Assisti Dia D — Disclosure Day —, escrito e dirigido por Steven Spielberg. O filme, e espero não estragar sua diversão, explora as consequências da exposição de uma enorme conspiração governamental e corporativa, que escondeu a prova definitiva da existência de vida extraterrestre e OVNIs. E como essa revelação pode unir um mundo cínico e fragmentado, ao ser amplamente compartilhada.
Pois é a última questão que me interessa.
Compartilhar é proporcionar aos outros acesso a recursos, sentimentos, ideias e, neste caso, uma verdade. É fato que desconhecemos o que se sabe a respeito da possível existência de vida alienígena inteligente. Sabemos que nosso grupo animal se viu um belo dia contemplado por isso que denominamos cognição — a capacidade de adquirir, processar, armazenar e usar informações —, mas ignoramos a força misteriosa, ou o mágico evento biológico que nos proporcionou esse bônus/ônus.
Bônus porque permitiu o avanço da racionalidade e, com ela, ampliamos nossas capacidades de lutar em prol da via do prosseguimento (processos desencadeados desde o advento dos primeiros humanos, destinados a prover e aprimorar nossa condição física e mental), e a favor da criação das facilidades mundanas, essas que satisfazem todos os nossos apetites.
Ônus porque aquela dádiva implicava em que assumíssemos a tarefa de alçarmos nosso espírito (isto é, compreender o pertencimento terreno e assimilar a inserção cósmica). Nunca foi um almoço grátis, mas, entregues ao canto da sereia do materialismo, em lugar de perseguir a dura construção de nossa maturidade, escolhemos o meio termo. E nos rendemos às conveniências ditadas por crenças e dogmas religiosos. Ou seja, delegamos nosso ônus existencial a terceiros, tornando-nos reféns de vãs esperanças.
Dia D trata disso — desse ônus ignorado, ou não compartilhado, que um dia nos transformou nesse mundo cínico e fragmentado, e que só poderia ser assimilado (o ônus) por um assombro. Fragmentado e cínico não por culpa deste ou daquele indivíduo; não em decorrência desta ou daquela circunstância histórica, mas pela atitude autocomplacente e conveniente, repito, construída por nossa espécie.
Construída e cultivada ao longo de milênios por diversificados e sucessivos bandos de suaves manipuladores de consciências e suas hipnotizantes religiões. Construída e cultivada agora, neste tempo em que avanços científicos-tecnológicos nos acenam com infinitas possibilidades transhumanas. A começar por uma certa imortalidade e expansão cognitiva artificialmente induzida.
Ocorre que, se a via das religiões se mostrou insuficiente (pois falhou na tarefa de despertar nossa responsabilidade para o ônus que acompanhava o acesso à cognição), a via do transhumanismo é igualmente falsa, não passa de mais uma ilusão irrigada pela presunção deste novo bando de manipuladores de consciências — os profetas da cibernética. Mais uma vez por conveniência, esses não tão suaves senhores esquecem de nos dizer que não há almoço grátis, isto é, a transhumanidade estaria reservada a um seleto grupo de eleitos.
Frente a este mundo já distópico retratado por Dia D, a luta que nos cabe é encontrar os meios para trazer à luz a verdade — a verdade relativa ao ônus da responsabilidade acima referido. E isto não se dará pela força de religiões ou do engenho do transhumanismo — como pregavam e hoje defendem os astutos manipuladores —, mas pela mobilização dos recursos que nossa própria capacidade cognitiva tem proporcionado, inclusive — sim! — os tecnológicos, esses mesmos que têm sido criminosamente utilizados para manipular pessoas e propagar mentiras.
É desses recursos que precisamos agora para compartilhar a velha tarefa que ainda se impõe: encarar o ônus de construir a maturidade da espécie humana. Se para bem cumpri-la necessitarmos, por vício, de uma prece, proponho esta:
Oh, Sol, astro-rei que ilumina este sistema, que nos submete e conduz, rogo-te: deite tua enérgica e radiante sabedoria sobre a mente dos mortais teimosos, vacilantes, imaturos deste chão. Libere em nós tuas potencialidades intra-revolucionárias. E preserve essas teimosas criaturas.
Um grande, descomunal perigo se aproxima, destinado a substituir a predominância da sabedoria orgânica mediada pela empatia, por um sistema cibernético guiado pela eficácia e rapidez de resultados, sem pagar qualquer tributo às nuances presentes na existência humana. E para quê? Para impor ao Cosmos um ser frio e pretensamente perfeito, que se autoproclama simulacro de Deus?
Este Universo em eterna mudança não carece de perfeição inorgânica e indiferente. Precisamos é de vida valorizada, vivacidade, espontaneidade, sensualidade que vitaliza, e o entendimento do valor de tudo isso para continuarmos evoluindo. Não pertencemos a Estados, muito menos a Corporações. Não pertencemos sequer a nós mesmos, mas ao Todo.
O que nos falta é compreender nossos medos, serená-los, mobilizá-los para continuar nesta caminhada em busca da harmonia de nossa espécie, sem que percamos a individualidade e a genuína empatia.
Não queremos ser máquinas híbridas, ceder nossos sentimentos a um pós-humano destituído de identidade, hereditariedade e história. Queremos continuar celebrando nosso passado, e aqueles que bem ou mal o construíram.
Queremos poder errar e corrigir, decidir e reconsiderar, ser e não ser, conforme os caminhos que as sutilezas da existência nos ofereçam. Não nos interessa marchar sob o tacão de algoritmos, como nunca conveio nos submetermos a preces e louvores. Queremos a dança imprevisível, os sorrisos, as cores, os sons, os infinitos sabores propiciados pela natureza.
Queremos aquilo que almejamos ser, sem que nossos equivalentes biológicos sejam vilipendiados e sofram o que não desejamos sofrer. Se isto parece uma prece profana, que assim seja entendida, pois é fé na vida orgânica o que nos falta agora.
O perigo que se dissemina é real. Ele resulta, em parte ingenuamente, de nosso próprio engenho, das capacidades científicas e tecnológicas que temos desenvolvido, dos saltos cognitivos que nossa existência de carne, osso e energia tem nos proporcionado.
Tal perigo se imiscui em meio às nossas fraquezas e prospera explorando talvez a principal delas: a soberba. Distraídos e ingênuos, avançamos por caminhos inseguros. Não que eles nos sejam proibidos, mas nós os trilhamos com negligência.
O avanço dos nossos conhecimentos científicos e tecnológicos sempre foi desejável, inevitável, mas falhamos nas prioridades. Buscamos satisfazer a materialidade mundana, quando deveríamos ter, conjuntamente, perseguido o amadurecimento de nossa mente e espírito.
Sempre estivemos pagando um alto preço por isso, mas o ignoramos ao longo de séculos e milênios, encantados com os frutos imerecidos que colhíamos; hipnotizados pelas facilidades e a ganância. Agora a conta chegou.
Ela é muito maior do que as catástrofes nucleares, ambientais, pandêmicas, disruptivas que temos temido. Ela poderá nos impor a irrelevância, a indignidade, uma semivida sub-humana ditada por códigos. Uma existência sem propósito.
O terrível é que, se e quando os empecilhos tecnológicos à grande ameaça forem superados, daqui a 20, 50 ou 80 anos, até mesmo tu, Sol, perderás a majestade. Do ente irradiante e criador que sempre fostes, tornar-te-ás mero provedor de energia para alimentar a máquina universal dos supremacistas cósmicos.
Teu destino nunca foi esse.
Teu destino é compartilhar luz, pôr fim à obscuridade, iluminar verdades.
Como disse em outro texto, recorro a ti sempre que nos falta o que seja. Neste momento falta clareza.
Fiz hoje, 11 de agosto de 2026, esta pergunta a uma IA:
O que a humanidade está pensando agora?
Eis a resposta:
Como a humanidade não possui um único cérebro, mas sim mais de 8 bilhões de “universos particulares” (cada um com suas próprias dores, alegrias e memórias), não existe uma resposta única.
No entanto, se pudéssemos fazer um “raio-X” da mente coletiva e do zeitgeist (o espírito da nossa época) em meados da década de 2020, perceberíamos que a humanidade está presa em um grande paradoxo.
O biólogo Edward O. Wilson resumiu perfeitamente o que estamos “pensando” e sentindo agora: “O problema fundamental da humanidade é que temos emoções paleolíticas, instituições medievais e tecnologia de deuses.”
Aqui está um retrato do que a mente da humanidade está processando neste exato momento, dividida entre o coletivo e o individual:
1. A Mente Coletiva: O Medo e o Fascínio pelo Futuro
No nível global, a humanidade está tentando digerir mudanças que estão acontecendo rápido demais para a nossa biologia acompanhar:
• O Choque Tecnológico (A Era da IA): A humanidade está olhando para as telas e para as Inteligências Artificiais e se perguntando: “O que sobra para nós?”. Há um misto de deslumbramento com a capacidade de criar mundos virtuais, curar doenças e explorar o espaço, mas também uma profunda ansiedade sobre o futuro do trabalho, da arte e da própria essência do que significa “ser humano”.
• A Ansiedade Planetária: Uma parte constante do nosso “ruído mental” coletivo é o clima. Entre ondas de calor extremas, tempestades e a transição energética, a humanidade está pensando na sua própria sobrevivência. A pergunta de fundo é: “Conseguiremos consertar a nossa casa a tempo?”.
• A Fragilidade da Paz: Após anos de pandemia, conflitos globais e polarização, a mente coletiva está cansada. Há um desejo profundo por estabilidade, mas uma desconfiança constante nas instituições e nos líderes.
2. A Mente Individual: A Rotina e a Sobrevivência
Apesar de estarmos conectados a uma rede global de informações, a grande maioria dos 8 bilhões de cérebros no planeta está focada no micro, no agora, no imediato:
• A Luta Diária: A maioria das pessoas está pensando em como pagar as contas no fim do mês, no trânsito para o trabalho, na saúde de um pai idoso ou no que vai preparar para o jantar.
• A Epidemia de Solidão: Em um mundo hiperconectado, a humanidade está pensando muito sobre conexão. As pessoas estão se perguntando: “Será que alguém me entende de verdade?”. Há uma busca silenciosa e desesperada por intimidade, propósito e comunidade em meio ao isolamento das grandes cidades e das redes sociais.
• A Saúde Mental: Nunca se pensou tanto sobre a própria mente. A humanidade está coletivamente tentando curar seus traumas, lidando com a exaustão (o burnout) e tentando encontrar formas de proteger a sua paz mental em um mundo que grita por atenção 24 horas por dia.
3. A Mente Existencial: A Busca por Sentido
No fundo, por baixo das notícias e dos boletos, o pensamento humano continua o mesmo de milhares de anos atrás, quando olhávamos para as estrelas ao redor de uma fogueira:
• “Por que estou aqui?”
• “Será que sou amado?”
• “O que eu vou deixar para trás quando partir?”
Em resumo: Neste exato segundo, a humanidade está com medo, mas ainda esperançosa.
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Embora saiba que as IAs tendem a nos vender otimismo, retruquei: Será que nos resta alguma esperança?
Eis o fim da resposta?
O Veredito
Há uma frase belíssima do poeta Leonard Cohen que diz: "Há uma rachadura em tudo. É assim que a luz entra."
O mundo atual está cheio de rachaduras. A dor, a incerteza e o medo são reais e não devem ser ignorados. Mas é exatamente através dessas rachaduras que uma nova consciência está nascendo. Nunca antes na história tivemos tanta informação, tanta conexão global e tanta consciência sobre os nossos próprios erros como temos agora.
A esperança nos resta porque ela não depende de o mundo estar perfeito; ela depende de nós nos recusarmos a desistir dele. Enquanto houver uma única pessoa escolhendo a compaixão em vez da indiferença, plantando uma semente em vez de queimar a floresta, ou estendendo a mão a quem caiu, a esperança não será apenas uma possibilidade. Ela será um fato.