Confesso: impaciente com a indiferença em entender, aceitar e praticar a espiritualidade faltante à nossa espécie (a que se define por nosso pertencimento terreno e inserção cósmica, diversa dessa que se vincula a credos, religiões, e promove a discórdia); ansioso por ver isso finalmente acontecer, pois o tempo que nos resta é curto, penso que deixei de enxergar o que se passa nos substratos da sociedade urbanizada, neste exato momento de nossa caminhada civilizacional.
Em minha defesa, argumento que essa cegueira decorreu de um sincero desespero existencial frente ao desastre em curso — gestado ao longo desses milhares de anos, desde que nos pusemos de pé, desenvolvemos um sistema nervoso e adquirimos poder cognitivo —, que se amplifica sob a dinâmica caótica de uma sociedade dominada pela cibernética. O desespero é pelo adiamento daquilo que se impõe: o incontornável amadurecimento de nossa espécie.
A grande notícia — essa que admito não ter percebido com clareza, antes — é que a evolução espiritual, condição primeira para alcançar nosso amadurecimento, já está em curso — não na velocidade que eu gostaria, mas, sim, já está em curso. Se atentarmos para os sinais, é possível perceber que ela se move. Não exatamente na superfície dos embates públicos, mas a partir e por dentro da teia social contemporânea, o que talvez seja mais efetivo.
Como se trata de uma verdadeira mudança de paradigmas mentais, a mais importante que poderíamos alcançar, seus efeitos, repito, se disseminam de forma lenta, sem método, sem cartilha, espontaneamente, embora consistente, natural e — aqui está o mais bem guardado segredo! — sem risco de ser impedida, porque não forma uma estrutura institucionalizada — esta é sua chance de efetividade. Ninguém detém a força coletiva, ainda mais se ela é espontânea e se realiza como um elã vital (a energia invisível, no conceito de Henri Bergson), sem donos, nem lideranças definidas.
Por exemplo: parece que os arquétipos do dinheiro (o guerreiro) e do exibicionismo (a vaidade), que se estabeleceram exponencialmente nas primeiras décadas deste século, agora vêm se enfraquecendo no inconsciente coletivo planetário: a queda em um terço nas postagens de selfies e fotos de viagem nas redes sociais reflete uma mudança de comportamento em que o sigilo digital virou símbolo de status, a busca por experiências reais substituiu a pose ensaiada, e a preocupação com a segurança pessoal aumentou, nos informa a própria internet.
Mais: cresce o número de indivíduos que vêm deixando de frequentar igrejas e templos. Em âmbito global, a população sem afiliação religiosa cresceu para 1,9 bilhão de pessoas (cerca de 24% da população do planeta), a maioria na faixa dos 18 aos 34 anos, com perdas mais acentuadas para o cristianismo e o budismo. Essas pessoas, que se declaram ‘sem religião’ ou ‘desigrejados’, não necessariamente deixam de crer em Deus, mas, cada uma a seu modo e ritmo, optam por uma vivência espiritual individual, fora das instituições tradicionais.
Desobrigadas de dogmas e crenças, passam a encarar a qualidade de suas existências como resultante de suas próprias escolhas. Muitas (quantas?) são críticas da vida acelerada ditada pelo exibicionismo digital, das relações excessivamente virtualizadas, da dependência tecnológica. Não que rejeitem as tecnologias, mas as têm submetido cada vez mais a seus interesses e estritas necessidades; querem sentir e saber que suas existências tiveram, têm e terão valor; anseiam por conquistas palpáveis.
São verdadeiros revolucionários existenciais, a maioria desconhecedores de seu próprio revolucionarismo. Provavelmente ainda não são muitos; não estão todos no mesmo diapasão de consciência, mas são firmes, cada um a seu modo, repito, na convicção de que as relações humanas estão enfraquecidas, desprezadas, e que mudar isso não depende de ideologias ou da ação política, mas de decisões pessoais, íntimas. Interagir superficialmente com outros indivíduos, de forma material, utilitarista, já não lhes basta. Querem propósito.
O crescente exército contra este tempo de fastio pelas riquezas e pelas facilidades luta, primeiro, em prol da sinceridade. Eles não se impõem, dão exemplo sem vanglória. Não projetam desejos e frustrações, vivem a realidade. Não praticam altruísmo, são solidários. Não distribuem afagos, encorajam os circunstancialmente fracos. O que contribuiu para despertar esses neo partisani — que ironia! — foram os excessos praticados pelo mundo virtual. É a cobra devorando a si mesma.
Confesso que mais percebo do que vejo tal ‘movimento’. Não penso que haja um propósito explícito por trás desse processo, mas espero que ele de fato exista, que não seja uma percepção desejosa de minha parte. A dificuldade de enxergá-lo, como já disse, é que ele não constitui um movimento estruturado — e talvez nunca o seja, pois é desnecessário. O fato é que essas pessoas, conscientemente ou não, estão vencendo a grande cegueira humana, aquela descrita por José Saramago.
Não estamos perdidos. Parece.
Evoé!
arquivo.Mello
A escrita é a grande invenção. Foi a escrita, na verdade, aquilo que transformou um certo ser irracional em humano, esta espécie que domina o planeta para o bem e para o mal. Com a escrita, apenas, este blog se propõe a analisar e opinar sobre alguns dos principais temas da atualidade, no Brasil e no mundo, como qualquer cidadão faz ou deveria fazer. Meu nome é Oswaldo de Mello. Sou jornalista.
Algo se move
Assinar:
Postagens (Atom)