Admirável Mundo Novo, o suave Estado Mundial provedor da vida sem sofrimento, da eterna, passiva e manipulada satisfação, escrito em 1931; e 1984, o Estado Policial, o grande irmão, o opressor que tudo vê, controla e pune, de 1949, constituem os mais contundentes alertas que o século passado nos alegrou, através daqueles visionários ingleses.
Longe das distopias vislumbradas por Aldous Huxley e George Orwell, e apesar de imensamente respeitar e entender o momento histórico de suas percepções, o que enxergo hoje, como possibilidade existencial para o futuro da Terra, não se relaciona à ideologia+política (visão de Orwell) ou à existência+tecnologia (visão de Huxley), mas à depuração de todas as nossas insuficiências através da emancipação do ser humano como um espírito cósmico capaz de se expressar em matéria dotada de inteligência.
Esse ser humano espiritualizado em matéria não é o que vive sob o patrocínio de um poder planetário provedor de soma, a droga do aquietamento e do fim da individualidade; e também não o que sobrevive sob o tacão de um Estado impositivo e censor. O emancipado é o que retoma o passo civilizacional perdido, esse que aponta para o entendimento (não religioso) de nossa inserção cósmica e incorpora nosso pertencimento (não predatório) a este planeta. Esse ser amadurecido é e será capaz de conviver com suas fraquezas físicas e mentais, pelejando para superá-las em cooperação com seus semelhantes.
Não é, e não será, um ser separado em castas estabelecidas ainda em seu indefeso estágio embrionário, ou forçado a desempenhar o papel que o totalitarismo lhe impuser. O ser emancipado que imagino incorpora as habilidades mentais e físicas de sua única e particular genética e circunstância de existência; compreende e se adapta às possíveis insuficiências de suas condições natas; insere-se na sociedade como um indivíduo produtivo, gerador de ganhos para sua comunidade.
As relações com seus semelhantes não estarão condicionadas por uma droga que o aquieta e satisfaz, ou pela insegurança, o medo e a subordinação, mas pela troca interpessoal de estímulos voltados ao aprimoramento mútuo da condição existencial de nossa espécie — sim, porque não estaremos submetidos a uma igualdade de classes utilitarista determinada desde o berço, nem socialmente definidos conforme o comprometimento de cada um com os interesses do poder.
Troca interpessoal de estímulos é e será o oxigênio permanente do processo emancipatório, porque os seres humanos continuarão nascendo com carências, insuficiências e ambições a serem perseguidas, dado que não haverá um Estado Mundial a projetar sua genética, nem um Estado Policial supressor daqueles menos dotados.
O afeto não será trocado pela sexualidade desinteressada, estimulada como recreação alienada de uma Sociedade, ou pela relação carnal vigiada e consentida em prol da perpetuação de um Estado. Expostos às circunstâncias, atraídos por seu estrogênio e testosterona, hormônios que a natureza os dotou, mulheres e homens continuarão se apaixonando, vivamente inclinados a gerar descendentes, o que também é uma aposta inconsciente no futuro da espécie.
Esses, em linhas gerais, são os atributos do ser humano emancipado, em contraposição aos indivíduos vislumbrados por Huxley e Orwel. Entendo que, muito mais do que prever ou profetizar, ambos dedicaram o poder de suas mentes para nos alertar para os horrores que se desenhavam no futuro, à luz das tendências apontadas em suas épocas.
Pois o futuro chegou. E está se revelando uma cruel simbiose daquelas duas distopias: impositivo, violento, letal de um lado (orwelliano); prazeroso, suave, insidioso de outro (huxleyano), convergindo, num movimento dialético negativo, para uma sociedade amável e apática na superfície; emasculada e frustrada nos seus estratos inferiores.
Somos gratos aos alertas que aqueles pensadores nos legaram. Suas projeções nos capacitaram a entender que somente a aquisição da consciência de nossa humanidade e potencialidades materiais possibilitarão a construção do ser humano livre, ainda que nunca perfeito. A busca pelo aprimoramento de cada um é tarefa individual, intransferível. Ao Estado deve caber, tão somente, o papel de provedor das condições e dos meios para que a emancipação dos indivíduos se realize.
É preciso termos ciência e consciência de que, assim como as projeções de Admirável Mundo Novo e de 1984, todas as distopias, por seu caráter desagregador, estão fadadas ao fracasso. Falham e falharão porque têm raízes fincadas nas interações humanas viciadas do passado. Enxergam o futuro com lentes distorcidas. Tratam o ser humano com desprezo e desconfiança. São ignorantes e boçais.
arquivo.Mello
A escrita é a grande invenção. Foi a escrita, na verdade, aquilo que transformou um certo ser irracional em humano, esta espécie que domina o planeta para o bem e para o mal. Com a escrita, apenas, este blog se propõe a analisar e opinar sobre alguns dos principais temas da atualidade, no Brasil e no mundo, como qualquer cidadão faz ou deveria fazer. Meu nome é Oswaldo de Mello. Sou jornalista.
Ignorantes e boçais
Assinar:
Postagens (Atom)