Uma leitora quis saber se o texto anterior — Tocando a vida — foi baseado em história real ou fruto de imaginação. Outro leitor me perguntou o porquê de minhas postagens não estarem abertas a comentários.
À primeira, confirmo se tratar do fiel relato daquilo que ouvi do próprio personagem. E, confesso, não foi apenas o inusitado dessa vida levada por tantos anos sob a ignorância da morte iminente que me fez publicá-la. A melhor impressão que esse homem me causou foi exatamente aquilo que ele é: um indivíduo suave, atencioso, bem-humorado, tranquilo, ostentando no semblante um otimismo realista. Entendi-o assim tão logo me disse ser uma pessoa de muita sorte.
E assim respondo à fiel leitora. Quanto à segunda indagação, a explicação é simples, mas requer resposta mais longa, para que não seja tomada como arrogância, O fato é que escrevo para me sentir vivo, atento, mentalmente são. Não quero promover debates, mas apenas alimentar este arquivo virtual para, quem sabe um dia, meus netos venham lê-lo e tirem algum proveito.
A missão que me impus aqui é buscar, até onde minha capacidade de estabelecer relações alcança, e meu poder de expressá-las permite, uma saída viável para o impasse existencial que esses dez a doze milênios de civilização nos meteram. Para isso, busco o apoio da Lógica (cujos princípios aprendi com João Itagiba, no Colégio Canadá, no final dos anos 1960, em Santos, Brasil) e a prática da Comunicação sem redundância (conforme me ensinou Cid Marcus, na Faculdade de Comunicação da UniSantos, no começo dos anos 1970, e ao longo de nossa amizade).
Escrevo para me convencer de que uma saída existencial exista, especialmente porque tenho filhas, filho, netas e netos, e portanto um compromisso com esses que contribui para trazer a este mundo dominado pela insanidade.
Neste auto-imposto exercício de perseguir um caminho para a realização da utopia das utopias, sempre me frustro; sempre bato com a cara no muro translúcido, mas real, da ingenuidade. Vivo mais umas horas, um dia, alguns dias, voltado às minúcias da sobrevivência, mas de novo a incontornável busca se impõe. Não porque a frustração de antes esteja esquecida, mas porque tenho aquele compromisso, e a desconfiança de que alguma peça do cósmico quebra-cabeças eu deva ter deixado passar.
E então volto à prancheta, às minhas bases mais sólidas, aquelas que digo e repito para mim, e delas me convenço: tudo pode ser diferente se a espécie humana adquirir e internalizar a consciência de seu pertencimento terreno e de sua inserção cósmica. Como já escrevi em outro texto, é como olhar a vastidão humana a partir do alto — ver de cima relativiza e esclarece a paisagem abaixo.
No dia em que nos compreendermos como seres do Cosmos, “poeira de estrelas”, como disse Carl Sagan, e aceitarmos que não somos donos deste planeta, mas a ele pertencemos (como tantos já provaram), teremos uma grande chance de inaugurar um novo tempo para a Humanidade.
Não será, com certeza, um tempo de facilidades, pois a luta pela via do prosseguimento (processos desencadeados desde o advento dos primeiros humanos, destinados a prover e aprimorar nossa condição física e mental) é um desafio permanente, frente às ameaças terrenas e extraterrenas que sempre se renovam. Mas, com certeza, segundo entendo, estaremos espiritualmente mais preparados e mentalmente fortes para enfrentar o imponderável.
Para edificar esse novíssimo monumento existencial, necessitamos de mais indivíduos suaves, atenciosos, tranquilos, bem-humorados, portadores de semblantes otimistas com realismo. Indivíduos que vivem a vida e, como disse Gal Costa, deixam sangrar.
arquivo.Mello
A escrita é a grande invenção. Foi a escrita, na verdade, aquilo que transformou um certo ser irracional em humano, esta espécie que domina o planeta para o bem e para o mal. Com a escrita, apenas, este blog se propõe a analisar e opinar sobre alguns dos principais temas da atualidade, no Brasil e no mundo, como qualquer cidadão faz ou deveria fazer. Meu nome é Oswaldo de Mello. Sou jornalista.
O real e o imaginado
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