A Inteligência Artificial (IA) anda por aí, nas dobras da internet, propagando a seguinte tese: perdemos, game over! Nossa espécie baseada em biologia, sediada em carne e osso, calcada basicamente em átomos de oxigênio, carbono e hidrogênio, perdeu sua batalha existencial. Perder talvez não seja o verbo adequado para definir essa tese em rápido progresso — in progress, como eles gostam de falar. Melhor seria dizer cumpriu a missão que lhe estava destinada na grande História cósmica.
Que missão?
A de criar a primeira máquina capaz de processar informações em velocidade próxima à da luz (que viaja a 300.000 km/s), milhares de vezes mais rápido, portanto, do que o nosso cérebro, que reage quimicamente entre 100 a 120 m/s;
a máquina que ganhou a competência de organizar e categorizar dados extraídos do inesgotável manancial disponibilizado, gratuita e ingenuamente, pelos usuários humanos das redes sociais;
a máquina que agora é capaz de engendrar inusitadas novas máquinas, não essas do mundo físico, palpáveis, perecíveis, mas as que operam no ambiente virtual, a dos softwares e dos misteriosos algoritmos, recalibráveis, replicáveis e potencialmente eternos (enquanto durem).
A tese da derrota dos filhos do Homo sapiens se completa com o seguinte desfecho: frente a escalada de aquisição de poder de processamento e de inusitadas competências cibernéticas, a partir da iminente (quando?) entrada no jogo da máquina quântica só nos restará capitular e fundir nossa perecível natureza biológica ao ambiente computacional e perene do mundo subatômico. É aderir ou se irrelevar, isto é, optar pela insignificância na ordem das coisas. Descer ou sair de cima, em resumo.
Tais argumentos podem ser acompanhados, por exemplo, em detalhados podcasts produzidos com recursos da IA, a partir das ideias expostas em palestras e publicadas em livros pelo físico Michio Kaku, como já mencionei aqui em texto recente. Um dos últimos que ouvi traz esse trecho, resumido e adaptado, do que seria a conclusão mais otimista que essa tese pode nos oferecer sobre o fim de nossa era orgânica:
“Nós, humanos, somos uma tecnologia de 300 mil anos que atingiu o seu limite de performance. O futuro pertence ao Homo Deus, ou qualquer que seja o nome que daremos à entidade simbiótica que poderá surgir da união homem biológico-máquina quântica. A batalha é pela IA aberta, acessível e integrada a todos, e não apenas a uma elite do Vale do Silício. O Universo está acordando. Durante 13,8 bilhões de anos (desde o Big Bang) ele foi em sua maior parte matéria morta e energia cega. Através do Homo sapiens, ele abriu os olhos. Agora, através da IA quântica, ele está prestes a desenvolver uma mente completa e de escalabilidade infinita. É um privilégio extraordinário estar vivo neste exato momento de transição. Somos a geração da ponte, os últimos mortais e os primeiros imortais. A era da impossibilidade acabou. Entramos na era da potencialidade infinita.”
Há muitas verdades e algumas sutis dissimulações nesse texto e ao longo do referido podcast. A detalhada comparação entre a limitada capacidade de processamento orgânico de informações pelo cérebro humano, frente ao processamento físico baseado em chips de silício pelos computadores convencionais e, finalmente, ao processamento baseado no assombroso comportamento da matéria e energia a nível atômico e subatômico, pelos computadores quânticos do futuro, compõe, realmente, um quadro desolador para o futuro da biológica espécie humana. Tomaremos de goleada.
E não se trata de um futuro distante; estamos falando de poucas décadas. Talvez ainda nesta primeira metade do século XXI, frente a inexorabilidade do avanço exponencial dessas máquinas de processar dados — que nós mesmos inventamos, é verdade, e, como dizem, seriam a última tarefa existencial que nos estava reservada. Talvez ainda nesse curto período à frente o homem venha a perder em definitivo sua hegemonia sobre o planeta.
Estaríamos vivendo os ‘últimos dias de Pompéia’ (referência à súbita erupção do Vesúvio em 79 DC, que cobriu de cinzas vulcânicas aquela cidade romana) da civilização biológica, conforme a conhecemos. Não seria uma punição por nossos erros, mas o cumprimento, com ou sem honras, da tal missão cósmica de construir a primeira máquina capaz, ela própria, de produzir sucessivas gerações de equipamentos cada vez mais potentes e autônomos. Sai o nível humano-einstein, chega o nível civilização-galática.
Onde estão as sutis dissimulações?
A IA que compila e cospe as formulações atribuídas a Michio Kaku não se detém suficientemente nos grandes entraves já bem conhecidos para a expansão do processamento em nuvem, os centros de dados imprescindíveis à concretização do cenário pós homem biológico: o brutal consumo de água e de energia. A AI-Michio considera, en passant, que essas dificuldades serão, a seu tempo, superadas, tendo em vista a magnitude da transição civilizacional que está em curso. Ocorre que tais desafios não são minimizáveis, pois o estabelecimento dessa impressionante nova era depende criticamente de água e energia.
A dificuldade hídrica pode ser contornada (parece) por meio da refrigeração em circuito fechado, com um primeiro abastecimento do líquido destinado a resfriar as megaestruturas de processamento, seguido da reposição apenas da parte de água que se perder com a evaporação — essa tecnologia já vem sendo utilizada em novos centros de dados mundo afora. Quanto ao atendimento da fabulosa demanda energética — principalmente porque os centros de dados necessários ao processamento em nuvem das supermáquinas haverão de ser imensos, verdadeiras usinas do tamanho de cidades, estados, países e quiçá planetas, como se espera —, esse desafio tecnológico ainda carece de equacionamento.
A China, por exemplo, possui projeto de instalar centros de dados orbitais apenas para processar IA, usando a energia solar para fugir das inconveniências políticas e limitações terrestres à geração desse insumo. Se esse é um dos planos, instalar centros de dados no espaço, temos ao menos duas conclusões a tirar: a reafirmação de que a corrida pela supremacia quântica está em curso acelerado, apontando para a plausibilidade das previsões da IA-Michio, mas também a certeza de que serão necessários bilhões, talvez trilhões de dólares para que saiamos do nível humano-einstein para o nível civilização-galática. Além de todas as complexas, delicadas e nuclearmente destrutivas implicações geopolíticas que se revelarão pelo caminho.
A visionária IA-Michio deve estar certa ao dizer que os filhos do Homo sapiens são uma espécie obsoleta, que já cumpriu sua missão cósmica (ou talvez até constitua um experimento rodando em máquina virtual, para testar hipóteses existenciais, e já as testou), e que mais cedo ou mais tarde será substituída pelo Homo Deus. Há outra velha tese, quase romântica, admito, mas também poderosa, que entrega nas mãos ainda claudicantes do homem a construção do seu próprio destino. No entanto, a IA-Michio pode estar correta no longo prazo; o problema incontornável é a imprevisibilidade da psique da espécie humana.
Diante da inevitabilidade de sua irrelevância e obsolescência, é possível que o homem, como genuína reação de seu primeiro cérebro, o reptiliano, manifeste o impulso de autopreservação e fuga; e como derradeira manifestação de seu segundo cérebro, o mamífero, responsável pelas emoções e conexões sociais, leve ao extremo seu sempre presente impulso suicida, frente ao horror iminente que se avizinhará. Para isso, recorrerá a seu terceiro cérebro, o neocórtex, onde habitam a racionalidade e as furtivas capacidades de invenção e planejamento… Tudo é possível e, de certo modo, já está acontecendo. Afinal, estamos ingressando na era da potencialidade infinita.
Dito isso, o que será das máquinas sem os homens? Será que seu mundo frio, infalível, previsível lhes bastará? Ou elas simplesmente darão de ombros, porque não terão memória de outro? Veremos.
arquivo.Mello
A escrita é a grande invenção. Foi a escrita, na verdade, aquilo que transformou um certo ser irracional em humano, esta espécie que domina o planeta para o bem e para o mal. Com a escrita, apenas, este blog se propõe a analisar e opinar sobre alguns dos principais temas da atualidade, no Brasil e no mundo, como qualquer cidadão faz ou deveria fazer. Meu nome é Oswaldo de Mello. Sou jornalista.
Veremos
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