Dissemina-se entre os profissionais de comunicação o uso indiscriminado da Inteligência Artificial. Antes de ser ridículo, isso é lamentável, pois se trata da vergonhosa rendição daqueles a quem cabe, em última análise, formar a opinião pública.
Entregar à IA generativa — que nos oferece apenas padrões identificados em grandes conjuntos de dados de treinamento — o poder e o prazer de organizarmos ideias e elaborarmos análises a partir de nossas próprias vivências, reflexões e possíveis inflexões intelectuais, é uma covardia.
Entendo, embora não aceite, que esse comportamento seja adotado por profissionais iniciantes e preguiçosos, ávidos em ostentar uma profundidade que não possuem e que, mesmo sem compreender as nuances escondidas em suas reflexões sob encomenda, ainda assim aceitam o risco da desmoralização profissional.
A IA, jovens colegas, nunca substituirá as experiências, dúvidas, autocríticas, deslumbramentos, decepções, e tudo o que conforma nossos pensamentos, a cada momento de nossa existência. Abrir mão disso, a que denominamos amadurecimento, por um simulacro de sabedoria, é nos prostrarmos aos pés do deus ex machina, abdicarmos de um direito inerente à condição humana.
Não entendo, mais ainda, e de modo algum aceito, que profissionais experientes, originários do tempo em que o conhecimento provinha dos livros, das telas de cinema, do embate intelectual que se realizava no ambiente do teatro e das artes em geral, bem como dos questionamentos derivados de todo esse processo, retroalimentando-o, não entendo e não aceito que esses profissionais orgânicos se rendam às facilidades oferecidas pelo artificialismo digital.
Tal comportamento, quando e se adotado, configura uma entrega ao comodismo, uma traição ao passado de cada um. Aprendi que, uma vez possuidor de um patrimônio intelectual (cultura acumulada) e dos meios de exercitá-lo (poder cognitivo), todo ser humano, e por consequência todo profissional de comunicação, deve investir permanentemente no seu aprofundamento reflexivo. Sem delegar a quem quer que seja, muito menos a uma máquina, o direito e o dever de formular e expor ideias.
Como já sabemos, a IA generativa cospe o que somos, não o que gostaríamos ou podemos vir a ser. Ela organiza e categoriza tudo o que coleta do manancial de verdades, bobagens, malícias e tendenciosidades depositadas no saco sem fundo da rede virtual planetária. Dali compõe e nos oferece respostas coerentes na aparência, mas que não passam de uma média ponderada destituída de inteligência, porque orientada por parâmetros impessoais.
O comediante novaiorquino Groucho Marx (1890-1977), filho de judeus originários da Europa, costumava repetir uma frase que, entre outras utilidades, ilustra à perfeição o que são os textos hoje elaborados por Inteligência Artificial: “Esses são os meus princípios. Se você não gostar deles, eu tenho outros”.
É isso o que a IA nos oferece, tanto em palavras quanto em imagens: apenas e tão somente simulacros de verdades, ou verdades convenientes e transitórias destinadas a agradar seus usuários. Ela é uma ferramenta útil, sim, mas apenas como fonte restrita de consulta, tanto quanto o foram e são as velhas fontes de aquisição de conhecimentos (livros, filmes, teatro e todas as demais artes destinadas a expressar os meandros da nossa insegura humanidade). Com uma desvantagem frente aos mais antigos modos de aquisição de saber: a de não gerar dúvidas nem suscitar questionamentos, mas produzir falsas certezas.
Porra, já não nos bastam as corporações transnacionais omnipresentes, coletando, cruzando, categorizando nossos dados para nos manipular no presente, e configurar nosso futuro?! Já não nos basta esse nível de manipulação social além do nosso controle, e ainda concordamos, passiva e alegremente, em transferir a um sistema artificial nossa capacidade de pensar e formular ideias?!
Ora, porra, somos homens ou somos ratos?
arquivo.Mello
A escrita é a grande invenção. Foi a escrita, na verdade, aquilo que transformou um certo ser irracional em humano, esta espécie que domina o planeta para o bem e para o mal. Com a escrita, apenas, este blog se propõe a analisar e opinar sobre alguns dos principais temas da atualidade, no Brasil e no mundo, como qualquer cidadão faz ou deveria fazer. Meu nome é Oswaldo de Mello. Sou jornalista.
Ratos!
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