindo o éter, deverá ter retornado para a absoluta unidade, será então (falando paradoxalmente no momento) matéria sem atração e sem repulsão: em outras palavras, matéria sem matéria; em outras palavras, novamente, não mais matéria.
“Ao afundar na unidade, afundará de imediato naquele nada que, para toda percepção finita, a unidade tem de ser, naquela niilidade da qual unicamente podemos concebê-la tendo sido evocada, tendo sido criada, pela volição de Deus. Eu repito, então, esforcemo-nos para compreender que o globo dos globos final instantaneamente desaparecerá, e que Deus permanecerá total na totalidade.
“Mas estaremos aqui pausando? Não assim. Sobre a aglomeração e a dissolução universais, podemos prontamente conceber que uma nova e talvez totalmente diferente série de condições poderá suceder-se; outra criação e irradiação, retornando para dentro de si própria; outra ação e reação da divina vontade.
“Guiando nossas imaginações por aquela oniprevalecente lei das leis, a lei da periodicidade, não estamos, de fato, mais do que justificados de apascentar uma crença — digamos, mais ainda, de indultar uma esperança — de que os processos que aqui nos aventuramos a contemplar serão renovados infinitamente, e infinitamente, e infinitamente; um inovador universo inchando para a existência, e logo entrando em subsidência no nada, em todo pulso do coração divino?
“E agora — este coração divino — o que ele é? É o nosso próprio.
“Não permita que a meramente ilusória irreverência desta ideia intimide nossas almas daquele frio exercício de consciência, daquela profunda tranquilidade de autoinspeção através da qual unicamente podemos ter esperança de atingir a presença desta, a mais sublime das verdades, e olhá-la serenamente na face. Os fenômenos sobre os quais nossas conclusões têm de, neste ponto, depender, são meramente sombras espirituais, mas, nada obstante, meticulosamente substanciais.
“Nós vagueamos, em meio aos destinos de nossa existência-no-mundo, abarcada por turvas mas sempre-presentes memórias de um destino mais vasto — muito distante no tempo decorrido, e infinitamente péssimo.
“Nós vivenciamos uma juventude peculiarmente assombrada por tais sombras, ainda nunca as confundindo com sonhos. Como memórias nós as conhecemos. Durante nossa juventude a distinção é demasiado clara para nos enganar mesmo por um momento.
“Enquanto essa juventude perdura, o sentimento de que existimos é o mais natural de todos os sentimentos. Nós o entendemos meticulosamente. Que houve um período no qual não existíamos — ou que poderia assim ter acontecido que nunca tivéssemos existido de forma nenhuma — são as considerações, de fato, que durante essa juventude encontramos dificuldade de entender. Por que podíamos não existir é, até a época da maturidade, de todas as indagações, a mais irrespondível.
“Existência — autoexistência — existência desde todo o tempo e para toda a eternidade — parece, até a época da maturidade, uma condição normal e inquestionável. Parece, porque é.
Bom, paremos por aqui — e-Book está disponível na Amazon, em tradução de Paulo Otávio Barreiros Gravina. Não é uma leitura fácil (precisa ser lido e relido, muitas vezes, até que tenhamos incorporado o ritmo da escrita), nem uma fonte de conhecimentos científicos (diz-se, até, que nesse sentido contém muitos erros, à luz do que já se sabia à época e do que veio a se saber depois), mas, sem dúvida, são pensamentos poderosos de um homem de coragem — Edgar Allan Poe.
Para terminar, uma derradeira reflexão:
“Nenhuma alma única é inferior a outra, que nada é, ou pode ser, superior a qualquer alma única, que cada alma é, em parte, seu próprio Deus — sua própria criadora. Em poucas palavras, que Deus — o Deus material e espiritual — agora existe unicamente na matéria e no espírito difundidos do universo, e a nova reunião dessa matéria e desse espírito difundidos não será senão a reconstituição do Deus puramente espiritual e individual. (…) Tenha em mente que tudo é vida — vida — vida dentro da vida — o menor dentro do maior, e tudo dentro do espírito divino. (…) Para que Deus possa ser total na totalidade, cada um tem de tornar-se Deus.”