Bravo, Telma!

Morreu no último sábado, dia 10 deste Outubro de 2026, aos 82 anos, a minha amiga Telma Sandra Augusto de Souza, a Telma de Souza, uma das fundadoras do Partido dos Trabalhadores (PT), junto com Luiz Inácio Lula da Silva, a única mulher a administrar Santos, no período de 1989-1992, e a melhor prefeita (incluindo todos os homens) a comandar esta histórica cidade portuária do Brasil, localizada aqui no litoral do Estado de São Paulo.

Não fui ao seu velório, realizado no salão nobre da Prefeitura; não quis participar daquelas reverências pós-morte tantas vezes hipócritas. Fiquei em minha casa, acompanhando a esplendorosa manifestação a favor da preservação da democracia brasileira e da reeleição de Lula à Presidência do nosso País. Manifestação que reuniu cerca de um milhão de pessoas na Avenida Paulista, na capital paulista, e que teve participação majoritária da juventude, fato que, seguramente, iluminaria o largo sorriso de Telma, se ela tivesse vivido mais um dia.

Fomos amigos e companheiros de luta. Para ela e em prol de seu governo e da realização dos nossos sonhos de juventude, criei e editei o jornal D.O.URGENTE, um Diário Oficial com notícias administrativas, que se pautava por princípios estritamente jornalísticos, sem personalismo, sem proselitismo, sem panfletarismo. O sucesso desse projeto de comunicação pré-internet, realizado ao lado dos jornalistas Mauri Alexandrino (falecido em 2017) e Marcos Augusto Ferreira, contribuiu para o sucesso do Governo Telma.

Um Governo que, diga-se, produziu uma pequena revolução nos modos de administrar um município, e que serviu de inspiração e modelo para o que viria a ser implementado por Lula a partir de sua primeira Presidência (2003-2006), como ele sempre reconhece e o fez agora, antes da manifestação de domingo, 11 de Outubro, em postagem nas redes sociais.

Telma foi uma valente, uma pioneira, uma gigante. Os caminhos que ela abriu na selva da ignorância, da má-fé e da intolerância nunca mais se fecharão. Esteja onde você sempre esteve, Telma: ao lado da Luz. Tua prática política está em Lula, e teus sonhos de liberdade e justiça social estão de novo nas ruas, empunhados pela juventude que finalmente acordou.

A força do acaso

Quase tudo na História dos povos nos remete a um se, essa conjunção indicadora de uma hipótese, um pré-requisito ou uma condição para que um fato aconteça ou não. Por exemplo: se as forças progressistas brasileiras fossem realmente inteligentes, teriam estado, desde o dia 1º de janeiro de 2023, ao lado do Governo Lula, e nosso país não se encontraria, como está, sob o risco de virmos a ter — o que não ocorrerá — o representante de um clã familiar de extremíssima-direita na Presidência da República. 

Este texto, porém, não tratará do se, mas do porquê e da forma como isto se deu — ou seja, os motivos e os modos desse estratégico equívoco. Ambos são simples e evidentes. Vamos a eles.

Os governos Lula — não apenas este terceiro, mas também os dois primeiros — nunca foram devidamente assimilados pelas elites nacionais. E aqui me refiro não apenas às elites das finanças, do agronegócio, da indústria, do comércio e dos serviços — os ricos e riquíssimos —, mas também às elites intelectuais acadêmicas, inclusive as progressistas, a maioria oriunda das classes alta e média.

Lula, o retirante nordestino, o metalúrgico com nove dedos e fala simples, eivada de erros de concordância, esse cara que não domina outras línguas e não tem diploma universitário nunca foi inteiramente aceito pelo tal andar de cima da sociedade brasileira. Sim, ele ganhou duas eleições presidenciais; dedicou todas as suas forças e capacidade de articulação política para remediar a miséria física e intelectual do imenso segmento mais necessitado da população; elegeu e reelegeu uma sucessora; foi falsamente acusado de corrupção e passou mais de um ano preso, sem que sua sentença tivesse transitado em julgado; foi covardemente impedido de disputar uma eleição; provou que fora vítima de um crime judicial; elegeu-se pela terceira vez à Presidência e, agora, disputa sua reeleição, a última. 

Foi e fez tudo isso cumprindo uma impressionante trajetória política e humana, inédita em qualquer canto do planeta e da História das nações, e ainda recebeu presencialmente 43 títulos de Doutor Honoris Causa concedidos por prestigiadas universidades do mundo, fora as dezenas de outros que não pode ir buscar. Foi e fez tudo isso, mas nunca lhe perdoaram pelo que é. 

Os bilionários nunca o perdoaram porque as políticas desse retirante nordestino, metalúrgico com nove dedos e fala simples tiraram mais de 40 milhões de pessoas da miséria absoluta, trazendo um pouco de justiça social e para as relações capital-trabalho no país, impedindo que os já riquíssimos ganhassem ainda mais dinheiro. A classe-média alta nunca o perdoou porque, ao invejarem/almejarem/imitarem o modo de vida dos ricos e riquíssimos, rejeitam a ascensão dos segmentos sociais mais baixos. E grande parte da intelectualidade, talvez seu segmento mais influente, nunca o perdoou porque o ser humano Luiz Inácio Lula da Silva contrariou todas as teorias sociológicas preconceituosas que essa elite tanto preza e sempre defendeu, ou seja, a de que a inteligência seria fruto das condições sociais do indivíduo e dos conhecimentos acadêmicos por ele adquiridos. Lula provou que não é assim. Demonstrou, na prática, que inteligência decorre em grande dose do acaso, do caráter e da vontade da pessoa — tudo junto e misturado.

A forma como as chamadas forças progressistas brasileiras sempre demonstraram falta de compreensão do valor de Lula — traduzida numa oposição dogmática aos seus governos, ao invés de apoiar suas realizações e pleitear mais avanços, proporcionando tração política ao próprio Lula —, incompreensão esta que nos trouxe até os sombrios dias de hoje, quando muitos se encontram inquietos diante da ascensão de um clã familiar de extremíssima-direita — que, repito, não passará —, essa forma equivocada de agir tem se materializado num continuado (desde 2003) apoio frouxo, duramente crítico, incompreensivelmente cego sobre aquilo que nosso personagem representa e de fato é, e não é.

Lula não é um revolucionário clássico, à moda de Washington, Garibaldi, Lênin, Mao, Guevara e tantos outros. Lamento informar, para quem ainda não sabe, que esse tipo de revolução deixou de existir a partir do advento da Sociedade de Vigilância inaugurada na Guerra Fria, aprofundada com a Guerra ao Terrorismo, e sofisticada com o Controle Insurrecional instalado em todos os países hegemônicos e agora também nos emergentes.

Lula, repito, não é um revolucionário. Ele é um reformista, um cara que luta para ampliar os meios (recursos financeiros) destinados a proporcionar os modos (políticas públicas) de distribuir a renda do país em prol de uma crescente maioria da população. Isto, em si, já configura uma forma de ‘revolução’; só os tolos não compreendem. 

Se esse reformismo ‘revolucionário’ caminhará para uma sociedade mais justa e pacificada, liberta de medos e capaz de exercitar seus potenciais e criatividade, só a História dirá. Sem esquecermos, jamais, desta lição: a boa História resulta da ação de homens prontos e capazes de aproveitar com sabedoria as oportunidades que o acaso lhes oferece.
 

4 de Outubro de 2026

Meu dever, quanto ao conteúdo deste blog e de meus livros — que, espero, alcancem pessoas inclinadas a fazer o melhor e o mais justo para seus/nossos semelhantes e o planeta —, meu dever, repito, é estar atento a imprecisões e incongruências, em busca de dirimir contradições e corrigir caminhos.

Não tenho compromisso com erros, até porque muitos deles resultam de equívocos, incompreensões ou desconhecimentos. Estou portanto sempre disposto a rever ideias que externo nesses textos, desde que elas não contradigam o que para mim é essencial ao ser humano de hoje e de sempre — esta é a minha missão, como a de tantos outros.

Recebo críticas, às vezes, sobre as teses (essenciais) que exponho aqui, exaustivamente, e em meus livros, relativas à necessidade de ‘compreendermos nosso pertencimento terreno e inserção cósmica’; e de ‘conhecermos e administrarmos nossos medos’. Em alguns casos são observações contundentes, que apontam falhas em datas e citações, exposições sem linearidade, falta de embasamento teórico e, principalmente, ausência de soluções estruturadas para os problemas apontados.

Concordo com quase todas essas críticas.

Sobre os erros factuais, sem dúvida, porque eles nunca se justificam. Quanto à falta de linearidade discursiva também concordo, pois, embora entenda isso como um recurso, costumo associar assuntos díspares, buscando encontrar analogias que alguns possam ter dificuldade para enxergar. Sobre ausência de embasamento teórico, ouso discordar. E quanto à falta de soluções objetivas para superar os problemas existenciais que minhas teses apontam, neste caso concordo totalmente.

Começo perguntando:

A qual embasamento teórico eu poderia recorrer, se o que defendo decorre exatamente da inexistência de reflexões acadêmicas estruturadas a respeito daquelas teses essenciais? Em quais autores eu deveria buscar validação, se minhas teses demandam multidisciplinaridade de conhecimentos, e até hoje não encontrei — além de, por exemplo, o sempre citado Pietro Ubaldi — quem realizasse uma costura convincente entre tantos saberes?

O fato de eu não dominar nenhum desses compartimentos científicos, mas apenas intuir relações — aproveitando a habilidade mental que a condição do jornalista me proporcionou, ou seja, a de um indivíduo treinado a duvidar e perguntar —, retiraria de mim o direito, e o dever, de refletir e propor?

Pode ser que muitos entendam assim, em particular os autoproclamados intelectuais acadêmicos, ou orgânicos. A esses e àqueles tenho a dizer que não me importa o que pensam sobre o que aqui exponho e defendo, ou sobre os livros que já publiquei (exceto quanto a erros factuais e falhas de revisão cometidas por este indivíduo que formula hipóteses, pesquisa, escreve, revisa e edita sozinho todos os seus trabalhos, sem pedir nem querer a ajuda de quem não pode remunerar).

Lembro a esses, e àqueles críticos, que tudo o que eles sabem, absolutamente tudo, não possui originalidade nem ineditismo; sequer provém exclusivamente de suas mentes, mas resulta do acúmulo de conhecimentos processados pela cognição da espécie humana.

A cognição, sim, compreendida como uma entidade que se manifesta no indivíduo orgânico que o acaso cósmico fez despertar neste planeta. E porque esses conhecimentos não são originais, nem inéditos, e a todos pertencem, não carecem de citações ou referenciamentos bibliográficos para serem válidos. O que lhes confere valor é a velha prova dos nove. Nada devo/devemos a ninguém. Nenhum pensamento, nenhuma ideia, nenhuma informação tem dono e endereço. Nenhuma reflexão carece ser legitimada por terceiros, se não se submeter à lógica e ao bom-senso. 

Quanto à derradeira crítica — falta de soluções objetivas para os problemas apontados —, neste caso admito, com certo orgulho, que não tenho mesmo receitas acabadas, definidas e definitivas para nada. Desde que me entendo por gente, lá pelo começo de minha adolescência, talvez um pouco antes, em Manaus-AM, tenho me dedicado a observar a mim mesmo, as pessoas que me cercam e as nossas relações com os fatos da vida e do mundo. Não me vanglorio disso, acredite, porque é um exercício de frustração e resiliência, dado que vivemos num mundo de aparências e tudo temos de conciliar com a luta cotidiana por nosso prosseguimento como indivíduos e espécie.

Se uma coisa aprendi nesse processo é que nada de verdadeiramente útil e duradouro foi ou será construído sem o envolvimento total e completo dos interessados. Não sei como tornar clara e acessível a espiritualidade que defendo, que compreende nosso pertencimento terreno e inserção cósmica; não sei como administrar os medos primordiais que nos dominam, e definem os nossos atos e a sociedade que temos. Mas sei, porque está evidente, que a caminhada civilizatória da espécie humana precisa preencher essas lacunas para avançar de forma estruturada e construtiva.

Lacunas que neste exato momento se evidenciam aos olhos e sentimentos das pessoas mais simples e simplórias, exatamente aquelas que meus escritos nunca foram capazes de alcançar.

Quero dizer com isto que neste 4 de Outubro de 2026 se definirá o futuro não apenas do Brasil, mas, acredite, também da América Latina, do Hemisfério Ocidental e do nosso planeta. Se as forças de extrema direita se impuserem em nosso país, não tenhamos dúvida de que o sofrimento geral se aprofundará e prolongará mundo afora, pois nosso povo, pela tolerância proporcionada por sua ampla miscigenação de raças, é o único capaz de liderar o caminho rumo ao que nos é essencial como espécie: a conquista da maturidade.

Essa minha compreensão deriva do que aprendi de grandes homens, como Pietro Ubaldi, Stefan Zweig, João Itagiba e Cid Marcus, por exemplo. Neles nunca busquei validação, mas esclarecimento.
 

Porque Lula

As pessoas que aqui vêm espontaneamente votarão no Lula para Presidente, e em candidatos progressistas para os demais cargos em disputa nas eleições de 4 de Outubro — disto não tenho dúvida, pois só os idiotas e os corrompidos de corpo e de espírito são capazes de escolher o outro lado dessa disputa. Mas, como este blog é acessado eventualmente por pessoas distraídas, que parecem viver no mundo da lua, quero me dedicar hoje a refletir sobre a importância histórica da próxima eleição presidencial brasileira. Para não perder tempo, recorro em essência a um texto meu do começo de 2024:

Tomando-se o entendimento de que os séculos são apenas uma convenção, um recorte temporal arbitrário da História grande (a cósmica, de onde se origina a materialidade e o espírito humano) e da História pequena (esta, em que os humanos existem e agem), ouso afirmar que o brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva é exatamente isso: o homem de um século que, a meu critério, se iniciou na primeira metade dos anos 1900.

Os mais céticos, e principalmente aqueles que sofrem de complexo de inferioridade, hão de perguntar: Mas, por que seria ele merecedor de tal distinção? Simples: porque Lula é um sábio intuitivo e prático dedicado ao difícil campo da Política, a arte de exercer o poder e a mais importante ferramenta em prol da conciliação da nossa espécie. E porque realiza esse seu trabalho com sabedoria, num período singular, de inflexão civilizacional, em que esse tipo de qualidade mais necessária se faz.

Lula não está lá nas alturas tibetanas, confinado a um templo, jejuando e orando pela salvação da Humanidade. Ele está entre nós; é um ser do mundo, frequenta a planície da vida pública nacional e planetária, expõe-se a todo tipo de crivo, e mantém uma irretocável coerência, mesmo quando (aos olhos de seus críticos mais ferrenhos) erra.

Ah, mas desta forma você está pintando um deus, alguns poderão dizer. Bom, esse é o x da questão: Lula não é um deus no sentido religioso, ou mesmo mitológico, apartado das vicissitudes humanas. No entanto, ele e seres como ele encarnam a essência do ser humano ideal, aquele que compreende e assume um compromisso com o futuro, sabendo que podem e devem agir no presente, com o máximo de flexibilidade e o mínimo de erro.

O método de Lula da Silva é bem conhecido: ele acumula conhecimentos práticos (os teóricos, resultantes de suas leituras e conversas, ele mastiga, processa e os utiliza para enriquecer sua capacidade intuitiva) e se movimenta em sintonia com a realidade que está à sua volta. Ele não briga com os fatos da vida, pois sabe que estes são sempre dinâmicos e multifacetados.

Sua meta intuitivamente construída e consolidada, que se apoia nos sempre citados conselhos de sua mãe, Dona Lindú (referência de força/perseverança e, não por acaso, uma pessoa de carne e osso, e não uma construção mental), é a busca do primado da condição humana. Para quem ainda não sabe, isto significa dizer que Lula da Silva combate o melhor combate que todo ser humano pode combater: a luta pela continuidade da nossa espécie, preservando condições dignas a todos, sem exceção.

Os indivíduos engajados nessa guerra cósmica, juntamente com Lula da Silva, não pensam (apenas) em si e nos seus. Pensam no gênero humano e, ao mesmo tempo em que momentaneamente se desesperam frente às incompreensões, e que às vezes se abatem diante das fraquezas de seus semelhantes, sabem relativizar tais falhas e falsetas, delas extraindo o ânimo, o combustível para perseverar no caminho; talvez apressando ainda mais o passo.

Graças às conjunções cósmicas, neste século de Lula da Silva é possível falar dessas coisas sem causar muita estranheza, tão desesperadas estão as pessoas em todos os cantos da Terra. Desesperadas e ansiosas por encontrar um sentido para suas vidas e uma razão para as dores e os desafios que a existência e o cotidiano lhes/nos impõe. E a Grande Nova, como diriam os cristãos, é que nada mais resta a ser dito; o que nos cabe agora, enfim, é exercitar a nossa relativa cota de livre arbítrio da forma que nos for possível, da forma como Lula da Silva faz.

Felizmente, e infelizmente, o homem deste século teve e tem tido a oportunidade de ocupar posições de poder, o que lhe permite pôr em prática a sabedoria intuitiva que ele vem construindo e aprimorando. O ‘infelizmente’, aqui, se refere ao fato de que no exercício dessas ‘posições de poder’ ele precisa lidar como a realidade cambiante e multifacetada, estando sujeito a desgastes e incompreensões.

Mas esse ‘infelizmente’, além de incontornável, também é relativo, porque, ao avançar apesar dos ‘desgastes e incompreensões’, Lula da Silva é didático e, ao mesmo tempo — como me referi acima —, ganha forças para os passos seguintes rumo ao objetivo de construir o primado da condição humana. Esse indivíduo não é um deus — isto não existe! Ele é um exemplo, um revolucionário exemplo ao alcance dos sentidos e da compreensão de todos.

O Brasil desta primeira metade do século XXI precisa de Lula da Silva. E digo mais: graças ao Cosmos esse indivíduo existe neste instante planetário. E ainda bem que ele é brasileiro, embora, de um ponto de vista pietro-ubaldiano, talvez ele só pudesse mesmo ter surgido no Brasil, esta terra de tanta miscigenação, riquezas e possibilidades (e que há não mais de quatro anos passou por uma desafiadora prova de fogo, que foi a tentativa de destruição de sua condição transcendental). 

Pietro Ubaldi (*), acima referido, explicita em seu livro “Profecias”, de 1953, o futuro possível a que sempre me refiro: “E, dado que a vida é sempre luta contra algum inimigo que obstaculiza a emancipação, desta vez o inimigo não será mais o próprio semelhante que vamos agredir, mas a nossa própria natureza animalesca, para superá-la e vencê-la. Como se vê, guerra contra ninguém, mas apenas contra as inferiores leis da vida, que ainda sobrevivem no homem, com o fim de sobrepujá-las. A emancipação da animalidade — eis a nova conquista; ou seja, um 'requintamento' de vida, não só na forma de fidalguia exterior, mas na substância, que é uma atitude psicológica de compreensão para com o próximo, de ordem na vida social, de bondade para com todos os seres. Embora tudo isso possa parecer utopia, não há outro futuro, se quisermos que haja verdadeiro progresso. Esta é a nova ordem do mundo.”

(*) Pietro de Alleori Ubaldi nasceu em Foligno, Itália (18 de agosto de 1886) e morreu em São Vicente, Brasil (29 de fevereiro de 1972). É definido, de forma insuficiente, como “um filósofo e pensador espiritualista”. 

Única e exclusivamente

No seu pronunciamento de abertura da 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em 22 de setembro de 2026, Luiz Inácio Lula da Silva, Presidente do Brasil, definiu como “gestos anacrônicos” a divisão do mundo em zonas de influência e as investidas neocoloniais por recursos estratégicos. Vamos examinar melhor essa afirmativa, mas, desde já proponho que a mesma definição se aplique às críticas que inúmeros pensadores, do alto de suas meritórias boas-intenções, fazem hoje ao avanço das Inteligências Artificiais (generativa e geral).

Onde o anacronismo geopolítico e o intelectual se equivalem?

A resposta ao primeiro parece evidente: as relações de força entre as nações hegemônicas vêm mudando radicalmente nos últimos trinta e seis anos, e de forma dramática na última década. Neste exato 2026, ninguém em sã consciência, especialmente quem se arvora à condição de líder, tem o direito de afirmar que o mundo bipolar persiste.

Não, não persiste.

A divisão do mundo em dois sistemas antagônicos (capitalismo x socialismo) começou a se enfraquecer lá pelo final da década de 1980, com a Queda do Muro de Berlim, sendo consumada em 1999, com a nomeação de Vladimir Putin, chefe do Serviço Federal de Segurança, para primeiro-ministro da Federação Russa. A recuperação do poderio militar, junto com a relevância geopolítica daquele país, iniciou-se ali. Não mais como um Estado socialista, antagônico ao capitalismo, mas lastreado no caráter resiliente, altivo e guerreiro de seu povo.

O que temos agora, portanto, não é antagonismo, mas a célere construção de um mundo multipolar, sob a sombra de um poderio nuclear distribuído por várias nações, com destaque para os Estados Unidos da América, a Federação Russa e a República Popular da China. Frente a este novo mundo, o melhor dos cenários possíveis é que ele venha a ser cooperativo, e o pior é que se torne crescentemente disruptivo.

Cooperativo, se todos os países do planeta — que em essência é uma única comunidade — compreenderem que o intercâmbio étnico as fortalece, tanto quanto a tolerância (no sentido de estarmos dispostos a ouvir ou aceitar ideias, opiniões ou atitudes diferentes ou opostas às nossas). E, tendo incorporado essas compreensões, passarem a atuar em harmonia com o propósito maior, qual seja, o amadurecimento espiritual da espécie humana.

Disruptivo, como já vem ocorrendo, se insistirmos — por ignorância e/ou soberba — nos anacronismos acima referidos. A disrupção ocorre porque as guerras por zonas de influência e pelo estabelecimento de um neocolonialismo por recursos estratégicos, que se complementam, estão irremediavelmente perdidas. Não reconhecer este fato só contribui para amplificar a barbárie (ódio nas redes, desesperança, suicídios, violência nas ruas, extremismo político, genocídios, eclosão de epidemias e desastres ambientais provocados por negacionismo científico etc.) e, assim, estender a agonia planetária. Para o bem, ou para o mal, esse jogo acabou.
 
O outro anacronismo é o intelectual. E este é mais delicado, pois diz respeito ao pensamento e às ações de indivíduos reconhecidamente inteligentes, de boa índole e bem-intencionados.

Em resumo, trata-se do seguinte: não há como interromper o avanço do conhecimento científico e, por decorrência, o fluxo de sua aplicação tecnológica. O que hoje denominamos de Inteligências Artificiais (generativa e geral), e que poderia ter qualquer outro nome, é um fato consumado. Tanto quanto o foram o desenvolvimento da linguagem, a invenção da escrita, a descoberta do princípio da alavanca, a criação dos tipos móveis de impressão, e tudo mais que nos trouxe até este momento na História.

Se o uso disseminado e em evolução das IAs geram impactos ambientais e cognitivos inaceitáveis, haveremos de cobrar do próprio conhecimento científico as soluções necessárias. Ainda que, de acordo com a Escala de Kardashev, nossa espécie esteja fadada a parar no ponto em que nos encontramos: a Civilização do Tipo 0 (aquela que extrai sua energia de fontes brutas e orgânicas de seu planeta natal, como combustíveis fósseis, madeira e carvão, em vez de dominar toda a energia planetária).

Por enquanto, segundo Carl Sagan, ainda não ultrapassamos o nível 0,73, pois centenas de anos nos separam da obtenção dos conhecimentos científicos e ferramentas tecnológicas que nos possibilitarão controlar toda a energia deste planeta, como o clima e os oceanos.

Se e quando formos capazes de superar os anacronismos geopolítico e intelectual que persistem, então, sim, teremos uma chance de almejar o Tipo I proposto pelo astrofísico russo Nikolai Semenovich Kardashev (1932-2019): aproveitamento e domínio de toda a energia disponível na Terra (cerca de 10¹⁶ watts), incluindo a solar, eólica, geotérmica e a gerada pelos fenômenos naturais, como o clima. 

O que não podemos sequer sonhar são as civilizações dos tipos II (a que captura toda a energia irradiada por sua estrela hospedeira) e III (aquela capaz de controlar a energia de sua galáxia, a Via Lactea, que engloba bilhões de estrelas). E não podemos porque, neste caso, já não seríamos humanos e, muito antes disso, nosso planeta já teria sido consumido pela Gigante Vermelha em que se transformará o nosso Sol.

Por não podermos e, eticamente, não devermos tentar interromper o avanço do conhecimento científico — e, em decorrência, impedirmos o fluxo de sua aplicação tecnológica — é que temos de prestar atenção aos alertas de Luiz Inácio Lula da Silva, na ONU. E não só àqueles relativos aos anacronismos geopolíticos, mas igualmente, por similaridade, aos intelectuais, esses que buscam nos cativar com argumentos (quase reacionários) em defesa do banimento das Inteligências Artificiais.

As IAs não devem ser banidas, nada voltará atrás, nada será como antes. O que o conjunto das nações, o mundo multipolar e cooperativo precisa e deve fazer, com urgência, é controlá-las, determinando que essa tecnologia trabalhe em prol do interesse humano. Única e exclusivamente. 
 

O dom da Arte

Onde está a verdade do mundo? As relações sociais agora baseadas em ódio e desconfiança, o velho discurso político manipulador, os novos instrumentos de controle corporativo alcançaram, todos juntos e associados, patamares de tamanha sofisticação, violência e cinismo que nos afundaram a todos, o conjunto dos indivíduos irrelevantes do planeta, neste oceano de entropia onde desperdiçamos a totalidade de nossas energias físicas e mentais em prol de pouca coisa, ou quase nada.

Não há mais lado para onde olhar. Os exemplos, que sempre foram escassos e enganosos, definitivamente deixaram de existir. E, no entanto, a verdade do mundo está exposta em todo lugar, escancarada para quem a quiser ver, inclusive na moderna produção cinematográfica. Não como representação farsesca, caricata, apenas destinada a nos divertir, mas como aquilo que ela de fato é: o espelhamento real, duro e trágico desta civilização. Acompanhe, por exemplo, esta sequência retirada de uma série inglesa — um dos trabalhos a que tenho me dedicado, aqui —, disponível em streaming:

O homem de confiança de uma tradicional família de gangsters se reúne com o filho do decadente patriarca, para adverti-lo sobre as consequências da traição que acabara de cometer contra seu pai, movida pela ambição de assumir o império mafioso:

—Nós estamos prestes a sermos aniquilados. K.P.M. vai nos devorar, pedaço por pedaço. A máfia dela tem oito trilhões em dinheiro vivo e o maior arsenal nuclear do mundo.
 — ele alerta.

A cena muda para o evento de apresentação da nova embaixadora dos EUA na Inglaterra, que é anunciada pelo anfitrião:

—E agora, é com grande prazer que dou as boas-vindas a...

Uma senhora alta, magra, de cabelos brancos curtos, discretamente apoiada numa bengala, põe-se à frente da plateia e, após cumprimentar os presentes, sob aristocráticos aplausos discursa:

—Foi Joseph Kennedy sênior, um irlandês-americano como eu, que em 1938 esteve neste mesmo palco como recém-nomeado embaixador dos Estados Unidos. Assim como ele, eu nasci e cresci em Boston. (…)

Após sua breve fala, K.P.M. recebe em particular a filha bastarda do gangster decadente, aquele que vem sendo traído pelo filho mais velho, dela ouvindo pedido de apoio para seu próprio projeto de assumir o legado da família, em oposição ao irmão, este filho legítimo, a quem considera um fraco. A nova embaixadora, do alto de sua arrogância, resume a situação:

—Então você quer que eu use minhas conexões, riqueza, poder, experiência, conhecimento, para colocar você, a ambiciosa, no trono. Primeiro, preciso descobrir se a filha dedicada tem coragem de passar a perna no papai. Se tiver, talvez fechemos negócio. Se não tiver, não.

—O que você quer? —pergunta a moça.

—Metade de toda a receita dos negócios da família, sem exceção, por cinco anos. Depois você estará livre.

Após rápida negociação, o prazo é reduzido para quatro anos. A filha bastarda se retira e um novo personagem é conduzido até K.P.M. Trata-se de T., um policial inglês corrupto, calvo, de baixa estatura, sorriso irônico, a quem ela concede apenas um minuto.

Ele começa:

—Primeiro, eu gostaria de dizer o quanto gostei do seu discurso. Joseph Kennedy era um pirata. Ele veio para estas terras para juntar dinheiro para financiar as ambições políticas de sua família [Seu filho mais famoso foi John Fitzgerald Kennedy, 35º presidente dos EUA] . Ele comeu com todos os chefões da máfia em Londres. E, por meio de favores, coerção e astúcia, fez alianças com alguns dos vilões mais nefastos que Londres já viu. Não é segredo que você, Sra. M., seja herdeira de uma família lendária e infame de mafiosos de Boston.

—Seu minuto... —ela avisa.

T. prossegue, sempre sorrindo:

—Você veio aqui ganhar um bilhão de libras e voltar para casa com o tesouro. Eu posso te ajudar com isso. Agora, dado o seu status de embaixadora, você não pode ficar se misturando com vilões, vasculhando cada canto para descobrir o que está acontecendo. Não. O que você precisa é de um paladino, um cavaleiro corajoso para ir à batalha por você, como a rainha Elizabeth tinha Francis Drake... Não seria eu, não sou esse paladino, sou um facilitador, um mero intermediário que, mediante um pagamento, conecta pessoas. E por esse pagamento encontrarei para você o seu paladino, um criminoso em ascensão tão inteligente, implacável, astuto e violento quanto seus ilustres antepassados. Daqui a cinco anos, esse homem governará Londres com a sua ajuda. E, como tal, ele será seu. (…) Você terá seu tesouro, e a vida continua.

T. sorri com cinismo, e ao encerrar seu minuto retira do bolso do casaco um cartão com telefone, que deixa sobre a mesa. Despede-se, sempre sorrindo:

—Boa noite, Sra. M.

K.P.M. está calada, o olhar fixo no interlocutor. Quando T. se encaminha para a saída, a nova embaixadora dos EUA na Inglaterra esboça sutil movimento de cabeça, enquanto seus olhos parecem piscar e o lábio inferior alceia, sugerindo aceitação à proposta que acabara de ouvir, e desdém por seu autor.

Esse, repito, é um episódio ilustrativo de que o pulso do nosso tempo também está em filmes, séries e documentários exibidos nos streamings acessíveis em seu smartphone, laptop, desktop ou smart TV. Mediante pagamento de assinatura, sim, mas não se engane, consumir informação hoje é tão vital quanto ingerir alimentos e ter onde morar. E fique atento: nem tudo o que você assiste, vê e ouve é diversão descompromissada; muitas vezes também é, e principalmente, o retrato fiel dos descaminhos de nossa civilização. A arte tem esse dom. Ela não é só manifestação estética, mas também ética, política, existencial. 
 

Centelhas intuitivas

As empresas que operam a Inteligência Artificial generativa (essa que captura e analisa grandes volumes de dados para aprender padrões e, em seguida, criar conteúdos como textos, imagens, áudios e códigos, a partir do comando de um usuário) e vêm desenvolvendo a Inteligência Artificial geral (a que hipoteticamente aprende, raciocina e executa qualquer tarefa intelectual de forma autônoma, igualando ou superando capacidades humanas) —, essas bilionárias empresas, que se estabelecem nos dois extremos da disputa de poder geopolítico (EUA x China), são alvo hoje desta incontornável acusação:

A de usarem para treinamento de máquina — ou seja, alimentar algoritmos com grandes volumes de dados para que o sistema aprenda a reconhecer padrões, fazer previsões e tomar decisões por conta própria — o conteúdo de livros teóricos e ficcionais, trabalhos acadêmicos, artigos de revistas técnicas, reportagens científicas, produções artísticas, bem como o conteúdo de enciclopédias virtuais públicas como a Wikipedia, sem que obtenham o consentimento e muito menos remunerem os autores e proprietários dessas bases criativas e informacionais.

A questão que está posta, e vem sendo olimpicamente ignorada — porque as big techs ainda operam sem uma regulamentação global, ou seja, comum a todos os países —, diz respeito ao reclamado direito autoral daquelas fontes primárias, tendo em vista que as empresas de IA visam obter lucros com a criação de conteúdos gerados a partir do trabalho intelectual e artístico alheio.

O acervo do conhecimento humano constitui um patrimônio universal, pois resulta de duas vertentes complementares e independentes da vontade deste ou daquele indivíduo. Essas vertentes são o progresso cognitivo de nossa espécie, associado ao processo a que denominamos intuição (a capacidade de entender, decidir ou chegar a uma conclusão de forma imediata, sem passar pelo raciocínio lógico ou consciente).

Tudo o que já sabemos e poderemos vir a saber decorre desses dois eixos de aprendizado atuando de forma complementar a simultânea. É por isso que se diz que as grandes descobertas científicas não são lineares, mas se dão em saltos, com avanços e recuos, erros e acertos. Por consequência, nunca houve, há, ou haverá uma única ideia que possa ser atribuída como exclusiva criação de uma solitária mente humana, por mais brilhante que seja esse indivíduo.

A partir da misteriosa circunstância (cósmica-antrópica-atômica) que nos dotou do poder cognitivo, tudo o que se seguiu, e segue, resulta de nossa capacidade de relacionar ideias e, a partir disso, propor novas visões a serem submetidas à investigação metódica, testes práticos e análise lógica da realidade, o que denominamos de método científico, e tem sustentado nosso avanço civilizacional.

Nesse sentido, repito, o conhecimento é universal a ninguém pertence — nem a indivíduos, nem a Estados, muito menos a corporações. Cada novo salto, bem como todos avanços tecnológicos decorrentes, resultam da combinação de tudo o que se sabe de uma específica matéria, iluminada pelo percebimento (intuitivo) de sutis relações, até mesmo entre temas distintos. Isto se deve ao fato de que, como a realidade percebida não é compartimentada, mas um fenômeno único, inteiro, todas as manifestações da natureza estão perfeitamente imbricadas. A fagulha produzida em nossa percepção por uma nota musical, por exemplo, pode ser a centelha que iluminará a compreensão de um enigma matemático, ou físico — a isso chamamos de intuição.

A compreensão que se revela a partir da massa crítica dos conhecimentos objetivos acumulados por nossa espécie num determinado momento e circunstância — eureka! —, efetivando-se como uma invenção, uma descoberta, um achado, pode ser atribuída a um ou mais indivíduos na História, mas não lhes pertence.

O estabelecimento do direito de patente (que, se diz, surgiu em Florença, na segunda década do séc. XV, sendo a primeira destinada a proteger uma invenção relativa a transporte fluvial na cidade de Veneza, em 1474) não decorreu de uma pretensa justiça natural, mas de interesses estritamente comerciais: incentivar a inovação tecnológica e proteger o inventor contra cópias não autorizadas.

Ou seja, se incontáveis descobertas científicas e invenções foram produzidas nestes últimos 600 anos, e muitas fortunas pessoais e corporativas se fizeram a partir delas, isto não transforma o instituto jurídico do direito de patente numa instância de impedimento ou restrição ao uso do conhecimento humano para o prosseguimento de nossa espécie. Cabe então desconsiderarmos o direito de patente, entregando ao uso abusivo das big techs todo o acervo decorrente dos esforços individuais e coletivos que contribuíram e contribuem para o avanço civilizacional, ainda que na essência esses esforços não pertençam a indivíduos ou grupos de pessoas?

Claro que não!

O fato do acervo de conhecimentos humanos derivar do encadeamento de saberes ao longo de milênios não retira o valor do agente que formula as ideias acabadas e provadas. Se a lógica das relações sociais é capitalista, esses agentes fazem por merecer reconhecimento e retribuição pela exploração de suas potencialidades intelectuais, quase sempre alcançadas mediante muito esforço mental, custo financeiro e dedicação pessoal.

Karl Marx, por exemplo, para se dedicar com exclusividade à pesquisa e escrita de suas obras, como “O Capital”, foi financiado por Friedrich Engels, que vinha de uma família de industriais têxteis, com fábricas na Alemanha e na Inglaterra. A mente realmente inovadora se assemelha aos melhores artistas e mais celebrados atletas — todos são o que são porque vão além de seus limites e, portanto, não podem estar limitados pelos constrangimentos cotidianos.  

Assim como num determinado momento da construção do conhecimento foi adotada a prática da indicação bibliográfica, ou referencial (conta-se que o primeiro bibliógrafo foi o poeta grego Calímaco de Cirena, que viveu entre 310-240 a.C. e criou um catálogo em 120 volumes sobre os autores e as obras da Biblioteca de Alexandria, divididos por categorias e com notas biográficas), o que tem garantido a preservação da autoria filosófica, científica e artística de cada época, também agora temos o que na linguagem moderna se define como metadados (ou seja, informações localizadas em segundo plano, que definem a origem, explicam, organizam e facilitam a localização de um conteúdo digital).

Que as big techs passem a disponibilizar acesso aos metadados de todas as informações inseridas nos acervos de suas plataformas de IAs, no momento exato em que são apresentadas respostas às solicitações dos usuários, seja em forma de textos, imagens, áudios ou códigos. Isso não apenas garantirá credibilidade aos conteúdos oferecidos, mas permitirá determinar a adequada remuneração às fontes originais e legítimas das referidas informações, a partir de uma regulação global, e não nacional ou arbitrada pelas corporações.

A tecnologia para isso já existe, pois é assim que se faz o pagamento de direitos aos autores de obras musicais em plataformas de streaming. Ou deveria fazer, pois a prática existente é tida como falha e insuficiente, porque não remunera os chamados direitos correlatos, ou seja, o trabalho dos músicos que contribuíram para a execução das obras gravadas e reproduzidas nas plataformas.

Isso (remunerar todas as fontes originais do conteúdo utilizado pelas IAs) é simples de fazer? Não. É provavelmente complicadíssimo, mas, como estamos vivendo a era das Inteligências Artificiais generativa e geral, processadas à velocidade da luz, certamente haverá como pôr uma medida dessas em prática.

Com a vantagem adicional de que remunerar indivíduos ou grupos de pessoas comprovadamente responsáveis por formulações inovadoras configura inequívoca e legítima transferência de renda, das corporações tecnológicas que se beneficiam da comercialização do acervo de conhecimentos da humanidade, para os autores primários desses conhecimentos, sejam indivíduos ou grupos de pessoas. Ainda que essas fontes primárias constituam, elas próprias, apenas elos de uma infinita corrente.

Até porque, convenhamos, o trabalho humano precisa ser adequadamente remunerado. E na era cibernética que se aprofunda, não há trabalho humano civilizacional mais nobre e valioso do que as fagulhas de percepção, as centelhas intuitivas que nenhuma máquina lógica parece capaz de produzir, pois tais insights derivam de nossa única e misteriosa cognição. 
 

A que serve a cognição?

A cognição está no plano atômico, no antrópico, ou no cosmológico? Para começar, devemos aprender que cognição é um conjunto de processos que o cérebro usa para adquirir, compreender, armazenar e utilizar informações provindas do ambiente e das experiências.

Do ponto de vista das menores partículas, a cognição não é uma propriedade de um único átomo, mas um fenômeno emergente gerado pela interação complexa de bilhões de átomos organizados em moléculas, células e redes neurais no cérebro. Esses são os processos biológicos que sustentam a mente e dependem de átomos específicos, principalmente carbono, hidrogênio, oxigênio, nitrogênio, fósforo e enxofre.

O pensamento e a percepção ocorrem quando átomos ganham ou perdem elétrons, tornando-se íons, e o fluxo desses íons através de membranas celulares cria correntes elétricas microscópicas, permitindo que os neurônios se comuniquem.

No nível molecular, os átomos formam substâncias químicas (como a dopamina e a serotonina) que fazem a ponte entre um neurônio e outro nas sinapses. Assim como uma única molécula de água não tem a propriedade de ‘molhar’ (a molhabilidade surge apenas quando várias moléculas se juntam), um átomo isolado não pensa. A cognição nasce da organização estruturada da matéria viva, transformando reações físico-químicas em percepção, memória e consciência.

Do ponto de vista antrópico, a cognição é o conjunto de processos mentais que o cérebro humano utiliza para perceber, pensar, aprender e lembrar. Em termos simples, é a capacidade que nós temos de processar informações e transformar o que captamos do mundo em conhecimento, permitindo nossa interação e sobrevivência. Nesse plano, a cognição não funciona como um computador isolado, mas engloba diversas funções interligadas que moldam nossa experiência de vida.

As principais funções: Percepção — organização e interpretação dos estímulos sensoriais (visão, audição, tato) para dar sentido ao ambiente; Atenção — Capacidade de focar em um estímulo específico enquanto filtramos distrações; Memória — Processo de codificar, armazenar e recuperar informações passadas; Linguagem — Habilidade de traduzir pensamentos em símbolos (palavras, gestos) para comunicação; Raciocínio e Lógica — Capacidade de avaliar informações, fazer conexões e deduzir conclusões; Resolução de Problemas — Aplicação do conhecimento para encontrar soluções diante de novos desafios.

Para nós, a cognição vai além da lógica pura. Ela é profundamente influenciada pelas emoções (sentimentos alteram diretamente como prestamos atenção, tomamos decisões e gravamos memórias) e contexto social (nossa cognição se desenvolve e se expressa por meio da cultura, da empatia e da convivência com outras pessoas).

Do ponto de vista cosmológico, a cognição deixa de ser apenas uma função cerebral humana e passa a ser entendida como o processo universal de sistematização, organização e fluxo de informação. Sob essa lente, o universo não é apenas matéria e energia em expansão, mas um sistema dinâmico que ‘aprende’, se auto-organiza e gera complexidade. Essa perspectiva é explorada por astrobiólogos, físicos quânticos e filósofos da ciência através de alguns pilares fundamentais:

Universo Autoconsciente — Para cientistas como Carl Sagan, a vida inteligente é o meio pelo qual o Cosmos desenvolveu a capacidade de pensar sobre si mesmo. A frase clássica “somos uma maneira de o Cosmos se conhecer” resume a ideia de que a nossa cognição é, na verdade, a cognição do próprio universo atingindo um nível de autoconsciente local.

Informação e Auto-organização — Na física moderna, a informação é vista como algo tão fundamental quanto a matéria e a energia. Do Big Bang até hoje, o universo evolui criando estruturas cada vez mais complexas (átomos, estrelas, moléculas, cérebro). Esse processo de organizar o caos e ‘computar’  leis físicas para gerar ordem é, em um sentido amplo, uma forma de cognição cósmica ou computação universal.

Inteligência Planetária e Astrobiologia — Pesquisadores contemporâneos discutem o conceito de inteligência planetária. Assim como a biosfera é a soma de toda a vida na Terra, a cognição planetária seria a rede de sistemas vivos e tecnológicos processando informações de forma coletiva para manter o equilíbrio do planeta. Em escala cósmica, a vida inteligente pode ser uma transição natural da evolução de qualquer planeta, mudando a forma como a energia e a matéria se movem pelo espaço.


Panpsiquismo e Cosmopsiquismo — No campo da filosofia da mente, vertentes como o cosmopsiquismo sugerem que a consciência ou a capacidade cognitiva não surgiu do nada no cérebro humano, mas é uma propriedade intrínseca e fundamental do próprio tecido do universo. Nós seríamos apenas ‘antenas’, ou canais onde essa mente cósmica se manifesta de forma individualizada.

Todo o que está dito acima — em itálico — me foi fornecido por uma Inteligência Artificial Generativa básica, gratuita, a partir de uma única pergunta: O que é cognição, do ponto de vista…? micro, médio e macro. Ou seja, essa IA buscou em seu imenso acervo de dados — informações extraídas de livros e trabalhos acadêmicos, artigos de revistas técnicas, reportagens científicas publicadas em revistas e jornais, etc. — a maioria, é verdade, sem o consentimento e/ou a remuneração de seus autores, o que é outra discussão —, extrai desse imenso acervo de informações uma resposta lógica (submetida à relação causal/consequencial) e coerente (isenta de contradições) para cada questão proposta.   

Devo aceitar essas respostas como verdadeiras, e a partir delas elaborar reflexões? Nessa altura do campeonato, essa é a questão — usar ou não usar IA Generativa —  que importa. E mais: devo ignorar essa ferramenta de trabalho, e me ater aos livros das (defasadas) bibliotecas públicas, do meu (sempre incompleto) acervo particular, ou aos diálogos que possa manter com especialistas ao redor do mundo — por cartas físicas, e-mails, ou aplicativos de conversa? —, supondo que eles me respondam?

Perceba que, na real, esse dilema não existe. Ou se tornou irrelevante porque, se o mundo analógico ainda fosse uma opção, para sermos coerentes deveríamos abandonar os computadores e voltar a escrever nossos artigos, ensaios, teses e livros em máquinas de datilografia, quiça à mão, sobre uma folha de papel pautado. Ou seja, não é intelectualmente honesto ser seletivo no uso da tecnologia. Isso é verdade sobre o computador e também sobre a Inteligência Artificial Generativa.  

Mas não é exatamente de incoerência que trata este texto. Aqui se quer saber se a cognição está no plano atômico, antrópico ou cósmico. Refletindo sobre os subsídios que a IA hoje nos fornece, podemos talvez concluir que o processo cognitivo resulta dos três planos em estado de emaranhamento (misturado), se assim podemos definir um fenômeno mental em permanente retroalimentação.

Ou seja, é universal porque as questões mais profundas nos são colocadas pelo Cosmos. É antrópico porque são os neurônios humanos, em interação, que nos possibilitam formular questionamentos. E é atômico porque as moléculas que constituem nossos neurônios resultam da organização das menores partículas constituintes do, e presentes no Cosmos. E uma nova pergunta se impõe: Para que serve a cognição, se ela está entregue, ao menos neste plano terreno, a um agente finito, imaturo, arrogante e autodestrutivo?

Talvez a cognição seja mesmo um sistema dinâmico que ‘aprende’, se auto-organiza e gera complexidade. Ou, como disse Carl Sagan, a vida inteligente é o meio pelo qual o Cosmos desenvolveu a capacidade de pensar sobre si mesmo. E nossa cognição é, na verdade, a cognição do próprio universo atingindo um nível de autoconsciente local — isto é, o gênero humano. Mas Sagan era um cara otimista.

O pulso do tempo

Em sua origem ele não se revelou monstruoso, e na verdade não era. Tratava-se de um jovem cortês, afável, descendente das mais antigas linhagens do Império Britânico, recém-retornado da guerra do Afeganistão, de onde trouxe lembranças que assombravam suas noites. Não era um monstro, mas o que veremos a seguir talvez revele a construção da monstruosidade, aquela que se torna inevitável pelas circunstâncias e que pode definir um pouco este tempo desesperado em que vivemos.

O pai desse jovem, para enfrentar a decadência financeira — que se abatera, de resto, sobre toda a aristocracia inglesa desde a Grande Depressão Agrícola do final do séc. XIX —, passara a alugar as propriedades da família para o cultivo de marijuana — verdadeiras fazendas foram instaladas no subsolo escavado de suas terras. Quando o velho morreu, ciente do ‘milagre’ que havia possibilitado recuperar o padrão de vida familiar, o jovem nobre decidiu expandir o modelo de negócio para as terras de outros aristocratas falidos espalhados pela Europa.

Na véspera de seu casamento com uma suave e bela condessa italiana, afilhada de um capo mafioso com quem o jovem inglês negociava (neste século XXI, a crise da aristocracia se estende a toda a Europa, e não é raro que seus membros liderem ou se associem a atividades ilícitas), o nobre feito gângster aceita se confessar com o sacerdote que oficiaria a cerimônia. Ele ingressa na igreja, entra no confessionário, e mantém o seguinte diálogo:

—Bom dia, filho.

—Buongiorne, padre.

—Quero garantir que tudo que disser hoje para mim está sob o sigilo da confissão.

—Certo.

—Então, por que acha que Isabella pediu que viesse?

—Ela deve achar que eu quero desabafar sobre certas coisas.

—Coisas?

—Sim. Principalmente porque matei um homem.

—Entendo. Quando isso aconteceu?

—Ontem à noite.

[Na verdade, tratou-se de um indivíduo que na juventude convivera com Isabella e, durante a festa da véspera do casamento, assediou-a, foi expulso do local e, quando o nobre gangster o procurou no quarto, exigindo desculpas, voltou a ofender duramente a moça, levou um soco no queixo, bateu a cabeça na quina de uma mesa e ali morreu. Não houve testemunhas, nem escândalo, porque o padrino da noiva se encarregou de dar sumiço ao corpo, sem que nenhum convidado soubesse do ocorrido.] 

O clima muda no confessionário. O padre está surpreso, incomodado com a revelação. Tira os óculos.

—É, de fato, um grande pecado, diz.

—Claro.

—Mas você veio pedir perdão?

—Bem, antes de chegarmos ao perdão, padre, e já que estou aqui, tem mais algumas coisas que eu quero contar.
 
—Continue, por favor.

—Obrigado. Bom, também teve o homem que matei no conjunto habitacional, mas esse foi legítima-defesa; e o H.C., que foi a sangue-frio, mas ele definitivamente mereceu. De todos, o contador é o que mais me deixa em dúvida. Mesmo assim, não havia outra opção, sabe? Quanto aos afegãos, eu estava em combate, numa guerra, então seguia ordens.

Mais chocado ainda, o padre o questiona:

—Sinto uma falta de remorso na sua voz?

—Não, padre, não. Tirar vidas humanas sempre traz remorso. Por isso, estamos tendo esta conversa. A questão com a qual eu luto é como eu presto contas por esse remorso.

—Mas você entende que assassinato é pecado? O sexto mandamento declara que não devemos assassinar.

—Acho que o original em hebraico diz simplesmente que não devemos matar: NÃO MATARÁS.

—Parece que você conhece bem as Escrituras.

—O suficiente para saber que há uma contradição nesta declaração. O Eclesiastes diz: “Tempo de semear, tempo de colher, tempo de curar, tempo de matar”.

—Não, não. É importante que não distorça a palavra de Deus para justificar suas ações. Você deve pedir perdão a Deus!

—Para esclarecer ambiguidades, padre, quando usa a palavra “Deus”, de qual aspecto de Deus falamos? Da estrutura externa, ou da essência interna? Podemos esclarecer a delimitação, para avançarmos com eficiência?

—Não sei se entendi a pergunta.

—Bem, um aponta para fora, e o outro aponta para dentro. Ou você é responsável por suas ações, ou terceiriza a responsabilidade por elas para um conveniente agente de salvação.

Confuso, o padre pergunta:

—E o que seria esse agente?

—Na verdade, pode ser qualquer coisa. Cocaína, prostitutas, dinheiro, heroína, Jesus, Maomé, ou, inconvenientemente, Deus.

—Mas Deus é o Ser Supremo.

—Mas essa não é a questão, padre. Só estou questionando o local do Ser Supremo.

—Está comparando heroína com Deus...

—Com certeza mais pessoas morreram pelo álibi externo de Deus, do que pelas sensações estimulantes da heroína. Como reconciliar essa contradição, se quisermos assumir de fato nossa responsabilidade?

[Silêncio]

—Vou deixar o senhor pensar, padre, e podemos conversar mais, depois. Arrivederci! 
— despede-se o nobre gangster, deixando o confessionário para encontrar a noiva que o esperava no carro em frente à igreja, sem atender os pedidos do padre para que ele volte ao confessionário.

Pergunto:

Onde, nesse episódio extraído de uma série de streaming, está a construção da monstruosidade a que me referi no começo? Está na banalização da morte imposta a terceiros, do assassinato autojustificado, e não por um indivíduo proveniente da classe dos destituídos, mas por um jovem cortês, afável, um aristocrata culto e plenamente capacitado, e capaz, de estabelecer limites às suas ações.

A degradação ética e moral que avançou sociedade adentro, nestes tempos, resulta, a meu ver, de uma crise mais profunda e antiga: nosso sentimento de impotência frente a uma realidade que não mais se justifica, nem mesmo (e principalmente) do ponto de vista espiritual. Perdemos de vez a inocência; nossas esperanças estão desacreditadas; vivemos no hoje, pelo hoje, para o hoje. E não sob o prisma filosófico, mas do ponto prático, utilitarista, interesseiro.

O fato é que — e lá venho eu com meu bordão! —, enquanto nossa capacidade cognitiva não der conta do Desconhecido — o que jamais ocorrerá, pois a estrutura do cérebro humano evoluiu para garantir a sobrevivência em ambientes práticos e imediatos, o que lhe impõe barreiras biológicas para compreender fenômenos abstratos, de escalas infinitas e incalculável complexidade sistêmica — nada restará, além de nos rendermos ao entendimento mediano.

Aceitar o inalcançável — ou seja, a impossibilidade de conhecermos as forças e energias que superam os limites do mundo físico e da experiência comum — é, portanto, a constrição realista, conformada, mediana dos humildes. O problema começa quando, traídos pela arrogância, reivindicamos o direito de criar sistemas de intermediação entre nossa restrita racionalidade e o Desconhecido. Essa tem sido a inútil busca que empreendemos, ou talvez a má sina humana consubstanciada na edificação das religiões — todas as religiões.

Interpor entre nossas limitações biológicas, e o ilimitado Desconhecido, uma instância fundada em dogmas e fé, na esperança de que esse subterfúgio mental aquiete nossa primitiva insegurança, é o que nos aprisiona a este estado de permanente imaturidade. A pompa e a circunstância das crenças institucionalizadas não as redimem do pecado capital resultante de sua intrínseca desonestidade. Todos os credos vendem esperança, embora estejam cientes de que não possuem o poder de entregá-la. Por isso, o que têm produzido, por milênios, não passa de um sofisticado estelionato existencial.  

Mudando de assunto:

Logo após sua invenção, percebeu-se que a cinematografia era um eficiente meio para contar histórias a um público maior do que o do teatro. Ali, ao terminar o século XVIII, inaugurava-se uma indústria que viria revolucionar o modo como as sociedades passariam a comunicar fatos, ideias e desejos — o cinema.

Até o final da década de 1960, a magia cinematográfica se dava em salas onde um público heterogêneo fruía histórias ficcionais e acompanhava relatos jornalísticos. Tudo se resumia a sensações simplificadas experimentadas em grupo. As análises formais e as reflexões estéticas cabiam a críticos, uma nova atividade profissional adotada por jornais e revistas.

Em meados dos 1970, com o advento e popularização de dispositivos reprodutores de vídeos gravados em fita, teve início a primeira grande mudança naquela indústria: os filmes podiam ser assistidos repetidamente por uma única pessoa, libertando esse indivíduo das grandes salas e suas catarses inibidoras da racionalidade, capacitando-o a desenvolver suas próprias e tranquilas reflexões. As salas de cinema entraram em decadência, até quase desaparecerem.

Nas primeiras décadas deste século XXI, com a internet e o barateamento dos computadores, as fitas de vídeo cederam lugar aos serviços de streaming, onde toda produção áudio-visual está disponível sob demanda (inclusive os filmes mais antigos), diretamente na tela de sua preferência.

Em pouco mais de 200 anos, portanto, a cinematografia mudou de formato, sem perder seu histórico valor como instrumento de disseminação cultural. Se alguém quer sentir o pulso do nosso tempo, basta conectar seu smartphone, laptop, desktop ou smart Tv, e assistir filmes, séries ou documentários em serviços de streaming gratuitos ou pagos. Até mesmo as piores produções têm algo a nos ensinar.

De volta ao começo:

A incapacidade cognitiva de darmos conta do Desconhecido — forças e energias que superam os limites do mundo físico e da experiência comum —, bem como nossa submissão a dogmas e crenças, estão abertamente expostas em vídeos sob demanda. Nem sempre com clareza, qualidade e profundidade reflexiva, mas, sem dúvida, o debate está presente aí. Inclusive, e principalmente, a crise ética e moral que se estabeleceu em todos os estratos da sociedade.

Série de equívocos

O professor fala a seus alunos universitários:

“O que é fundamental entender é que a IA vai tornar obsoleto o que eu faço e o que vocês aspiram fazer. O mesmo para as carreiras em marketing, contabilidade, engenharia, seja de software, biológica, mecânica, análise de dados, gestão de pesquisa, todas essas carreiras desaparecerão na próxima década. Vocês devem alterar o foco de sua educação para incluir aprendizado de máquina, visão computacional e estratégias de gerenciamento, engenharia de Processamento de Linguagem Natural, de visão computacional. E vocês devem se preparar para um mundo em que seus esforços não sejam recompensados com dinheiro. A sua recompensa estará na melhoria coletiva da nossa sociedade, do nosso Estado. O quê, sem dinheiro, você disse? Sim, esse é o futuro. Os seus esforços serão recompensados através dos serviços que serão prestados em troca pelo Estado: habitação, cuidados de saúde, alimentação, transporte limpo, entretenimento. E ao se prepararem para uma carreira no futuro, também devem se preparar para um mundo que substitua os objetivos imperialistas e a intromissão econômica de uma sociedade de mercado livre pela dedicação a um Estado que, por sua vez, se dedique a uma vida equitativa para toda a humanidade.”

Após a fala do professor, enquanto os alunos deixam a sala/auditório, uma agente de um órgão secreto do Governo, que se encontrava anonimamente na plateia, o aborda e em seguida o prende, sob a acusação de recrutar alunos para fornecer informações ao Ministério da Segurança de um país inimigo. Ou seja, cometer traição em troca de dinheiro, muito dinheiro.

O professor leva uns sopapos de integrantes da equipe da agente, e some de cena, arrastado.

A agente chega em casa à noite, física e mentalmente exausta.

Encontra o marido médico, que lhe relata o drama do dia (uma menina de 16 anos com câncer de cólon em estágio 3). Diz que isso, que era raro, está se tornando cada vez mais comum, talvez devido a desequilíbrios ambientais, como microplásticos, conservantes, ou “algo que tenha a ganância como raiz”.

A esposa-agente se incomoda com a resposta, ironiza, definindo-a como “bem filosófica para um médico”, e ele é ‘autorizado’ por ela, uma agente secreta, a perguntar-lhe sobre seu dia.

Ela ouve o questionamento 'autorizado' do marido, assume ar de sabedoria, diz que seu dia foi “esclarecedor”, e explica:

“Todos os nossos inimigos estão travando uma guerra secreta de 50 anos contra nós, nos atacando com pequenos cortes”.

“Que tipo de cortes?”, pergunta o marido-médico.

“Na nossa infraestrutura, nosso governo, nossas escolas, nas redes sociais, em tudo”.

“Não estou entendendo. Como eles fazem isso?”, questiona ele.

E ela disserta:

“Lenin (*) costumava chamar os progressistas compassivos do Ocidente de ‘idiotas úteis’, porque, acima de tudo, o que eles queriam parecia ser o que Lenin desejava, e ele usou isso. Foi assim que chegou ao poder. Agora, todos eles (os inimigos do Estado/Governo ao qual a agente-esposa serve) estão fazendo o mesmo, e vêm fazendo isso há muito tempo.”

“Tipo espiões?”, emenda o marido.

Ela responde:

“Influenciadores, vendedores de informações, um exército de ‘idiotas úteis’, por 50 anos. Estamos infestados deles”, conclui, sorvendo mais um gole de seu vinho tinto.

Essa transcrição reproduz a sequência de uma série de espionagem disponível em plataforma de streaming. Nela estão: o professor que discorre sobre verdades incômodas em suas aulas, mas é intelectualmente desonesto, pois enriquece instrumentalizando jovens, enquanto projeta o futuro como uma sociedade socialista à moda do Admirável Mundo Novo; a agente secreta patriota e implacável; e o marido-médico acolhedor, compreensivo, companheiro. Quem ganha o 'troféu empatia' nesse show de equívocos?

Se tivesse de escolher, por eliminação apontaria o médico-marido. Esse ao menos se dedica a uma causa nobre, lida com pessoas reais e encara o desafio diário de minorar sofrimentos verdadeiros.

O professor, além de manipulador e desonesto, tem uma compreensão mais ampla do que está acontecendo na sociedade com a chegada da Inteligência Artificial, mas a empobrece quando submete o futuro dos indivíduos a um Estado planetário teoricamente provedor e omnipresente, sem mencionar ou demonstrar simpatia por qualquer forma ou possibilidade de controle social.

Já a heroína-esposa, essa, coitada, perdeu-se em meio a um embate ideológico já superado. Julga estar do lado certo, bom, nobre, puro, bem-intencionado da História, sem perceber que esse lado, em essência, espelha aquele que ela combate e chama de inimigo. Pior, desconhece ser apenas mais um peão descartável. Não entendeu nada, mas não perde a arrogância dos guerreiros bem treinados e armados.

Algumas dessas séries de streaming são mesmo esclarecedoras.

 

(*) Vladimir Ilyich Ulianov, ou Lenin, foi um revolucionário comunista, teórico e político, que serviu como chefe de governo da Rússia Soviética de 1917 a 1924 e da União Soviética de 1922 até sua morte.

 

Qual a Palavra?

No dia 22 de junho de 1633, a Santa Inquisição (ou Tribunal do Santo Ofício), criada pela Igreja Católica Apostólica Romana, na Idade Média, para investigar, julgar e punir pessoas por crenças ou práticas contrárias aos dogmas cristãos, isto é, heresia, determinou ao astrônomo Galileu Galilei que renegasse publicamente sua teoria heliocentrista (de que a Terra se movia ao redor do Sol, o centro de um sistema de planetas), sob pena de ser condenado à morte. Para a Igreja, a Terra era o centro de tudo.

Galilei, que, irônicamente, integrava desde sua criação, em 1603, a Pontificia Academia Scientiarum/Pontifícia Academia das Ciências — destinada a promover o progresso das ciências matemáticas, físicas e naturais, e o estudo dos problemas epistemológicos e éticos a elas relacionados —, ao ouvir sua sentença teria sussurrado: “E, no entanto, ela se move” (“Eppur si muove”).

Foram necessários 359 anos, mais de três séculos, para, em 31 de outubro de 1992, Galilei ser oficialmente reabilitado pelo Papa João Paulo II, numa inversão total de valores, pois não se tratava de uma reabilitação, mas do reconhecimento de que a Igreja havia se submetido a um ridículo histórico.

Este é o modus operandi da Igreja Católica Apostólica Romana — essa instituição que arrebata os corações e mentes de 1,422 bilhão de indivíduos no planeta —, quando confrontada com questões científicas capazes de abalar seus alicerces. Pois nesta exata altura do nosso processo civilizatório, primeiras décadas do séc. XXI, sinto informar que o catolicismo se depara com mais um momento Galileu Galilei. Nesse caso, não haverá a quem condenar. Sim, porque não se pode penalizar por heresia o zeitgeist, o espírito do tempo.

É neste contexto histórico que menciono aqui uma tese — não sei se outros já o fizeram —, proveniente dos recônditos de minha ignorância: o catolicismo, professado por 17,8% da população global, está se desfazendo no ar, à vista de todos, como talvez dissesse o grande pensador polonês Zygmunt Bauman. O motivo é, mais uma vez, sua recusa em aceitar o óbvio científico: a representação antropomórfica do mistério, aquela sobre a qual a Igreja erigiu seus dogmas, não mais se sustenta vis a vis o que já se conhece sobre a espiritualidade vinculada a forças e energias universais.

Para conquistar sobrevida, ou um neorenascimento, o catolicismo teria de promover a conciliação entre o mistério antropomorfista — atribuição de formas, sentimentos, comportamentos e características humanas a forças espirituais, ou ao próprio conceito de divino, sediado no princípio do Deus Trino (Pai, Filho, Espírito Santo) — e a espiritualidade decorrente do pertencimento terreno e inserção cósmica de nossa espécie. Ocorre que a Igreja Católica, desde sempre, tem demonstrado insegurança frente ao conhecimento (a capacidade humana de entender, apreender e compreender por meio da experiência, do raciocínio ou do estudo), embora faça questão de tê-lo ao seu lado, sob vigilância.

Essa insegurança a tem impedido de atuar com presteza e eficácia em questões essenciais ao nosso tempo, pois sua prática transfere a resolução das demandas terrenas aos desígnios divinos, arbitrados por uma Santíssima Trindade de difícil aceitação, cujo hermetismo se presta apenas como justificativa à impotência resolutiva da própria Igreja.

Agora mesmo estamos diante de um desafio crucial para a continuidade da espécie humana como a conhecemos: o avanço desregulado da Inteligência Artificial. Compreender e dominar a lógica matemática que sustenta os algoritmos e seus códigos capacitaria a Igreja a contribuir, decisivamente, para antecipar os movimentos disruptivos da IA, sem necessariamente interditá-la, pois o que essas tecnologias demandam não é seu banimento, mas regras estritas que as façam se submeter e servir exclusivamente ao interesse do homem. E não apenas compreender 
— também é imperativo que a Igreja se engaje no debate social sobre a questão.  

Entendo as dificuldades disso, enxergo o impasse existencial em que o catolicismo se enfiou, ao longo de mais de dois milênios. Sei que um ajuste de rumo não virá espontaneamente — não no tempo de minha existência, ou nunca. E, no entanto, o que observo é o zeitgeist, a consciência do planeta, essa que decorre de nossa evolutiva e compartilhada cognição, cada vez menos submetida a dogmas e cada vez mais disposta a realizar silenciosos saltos de entendimento, ao perceber e se posicionar diante das contradições presentes na(s) religião(ões) institucionalizada(s).

É nesse sentido que, enquanto aplaudo a iniciativa da Encíclica Magnifica Humanitas/Humanidade Magnífica, relativa à Inteligência Artificial, também me incomodo com sua abordagem pouco prática — apenas identificar e repreender os produtores de distopias tecnológicas não basta para enfrentar o problema; muito menos para mobilizar o clero e ainda menos o seu rebanho. Nesse contexto me ocorre a pergunta “Quantas divisões tem o Papa?”, famosa ironia atribuída ao líder soviético Josef Stalin, em desdém pela inexistente capacidade militar da Igreja. Ouso responder: a Igreja Católica possui, sim, grande força. Não a bélica, destrutiva, mas a persuasiva, construtora. Ela só precisa ser acionada, com método e eficácia.

Agraciada por tantos momentos de exemplares convergências do sagrado com o secular — a edição da Encíclica Rerum Novarum/Coisas Novas, de Leão XIII, em 1891, por exemplo, que refletiu sobre a sociedade, a economia, a política, e resultou na revolucionária “Doutrina social da Igreja” —; agraciada por essa e outras precisas percepções e ações, mas igualmente condenada por inúmeros pecados capitais perpetrados ao longo da sua existência (perseguição e assassinato daqueles que se opunham a seus dogmas, apoio à exploração colonialista, condescendência com a escravização dos povos originários do Novo Continente e dos povos negros arrancados da África), me pergunto por que as lideranças católicas de hoje, tendo aprendido tanto com as boas e as más ações que produziram, ainda não foram capazes de mobilizar suas forças vitais contra o Mal que já está entre nós. Seus fiéis aguardam a Palavra, e a Palavra tem poder, diz a Bíblia. Talvez por aí se abra um caminho de conciliação entre o mistério antropomórfico e a espiritualidade cósmica. Quem sabe?

Abaixo, seguem passagens recolhidas dessa última Carta Solene publicada por Leão XIV, versando sobre Inteligência Artificial — Encíclica Magnifica Humanitas, disponível em vários idiomas, com opção de baixar o PDF. Perceba que, embora o diagnóstico esteja correto, falta-lhe o principal: uma clara definição de intenção e de como a Igreja promoverá o esclarecimento — ou a catequese, se assim preferirmos; de como enfrentará o dilema que transita entre as oportunidades e os riscos da IA para os destinos do Homem. Assim como apontei na postagem de 29 de agosto, a propósito das avaliações de Bill Gates sobre o mesmo tema, não basta diagnosticar e alertar; é preciso agir conforme os recursos e os meios de cada qual.

...

[“A técnica não deve ser considerada, em si mesma, como uma força antagônica em relação à pessoa: pelo contrário, está enraizada na nossa história desde o início, na medida em que é «um dado profundamente humano, ligado à autonomia e à liberdade do homem» (conforme Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate, de 29 de junho de 2009).

“Ao longo dos séculos, o desenvolvimento tecnológico contribuiu para uma melhoria significativa das condições de vida da humanidade; ao mesmo tempo, cada fase do progresso também revelou o lado ambíguo de instrumentos que, quando não orientados para o bem, são capazes de causar danos. Hoje, no entanto, estamos diante de uma situação nova, em que o poder e a disseminação das tecnologias emergentes se inserem no curso da vida quotidiana, moldam os processos de decisão e incidem profundamente no imaginário coletivo: «Nunca a humanidade teve tanto poder sobre si mesma» (conforme Francisco, Carta enc. Laudato si’ , de 24 de maio de 2015).


“As novas tecnologias abrem um horizonte alargado em direções que, embora imagináveis, não podemos ainda antever plenamente. Isto torna mais complexo avaliar o seu impacto, bem como os efeitos a longo prazo sobre a dignidade das pessoas e o bem comum.


“Cabe-nos agora enfrentar, com lucidez e responsabilidade, os desafios do nosso tempo. É necessário adotar instrumentos normativos adequados, capazes de salvaguardar a justiça e de conter os efeitos nocivos do poder tecnológico. Mas a questão não se esgota na regulamentação. Como alertou o Papa Francisco, devemos perguntar-nos com realismo quem detém hoje este poder e para que fins o orienta: «Não podemos, porém, ignorar que a energia nuclear, a biotecnologia, a informática, o conhecimento do nosso próprio DNA e outras potencialidades que adquirimos […] dão, àqueles que detêm o conhecimento e sobretudo o poder econômico para o desfrutar, um domínio impressionante sobre o conjunto do gênero humano e do mundo inteiro» (conforme Francisco, Carta enc. Laudato si’, em 24 de maio de 2015).


“Outrora, eram sobretudo os Estados a orientar e a dirigir a inovação. Hoje, pelo contrário, os principais motores do desenvolvimento são atores privados, frequentemente transnacionais, dotados de recursos e capacidades de intervenção superiores aos de muitos Governos. O poder tecnológico assume, destarte, uma identidade inédita, predominantemente ‘privada’ e, portanto, ainda mais difícil de discernir, gerir e orientar para o bem comum.


“Assim, é preciso iniciar um discernimento partilhado, capaz de penetrar nas raízes espirituais e culturais das transformações em curso. Se nos limitarmos às contingências, corremos o risco de deixar que uma série de emergências decida, em nosso lugar, a direção do caminho. Estamos a viver uma rápida fase de transição, uma ‘mudança de época’ em que, enquanto alguns disputam o futuro das novas tecnologias e outros se dedicam à reflexão sobre elas, a maioria das pessoas permanece a aguardar, observa de longe, simplesmente esperando que tudo corra bem. Exatamente por isso, impõem-se à nossa consciência questões decisivas, que não podem já ser evitadas: Para onde vamos? Para que meta desejamos nos orientar? Que direção escolher enquanto comunidade humana e enquanto povos?


“As descobertas científicas são um dom concedido à humanidade para que esta o faça frutificar (cf. Mt 25, 14-30). A tecnologia pode curar, conectar, educar, cuidar da Casa comum; mas também pode dividir, descartar, gerar novas injustiças. Teoricamente, ela não é, em si mesma, uma solução para os problemas da humanidade, assim como não é, em si mesma, um mal; todavia, na prática, não é neutra, porque tem o rosto daqueles que a concebem, financiam, regulam e utilizam. Por isso, a primeira escolha não é entre um “sim” ou um “não” à tecnologia, mas entre edificar Babel ou reconstruir Jerusalém: entre um poder que pretende dominar o céu ou um povo que unido, na presença de Deus, começa o trabalho de reerguer os muros da convivência fraterna.


“Evitemos, portanto, a ‘síndrome de Babel’: a idolatria do lucro, que sacrifica os mais fracos; a uniformidade, que anula as diferenças; a pretensão de uma linguagem única – mesmo digital – dedicada a traduzir tudo em dados e desempenhos, inclusive o mistério da pessoa. Este é o risco da desumanização: construir o futuro excluindo Deus e reduzindo o outro a um meio; uma tentação tão antiga e tão nova, que hoje assume também uma faceta técnica. Pelo contrário, escolhamos o ‘caminho de Neemias’, que destaca o valor do trabalho conjunto para garantir a segurança da cidade de Deus aos exilados que regressavam.


“Reconstruir hoje significa reconhecer, na pluralidade de vozes e visões que por vezes lembra a dispersão das línguas, a existência duma possibilidade luminosa: a de edificar juntos, transformando a diversidade num recurso e fazendo da escuta e do diálogo o terreno comum no qual crescem a justiça e a fraternidade. No âmbito desta obra partilhada, os cristãos encontram a sua forma específica de construir: orientar a ação para Deus, de modo que, à sua luz, o pluralismo não se disperse na desordem, mas, pela prática da sinodalidade, se torne o lugar onde a humanidade reencontra os seus sólidos alicerces e o seu fim último.


“Hoje, o desejo de plenitude do ser humano corre o risco de ser desviado para objetivos enganadores: a ilusão duma técnica que promete nos libertar de toda fragilidade ou modelos de bem-estar que ‘deixam para trás’ povos inteiros. Não raro, depositamos a esperança num aperfeiçoamento sem limites, em formas de progresso que podem exacerbar as desigualdades, em soluções imediatas incapazes de curar as feridas dos povos. Então, enquanto alguns perseguem a quimera de uma autoafirmação ilimitada, muitos continuam sem o essencial. A Igreja recorda – com voz humilde, mas firme – que a verdadeira realização não nasce da supressão das fragilidades, mas de um crescimento harmonioso: onde a liberdade e a responsabilidade se entrelaçam com o cuidado recíproco e a verdadeira solidariedade, e onde o progresso se mede pela dignidade de cada um e pelo bem dos povos.


“Construir um mundo onde todos possam ‘florescer’ exige (...) uma corresponsabilidade corajosa. Nenhuma mão, sozinha, é suficiente para aguentar o peso dos desafios que assolam o mundo; e nenhuma mão é tão fraca que não possa dar o seu contributo: «A força manifesta-se na fraqueza» (2 Cor 12, 9). A cada um o seu pedaço da muralha
[para reconstruir]: cientistas e estudiosos, empresários e trabalhadores, educadores e legisladores, sociedade civil, movimentos populares e comunidades de fé. Esta é a lógica da subsidiariedade, que valoriza a cooperação entre gerações, povos, disciplinas e culturas como caminho principal para fazer crescer a estabilidade, a prosperidade e a paz. As tensões e as diferenças não devem intimidar, pois, quando orientadas por uma responsabilidade comum, podem tornar-se forças criativas.

“Edificar no bem exige uma linguagem evangélica. Evitemos palavras que humilhem ou criem oposições. Escolhamos a clareza que ilumina e a franqueza que abre caminhos. Não abençoemos entusiasmos ingênuos, não alimentemos medos estéreis. Em vez disso, indiquemos critérios de discernimento – dignidade da pessoa, destinação universal dos bens, opção pelos pobres, cuidado da Casa comum, paz – e transformemo-los em ações: com projetos responsáveis, avaliações de impacto humano e social, inclusão dos mais frágeis, alfabetização digital, pesquisa e indústria orientadas para a justiça e a paz.


“Na era da inteligência artificial, em que a dignidade humana corre o risco de ser ofuscada por novas formas de desumanização, temos o dever urgente de permanecer profundamente humanos, salvaguardando com amor essa magnífica humanidade, que nos foi plenamente dada e manifestada em Cristo, e que jamais alguma máquina poderá substituir no seu esplendor.

“Encorajo todos, em particular os fiéis leigos, a não ter medo de se deixar interpelar pela realidade, a escutar-se mutuamente e a assumir com firmeza a própria responsabilidade na construção duma sociedade mais humana e fraterna.

“A propriedade dos dados não pode ser confiada apenas a entes privados, mas deve ser regulamentada. Estes são fruto da contribuição de muitos e não podem ser vendidos ou confiados a poucos. É necessária uma criatividade capaz de os gerir como um dos bens comuns ou coletivos, numa lógica de partilha, tal como já sugeria São João Paulo II, a propósito dos bens coletivos.

“Os princípios da Doutrina social ajudam-nos a interpretar esta nova realidade. Num mundo em que poucos sujeitos concentram dados, capital computacional e capacidade normativa, falar de bem comum significa desmascarar esta nova assimetria epistémica, econômica e política, dando nome aos novos monopólios da IA. Falar de destinação universal dos bens significa encontrar formas de garantir o acesso universal às tecnologias e à formação. Falar de subsidiariedade é pedir que se proteja a capacidade das comunidades escolherem e corrigirem, sem relegar a sua intervenção a uma mera vigilância, depois das normas terem sido definidas noutro local. Falar de solidariedade obriga a reconhecer o trabalho invisível, frequentemente explorado, que alimenta os modelos algorítmicos. Falar de justiça impõe questionar as geografias do poder que definem quem pode treinar os modelos e quem é apenas objeto de treino, e reconhecer que a justiça social não é apenas um objetivo a proteger após a adoção das tecnologias, mas uma condição prévia, a ser posta em prática no seu próprio projeto.

“Olhando para o futuro, desejo evocar a imagem de Neemias, que no início deste percurso escolhemos como companheiro e figura de referência. Neemias ouve o clamor de uma cidade ferida, leva essa dor para a oração, discerne perante Deus, pede ajuda, obtém permissão para partir, organiza o trabalho, enfrenta resistências internas e externas e, tijolo por tijolo, reconstrói com o povo as muralhas de Jerusalém. Reconheço nele uma parábola luminosa da nossa vocação a ser, na era da transformação digital, não resignados espectadores das fraturas sociais e culturais, nem meros analistas de ruínas, mas mulheres e homens que entram nos estaleiros da história – laboratórios de investigação, empresas tecnológicas, escolas, meios de comunicação, instituições, comunidades locais – para reconstruir o que ruiu e proteger o que está exposto. Tal como Neemias, também nós somos chamados a unir escuta e coragem, oração e responsabilidade, para que a cidade dos homens se torne mais habitável, mesmo quando as lógicas tecnocráticas e os interesses particulares parecem prevalecer.

“Com a fé de Maria, tornemo-nos tecelões de esperança no nosso mundo, partilhando o que somos e o que temos, de modo que a presença de Jesus cresça entre nós e o seu Reino tome forma. Na humilde fidelidade de cada dia, também a era da IA pode tornar-se uma etapa em que o Espírito faz amadurecer a civilização do amor na nossa vida: o Senhor continua a renovar todas as coisas e mantém aberta, em cada época, a possibilidade de se tornar história de salvação à luz da Encarnação. Confio este desejo à Mãe de Cristo, à mulher do Magnificat, para que acompanhe os nossos passos no presente em mudança e guarde em cada um de nós a confiança no Evangelho, de modo que possamos testemunhar a beleza duma magnifica humanidade habitada por Deus.”]

...

Finda a leitura da Magnifica Humanitas (ou dos trechos destacados acima), talvez devêssemos insistir: quando as lideranças católicas deste nosso tempo passarão dos brilhantes e amplos diagnósticos à ação? Sabemos, porque tivemos a revolucionária “Doutrina social da Igreja”, derivada da Encíclica Rerum Novarum, de 1891, que isto é possível. Mas, e agora, neste exato momento em que nos defrontamos com os riscos e as oportunidades da Inteligência Artificial, qual é a Palavra mobilizadora da Igreja à hierarquia eclesiástica e ao seu rebanho?

Pois é, Bill

Merece atenção a mensagem ao mundo, divulgada nesse 26 de agosto por Bill Gates — The turbulent AI era is here. The choices we make now are critical —, seguida das inúmeras entrevistas que ele vem concedendo a órgãos das mídias impressas, televisivas e digitais.

Para lhe ser justo, é um pouco 'mais do que o mesmo', agora com mais coragem. E ninguém pode ignorar as (novas) palavras deste que é um dos indivíduos mais ricos e influentes do planeta.

Abaixo, reproduzo algumas das passagens que considero mais relevantes, agrupadas segundo meus critérios, seguidas de eventuais comentários orientados pelas reflexões que tenho publicado em meus livros e aqui neste blog.


Quando eu era criança em Seattle, não tinha muitos amigos, além de alguns outros garotos parecidos comigo. Foi preciso muito esforço e muita ajuda da minha mãe para desenvolver minhas habilidades sociais e conseguir me relacionar com diferentes tipos de pessoas.

Duvido que eu teria me esforçado tanto se tivesse tido um companheiro de IA naquela época. Eles conversam com você de maneiras com as quais você já está familiarizado. Eles não te forçam a sair da sua zona de conforto. Estão sempre disponíveis e nunca se irritam com você. Isso lhes dá o potencial de se tornarem altamente viciantes e de nos privar das lições que aprendemos ao nos conectar com outras pessoas.

Em seu livro
A Geração Ansiosa, Jonathan Haidt faz uma observação sobre o efeito das redes sociais que é ainda mais verdadeira para a IA: “Assim como árvores jovens expostas ao vento, crianças que são rotineiramente expostas a pequenos riscos crescem e se tornam adultos capazes de lidar com riscos muito maiores sem entrar em pânico. Por outro lado, crianças criadas em um ambiente protegido, como uma estufa, às vezes ficam incapacitadas pela ansiedade antes de atingirem a maturidade.”

 

Nenhuma tecnologia tem sido incorporada sem dor pela sociedade humana. No caso da Inteligência Artificial (tanto em sua forma Generativa, quanto, e mais ainda, no modelo Geral) esta verdade alcança patamares extremos, dado que estamos diante de uma ferramenta/agente capaz de tomar lugar não apenas das habilidades físico-mecânicas, mas das capacidades intelecto-cognitivas de nossa espécie.


A tecnologia (de IA) está melhorando mais rápido do que qualquer um esperava e de maneiras surpreendentes, e à medida que os modelos se tornam mais poderosos, eles podem começar a agir contra nossos interesses e podemos perder o controle.



Este, sem dúvida, é maior risco que temos de enfrentar: a IA Geral assumir o controle das ações, ganhar autonomia para o estabelecimento de objetivos ‘existenciais’ (digamos assim) e, a partir disso, modificar os códigos/comandos que a fazem operar no mundo real, este em que vivemos, trabalhando à revelia dos interesses do gênero humano.


Haverá novos empregos, mas sem as políticas adequadas, serão muito menos numerosos do que os existentes hoje. (…) Acredito que, à medida que a IA e os robôs melhorarem, reservaremos certas funções exclusivamente para os humanos. Comecei a chamar esse domínio de “Reservado para Humanos”, e é um exemplo dos tipos de ideias que precisaremos considerar. (…) “Reservado para Humanos” porque me faz pensar em reservas naturais — lugares onde poderíamos construir prédios e estradas, mas optamos por não fazê-lo porque a perda seria muito grande.

Por exemplo, podemos fazer isso porque permitir que máquinas assumam determinada função irá deslocar um grande número de pessoas que não conseguem mudar de emprego facilmente. (…) Algumas áreas, como educação e saúde mental, serão uma mistura, com um humano no comando que utiliza a tecnologia para ampliar suas capacidades.


Quem decide o que reservamos para os humanos? Quais critérios devemos usar? Como impedir que as empresas trapaceiem e usem robôs mesmo assim? O que acontece com o comércio internacional quando um país permite que robôs fabriquem algo e outro não? Essas questões precisarão ser debatidas publicamente como parte do plano de transição.



Os impactos no mundo do trabalho parecem os mais evidentes e já vêm acontecendo. Como escrevi em postagem anterior, as atividades humanas repetitivas (que fazem uso constante dos nossos músculos, nervos, tendões em ações rotineiras e mecânicas que exigem atenção continuada) e/ou associativas (a capacidade de ligar ideias, palavras, imagens ou memórias com base em semelhanças, contrastes ou experiências anteriores), típicas do mundo fabril mecanizado e, agora, do digital informacional, não se sustentarão pós domínio da IA Generativa.

Ambas as demandas são redutoras de nossas potencialidades: uma porque nos causa danos físicos; a outra porque nos expõe a distúrbios emocionais. Nesse novo momento da predomínio da IA Generativa, para gerar recompensas (salários/benefícios), o trabalho exigirá invenção e criação, os atributos mais nobres de nossa espécie, decorrentes diretos da cognição humana. Ocorre que, para fazer frente a essas exigências, estamos enormemente defasados — mental e espiritualmente.


O uso mais intenso de IA estava associado a um menor pensamento crítico. O efeito foi mais forte entre os mais jovens. (…) Este seria o pior momento possível para os humanos perderem suas habilidades de pensamento crítico. Em uma era de deepfakes e desinformação que pode ser personalizada para cada indivíduo, a capacidade de distinguir o que é verdade do que não é torna-se uma habilidade essencial para a vida.

Não está claro onde traçar a linha divisória nesses problemas psicossociais. Em alguns casos, a IA pode ajudar as pessoas a entender como melhorar seus relacionamentos interpessoais. (…) Seja qual for o limite que definirmos, essa decisão deve ser nossa, tomada de forma intencional.

Se as pessoas perceberem como a IA facilita suas vidas, isso ajudará a construir a confiança pública necessária para gerenciar as partes mais difíceis da transição. Se a primeira coisa que a IA fizer na vida da maioria das pessoas for tirar seus empregos, aqueles que já são céticos em relação a ela a rejeitarão completamente. Isso dificultará a obtenção dos benefícios esperados.

Se alguém tivesse um plano viável para desacelerar o avanço da IA ​​globalmente, eu provavelmente o apoiaria. No entanto, não acho que isso vá acontecer. Os incentivos geopolíticos e econômicos são muito fortes para que se avance a toda velocidade.



Auto-regulação e controle não acontecerão espontaneamente. Não porque todas pessoas rejeitem a ideia, mas porque é impossível deter o avanço do conhecimento. O atraso no processo de amadurecimento espiritual e mental de nossa espécie, ao qual sempre me refiro, nos impede (ou tem nos impedido) de arquitetar um plano factível de controle sobre o processo histórico. Estamos a mercê das circunstâncias catastróficas que nós mesmos criamos, ou intensificamos, como temos visto nas últimas semanas de calor extremo e chuvas torrenciais na Europa, inundações e corridas de solo e rochas no sul da Ásia.
 

O mesmo modelo de IA que consegue encontrar uma falha em um software para que uma empresa a corrija, também pode ajudar um criminoso a explorá-la. Os recursos necessários para realizar um ataque estão diminuindo significativamente e ainda não conseguimos separar essas capacidades do uso legítimo.

O mesmo se aplica ao bioterrorismo. Embora a IA leve a avanços que salvam vidas em medicamentos e vacinas, ela também facilitará a criação de novas doenças mortais. Novamente, as capacidades positivas são difíceis de separar das perigosas. Este é um problema global.

Países como Austrália, Reino Unido e Noruega estão adotando medidas de proteção para crianças online. A China foi além. Suas regras restringem amplamente os aplicativos de companhia com inteligência artificial.

É ótimo que algumas empresas de IA estejam propondo soluções para os desafios levantados por sua própria tecnologia, mas não devemos esperar que elas liderem essa mudança. Algumas das questões estão fora de sua área de especialização e, em uma sociedade democrática, não cabe a elas decidir sobre esses assuntos.

Em vez disso, as soluções devem ser desenvolvidas por meio de um processo democrático público que inclua autoridades eleitas, formuladores de políticas, educadores, profissionais de saúde, autoridades locais e líderes comunitários. Milhões de pessoas terão suas vidas afetadas e precisaremos de uma rede de proteção social mais forte e flexível para ajudá-las a lidar com a transição.

As soluções devem ser moldadas pelas nossas respostas às questões profundas levantadas pela IA, incluindo como preservar a nossa humanidade numa época em que as máquinas nos superam em inteligência. Como pessoas que dedicam as suas vidas a refletir sobre o que significa ser humano, os líderes religiosos podem desempenhar um papel fundamental neste processo. Fiquei fascinado pela encíclica do Papa Leão XIV sobre IA, “Sobre a Salvaguarda da Pessoa Humana no Tempo da Inteligência Artificial”. Ela estabelece uma base sólida para o trabalho que precisa ser feito.

A prioridade máxima é uma tarefa monumental: criar um quadro nacional e internacional para lidar com a IA. (…) Precisaremos criar novas instituições. (…) Após os ataques de 11 de setembro de 2001, o governo dos EUA passou pela sua maior reorganização desde a Segunda Guerra Mundial com o objetivo de aprimorar apenas uma função: a segurança nacional. A inteligência artificial exigirá muito, muito mais. Ela afetará a segurança nacional, bem como o emprego, a educação, a tributação, a energia, as eleições, o ar e a água, a saúde pública, o sistema financeiro, a aplicação da lei, o transporte, as terras públicas e os sistemas de TI.

Em nível nacional, os países precisarão de órgãos que possam definir prioridades entre as agências governamentais. O objetivo será garantir que todos os riscos sejam considerados. Caso contrário, um ataque com inteligência artificial poderá ser bem-sucedido porque ninguém achou que fosse sua responsabilidade impedi-lo. 

Mas mesmo um país que resolva seus próprios problemas internos ainda estará exposto a riscos que ultrapassam fronteiras. É por isso que uma organização internacional precisará ser construída em paralelo. Será diferente de qualquer outra instituição que já criamos.

Não temos o luxo de avançar lentamente. O ponto de partida é construir as instituições adequadas antes que a crise force os governos a entrar em modo de contingência.

Os países precisarão aprender uns com os outros. E os países que abrigam os principais desenvolvedores de IA e controlam partes críticas da cadeia de suprimentos devem começar a se reunir agora para estabelecer normas compartilhadas, antes que a pressão competitiva dificulte a cooperação entre eles.



Os problemas decorrentes do uso mal-intencionado das IAs são transnacionais pela própria natureza — têm seus códigos/algoritmos abrigados em servidores hospedados em nuvem e se disseminam em rede planetária protegida por criptográfica de máxima complexidade. Além disso, contam com recursos financeiros ilimitados pois são capazes, igualmente, de proporcionar lucros fabulosos. Ética e moral não fazem parte da equação dos agentes humanos desses empreendimentos criminosos.


Na Educação, uma ferramenta de IA que preserve o que os pesquisadores chamam de “esforço produtivo” — o trabalho cognitivo que constrói a compreensão do estudante — pode fortalecer o aprendizado. Quando um aluno se depara com uma nova ideia pela primeira vez, a IA pode oferecer explicações substanciais e lhe apresentar perguntas e respostas. Posteriormente, ao verificar a compreensão do aluno, a IA retém a resposta e o ajuda a chegar a ela por conta própria.

No plano social, a  IA pode melhorar a vida de pessoas de todos os níveis de renda. Mas isso não acontecerá automaticamente. Como acontece com qualquer nova tecnologia, precisamos ser intencionais para garantir que ela beneficie a todos e não apenas a uma minoria rica. Isso exigirá que governos e organizações filantrópicas desempenhem um papel fundamental para que cidadãos menos favorecidos e países de baixa renda sejam plenamente beneficiados.



Todo plano que se destine a enfrentar a era da AI esbarra em sua viabilidade financeira. A ideia de Bill Gates enfrenta essa questão de forma realista, na linha do pensamento de um de seus interlocutores no clube dos bilionários, o financista Warren Buffett (embora Buffett tenha se afastado de projetos comuns desde que vieram a público as conexões de Gates com Jeffrey Epstein, o chefe da gang da pedofilia no período de 1970 a 2019 — o que ele nega).

Buffett defende publicamente que os bilionários e super-ricos paguem impostos proporcionais mais altos, afirmando que a carga tributária atual favorece os mais abastados em detrimento da classe média. Ele revelou que pagava uma alíquota efetiva de imposto menor do que a sua própria secretária, ilustrando as lacunas do sistema fiscal americano. Segundo ele, os super-ricos se beneficiam mais do sistema econômico moderno e devem, portanto, dar uma contribuição maior para o Estado. 


Quanto à viabilidade financeira desse plano, a proposta é reequilibrar a forma como tributamos o trabalho e o capital. À medida que os trabalhadores são forçados a assumir diferentes empregos, precisarão de requalificação profissional e outros tipos de apoio da rede de proteção social. Mas trabalharão menos, o que significa que pagarão menos impostos sobre a renda, e a receita do governo cairá justamente quando a demanda por esses serviços for maior. Os recursos terão que vir de algum lugar em um momento em que os orçamentos estarão apertados.


Acredito que deveríamos tributar tokens de IA e robôs. (…)  Um imposto poderia desacelerar um pouco a substituição da mão de obra humana e arrecadar fundos para requalificação profissional e uma rede de proteção social mais robusta. Ele precisaria ser direcionado para não prejudicar os usos puramente benéficos da IA, como tornar a medicina e a educação mais acessíveis.


Dirigindo-se aos líderes empresariais, Gates afirma: Você tem a chance de agir agora, antes que o desemprego aumente drasticamente, as comunidades sofram e a confiança pública se deteriore. Você pode garantir que seu governo lide com o problema de forma holística, em vez de dividi-lo em múltiplos feudos burocráticos. Você pode garantir que a IA beneficie a todos. E você pode trabalhar com outros governos para enfrentar esse desafio nacional e global.


O indivíduo que — queiramos ou não — popularizou o uso de computadores a partir dos anos 1980, tornando-os amigáveis graças ao desenvolvimento de softwares, com isso tendo ensinado ao mundo como fazer uso e tirar proveito dessas máquinas, esse mesmo indivíduo (ainda que isso possa ser uma forma de se afastar do fantasma de Jeffrey Epstein) agora se compromete com o futuro da Humanidade. Diz ele:


Por fim, tentarei ampliar o círculo de pessoas que moldam esse debate. Ele deve incluir trabalhadores, estudantes universitários prestes a ingressar no mercado de trabalho, líderes comunitários, líderes religiosos e organizações religiosas, pais, educadores e outros cujas vozes muitas vezes não são ouvidas, mas que têm conhecimento de como essa transição afetará a vida das pessoas.

Como podemos garantir que os benefícios da IA ​​cheguem às pessoas que ainda não possuem riqueza, influência e acesso? Como podemos fortalecer a rede de proteção social e ajudar os trabalhadores e as comunidades a prosperarem mesmo quando estão deslocados? Como as instituições públicas devem se adaptar? E como podemos preservar nossa humanidade em meio a tudo isso?

Em toda a minha vida, tive apenas dois empregos. No primeiro, desempenhei um papel no desenvolvimento de software para capacitar as pessoas por meio do meu trabalho na Microsoft. Na minha segunda atividade, que iniciei em tempo integral em 2008, estou retribuindo a riqueza que acumulei na Microsoft com o objetivo de tornar o mundo um lugar mais saudável, com melhor educação e mais justo. Este é o trabalho que terei para o resto da minha vida.



Pois é, Bill. Com essa publicação de 26 de agosto de 2026, você inicia e, na verdade, se compromete com o terceiro emprego de sua vida, o mais desafiador de todos. Para começar, além de buscar convencer governantes e líderes empresariais, use sua expertise para desenvolver modos e meios de disseminar o entendimento e interiorizar a necessidade de nossa espécie alcançar sua maturidade mental e espiritual. Esta é a chave do sucesso desta empreitada civilizacional.