A vida humana se reduz a um aglomerado de partículas subatômicas que formam átomos, que se juntam em moléculas, que se organizam em células, que constituem tecidos, que se agrupam para criar órgãos, os quais, providos de eletricidade bioquímica através de suas células, desempenham funções específicas e essenciais para o funcionamento geral do nosso organismo.
Isto é o básico.
Tendo chegado a essa compreensão dos elementos (quase) invisíveis de que somos compostos, regidos pelos princípios da física quântica, só nos resta aceitar que integramos, em essência, a mesma grandeza capaz de produzir ação, movimento ou calor, ou seja, a mesma energia presente em nosso sistema solar, em nossa galáxia e no Cosmos. Foi a isto que se referiu o astrônomo Carl Sagan (1934-1996), quando afirmou que somos “poeira de estrelas”.
Essa energia, que não pode ser criada nem destruída, é a mesma a que somos ligados ao nascer, e da qual somos desligados ao morrer. É aquela que determina a existência da nossa espécie, e que pode ser entendida como a mais aproximada expressão (para a nossa limitada capacidade cognitiva) do que denominamos espiritualidade, a corrente misteriosa e sutil que nos vincula ao Universo.
Este é o mistério.
Quando nos referimos a tal entidade, a energia, estamos falando do Uno, do Um a que todo conhecimento mais antigo já se referia, com menções encontradas na Suméria (3500 a.C.), no Egito Antigo (3000 a.C.) e na Grécia (1400 a.C.), trazida até os nossos dias, embora de forma corrompida (no sentido de “rompimento”), primeiro pela apropriação do enigma da vida (a morte), colocando-o a serviço da manipulação da insegurança dos indivíduos; depois, pelo progressivo deslumbramento científico proporcionado pelas facilidades tecnológicas desenvolvidas ao longo do caminho até aqui. E, finalmente, por esses dois fatores (manipulação e deslumbramento) operando em conjunto, que é o que temos hoje.
O deslumbramento garantiu o crescente domínio de conhecimentos úteis à via do prosseguimento (processos desencadeados desde o advento dos primeiros humanos, destinados a prover e aprimorar nossa condição física e mental), e assim bloqueou a possibilidade de nos entendermos como aquilo que somos, entes atômicos, moleculares, e celulares eletrificados. A manipulação do medo pelo cultivo da insegurança dos indivíduos se deu por caminhos mais tortuosos, pois não foi capaz (nem poderia!) de oferecer mais do que dogmas, crenças e vãs esperanças.
Ambas se complementaram, porém, produzindo o que temos: seres humanos dependentes dessa simplificação existencial deslumbrada e temerosa, afastados de nossa origem e essência, ignorantes de nosso pertencimento cósmico. Só não conseguimos fugir da morte — a inevitável finitude de nossa constituição orgânica. Esse é o fantasma que nos assombra desde sempre.
Para dissimulá-lo, nos dedicamos a chorar os mortos, em invés de celebrar o valor de suas transitórias existências e legados. E o fim de cada vida, ao contrário de significar o inevitável desligar de um indivíduo por essência finito, transformou-se em motivo de desespero pela consciência da iminente perda de nossos individuais privilégios de existir — privilégios nutridos por benesses proporcionadas através de um sempre mais sofisticado sistema de exploração de outros indivíduos, blá, blá, blá; blá, blá, blá.
Aqui mora o ridículo.
Neste terreno grassam as ideologias, os embates intermináveis por poder, de um lado centrado no acúmulo de riquezas, privatização e privilégios; de outro, na mobilização de vontades em prol da coletividade de indivíduos. Ambos tragicamente ineficazes e/ou risíveis, porque incapazes de nos levar ao bom desfecho. Incapazes porque deixam de considerar o básico (materialidade efêmera) e o mistério (espiritualidade imanente) do ser humano.
Se as ideologias não conseguem apreender a coexistência dessas duas vertentes, como assimilarão o fato de que nossa espécie é um caminhante solitário e angustiado de uma senda sutil e imprevisível? Se cada indivíduo é uma insegurança em si, e se nos interditam o direito de desenvolver nossa maturidade — que se define na consciência de nossa existência cósmica, a tal convergência matéria-espírito —, como é possível vislumbrar (ou prometer) alguma esperança?
Aqui resta o ceticismo.
Para muitos, essas reflexões podem soar irrelevantes — e admito que o são, frente às dores físicas e/ou mentais que estejamos sofrendo —, mas não nos deixemos enganar. Tenhamos a humildade de reconhecer que somos apenas isto: um aglomerado de átomos energizados por elétrons, com prótons específicos em seus núcleos, protagonizando um mistério que insistimos em ignorar.
A escrita é a grande invenção. Foi a escrita, na verdade, aquilo que transformou um certo ser irracional em humano, esta espécie que domina o planeta para o bem e para o mal. Com a escrita, apenas, este blog se propõe a analisar e opinar sobre alguns dos principais temas da atualidade, no Brasil e no mundo, como qualquer cidadão faz ou deveria fazer. Meu nome é Oswaldo de Mello. Sou jornalista.