Onde está a verdade do mundo? As relações sociais agora baseadas em ódio e desconfiança, o velho discurso político manipulador, os novos instrumentos de controle corporativo alcançaram, todos juntos e associados, patamares de tamanha sofisticação, violência e cinismo que nos afundaram a todos, o conjunto dos indivíduos irrelevantes do planeta, neste oceano de entropia onde desperdiçamos a totalidade de nossas energias físicas e mentais em prol de pouca coisa, ou quase nada.
Não há mais lado para onde olhar. Os exemplos, que sempre foram escassos e enganosos, definitivamente deixaram de existir. E, no entanto, a verdade do mundo está exposta em todo lugar, escancarada para quem a quiser ver, inclusive na moderna produção cinematográfica. Não como representação farsesca, caricata, apenas destinada a nos divertir, mas como aquilo que ela de fato é: o espelhamento real, duro e trágico desta civilização. Acompanhe, por exemplo, esta sequência retirada de uma série inglesa — um dos trabalhos a que tenho me dedicado, aqui —, disponível em streaming:
O homem de confiança de uma tradicional família de gangsters se reúne com o filho do decadente patriarca, para adverti-lo sobre as consequências da traição que acabara de cometer contra seu pai, movida pela ambição de assumir o império mafioso:
—Nós estamos prestes a sermos aniquilados. K.P.M. vai nos devorar, pedaço por pedaço. A máfia dela tem oito trilhões em dinheiro vivo e o maior arsenal nuclear do mundo. — ele alerta.
A cena muda para o evento de apresentação da nova embaixadora dos EUA na Inglaterra, que é anunciada pelo anfitrião:
—E agora, é com grande prazer que dou as boas-vindas a...
Uma senhora alta, magra, de cabelos brancos curtos, discretamente apoiada numa bengala, põe-se à frente da plateia e, após cumprimentar os presentes, sob aristocráticos aplausos discursa:
—Foi Joseph Kennedy sênior, um irlandês-americano como eu, que em 1938 esteve neste mesmo palco como recém-nomeado embaixador dos Estados Unidos. Assim como ele, eu nasci e cresci em Boston. (…)
Após sua breve fala, K.P.M. recebe em particular a filha bastarda do gangster decadente, aquele que vem sendo traído pelo filho mais velho, dela ouvindo pedido de apoio para seu próprio projeto de assumir o legado da família, em oposição ao irmão, este filho legítimo, a quem considera um fraco. A nova embaixadora, do alto de sua arrogância, resume a situação:
—Então você quer que eu use minhas conexões, riqueza, poder, experiência, conhecimento, para colocar você, a ambiciosa, no trono. Primeiro, preciso descobrir se a filha dedicada tem coragem de passar a perna no papai. Se tiver, talvez fechemos negócio. Se não tiver, não.
—O que você quer? —pergunta a moça.
—Metade de toda a receita dos negócios da família, sem exceção, por cinco anos. Depois você estará livre.
Após rápida negociação, o prazo é reduzido para quatro anos. A filha bastarda se retira e um novo personagem é conduzido até K.P.M. Trata-se de T., um policial inglês corrupto, calvo, de baixa estatura, sorriso irônico, a quem ela concede apenas um minuto.
Ele começa:
—Primeiro, eu gostaria de dizer o quanto gostei do seu discurso. Joseph Kennedy era um pirata. Ele veio para estas terras para juntar dinheiro para financiar as ambições políticas de sua família [Seu filho mais famoso foi John Fitzgerald Kennedy, 35º presidente dos EUA] . Ele comeu com todos os chefões da máfia em Londres. E, por meio de favores, coerção e astúcia, fez alianças com alguns dos vilões mais nefastos que Londres já viu. Não é segredo que você, Sra. M., seja herdeira de uma família lendária e infame de mafiosos de Boston.
—Seu minuto... —ela avisa.
T. prossegue, sempre sorrindo:
—Você veio aqui ganhar um bilhão de libras e voltar para casa com o tesouro. Eu posso te ajudar com isso. Agora, dado o seu status de embaixadora, você não pode ficar se misturando com vilões, vasculhando cada canto para descobrir o que está acontecendo. Não. O que você precisa é de um paladino, um cavaleiro corajoso para ir à batalha por você, como a rainha Elizabeth tinha Francis Drake... Não seria eu, não sou esse paladino, sou um facilitador, um mero intermediário que, mediante um pagamento, conecta pessoas. E por esse pagamento encontrarei para você o seu paladino, um criminoso em ascensão tão inteligente, implacável, astuto e violento quanto seus ilustres antepassados. Daqui a cinco anos, esse homem governará Londres com a sua ajuda. E, como tal, ele será seu. (…) Você terá seu tesouro, e a vida continua.
T. sorri com cinismo, e ao encerrar seu minuto retira do bolso do casaco um cartão com telefone, que deixa sobre a mesa. Despede-se, sempre sorrindo:
—Boa noite, Sra. M.
K.P.M. está calada, o olhar fixo no interlocutor. Quando T. se encaminha para a saída, a nova embaixadora dos EUA na Inglaterra esboça sutil movimento de cabeça, enquanto seus olhos parecem piscar e o lábio inferior alceia, sugerindo aceitação à proposta que acabara de ouvir, e desdém por seu autor.
Esse, repito, é um episódio ilustrativo de que o pulso do nosso tempo também está em filmes, séries e documentários exibidos nos streamings acessíveis em seu smartphone, laptop, desktop ou smart TV. Mediante pagamento de assinatura, sim, mas não se engane, consumir informação hoje é tão vital quanto ingerir alimentos e ter onde morar. E fique atento: nem tudo o que você assiste, vê e ouve é diversão descompromissada; muitas vezes também é, e principalmente, o retrato fiel dos descaminhos de nossa civilização. A arte tem esse dom. Ela não é só manifestação estética, mas também ética, política, existencial.
arquivo.Mello
A escrita é a grande invenção. Foi a escrita, na verdade, aquilo que transformou um certo ser irracional em humano, esta espécie que domina o planeta para o bem e para o mal. Com a escrita, apenas, este blog se propõe a analisar e opinar sobre alguns dos principais temas da atualidade, no Brasil e no mundo, como qualquer cidadão faz ou deveria fazer. Meu nome é Oswaldo de Mello. Sou jornalista.
O dom da Arte
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