Em branco e preto

O homem estava na calçada, à beira do meio-fio. Gesticulava um pouco com alguém a seu lado, esperando atento os carros passarem. Parecia despreocupado, quem sabe feliz, pois tinha o semblante tranquilo apesar de um tanto impaciente com a espera para atravessar a rua movimentada.

Se atravessou, eu não sei, pois a cena é incompleta, descontínua, como são as imagens capturadas por câmeras inconsequentes e nervosas, que flagram cenas urbanas anônimas do passado. Estas são de um breve e incompleto documentário familiar em branco e preto dos anos 1950, gravado numa cidade qualquer de um país ocidental.

Aquele preciso indivíduo, sobre quem meus olhos e sentimentos se detiveram, vestia um terno alvo, parecia linho. Seus cabelos eram escuros, lisos, penteados totalmente para trás — como muito se usava naqueles tempos, quase sempre com o auxílio de alguma brilhantina — Williams, por exemplo, era a preferida de meu pai. 

Saíra de casa num dia claro, agradável, talvez um domingo pela manhã, sem compromisso ou destino certo. Saberia, intimamente, que em algum momento haveria um café com mesas na calçada, e que ali se deteria para jogar conversa fora ao lado de desconhecidos; ou apenas observar os passantes, antes de retomar sua gloriosa caminhada.

E certamente assim o fez, pois era um qualquer, um desses indivíduos sem fama, vistos em filmes e fotos antigas, a andar ou parados à beira de meios-fios. Um qualquer em verdade não digo, pois todo e cada ser humano é um mistério em si, um enigma inesgotável, como nos disse Dostoiévski.

O homem de terno branco que eu vi, com seus cabelos lisos penteados para trás, flagrado pela câmera descompromissada de uma família em seu recreio de domingo, era um desses indivíduos — mais um a ser compreendido.

Não precisamos de um fragmento de filme, ou de uma foto achada no fundo de uma gaveta para encontrá-los. Basta apontar nosso dedo agora para qualquer direção, e lá na frente ele ou ela estará. Indo ou vindo carregado de histórias. Talvez parado à beira de um meio-fio.