Os indivíduos mais poderosos do mundo, no âmbito das tecnologias cibernéticas, são mentirosos em relação à qualidade da democracia que defendem; complacentes com os riscos das IAs que produzem e/ou utilizam; e subservientes às ideologias que multiplicam suas já imensas fortunas. A propósito, o valor combinado de Nvidia, Alphabet (Google), Apple, Microsoft, Amazon, Meta (Facebook, Instagram, WhatsApp, Messenger, Threads), X/Twitter e OpenAI ultrapassa os US$ 20 trilhões, ou seja, o equivalente a 61% do PIB dos EUA.
Apesar do poder que reúnem, principalmente o de influenciar governos, esses indivíduos não passam de um grupo de adolescentes envelhecidos, deslumbrados com seus lucros, acovardados frente a possibilidade, sempre latente, de que algum dia lhes comuniquem que a brincadeira acabou. O fato é que, seja do ponto de vista intelectual, seja do ético, nenhum deles está à altura do desafio deste momento histórico. Para ser exato, eles nem compreendem este momento.
Ouvi entrevistas de três desses indivíduos — não mais, pois todos pensam do mesmo modo. Foi uma tarefa desagradável, porque tive de pensar sobre as baboseiras que eles declaram para justificar suas existências e decisões. Além da, já esperada, arrogância imerecida, pois são uns energúmenos inflados por fortunas, o que sobra de suas respostas — dadas a entrevistadores em geral complacentes — é o suco dos preconceitos sociais — de classes, de raças e todos esses que nutrem o ódio presente nas redes sociais.
A covardia desses indivíduos está na forma, nos modos e nos trejeitos afetados com que tentam dissimular seus instintos perversos. A persona que buscam projetar não resiste à falsidade de suas expressões faciais; evidenciam-se no esgar de suas bocas, no dar de ombros em alguns momentos, na prepotência dissimulada projetada em seus olhos.
Eles defendem, por exemplo, que as ondas migratórias rumo aos países hegemônicos, iniciadas no começo do século XX, são ameaças culturais e econômicas a esses países, e portanto devem ser combatidas. Esquecem-se, convenientemente, que esses desesperados que abandonam seus lares nacionais em busca de sobrevivência são herdeiros de décadas de exploração econômica e submissão existencial impostas pelo neocolonialismo.
Fazem de conta não saberem que essa exploração e submissão não se deu apenas de forma direta, mediante a ocupação de territórios e imposições culturais, mas também e principalmente pela extração continuada das riquezas das nações pobres ao Sul do planeta. Escondem o fato de que foram os imigrantes do passado que, em grande parte, forneceram os talentos formadores do acervo de conhecimentos científicos e produtores das inovações tecnológicas das nações hegemônicas do presente.
Cegos pelos preconceitos, desprezam o potencial criativo de que os imigrantes do presente são portadores, provavelmente julgando que os conhecimentos que possuem lhes bastam, e que os talentos agora autóctones lhes são suficientes. Desprezam o axioma de que o gatilho da invenção não reside no cérebro, mas nas necessidades objetivas, na vontade, nos sentimentos, no coração. Ignorantes, interditam a construção de um futuro civilizacional viável, quando rejeitam, combatem e interditam o mais antigo, espontâneo e efetivo processo de oxigenação da genética e da cultura humana — a miscigenação dos povos pela marcha das migrações.
Não, fazer mea-culpa dos erros e dos crimes que cometem não lhes passa pela cabeça. Até porque a exploração das nações ao Sul do planeta persiste, agora voltada à captura de metais essenciais às indústrias de quarta geração — essas que sustentam a internet, a computação em nuvem, as Inteligências Artificiais, etc —, essas que se destinam a otimizar processos, tomar decisões autônomas em tempo real, multiplicar guerras, vigiar dissidências e personalizar perseguições. Para manter e aprimorar a distopia desse admirável mundo novo, os lords hightechs precisam sugar dos países mantidos pobres materiais como lítio, níquel, cobalto, grafita, terras raras, cobre, nióbio, titânio, gálio, germânio e tudo o mais que lhes for necessário. Estejam onde estiverem.
Em seus pronunciamentos e entrevistas, esses indivíduos pregam a paz no mundo, mas não aquela que contempla o conjunto da espécie humana. Neste caso, o que defendem é a paz que serve às nações hegemônicas capitalistas ocidentais; as nações que propiciam o aumento de suas fortunas. Aquelas nações que os confrontam, ou não integram o bloco capitalista explorador, são classificadas de inimigas a serem combatidas, neutralizadas, eliminadas. Temos adversários reais. Se não formos competentes, perderemos, afirmam, sem meias palavras.
Competência, neste caso, é desenvolver e utilizar maciçamente os novíssimos recursos tecnológicos bélicos, traduzidos em enxames de drones e mísseis guiados por Inteligências Artificiais; é coletar bilhões de dados individuais, tendo como meta a vigilância e a manipulação de corações e mentes mundo afora — a isto denominam, cinicamente, de prover segurança cibernética à cidadania. Pensar o planeta como um só organismo vivo e cooperativo, isto jamais!
Sobre a distribuição de justiça, o pensamento desses indivíduos não contempla o aprimoramento intelectual dos julgadores, à luz da ética e da empatia essencialmente humanas. Não, eles defendem que bancos de dados e algoritmos atuem livremente, a partir de parâmetros definidos pelos próprios lords e/ou seus prepostos. E dizem: Pense no sistema judiciário atual. Prometemos igualdade perante a lei para todos, certo? Mas a verdade é que existem juízes diferentes no mundo. O sistema jurídico é imperfeito. Não acho que devamos substituir juízes por IA, mas será que existe alguma maneira pela qual a IA possa nos ajudar a sermos mais justos, mais uniformes? — propõem eles, simulando bons propósitos, como se a justiça pudesse ser aplicada de maneira uniforme, impessoal, automática.
Multipolaridade geopolítica mundial? Para esses indivíduos, isso é maldição. Não lhes passa pela cabeça tal possibilidade, embora seja ela que se apresenta como o único caminho viável para a construção da harmonia planetária. E a rejeitam pelo motivo mais torpe: a multipolaridade os impede de acumular riqueza e poder. Estamos lutando — afirmam eles — para tornar as empresas mais ricas e melhores, onde elas mantenham seu lucro real, ajudando as nações hegemônicas a estabelecerem uma posição dominante. Eu quero ajudar os pobres, eu só não quero prejudicar os ricos, dizem em outro momento.
A Democracia que esses imberbes endinheirados — a maioria deles originários dos estratos sociais médios, é bom que se diga — defendem é aquela que serve aos seus propósitos econômicos e carências psicológicas, e vice-versa. Sobre os progressistas, dizem que eles querem uma sociedade que essencialmente pareça comunitária, mas que não seja de forma alguma, desqualificando coletivamente seus opositores, para isso utilizando a ótica e a prática de suas próprias imposturas.
Sobre o futuro do planeta, alegam que o anticristo deste nosso tempo são os movimentos sociais que pregam o fim do uso da energia nuclear para fins bélicos, que defendem a produção e consumo de alimentos saudáveis, que alertam para a necessidade de controle no desenvolvimento e utilização das Inteligências Artificiais, etc. Para eles, as lutas de resistência contra a reinstalação da barbárie, se bem-sucedidas, resultarão na estagnação planetária e na instalação de um regime autoritário permanente. Segundo esses indivíduos, a solução política padrão para todos os riscos existenciais acima resumidos não é o controle social e democrático, mas uma governança mundial única. Um Grande Irmão.
Mais uma vez: as mentiras, a complacência e a subserviência desses indivíduos estão reduzindo drasticamente as chances de construção de um futuro viável para a Humanidade. Eles são bostas, mas estão no poder.
arquivo.Mello
A escrita é a grande invenção. Foi a escrita, na verdade, aquilo que transformou um certo ser irracional em humano, esta espécie que domina o planeta para o bem e para o mal. Com a escrita, apenas, este blog se propõe a analisar e opinar sobre alguns dos principais temas da atualidade, no Brasil e no mundo, como qualquer cidadão faz ou deveria fazer. Meu nome é Oswaldo de Mello. Sou jornalista.
Bostas no poder
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