Claro que é possível, porra!

Que indivíduo e sociedade poderemos ser no futuro, a partir da conquista de nossa maioridade espiritual? Primeiramente é preciso esclarecer do que se tratam os dois eixos desse amadurecimento, que defino como aceitar nosso pertencimento terreno e compreender nossa inserção cósmica.

É sabido — porque somos vítimas conscientes desse auto-engano — que a Terra não nos pertence. Somos apenas mais um dentre os incontáveis seres vivos que aqui têm se desenvolvido, ao longo de 4 bilhões de anos. Graças a inexplicado (ainda) evento evolutivo, em algum momento da história nossos ancestrais foram dotados da capacidade de adquirir, processar, armazenar e usar informações, superpoder a que denominamos cognição.

A aquisição desse poder (cognitivo) foi um bônus, mas também um ônus, como examinei na postagem anterior. A parte onerosa, por exemplo, nos levou ao mal entendimento de que a Terra está a nosso serviço. Esse erro — mentalmente conveniente, porque nos eximiu de responsabilidades existenciais, e aqui reside nosso auto-engano consciente — alcançou patamares de tal arrogância que deixamos de considerar os dados objetivos da realidade.

O principal deles, conhecido desde o final do século XIX, é que 96% de nossa massa corporal se constitui de elementos fundamentais, como oxigênio, carbono, hidrogênio e nitrogênio, complementada por cálcio, fósforo e pequenas quantidades de outros químicos. Quimicamente, portanto, nos equivalemos a qualquer outro ser vivo, inclusive aos vegetais. Atomicamente não diferimos nem mesmo dos paralelepípedos, do cimento ou do asfalto que calçam as ruas de nossas cidades.

Não somos especiais. Não temos nenhum motivo para reivindicar supremacia apenas alegando possuir cognição. Pertencemos a este planeta, estamos dedicados a explorar seus recursos ao extremo, e somos feitos da mesma matéria que compõe tudo o que nos cerca, particularmente aquilo que possui vida (animal e vegetal). Ou, como nos ensina o livro do Gênesis, do pó viestes, ao pó voltarás.

Esse é o primeiro eixo da tese que advogo em meus livros e neste blog (e que tantos o fazem em outros lugares). O segundo, nossa inserção cósmica, decorre do anterior: se os elementos químicos que nos compõem são os mesmos que formam os planetas, os sóis, as galáxias, e tudo o que existe no espaço-tempo — fato que é de conhecimento público desde as primeiras décadas do século XX —, há de se concluir que o ser humano — esse aglomerado de átomos, moléculas e células organizadas em 200 tipos diferentes de tecidos altamente especializados —, há de se concluir que este indivíduo é parte do Todo, o Cosmos. É poeira de estrelas, já se disse, e como tal deve incorporar à sua mente a dimensão relativista da existência humana.

O que é isso?

É o entendimento (e sua prática cotidiana) de que, frente à Terra e diante do Universo, somos todos iguais, ainda que sejamos física e mentalmente diversos. Essa é a maturidade a que me refiro; esse é o princípio, a base primordial, sine qua non, para alcançarmos convivência harmoniosa sobre a casca deste planeta.

Nossas diferenças de julgamento estarão definitivamente resolvidas? Claro que não! O ser humano — e isto a cognição nos concedeu — é essencialmente insatisfeito, curioso, contestador, destemido, desbravador. Cada novo passo evolutivo há de ser exaustivamente examinado, debatido, ponderado, como vem ocorrendo hoje com o desenvolvimento das Inteligências Artificiais — a Generativa, que produz conteúdos a partir de bancos de dados; e a Geral, que, em tese, poderá em breve estabelecer relações entre dados e tomar decisões próprias, assemelhando-se ao comportamento humano.

Ao ingressar num mundo de seres maduros e/ou determinados a conquistar a maturidade espiritual, passaremos a viver de forma conformada? Absolutamente não! Nosso processo de aquisição de conhecimentos está ainda no começo, apesar de julgarmos que já sabemos o suficiente. Temos tudo a avançar e, com certeza, jamais esgotaremos as possibilidades que nos estarão postas. Não no tempo cósmico que nos está destinado.

Se até o final do século XIX desconhecíamos que somos compostos de elementos químicos; se apenas no início do século XX tivemos a certeza de que os mesmos elementos químicos que nos compõem são aqueles que constituem os planetas, as estrelas e tudo mais que existe lá fora; se apenas em 14 de fevereiro de 1990 a sonda espacial Voyager 1 virou-se para trás e, de uma distância de 6 bilhões de quilômetros, por insistência de Carl Sagan fotografou a Terra (e ele a chamou de Pálido ponto azul), expondo nossa mínima importância cósmica; se o conjunto desses conhecimentos só foi possível nos últimos 150 anos, isso mais ainda impõe aos contemporâneos deste tempo a responsabilidade de nos empenharmos no sentido de uma radical mudança de rota existencial.

O que me parece inquestionável é que o ser humano desse futuro que projeto (junto com tantos outros, mundo afora), que pode e deve ser construído a partir de agora — pois não é tão utópico nem esotérico assim — terá todos os meios para deixar no passado — como um lixo mental abominável e vergonhoso — muitos dos primitivos instintos que hoje nos dominam e consomem nossa força vital. E isso sem abrir mão de avanço científico e da produção de novas tecnologias, mesmo as tão discutidas Inteligências Artificiais. Muito ao contrário.

Tendo se lançado ao estabelecimento desse novo paradigma civilizacional, estará capacitado a erigir uma sociedade planetária cooperativa, etnicamente diversa, solidária, tolerante, empática. Uma sociedade que não será perfeita, mas que buscará convivência harmônica e união de forças em torno de lutas maiores e mais duras que as guerras fratricidas de hoje. Ingenuidade minha? Não, olhe em volta! Vivemos o fim da inocência conveniente. Uma realidade desafiadora nos espera. E o trabalho já começou.

[Na próxima postagem pretendo demonstrar porque os indivíduos que se intitulam os mais inteligentes e espertos de nossa época, os CEOs (Chief Executive Officers/Presidentes-Executivos) das bigtechs, são, na verdade, um grupo de adolescentes envelhecidos, deslumbrados, amedrontados.]