Estão cada vez mais claros os sinais de que a existência deste indivíduo biologicamente constituído, cuja História teria se iniciado quando ele se pôs de pé, há 300.000 anos; de que a continuidade deste ser de carne, ossos, nervos e cognição pode estar com seus dias contados.
Sim, precisamos nos indignar, protestar nas redes sociais, nos ambientes institucionais, nos fóruns multilaterais, nas ruas do planeta, mas, principalmente, precisamos agir. Mais do que nunca, agir. E estamos agindo.
Tenho ouvido falar de meritórias iniciativas comunitárias que têm ocorrido no exterior, em particular nas nações do chamado Primeiro Mundo. As pessoas mais esclarecidas desses poderosos países estão se unindo, voltando a se comunicar analogicamente, olho no olho, em busca de alternativas para confrontar a distopia que vem se instalando na Terra.
A espinha dorsal desse trabalho, e não poderia ser diferente, é o fortalecimento da via institucional. Essas pessoas sabem que não reúnem força econômica, e muito menos bélica, para confrontar a monstruosidade em curso, qual seja: a singularidade informacional, o momento em que as máquinas serão capazes de mimetizar e superar em muito a cognição humana, transformando-nos em meros coadjuvantes de seus desígnios supremacistas.
Não nos enganemos, não estamos mais no campo da ficção científica. O que nos separa desse momento distópico não é mais a dificuldade tecnológica, essa está disponível, ou teoricamente resolvida e em acelerado processo de concretização — recursos para isso existem, sejam de governos hegemônicos, sejam de megacorporações, ou, com certeza, dos dois juntos.
O que ainda não está plenamente resolvida é a questão geopolítica, ou seja, qual dos dois blocos de poder mundial — Ocidente ou Oriente — vencerá essa corrida. Não se engane, nenhum dos lados está interessado em contemporizar. Ambos correm para estabelecer a dianteira nessa tecnologia, indiferentes aos alertas (e evidências) de que, uma vez instalada, ela própria assumirá o controle de seus objetivos e ações. Será autônoma e inexpugnável.
No mundo existencial, vivemos a era da imprudência. Para fazer frente a esse capítulo decisivo da História, só nos resta enfrentar o monstro pelas vias institucionais que restam, enquanto essas vias não estão completamente manipuladas. Só nos cabe contribuir para esclarecer mais pessoas, próximas ou distantes, de que é preciso votar, daqui para frente, em candidatos comprometidos com o futuro humano da Terra. Em toda a qualquer eleição; na sua cidade, no seu estado, no seu país, em todo o mundo é imperativo que as pessoas estejam atentas em quem votar.
O dístico Ser humano importa! tem de estar no discurso, nas ideias, nas práticas, estampado nos materiais de campanha dos melhores candidatos; esses serão os nossos escolhidos, esses serão os guardiões da Humanidade, em todas as instâncias de poder. Quem não o ostentar no peito não merece o nosso voto, pois são nossos inimigos, inimigos da espécie humana.
Em 1953, o pensador italiano Pietro Ubaldi (1886-1972) escreveu no livro “Profecias” a sua visão do futuro possível e desejável, à qual já me referi em texto anterior. Disse ele:
“Dado que a vida é sempre luta contra algum inimigo que obstaculiza a emancipação, desta vez o inimigo não será mais o próprio semelhante que vamos agredir, mas a nossa própria natureza animalesca, para superá-la e vencê-la. Como se vê, guerra contra ninguém, mas apenas contra as inferiores leis da vida, que ainda sobrevivem no homem, com o fim de sobrepujá-las. A emancipação da animalidade — eis a nova conquista; ou seja, um ‘requintamento’ de vida, não só na forma de fidalguia exterior, mas na substância, que é uma atitude psicológica de compreensão para com o próximo, de ordem na vida social, de bondade para com todos os seres. Embora tudo isso possa parecer utopia, não há outro futuro, se quisermos que haja verdadeiro progresso. Esta é a nova ordem do mundo.”
Ubaldi nos apontou o caminho, mas não poderia ter antecipado, naqueles anos imediatamente pós II Guerra, a distopia tecnológica e desumanizante que hoje se aproxima. Nesta terceira década do século XXI já sabemos, sem dúvida, que os homens e as máquinas que projetam o fim da humanidade são os nossos maiores e definitivos inimigos.
arquivo.Mello
A escrita é a grande invenção. Foi a escrita, na verdade, aquilo que transformou um certo ser irracional em humano, esta espécie que domina o planeta para o bem e para o mal. Com a escrita, apenas, este blog se propõe a analisar e opinar sobre alguns dos principais temas da atualidade, no Brasil e no mundo, como qualquer cidadão faz ou deveria fazer. Meu nome é Oswaldo de Mello. Sou jornalista.
Ser humano importa!
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