Série de equívocos

O professor fala a seus alunos universitários:

“O que é fundamental entender é que a IA vai tornar obsoleto o que eu faço e o que vocês aspiram fazer. O mesmo para as carreiras em marketing, contabilidade, engenharia, seja de software, biológica, mecânica, análise de dados, gestão de pesquisa, todas essas carreiras desaparecerão na próxima década. Vocês devem alterar o foco de sua educação para incluir aprendizado de máquina, visão computacional e estratégias de gerenciamento, engenharia de Processamento de Linguagem Natural, de visão computacional. E vocês devem se preparar para um mundo em que seus esforços não sejam recompensados com dinheiro. A sua recompensa estará na melhoria coletiva da nossa sociedade, do nosso Estado. O quê, sem dinheiro, você disse? Sim, esse é o futuro. Os seus esforços serão recompensados através dos serviços que serão prestados em troca pelo Estado: habitação, cuidados de saúde, alimentação, transporte limpo, entretenimento. E ao se prepararem para uma carreira no futuro, também devem se preparar para um mundo que substitua os objetivos imperialistas e a intromissão econômica de uma sociedade de mercado livre pela dedicação a um Estado que, por sua vez, se dedique a uma vida equitativa para toda a humanidade.”

Após a fala do professor, enquanto os alunos deixam a sala/auditório, uma agente de um órgão secreto do Governo, que se encontrava anonimamente na plateia, o aborda e em seguida o prende, sob a acusação de recrutar alunos para fornecer informações ao Ministério da Segurança de um país inimigo. Ou seja, cometer traição em troca de dinheiro, muito dinheiro.

O professor leva uns sopapos de integrantes da equipe da agente, e some de cena, arrastado.

A agente chega em casa à noite, física e mentalmente exausta.

Encontra o marido médico, que lhe relata o drama do dia (uma menina de 16 anos com câncer de cólon em estágio 3). Diz que isso, que era raro, está se tornando cada vez mais comum, talvez devido a desequilíbrios ambientais, como microplásticos, conservantes, ou “algo que tenha a ganância como raiz”.

A esposa-agente se incomoda com a resposta, ironiza, definindo-a como “bem filosófica para um médico”, e ele é ‘autorizado’ por ela, uma agente secreta, a perguntar-lhe sobre seu dia.

Ela ouve o questionamento 'autorizado' do marido, assume ar de sabedoria, diz que seu dia foi “esclarecedor”, e explica:

“Todos os nossos inimigos estão travando uma guerra secreta de 50 anos contra nós, nos atacando com pequenos cortes”.

“Que tipo de cortes?”, pergunta o marido-médico.

“Na nossa infraestrutura, nosso governo, nossas escolas, nas redes sociais, em tudo”.

“Não estou entendendo. Como eles fazem isso?”, questiona ele.

E ela disserta:

“Lenin (*) costumava chamar os progressistas compassivos do Ocidente de ‘idiotas úteis’, porque, acima de tudo, o que eles queriam parecia ser o que Lenin desejava, e ele usou isso. Foi assim que chegou ao poder. Agora, todos eles (os inimigos do Estado/Governo ao qual a agente-esposa serve) estão fazendo o mesmo, e vêm fazendo isso há muito tempo.”

“Tipo espiões?”, emenda o marido.

Ela responde:

“Influenciadores, vendedores de informações, um exército de ‘idiotas úteis’, por 50 anos. Estamos infestados deles”, conclui, sorvendo mais um gole de seu vinho tinto.

Essa transcrição reproduz a sequência de uma série de espionagem disponível em plataforma de streaming. Nela estão: o professor que discorre sobre verdades incômodas em suas aulas, mas é intelectualmente desonesto, pois enriquece instrumentalizando jovens, enquanto projeta o futuro como uma sociedade socialista à moda do Admirável Mundo Novo; a agente secreta patriota e implacável; e o marido-médico acolhedor, compreensivo, companheiro. Quem ganha o 'troféu empatia' nesse show de equívocos?

Se tivesse de escolher, por eliminação apontaria o médico-marido. Esse ao menos se dedica a uma causa nobre, lida com pessoas reais e encara o desafio diário de minorar sofrimentos verdadeiros.

O professor, além de manipulador e desonesto, tem uma compreensão mais ampla do que está acontecendo na sociedade com a chegada da Inteligência Artificial, mas a empobrece quando submete o futuro dos indivíduos a um Estado planetário teoricamente provedor e omnipresente, sem mencionar ou demonstrar simpatia por qualquer forma ou possibilidade de controle social.

Já a heroína-esposa, essa, coitada, perdeu-se em meio a um embate ideológico já superado. Julga estar do lado certo, bom, nobre, puro, bem-intencionado da História, sem perceber que esse lado, em essência, espelha aquele que ela combate e chama de inimigo. Pior, desconhece ser apenas mais um peão descartável. Não entendeu nada, mas não perde a arrogância dos guerreiros bem treinados e armados.

Algumas dessas séries de streaming são mesmo esclarecedoras.

 

(*) Vladimir Ilyich Ulianov, ou Lenin, foi um revolucionário comunista, teórico e político, que serviu como chefe de governo da Rússia Soviética de 1917 a 1924 e da União Soviética de 1922 até sua morte.