Sinto informar-lhes, mas a “democracia” não nasceu na Grécia, nos anos 500 a.C. Até onde já sabemos, formas democráticas de governar cidades já haviam sido postas em prática na antiga Suméria (4000 a.C.), no sul da Ásia (2600 a.C.), na China (2000 a.C.) e só então na cidade-estado de Atenas, seguida por Teotihuacan, o “Lugar dos Deuses”, entre 100 a 600 d.C. (região onde surgiria o México).
Essas informações se encontram no livro “O Despertar de Tudo - Uma nova história da humanidade”, em que David Graeber e David Wengrow se propuseram a enfrentar a interpretação da História estabelecida em 1651, por Thomas Hobbes (em “Leviatã”) e em 1754 por Jean-Jacques Rousseau (em “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens”).
Hobbes, tido como “fundador da teoria política moderna, afirmou que, sendo os seres humanos as criaturas egoístas que são, a vida num Estado de Natureza original nada tinha de inocente: pelo contrário, devia ser ‘solitária, pobre, sórdida, brutal e curta’ — na prática, um estado de guerra, com todos lutando contra todos. Se houve algum progresso em relação a esse estado de coisas, em grande medida foi exatamente por causa dos mecanismos repressivos, que Rousseau viria cem anos depois a condenar: governos, tribunais, burocracias, polícia”, explicam Graeber e Wengrow.
Já Rousseau disse que “antigamente, éramos caçadores-coletores e vivíamos por muito tempo numa condição de inocência infantil, em pequenos bandos. Esses bandos eram igualitários, justamente por serem pequenos. Foi só depois da ‘Revolução Agrícola’, e ainda mais depois do surgimento das cidades, que essa feliz condição se desfez, dando origem à ‘civilização’ e ao ‘Estado’ — o que também significou o aparecimento da literatura, da ciência e da filosofia escritas, mas, ao mesmo tempo, de quase tudo de ruim na vida humana: patriarcado, exércitos permanentes, execuções em massa e burocracia”.
É no confronto a essas duas visões que o “O Despertar de Tudo” trabalha, “reunindo evidências que vêm se acumulando nas últimas décadas na arqueologia, na antropologia e disciplinas afins, e que apontam para uma explicação totalmente nova do desenvolvimento das sociedades humanas nos últimos 30 mil anos”, dizem os autores da obra que, a meu ver, revoluciona a chamada teoria política.
A única questão pendente, no entendimento de Graeber e Wengrow, e também na minha visão por várias vezes aqui exposta, é o quanto esse tema pode interessar às pessoas deste nosso tempo politicamente errático, socialmente caótico, espiritualmente imaturo. Nesse caldo de inseguranças pessoais e coletivas, qual a importância sobre onde e quando surgiram e se exercitaram formas democráticas de governo?
Aparentemente, nenhuma importância. Mas na verdade muita, porque o fato de os humanos virem desde os seus primórdios organizando-se politicamente sem submissão hierárquica, mas buscando sistemas equitativos de autogoverno, reforça a compreensão de que, ao contrário do pensamento comum, o que erigimos ao longo de 30 milênios foi de fato uma anti-civilização.
Reconhecer um erro, como já diz a sabedoria popular, é o primeiro passo para o crescimento, a mudança e o aprendizado. É um ato de humildade e maturidade que permite evitar prejuízos maiores, aceitar as próprias falhas e, a partir delas, tomar novas decisões e corrigir o rumo. O que há de mais importante a fazer, neste momento da História, se não promovermos essa autocrítica? Isto é o que mais interessa neste instante!