Inseguros, deixamos de vencer

Começo apresentando minhas (des)credenciais.

Embora tenha atuado a vida toda em Comunicação (propaganda, jornalismo e, por fim, assessoria de imprensa), só eventualmente, e muito mal, trabalhei na área de futebol. Não sou, portanto, especialista em táticas. Enxergo toda modalidade esportiva como resultante da qualidade técnica de seus praticantes, de sua condição física, mas principalmente, e acima de tudo, do estado mental e emocional dos atletas. Ah, sim, desde o começo da adolescência torço para aquele que melhor jogou futebol no mundo, o Santos Futebol Clube, time que hoje atravessa uma fase lamentável devido basicamente à perda de sua identidade.

Ou seja, não possuo as credenciais corriqueiras para analisar o jogo de ontem, 5 de julho de 2026, em que a seleção brasileira perdeu para a norueguesa, e se viu fora da Copa do Mundo. Não as possuo, mas vou palpitar, pois acima de tudo sou um torcedor de futebol — e já revelei isto em textos anteriores, por exemplo: O futebol nos enobrece 
 e, como todo brasileiro, tenho o direito de dizer o que penso sobre essa eliminação.

Principio, à moda de Torquato Neto, desafinando o coro dos (des)contentes: não foi a Noruega que venceu esse jogo, mas o Brasil que deixou de ganhar. Isso me parece óbvio, pois deixamos de converter um pênalti logo no início; criamos inúmeras oportunidades de marcar ao longo de toda a partida, falhando nos momentos decisivos; nosso adversário nunca de fato nos ameaçou, embora tenha ficado trocando bolas para lá e para cá em seu próprio campo; e tivemos a sabedoria de não partir voluntariosamente ao ataque, deixando nossa defesa desguarnecida, sujeita a lançamentos em direção ao principal atacante do time adversário, um indivíduo alto, forte, rápido, ágil, habilidoso e exímio fazedor de gols, como todos já sabem.

Aquele mesmo indivíduo que, em dois momentos de descuido, venceu nossos defensores e, com uma cabeçada precisa e um chute certeiro, fez aquilo que todos sabiam que ele faria, e tem feito em seu clube e na seleção de seu país.

Por quê afirmo que deixamos de ganhar (em vez de termos sido derrotados)? Objetivamente, porque não aproveitamos as chances que criamos, é claro. Mas essa incapacidade se deveu, ou se deve, a quê? Aí é que está o x da questão.

O fato é que nossa equipe, individual e coletivamente, nunca esteve equilibrada nos aspectos mental e emocional, o que para mim, um completo idiota em táticas e estratégias futebolísticas, é condição essencial, determinante. Há décadas, desde que o futebol ganhou o status de esporte mais popular do planeta — aquele em que seus atletas saem da miséria, ou de uma existência de padrão mediano, para uma vida de glamour e fortuna, que coincide com a explosão das comunicações de massa, agora globalizadas via rede mundial de informática — desde esse momento os atletas brasileiros nunca estiveram devidamente preparados, mental e emocionalmente, para qualquer disputa de extremo nível de exigência.

Exceção feita a alguns poucos momentos de brilho, decorrentes de nossa reconhecida habilidade física para a prática desse esporte (diz-se que devido à elasticidade de nosso biótipo, resultante da miscigenação das raças que nos constituem), tudo o que temos experimentado são renovadas frustrações.

Ah, questionarão alguns, mas o Brasil venceu as Copas de 1958 (Suécia),1962 (Chile), 1970 (México), 1994 (Estados Unidos), 2002 (Coreia do Sul e Japão). Sim, mas até 2002 o mundo não havia mergulhado nesse processo de dispersão de povos latinos e africanos pelo mundo, provocada por perseguições, guerras, desastres ou migrações forçadas. Ou pelo menos suas consequências ainda não haviam se manifestado.

Essa diáspora estabeleceu um novo patamar para a prática de futebol profissional planeta afora (pois as seleções hoje estão mescladas, ou às vezes dominadas, por atletas originários das mesmas regiões que produziram a magia do futebol latino-americano e brasileiro, em particular), tanto quanto tem sido fundamental, e crescente, a importância do preparo físico, da alimentação, da medicina esportiva e de todos os novos equipamentos e recursos utilizados por essa modalidade.

O Brasil ficou para trás? Sim, especialmente quanto ao condicionamento mental e emocional. Não se disputa uma Copa do Mundo tendo como motivação determinante a conquista ou a manutenção da fama e/ou a obtenção de riqueza. Numa competição como essa, a única razão de ser e jogar é a reafirmação de nossas próprias raízes, o nosso caráter, aquilo que nos distingue como povo. 

A culpa não foi daquele jogador que perdeu o pênalti, nem de cada um dos que deixaram de marcar os gols que pareciam inevitáveis a nosso favor — e foram muitos. Falhamos (e temos falhado há décadas) porque não fomos determinados. 

Distraídos e inseguros, deixamos de vencer.