À moda dos programas de tv que mostram o mundo visto do alto, nos proporcionando um olhar às vezes surpreendente da vida aqui embaixo, convido-os para uma visão de cima daquilo que hoje me parece incontornável sobre a nossa existência — o impasse a que chegamos com este modelo de civilização que construímos. O cenário desse sobrevoo são as relações pessoais e internacionais inauguradas após a II Guerra Mundial (1945) e seus agudos efeitos sobre a psique humana.
Parece evidente que todo ato individual produz repercussões sobre a coletividade, tanto quanto toda ação coletiva impacta sobre cada um dos indivíduos. Trata-se de uma via de mão dupla, um bumerangue existencial que, a partir de uma superestrutura(*) essencialmente distópica, adiciona desordem àquilo que já é disfuncional, a mente dos indivíduos e o conjunto da sociedade, dali transportando, de volta à superestrutura, renovados impulsos desordenadores — é o caos permanentemente retroalimentado.
Sempre foi assim, a bem da verdade — o contexto molda o homem, que molda o contexto. O que há de diferente nos últimos oitenta anos é o ganho exponencial na dinâmica desse processo. E o momento emblemático dessa aceleração foi a divisão do planeta em dois blocos tensionados pelo uso da energia nuclear para fins bélicos. Essa corrida por hegemonia patrocinou um inédito salto científico, mas igualmente gestou um novo paradigma psicossocial.
O salto se traduziu na expansão das fronteiras da linguagem matemática, bem como da física e da química, entre outras ciências, acompanhado (particularmente no bloco ocidental) do desenvolvimento de variadas tecnologias de aplicação civil, tendo como maiores consequências um inédito mercado de consumo de massas; um sentimento generalizado de prosperidade; e um ceticismo frente aos impactos ambientais que se seguiriam.
A euforia da parcela majoritária do bloco ocidental, o capitalista, confrontada com os obstáculos estruturais enfrentadas pelo bloco oriental, o socialista, ambos vencedores da II Guerra mas oponentes nesse novo momento geopolítico, esse confronto de realidades e expectativas impediu que as lideranças dos respectivos blocos enxergassem, além da ameaça ao meio ambiente, também estes desastres psicossociais a caminho: a hiperexposição da imaturidade dos indivíduos, o colapso das relações pessoais e a deterioração da vida em sociedade.
Do ponto de vista da psicologia social, o fruto podre dessa dinâmica geopolíticaeconômica foi a exacerbação do individualismo e a retomada, escancarada e intensa, das ideias extremistas predominantes nas primeiras décadas do século passado, que levaram o mundo aos horrores dos totalitarismos de direita (nazifascismo) e de esquerda (stalinismo). Elas haviam sido vencidas nos campos de batalha, mas nunca foram verdadeiramente extirpadas dos corações e mentes dos indivíduos imaturos, que sempre foram a maioria.
O advento da internet e das redes sociais foi o grande impulsionador das intolerâncias (produtos da imaturidade), nas primeiras décadas deste século XXI. Graças à instantaneidade na circulação de informações, e a seu alcance global, cultivamos uma ilusão de proximidade e empatia, quando, na verdade, nossas relações virtualizadas sempre foram em essência superficiais, inteiramente submetidas à imaturidade nunca superada da espécie e, portanto, volúveis, inconfiáveis, constituindo terreno fértil para a frustração e o fortalecimento do individualismo e do extremismo.
Faça-se estas perguntas: Quais de seus verdadeiros amigos, aqueles em que você de fato confia e dos quais recebe de volta empatia e solidariedade, têm origem no mundo virtual? Você tem certeza de que seus amigos virtuais de fato existem, ou são aquilo que dizem ser?
Voltemos ao sobrevoo. A agudização dos nossos problemas existenciais, até o ponto em que nos encontramos hoje, resulta do já referido sistema contraditório indefinidamente retroalimentado — a superestrutura impactando o indivíduo, que responde impactando a superestrutura —, do qual não temos tido forças para escapar. Nossa sina tem sido continuar dançando na borda desse precipício.
Ocorre que nos encontramos a caminho do cerne do Terceiro Milênio (**), e novos ganhos cognitivos se fazem necessários. Não podemos nos limitar, por exemplo, a praticar apenas a novíssima ideia de geoeducação — ou seja, apostar na conscientização dos indivíduos sobre a biodiversidade do planeta, com vistas a desenvolver a percepção do espaço geográfico e fortalecer a relação das pessoas com o meio ambiente — isto já não nos basta. É preciso buscar o amadurecimento espiritual da nossa espécie, traduzido no conceito e na prática de uma verdadeira cosmoinserção.
Não existe uma definição precisa, que eu conheça, sobre o que é e quais os modos de pôr em prática esse conceito. Este texto, naquilo que está a meu alcance, destina-se a propor um entendimento preliminar sobre essa ideia, à luz do que tenho exposto em meus livros — veja aqui —, e do que tenho publicado neste espaço virtual.
Para começar, tais reflexões não são exclusivamente minhas, insisto. Cada ser humano, do mais simplório ao mais sábio, é resultado de sua herança genética, da cultura em que está inserido, das circunstâncias pessoais, familiares, sociais e históricas que lhe coube viver, ou seja, da superestrutura de seu tempo, fatores que lhe proporcionam inclusive a ocorrência de clarezas intuitivas — insights, como bem define a língua inglesa.
O que penso e exponho, portanto, decorre de uma vida de experiências herdadas, mas também de aquisições obtidas através de leituras, observações, reflexões e percepções, exatamente como faz, poderia ou deveria fazer todo indivíduo na casca deste planeta. A particularidade (e aqui não se trata de um mérito, mas de uma obrigação) talvez esteja em que procuro submeter minhas ideias ao crivo da coerência lógica e da factualidade científica, confrontando-as com conhecimentos já consagrados, até que novas provas surjam em contrário.
A que se destina a cosmoinserção que defendo?
Em essência, seu objetivo é a conquista do conhecimento e a interiorização daquilo que verdadeiramente nos falta — a maturidade. Não apenas a maturidade de nos reconhecermos como integrantes e responsáveis (e não possuidores, exploradores e predadores) deste planeta, como defende a geoeducação; não apenas a maturidade de nos aceitarmos como indivíduos iguais e equivalentes (não obstante as diferenças tópicas que nos distinguem), como bem demonstrou o Socialismo Científico.
Essas ‘maturidades’ já estão suficientemente dadas, embora ainda sejam contestadas e/ou combatidas. O que importa agora é adquirirmos a sabedoria que decorre de compreendermos e aceitarmos o nosso pertencimento cósmico, ou seja, a nossa cosmoinserção.
O ponto crucial (e irônico) em que nos encontramos é que a compreensão e a aceitação desse pertencimento parece ser a chave, a derradeira peça que nos falta, exatamente para que conquistemos o conhecimento e a interiorização das duas outras ‘maturidades’ — a social e a planetária.
É como se estivéssemos empreendendo, às avessas, uma viagem em busca da redenção da nossa espécie. Primeiro, nos defrontamos com as necessidades materiais e, ao buscarmos sua superação, produzimos isto que hoje somos — uma civilização fracassada, assentada em privilégios e individualismo. Frente a este impasse, o que nos resta e cabe, agora, é darmos o primeiro passo rumo ao que poderíamos ter sido, se esse passo ainda nos for possível e desejável. Para isso pode servir este voo por sobre a tragédia dos nossos dias.
(*) Superestrutura é o conceito formulado por Karl Marx (1818-1883) para designar o conjunto de ideias, cultura, política e instituições (como leis, religião, arte) que “se erguem” sobre a base material/econômica de uma sociedade, sendo por ela influenciadas.
(**) O que se dará em 2.672, daqui a 647 anos, segundo dizem respeitados astrólogos.