O desafio de Sísifo

Na visão hermética (34 mil anos a.C.), que se desenvolveu no Egito e está na raiz da filosofia grega, o ato de tirar a própria vida é uma conduta maléfica e demoníaca, que interrompe o propósito de evolução e purificação da alma. (…) O corpo físico é um instrumento de aprendizado, no qual o ser humano deve buscar a elevação e a união com o divino. Encerrar a vida artificialmente é uma fuga da Grande Obra de purificação e regeneração. 

Para Sócrates (470-399 a.C.), pai da filosofia ocidental, tirar a própria vida é moralmente errado, porque o ser humano pertence aos deuses e não deve abandonar o posto que lhe foi designado. Sócrates defendeu que o verdadeiro filósofo não teme a morte, pois a vida terrena é uma preparação para separar a alma do corpo. Ao ser acusado de corromper a juventude ateniense, ensinando-a a questionar a religião e a ordem política, ele recusou o exílio e a fuga, aceitando tomar veneno em obediência às leis da pólis e para ser fiel a seus princípios.

Platão (428-347 a.C.) apontou o suicídio como um ato de impiedade e uma fuga indevida, pois, como a alma pertence aos deuses e foi colocada no corpo como punição, o suicídio é uma tentativa ilegal de escapar dessa tutela divina. Para ele, o suicídio só é admissível em casos extremados de saúde, ou por determinação da pólis, como ocorreu com Sócrates.

Aristóteles (384-322 a.C.) entendeu que o suicídio é condenável porque representa um ato de injustiça contra a pólis e uma fuga covarde. Ao tirar a própria vida para escapar da dor ou do sofrimento, o indivíduo priva a sociedade de um membro valioso e viola as leis comuns: O indivíduo pertence à comunidade, portanto, quem comete suicídio rompe a trama social e subtrai da pólis alguém que poderia contribuir para o bem comum. 

Immanuel Kant (1724-1804) disse que o suicídio é eticamente inadmissível e uma violação do dever fundamental para consigo mesmo. Tirar a própria vida destrói a condição de possibilidade de todos os outros deveres morais e reduz a pessoa (que é um fim em si mesma) a um mero meio. Isso é considerado uma violação do respeito devido à própria pessoa e uma ofensa ao dever estrito para consigo mesmo. Para Kant, tal ato contraria a regra de ouro do agir apenas por máximas que você desejaria que se tornassem uma lei universal (imperativo categórico).

Friedrich Hegel (1770-1831) afirmou que o suicídio é um ato irracional e uma contradição à liberdade. Como a vida é a condição necessária para o Espírito se realizar no mundo, tirar a própria vida é uma negação da personalidade e um ato contrário ao Direito. Embora diferencie suicídio (fuga negativa) de sacrifício (morrer por uma causa justa), ele afirma que o eu não pode ter domínio destrutivo sobre si mesmo, pois isso destrói a própria base material de sua agência e racionalidade, sem alcançar uma síntese superior.

Arthur Schopenhauer (1788-1860) disse que o suicídio é uma contradição e um equívoco. Embora reconheça a vida como um estado de dor e tédio insuportáveis, para ele o suicida destrói o corpo, mas a Vontade de viver permanece intacta. A pessoa não quer deixar de viver, ela apenas não suporta as condições de sua existência e a dor que está enfrentando. Em vez de negar a vida, o suicida na verdade a afirma. Para Schopenhauer, a morte não é um aniquilamento absoluto da existência, mas um retorno ao estado original de onde viemos. 

Friedrich Nietzsche (1844-1900) viu o suicídio como uma questão ambígua: se, de um lado, era a morte por negação, motivada por ressentimento ou fraqueza, de outro se manifestava como morte voluntária, o derradeiro ato de auto-afirmação de um espírito nobre. Para ele, é preferível escolher o momento da própria morte de forma lúcida e orgulhosa, do que vegetar em uma dependência covarde (como prolongar a vida artificialmente quando o sentido dela já se perdeu)

Jean-Paul Sartre (1905-1980) entendeu o suicídio como uma escolha paradoxal e o limite da liberdade. Como o homem é definido por suas escolhas e pela responsabilidade absoluta, o suicídio é um ato livre, mas que, ironicamente, destrói a própria condição para a liberdade ao eliminar as possibilidades futuras do indivíduo. Ao se suicidar, o sujeito age para fugir da angústia ou das dores do mundo, mas se transforma em um objeto nas mãos dos outros, cujos significados (a sua essência) passam a ser definidos e julgados apenas pelos que ficam. 

Albert Camus (1913-1960) rejeitou a morte voluntária, pois ela elimina o absurdo da vida através da destruição da própria consciência, o que não resolve o problema existencial. Para ele, é preciso abraçar a vida com todas as suas contradições e viver com a máxima consciência possível, uma atitude que define como revolta. Para isso, Camus se utiliza da figura mitológica de Sísifo — condenado eternamente a empurrar uma pedra montanha acima, apenas para vê-la rolar montanha abaixo — como um símbolo do homem absurdo: é preciso imaginar Sísifo feliz, encontrando satisfação na sua própria luta e naquilo que está ao seu alcance, sem precisar de uma recompensa ou sentido final.

Durante seis meses pensei se deveria escrever sobre esse tema (*). Hoje entendo que enfrentar a realidade que me cerca não me dá direito a escolhas convenientes. Pensar sobre a vida, suas carências, vicissitudes, desafios, alegrias, impasses e frustrações; pensar sobre essas realidades que, bem ou mal, apontam para alguma permanência e expectativa de futuro, isso é relativamente confortável, edificante, meritório. O difícil é encarar a esperança posta do avesso pela imagem de um cérebro despedaçado e um corpo tombado na calçada.

Incapaz de contornar as questões que me estão postas desde o último janeiro, pergunto agora em voz alta: Que pensamentos abrigaram aquele tecido nervoso em seu momento final? Que equação lhe coube desvendar no vero instante? Quais dúvidas, paixões, nobres e vis sentimentos habitaram seus neurônios, realizaram-se em sinapses geradoras do impulso público e derradeiro? Que trágica ruptura transportou aquele indivíduo até ali, e o derrubou sobre um canto do passeio público, no mesmo canto onde seres sem-teto se abrigavam (nunca mais os vi no local!) e onde transita o ir e vir cotidiano?

Acostumei-me a pensar que a vida é feita de escolhas. Escolher é estar colocado diante de opções claras, objetivas, racionalmente sopesáveis, passíveis inclusive de arrependimentos e reconsiderações. Há instantes, vero instantes, porém, onde o que parece escolha se apresenta como um só e inevitável caminho. Isso não é escolher, não é optar, mas se entregar a um impulso (pretensamente) libertador.

Aquele que assim se liberta está consciente das consequências de seu gesto, e talvez seja exatamente essa consciência aquilo que o anima, por desprendimento ou egoísmo — saber que tal ato guarda simbolismo, produz resultados, traça limites incontornáveis. Tudo é mistério naquele átimo, mas também é evidência e clareza existencial — ser e, num instante, não-ser, sabendo que nada do que ficou para trás importa.

Neste mundo em que a Grande Obra de purificação e regeneração se mostra mais uma quimera; em que os deuses parecem ter nos abandonado, e não o contrário; em que a impiedade está institucionalizada e qualquer fuga se mostra inútil; em que a pólis se provou um logro; em que ética e o dever perderam o valor; em que irracionalidade e contradição são festejadas; em que o equívoco é relativo; em que auto-afirmação de um espírito nobre se confunde com ressentimento e fraqueza; neste mundo em que um ato livre ironicamente destrói a própria condição para a liberdade, pela eliminação das possibilidades futuras do indivíduo; neste mundo em que nove nações possuem ao menos 4.240 ogivas nucleares ativas, neste exato mundo, diante de um corpo largado na calçada só nos resta a perplexidade, a insegurança, a consciência do absurdo e o desafio da vida. 


(*) Se você ou alguém próximo está passando por momentos difíceis, procure ajuda. No Brasil, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional e prevenção ao suicídio 24 horas por dia pelo telefone 188.