Para que serve?

Esta é a primeira vez que inicio uma postagem me perguntando: para que serve tudo o que está exposto abaixo? Sim, porque existimos no mundo das coisas práticas — das dores físicas, emocionais, mentais, das contas a pagar, dos afetos correspondidos ou rejeitados, das alegrias e das tragédias. E não ver lógica na vida humana, isto é, aceitar que nossa existência é irrelevante do ponto de vista cósmico pode ser um baque emocional insuportável. Ou, o que é mais provável, uma informação irrelevante para a maioria das pessoas — talvez aí para uns 98% dos 8,2 bilhões dos habitantes da Terra.

Bom, começo por dizer que prezo a lógica, a organização, a previsibilidade, mas aprendi que nem os eventos cósmicos, nem as relações subatômicas, os extremos do que parece existir, são lógicos — o que está em permanente revolução criadora, como nossa espécie, não pode ser consequencial, previsível. Uma das maravilhas da existência humana, aliás, é sua raridade, sua ocasionalidade ilógica. Fomos, aos trancos e barrancos nos realizando, até chegarmos ao que hoje somos, com o magnífico e misterioso empurrão cognitivo. 

Repito: qual a importância disso?

Isso nos interessa porque a relação de causa-efeito (uma questão moral, que regula as relações sociais) e a regra de ação-reação (relativa à física dos grandes objetos, formulada por Isaac Newton em 1666) são o que governa o mundo das aparências, este que se apresenta a nós como real, pois aqui habitamos, sentimos, exercitamos expectativas, professamos uma fé e alimentamos convicções.

O indivíduo, a sociedade e toda a construção civilizacional assentam-se nos domínios da lógica desse mundo. Se ela é uma invenção de nossa espécie, se não passa de um instrumento necessário à vida, se é uma âncora existencial para essa realidade fluída em que existimos, não nos serve transformar tal lógica utilitarista naquilo que ela não é: um dogma, um axioma, um preceito universal.

Qualquer conclusão, decisão ou ato humano pode ser lógico (moral, ética ou fisicamente), mas também ilógico, como nesse exemplo clássico: Esta frase é falsa, onde se conclui que, se a afirmação for verdadeira, ela é falsa; e se for falsa, passa a ser verdadeira, contrariando seus próprios termos.

O mesmo raciocínio se aplica ao nosso lugar neste planeta e no Todo. Não é lógico que nossa existência possua valor intrínseco, essencial, necessário. Conforme nos avisaram Friedrich Nietzsche e Albert Camus, o Cosmos está pouco se lixando para o que pensa, deseja, necessita ou acredita o homem.

O universo não tem um propósito divino ou moral (ou lógico, acrescento). O ser humano é apenas um fragmento passageiro da natureza, um acidente cósmico sem sentido maior ou destino transcendente, disse o alemão. A importância do homem reside na sua capacidade de confrontar a falta de sentido do universo com coragem, liberdade e revolta consciente, afirmou o argelino. 

Por consequência, é perda de tempo, esforço intelectual, e desperdício de energia orgânica reiterar o velho erro de transferir a terceiros (Deus, Estado, Líderes) aquilo que compete aos indivíduos maduros e emancipados. Nesse sentido, Immanuel Kant já conclamava, em 1784:

A menoridade (mental, espiritual) é a incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem. Tal menoridade é por culpa própria, se a sua causa não residir na carência de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo, sem a guia de outrem. Sapere aude! Tem a coragem de te servires do teu próprio entendimento!
 
Mas não nos desesperemos, ainda. É verdade que o mundo das coisas práticas monopoliza 99,99% de nossa atenção, mas o que determina os rumos de nossa existência é o 0,01% restante — ou seja, o sentimento latente, humano, de que nosso valor e potencialidade existencial permanecem pulsantes — ainda que ilógicos. Tanto é assim que continuamos por aqui, insistindo.

Somos fruto de uma sucessão de acasos, não somos especiais, nem estamos destinados à transcendência, mas, para todos os efeitos de alguma forma somos e, como seres cientes de nossa existência, temos um interminável e rico caminho de aperfeiçoamento a percorrer.

É para, intimamente, reafirmar uma esperança que serve tudo o que está escrito acima.