Os lords da manipulação humana, cujas origens remontam aos primórdios da organização social de nossa espécie, anteriores ao advento da agricultura e do sedentarismo, ganharam a partir do início deste século XXI uma poderosa ferramenta: a novíssima técnica de tratamento e formatação dos dados capturados de todos os indivíduos ativos do mundo.
Já não lhes bastava moldar os destinos da Terra pela exploração do medo atávico dos seres humanos, através, principalmente, do fomento à indústria da guerra. Agora os lords, aqueles que determinam de fato os destinos do globo, podem controlar nossos desejos, escolhas e atos, e com muito mais eficácia, utilizando-se das informações que recolhem a cada segundo das interações cibernéticas de nós, os 8,5 bilhões de indivíduos do planeta.
Se antes havia o medo imposto pela força bruta, aterrorizante, materialmente destrutiva dos conflitos e guerras intra e internacionais, hoje temos, cumulativamente, a disseminação do medo traiçoeiro, castrador, construído a partir da exploração das fraquezas de cada um e todos os seres presentes e futuros.
Não esperemos que os Estados venham nos resgatar das garras dos lords da manipulação. Eles, os Estados, não detêm qualquer autonomia decisória (nunca a tiveram!); são apenas gestores das carências cotidianas dos cidadãos nacionais, periodicamente substituídos pela força ou em rituais ditos democráticos. Como se democracia (poder que emana do povo?) realmente existisse em algum país.
A complexidade das relações neste planeta — ditada pela interdependência entre as nações, decorrente da aleatoriedade geográfica na distribuição dos recursos essenciais à manutenção do modelo de civilização que adotamos (água, hidrocarbonetos, metais raros ou não, áreas para cultivo e criação etc.) — impede atitude soberana de qualquer Estado. Quem reivindica soberania, ilude-se; quem a defende, engana-se; quem por ela aspira, sonha acordado.
A manipulação humana não é uma ficção, ou uma teoria conspiratória, mas um fato à vista de todos. Também é fato que tais lords não possuem rosto definido; não têm endereço administrativo; não se reúnem periodicamente; não redigem decisões. Eles constituem um sistema de poder impessoal, que se manifesta de forma harmônica, coerente com seus interesses, delegando a alguns segundos, vários terceiros e incontáveis quartos prepostos a execução das tarefas que lhes são imprescindíveis.
Muito sofrimento têm produzido e ainda produzirão esses senhores, ou esse sistema de dominação, se assim preferirmos nomear. Disso não podemos escapar, pois eles reúnem toda a riqueza de que precisam e ilimitados poderes para utilizá-la. No entanto, é exatamente nesses aspectos — riqueza e poder, que, somados, resultam em vaidade e imodéstia extremada — onde residem a fraqueza e a inevitabilidade da derrota que os espera, da qual eles próprios não se dão conta.
Quê derrota será essa?
A derrota da terra arrasada, como apontou Jonathan Crary no livro que leva exatamente esse nome: Terra Arrasada: Além da era digital, rumo a um mundo pós-capitalista. Crary defende a necessidade de recuperarmos um senso de socialismo e de comunidade, em que a interdependência entre pessoas possa construir novas formas de vida igualitária. O remédio prescrito é perfeito, sempre foi, mas, frente a Terra arrasada que os lords da manipulação estão a construir, penso que a receita chega tarde demais.
Um dia também imaginei (sonhei, desejei) que a redenção humana poderia se dar por meio da conquista de nossa maturidade espiritual (pertencimento terreno e integração cósmica). Hoje, venho duvidando disso a cada novo pôr do Sol. Os lords, em suas extremadas vaidade e imodéstia, não se emendam — serão derrotados, e nos levarão junto.
arquivo.Mello
A escrita é a grande invenção. Foi a escrita, na verdade, aquilo que transformou um certo ser irracional em humano, esta espécie que domina o planeta para o bem e para o mal. Com a escrita, apenas, este blog se propõe a analisar e opinar sobre alguns dos principais temas da atualidade, no Brasil e no mundo, como qualquer cidadão faz ou deveria fazer. Meu nome é Oswaldo de Mello. Sou jornalista.
A cada novo pôr do Sol
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