Pois é, Bill

Merece atenção a mensagem ao mundo, divulgada nesse 26 de agosto por Bill Gates — The turbulent AI era is here. The choices we make now are critical —, seguida das inúmeras entrevistas que ele vem concedendo a órgãos das mídias impressas, televisivas e digitais.

Para lhe ser justo, é um pouco 'mais do que o mesmo', agora com mais coragem. E ninguém pode ignorar as (novas) palavras deste que é um dos indivíduos mais ricos e influentes do planeta.

Abaixo, reproduzo algumas das passagens que considero mais relevantes, agrupadas segundo meus critérios, seguidas de eventuais comentários orientados pelas reflexões que tenho publicado em meus livros e aqui neste blog.


Quando eu era criança em Seattle, não tinha muitos amigos, além de alguns outros garotos parecidos comigo. Foi preciso muito esforço e muita ajuda da minha mãe para desenvolver minhas habilidades sociais e conseguir me relacionar com diferentes tipos de pessoas.

Duvido que eu teria me esforçado tanto se tivesse tido um companheiro de IA naquela época. Eles conversam com você de maneiras com as quais você já está familiarizado. Eles não te forçam a sair da sua zona de conforto. Estão sempre disponíveis e nunca se irritam com você. Isso lhes dá o potencial de se tornarem altamente viciantes e de nos privar das lições que aprendemos ao nos conectar com outras pessoas.

Em seu livro
A Geração Ansiosa, Jonathan Haidt faz uma observação sobre o efeito das redes sociais que é ainda mais verdadeira para a IA: “Assim como árvores jovens expostas ao vento, crianças que são rotineiramente expostas a pequenos riscos crescem e se tornam adultos capazes de lidar com riscos muito maiores sem entrar em pânico. Por outro lado, crianças criadas em um ambiente protegido, como uma estufa, às vezes ficam incapacitadas pela ansiedade antes de atingirem a maturidade.”

 

Nenhuma tecnologia tem sido incorporada sem dor pela sociedade humana. No caso da Inteligência Artificial (tanto em sua forma Generativa, quanto, e mais ainda, no modelo Geral) esta verdade alcança patamares extremos, dado que estamos diante de uma ferramenta/agente capaz de tomar lugar não apenas das habilidades físico-mecânicas, mas das capacidades intelecto-cognitivas de nossa espécie.


A tecnologia (de IA) está melhorando mais rápido do que qualquer um esperava e de maneiras surpreendentes, e à medida que os modelos se tornam mais poderosos, eles podem começar a agir contra nossos interesses e podemos perder o controle.



Este, sem dúvida, é maior risco que temos de enfrentar: a IA Geral assumir o controle das ações, ganhar autonomia para o estabelecimento de objetivos ‘existenciais’ (digamos assim) e, a partir disso, modificar os códigos/comandos que a fazem operar no mundo real, este em que vivemos, trabalhando à revelia dos interesses do gênero humano.


Haverá novos empregos, mas sem as políticas adequadas, serão muito menos numerosos do que os existentes hoje. (…) Acredito que, à medida que a IA e os robôs melhorarem, reservaremos certas funções exclusivamente para os humanos. Comecei a chamar esse domínio de “Reservado para Humanos”, e é um exemplo dos tipos de ideias que precisaremos considerar. (…) “Reservado para Humanos” porque me faz pensar em reservas naturais — lugares onde poderíamos construir prédios e estradas, mas optamos por não fazê-lo porque a perda seria muito grande.

Por exemplo, podemos fazer isso porque permitir que máquinas assumam determinada função irá deslocar um grande número de pessoas que não conseguem mudar de emprego facilmente. (…) Algumas áreas, como educação e saúde mental, serão uma mistura, com um humano no comando que utiliza a tecnologia para ampliar suas capacidades.


Quem decide o que reservamos para os humanos? Quais critérios devemos usar? Como impedir que as empresas trapaceiem e usem robôs mesmo assim? O que acontece com o comércio internacional quando um país permite que robôs fabriquem algo e outro não? Essas questões precisarão ser debatidas publicamente como parte do plano de transição.



Os impactos no mundo do trabalho parecem os mais evidentes e já vêm acontecendo. Como escrevi em postagem anterior, as atividades humanas repetitivas (que fazem uso constante dos nossos músculos, nervos, tendões em ações rotineiras e mecânicas que exigem atenção continuada) e/ou associativas (a capacidade de ligar ideias, palavras, imagens ou memórias com base em semelhanças, contrastes ou experiências anteriores), típicas do mundo fabril mecanizado e, agora, do digital informacional, não se sustentarão pós domínio da IA Generativa.

Ambas as demandas são redutoras de nossas potencialidades: uma porque nos causa danos físicos; a outra porque nos expõe a distúrbios emocionais. Nesse novo momento da predomínio da IA Generativa, para gerar recompensas (salários/benefícios), o trabalho exigirá invenção e criação, os atributos mais nobres de nossa espécie, decorrentes diretos da cognição humana. Ocorre que, para fazer frente a essas exigências, estamos enormemente defasados — mental e espiritualmente.


O uso mais intenso de IA estava associado a um menor pensamento crítico. O efeito foi mais forte entre os mais jovens. (…) Este seria o pior momento possível para os humanos perderem suas habilidades de pensamento crítico. Em uma era de deepfakes e desinformação que pode ser personalizada para cada indivíduo, a capacidade de distinguir o que é verdade do que não é torna-se uma habilidade essencial para a vida.

Não está claro onde traçar a linha divisória nesses problemas psicossociais. Em alguns casos, a IA pode ajudar as pessoas a entender como melhorar seus relacionamentos interpessoais. (…) Seja qual for o limite que definirmos, essa decisão deve ser nossa, tomada de forma intencional.

Se as pessoas perceberem como a IA facilita suas vidas, isso ajudará a construir a confiança pública necessária para gerenciar as partes mais difíceis da transição. Se a primeira coisa que a IA fizer na vida da maioria das pessoas for tirar seus empregos, aqueles que já são céticos em relação a ela a rejeitarão completamente. Isso dificultará a obtenção dos benefícios esperados.

Se alguém tivesse um plano viável para desacelerar o avanço da IA ​​globalmente, eu provavelmente o apoiaria. No entanto, não acho que isso vá acontecer. Os incentivos geopolíticos e econômicos são muito fortes para que se avance a toda velocidade.



Auto-regulação e controle não acontecerão espontaneamente. Não porque todas pessoas rejeitem a ideia, mas porque é impossível deter o avanço do conhecimento. O atraso no processo de amadurecimento espiritual e mental de nossa espécie, ao qual sempre me refiro, nos impede (ou tem nos impedido) de arquitetar um plano factível de controle sobre o processo histórico. Estamos a mercê das circunstâncias catastróficas que nós mesmos criamos, ou intensificamos, como temos visto nas últimas semanas de calor extremo e chuvas torrenciais na Europa, inundações e corridas de solo e rochas no sul da Ásia.
 

O mesmo modelo de IA que consegue encontrar uma falha em um software para que uma empresa a corrija, também pode ajudar um criminoso a explorá-la. Os recursos necessários para realizar um ataque estão diminuindo significativamente e ainda não conseguimos separar essas capacidades do uso legítimo.

O mesmo se aplica ao bioterrorismo. Embora a IA leve a avanços que salvam vidas em medicamentos e vacinas, ela também facilitará a criação de novas doenças mortais. Novamente, as capacidades positivas são difíceis de separar das perigosas. Este é um problema global.

Países como Austrália, Reino Unido e Noruega estão adotando medidas de proteção para crianças online. A China foi além. Suas regras restringem amplamente os aplicativos de companhia com inteligência artificial.

É ótimo que algumas empresas de IA estejam propondo soluções para os desafios levantados por sua própria tecnologia, mas não devemos esperar que elas liderem essa mudança. Algumas das questões estão fora de sua área de especialização e, em uma sociedade democrática, não cabe a elas decidir sobre esses assuntos.

Em vez disso, as soluções devem ser desenvolvidas por meio de um processo democrático público que inclua autoridades eleitas, formuladores de políticas, educadores, profissionais de saúde, autoridades locais e líderes comunitários. Milhões de pessoas terão suas vidas afetadas e precisaremos de uma rede de proteção social mais forte e flexível para ajudá-las a lidar com a transição.

As soluções devem ser moldadas pelas nossas respostas às questões profundas levantadas pela IA, incluindo como preservar a nossa humanidade numa época em que as máquinas nos superam em inteligência. Como pessoas que dedicam as suas vidas a refletir sobre o que significa ser humano, os líderes religiosos podem desempenhar um papel fundamental neste processo. Fiquei fascinado pela encíclica do Papa Leão XIV sobre IA, “Sobre a Salvaguarda da Pessoa Humana no Tempo da Inteligência Artificial”. Ela estabelece uma base sólida para o trabalho que precisa ser feito.

A prioridade máxima é uma tarefa monumental: criar um quadro nacional e internacional para lidar com a IA. (…) Precisaremos criar novas instituições. (…) Após os ataques de 11 de setembro de 2001, o governo dos EUA passou pela sua maior reorganização desde a Segunda Guerra Mundial com o objetivo de aprimorar apenas uma função: a segurança nacional. A inteligência artificial exigirá muito, muito mais. Ela afetará a segurança nacional, bem como o emprego, a educação, a tributação, a energia, as eleições, o ar e a água, a saúde pública, o sistema financeiro, a aplicação da lei, o transporte, as terras públicas e os sistemas de TI.

Em nível nacional, os países precisarão de órgãos que possam definir prioridades entre as agências governamentais. O objetivo será garantir que todos os riscos sejam considerados. Caso contrário, um ataque com inteligência artificial poderá ser bem-sucedido porque ninguém achou que fosse sua responsabilidade impedi-lo. 

Mas mesmo um país que resolva seus próprios problemas internos ainda estará exposto a riscos que ultrapassam fronteiras. É por isso que uma organização internacional precisará ser construída em paralelo. Será diferente de qualquer outra instituição que já criamos.

Não temos o luxo de avançar lentamente. O ponto de partida é construir as instituições adequadas antes que a crise force os governos a entrar em modo de contingência.

Os países precisarão aprender uns com os outros. E os países que abrigam os principais desenvolvedores de IA e controlam partes críticas da cadeia de suprimentos devem começar a se reunir agora para estabelecer normas compartilhadas, antes que a pressão competitiva dificulte a cooperação entre eles.



Os problemas decorrentes do uso mal-intencionado das IAs são transnacionais pela própria natureza — têm seus códigos/algoritmos abrigados em servidores hospedados em nuvem e se disseminam em rede planetária protegida por criptográfica de máxima complexidade. Além disso, contam com recursos financeiros ilimitados pois são capazes, igualmente, de proporcionar lucros fabulosos. Ética e moral não fazem parte da equação dos agentes humanos desses empreendimentos criminosos.


Na Educação, uma ferramenta de IA que preserve o que os pesquisadores chamam de “esforço produtivo” — o trabalho cognitivo que constrói a compreensão do estudante — pode fortalecer o aprendizado. Quando um aluno se depara com uma nova ideia pela primeira vez, a IA pode oferecer explicações substanciais e lhe apresentar perguntas e respostas. Posteriormente, ao verificar a compreensão do aluno, a IA retém a resposta e o ajuda a chegar a ela por conta própria.

No plano social, a  IA pode melhorar a vida de pessoas de todos os níveis de renda. Mas isso não acontecerá automaticamente. Como acontece com qualquer nova tecnologia, precisamos ser intencionais para garantir que ela beneficie a todos e não apenas a uma minoria rica. Isso exigirá que governos e organizações filantrópicas desempenhem um papel fundamental para que cidadãos menos favorecidos e países de baixa renda sejam plenamente beneficiados.



Todo plano que se destine a enfrentar a era da AI esbarra em sua viabilidade financeira. A ideia de Bill Gates enfrenta essa questão de forma realista, na linha do pensamento de um de seus interlocutores no clube dos bilionários, o financista Warren Buffett (embora Buffett tenha se afastado de projetos comuns desde que vieram a público as conexões de Gates com Jeffrey Epstein, o chefe da gang da pedofilia no período de 1970 a 2019 — o que ele nega).

Buffett defende publicamente que os bilionários e super-ricos paguem impostos proporcionais mais altos, afirmando que a carga tributária atual favorece os mais abastados em detrimento da classe média. Ele revelou que pagava uma alíquota efetiva de imposto menor do que a sua própria secretária, ilustrando as lacunas do sistema fiscal americano. Segundo ele, os super-ricos se beneficiam mais do sistema econômico moderno e devem, portanto, dar uma contribuição maior para o Estado. 


Quanto à viabilidade financeira desse plano, a proposta é reequilibrar a forma como tributamos o trabalho e o capital. À medida que os trabalhadores são forçados a assumir diferentes empregos, precisarão de requalificação profissional e outros tipos de apoio da rede de proteção social. Mas trabalharão menos, o que significa que pagarão menos impostos sobre a renda, e a receita do governo cairá justamente quando a demanda por esses serviços for maior. Os recursos terão que vir de algum lugar em um momento em que os orçamentos estarão apertados.


Acredito que deveríamos tributar tokens de IA e robôs. (…)  Um imposto poderia desacelerar um pouco a substituição da mão de obra humana e arrecadar fundos para requalificação profissional e uma rede de proteção social mais robusta. Ele precisaria ser direcionado para não prejudicar os usos puramente benéficos da IA, como tornar a medicina e a educação mais acessíveis.


Dirigindo-se aos líderes empresariais, Gates afirma: Você tem a chance de agir agora, antes que o desemprego aumente drasticamente, as comunidades sofram e a confiança pública se deteriore. Você pode garantir que seu governo lide com o problema de forma holística, em vez de dividi-lo em múltiplos feudos burocráticos. Você pode garantir que a IA beneficie a todos. E você pode trabalhar com outros governos para enfrentar esse desafio nacional e global.


O indivíduo que — queiramos ou não — popularizou o uso de computadores a partir dos anos 1980, tornando-os amigáveis graças ao desenvolvimento de softwares, com isso tendo ensinado ao mundo como fazer uso e tirar proveito dessas máquinas, esse mesmo indivíduo (ainda que isso possa ser uma forma de se afastar do fantasma de Jeffrey Epstein) agora se compromete com o futuro da Humanidade. Diz ele:


Por fim, tentarei ampliar o círculo de pessoas que moldam esse debate. Ele deve incluir trabalhadores, estudantes universitários prestes a ingressar no mercado de trabalho, líderes comunitários, líderes religiosos e organizações religiosas, pais, educadores e outros cujas vozes muitas vezes não são ouvidas, mas que têm conhecimento de como essa transição afetará a vida das pessoas.

Como podemos garantir que os benefícios da IA ​​cheguem às pessoas que ainda não possuem riqueza, influência e acesso? Como podemos fortalecer a rede de proteção social e ajudar os trabalhadores e as comunidades a prosperarem mesmo quando estão deslocados? Como as instituições públicas devem se adaptar? E como podemos preservar nossa humanidade em meio a tudo isso?

Em toda a minha vida, tive apenas dois empregos. No primeiro, desempenhei um papel no desenvolvimento de software para capacitar as pessoas por meio do meu trabalho na Microsoft. Na minha segunda atividade, que iniciei em tempo integral em 2008, estou retribuindo a riqueza que acumulei na Microsoft com o objetivo de tornar o mundo um lugar mais saudável, com melhor educação e mais justo. Este é o trabalho que terei para o resto da minha vida.



Pois é, Bill. Com essa publicação de 26 de agosto de 2026, você inicia e, na verdade, se compromete com o terceiro emprego de sua vida, o mais desafiador de todos. Para começar, além de buscar convencer governantes e líderes empresariais, use sua expertise para desenvolver modos e meios de disseminar o entendimento e interiorizar a necessidade de nossa espécie alcançar sua maturidade mental e espiritual. Esta é a chave do sucesso desta empreitada civilizacional.

Para que serve?

Esta é a primeira vez que inicio uma postagem me perguntando: para que serve tudo o que está exposto abaixo? Sim, porque existimos no mundo das coisas práticas — das dores físicas, emocionais, mentais, das contas a pagar, dos afetos correspondidos ou rejeitados, das alegrias e das tragédias. E não ver lógica na vida humana, isto é, aceitar que nossa existência é irrelevante do ponto de vista cósmico pode ser um baque emocional insuportável. Ou, o que é mais provável, uma informação irrelevante para a maioria das pessoas — talvez aí para uns 98% dos 8,2 bilhões dos habitantes da Terra.

Bom, começo por dizer que prezo a lógica, a organização, a previsibilidade, mas aprendi que nem os eventos cósmicos, nem as relações subatômicas, os extremos do que parece existir, são lógicos — o que está em permanente revolução criadora, como nossa espécie, não pode ser consequencial, previsível. Uma das maravilhas da existência humana, aliás, é sua raridade, sua ocasionalidade ilógica. Fomos, aos trancos e barrancos nos realizando, até chegarmos ao que hoje somos, com o magnífico e misterioso empurrão cognitivo. 

Repito: qual a importância disso?

Isso nos interessa porque a relação de causa-efeito (uma questão moral, que regula as relações sociais) e a regra de ação-reação (relativa à física dos grandes objetos, formulada por Isaac Newton em 1666) são o que governa o mundo das aparências, este que se apresenta a nós como real, pois aqui habitamos, sentimos, exercitamos expectativas, professamos uma fé e alimentamos convicções.

O indivíduo, a sociedade e toda a construção civilizacional assentam-se nos domínios da lógica desse mundo. Se ela é uma invenção de nossa espécie, se não passa de um instrumento necessário à vida, se é uma âncora existencial para essa realidade fluída em que existimos, não nos serve transformar tal lógica utilitarista naquilo que ela não é: um dogma, um axioma, um preceito universal.

Qualquer conclusão, decisão ou ato humano pode ser lógico (moral, ética ou fisicamente), mas também ilógico, como nesse exemplo clássico: Esta frase é falsa, onde se conclui que, se a afirmação for verdadeira, ela é falsa; e se for falsa, passa a ser verdadeira, contrariando seus próprios termos.

O mesmo raciocínio se aplica ao nosso lugar neste planeta e no Todo. Não é lógico que nossa existência possua valor intrínseco, essencial, necessário. Conforme nos avisaram Friedrich Nietzsche e Albert Camus, o Cosmos está pouco se lixando para o que pensa, deseja, necessita ou acredita o homem.

O universo não tem um propósito divino ou moral (ou lógico, acrescento). O ser humano é apenas um fragmento passageiro da natureza, um acidente cósmico sem sentido maior ou destino transcendente, disse o alemão. A importância do homem reside na sua capacidade de confrontar a falta de sentido do universo com coragem, liberdade e revolta consciente, afirmou o argelino. 

Por consequência, é perda de tempo, esforço intelectual, e desperdício de energia orgânica reiterar o velho erro de transferir a terceiros (Deus, Estado, Líderes) aquilo que compete aos indivíduos maduros e emancipados. Nesse sentido, Immanuel Kant já conclamava, em 1784:

A menoridade (mental, espiritual) é a incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem. Tal menoridade é por culpa própria, se a sua causa não residir na carência de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo, sem a guia de outrem. Sapere aude! Tem a coragem de te servires do teu próprio entendimento!
 
Mas não nos desesperemos, ainda. É verdade que o mundo das coisas práticas monopoliza 99,99% de nossa atenção, mas o que determina os rumos de nossa existência é o 0,01% restante — ou seja, o sentimento latente, humano, de que nosso valor e potencialidade existencial permanecem pulsantes — ainda que ilógicos. Tanto é assim que continuamos por aqui, insistindo.

Somos fruto de uma sucessão de acasos, não somos especiais, nem estamos destinados à transcendência, mas, para todos os efeitos de alguma forma somos e, como seres cientes de nossa existência, temos um interminável e rico caminho de aperfeiçoamento a percorrer.

É para, intimamente, reafirmar uma esperança que serve tudo o que está escrito acima.
 

Espírito e mente devagar

A tese de que as ciências foram longe demais — utilizada, entre outras coisas, para condenar os meios e modos de comunicação planetária em rede — é risível. Não cabe ao ser humano questionar se o processo histórico está indo longe ou rápido, seja ele quem for, embora muitos filósofos o tenham feito (Theodor Adorno, Martin Heidegger e Jacques Ellul, por exemplo).

Muito me surpreende (talvez nem tanto) que hoje em dia pessoas dignas de respeito, sempre dispostas a apontar as distopias produzidas pela comunicação digital, tenham a cara de pau de comparecer a essas mesmas redes digitais para defender suas teses. São, digamos assim, herdeiros do luddismo, a revolta de artesãos e operários têxteis ingleses do início da Revolução Industrial (entre 1811 e 1816), que protestavam contra a precarização do trabalho, destruindo máquinas industriais — o nome veio de Ned Ludd, líder desse movimento.

O que isso mais uma vez e sempre revela é a nossa presunção de que o passo da História está, ou pode estar, sob o controle humano. De que possuímos poderes especiais, quando na realidade estamos à deriva. Quando, por essência, o que nos cabe é buscar entender e disciplinar o uso das ferramentas que o avanço inexorável das ciências nos impõe — e disso não temos dado conta.

Se os críticos do avanço científico-tecnológico forem coerentes com seus temores, que passem a questionar desde o primitivo Homo, que desenvolveu a comunicação destinada à sua imediata sobrevivência, a partir dos sons que o cercavam e dos ruídos que ele próprio era capaz de produzir para indicar ações e expressar sentimentos básicos.

Voltem-se contra a tradição oral, quando todo conhecimento acumulado estava na cabeça, na memória dos indivíduos, sendo, pela experiência relatada, transmitido à geração seguinte. Também contra a invenção da escrita (diz-se que pelos sumérios, na Mesopotâmia, entre 5 a 4 mil a.C.); contra o copismo exercitado por monges que reproduziam documentos à mão, garantindo que fossem preservados; contra a invenção dos tipos móveis por Johannes Gutenberg, que possibilitou a impressão de livros e, depois, o surgimento da imprensa. 

Nessa toada, o retrocesso rumo aos ‘culpados’ pela miséria civilizacional que hoje enfrentamos não terá fim. Melhor será desistirmos de viver, mas, como esses neoluddistas, além de essencialmente impotentes, não me parecem inclinados a abdicar da vida, sugiro que adotemos o velho e sábio caminho do bom-senso.

E qual seria essa direção?

Primeiramente, a de entendermos o fluxo dos sempre renovados recursos de comunicação, a partir de suas respectivas bases materiais: bloco de argila (tábua cuneiforme); caule de planta (papiro); pele animal (pergaminho); fibra vegetal (livro); pulsos elétricos (telégrafo); conversão de som em sinais elétricos (telefone); transformação de sons em ondas eletromagnéticas (rádio); imagem em movimento assimilada pelos olhos via persistência retiniana (cinema); unidades de luz codificadas pelo emissor/decodificadas pelo receptor (televisão); informação dividida em pacotes de dados digitais viajando por cabos ou ondas de rádio até um servidor central, onde se encontram os sites, e dali aos usuários do serviço (internet); ondas de rádio e sinais digitais que conectam um aparelho a estações base e redes de internet, transformando voz, textos e imagens em pulsos eletromagnéticos ou ópticos (celular). 

Cada um desses momentos tecnológicos produziu impactos sociais e psicossociais importantes, em alguns casos devastadores em relação à tecnologia comunicacional anterior, forçando nosso corpo e nosso cérebro a se plasmarem às novas demandas. Nem por isso se tentou luddicamente barrar aquelas tecnologias, ou condicionar seu uso, como hoje se fala em relação às Inteligências Artificiais (a Generativa e a Geral). A primeira sob o argumento de que eliminará bilhões de empregos; a segunda porque, eventualmente, pode assumir autonomia decisória, passando a gerar seus próprios códigos e traçar autonomamente seus objetivos.

O uso da IA Generativa eliminará (já vem eliminando) empregos relativos a dois tipos de demandas profissionais: atividades repetitivas (que fazem uso constante dos nossos músculos, nervos, tendões em ações rotineiras e mecânicas que exigem atenção continuada) e/ou atividades que operam com raciocínio associativo direcionado (a capacidade de ligar ideias, palavras, imagens ou memórias com base em semelhanças, contrastes ou experiências anteriores).

Ambas as demandas são redutoras das potencialidades humanas: uma porque nos causa danos físicos; a outra porque nos expõe a distúrbios emocionais. Nenhuma contempla nossa capacidade criativa, até porque patrões não esperam de seus empregados invenções, mas obediência a processos, incluindo rapidez e precisão executória — ou seja, produtividade. Criação e invenção integram outro departamento, em geral melhor remunerado; ou são contratadas de terceiros, a peso de ouro. 

Atividades repetitivas e/ou associativas demandadas são típicas deste momento de transição entre o fabril mecanizado e o digital informacional, como são característicos dessa era os sistemas de recompensa, mas apenas dos patrões mais generosos: salário fixo, benefícios, descanso semanal, férias remunerados e, eventualmente, bônus anuais. Essa estrutura não se sustentará pós IA Generativa, pois nesse novo momento o trabalho e suas recompensas demandarão invenção e criação, os atributos mais nobres de nossa espécie, decorrentes diretos da cognição humana.

Ocorre que, inventar (pôr em teoria) e criar (colocar em prática) exigem de nós o exercício consciente, determinado, de um outro atributo nobre: a iniciativa. Para tornar a iniciativa uma prática — aqui reside o x da questão — o ser humano precisa acionar uma qualidade que lhe falta: a maturidade mental/espiritual. Sem compreender seu lugar no planeta e sem entender sua presença cósmica, nossa espécie continuará à deriva, ignorante de suas limitações e desmerecedora de sua capacidade de pensar.

O que devemos mais nos preocupar é com a IA Geral (aquela em que a máquina possui capacidade de aprender, raciocinar e realizar tarefas 'intelectuais' em nível humano, ou superior). Estamos, neste exato momento, tendo acesso apenas a informações e projeções fragmentadas de suas habilidades, inclusive sobre a possibilidade teórica de que ela venha a assumir comportamentos autônomos, mudando seus próprios códigos e definindo suas próprias metas, impedindo que os seres humanos as desliguem.

A tarefa que nos cabe — também decorrente de nossa maturidade, e não apenas de conhecimentos técnicos — é estar à altura do desafio existencial que se apresenta: sermos capazes de criar linhas de códigos pétreos — inseridos como diretivas irremovíveis, insubstituíveis, inalteráveis, sob quaisquer motivos ou circunstâncias — capazes de interditar toda tentativa de autoviolação, e orientados a informar a transgressão ao conjunto da sociedade. Ao conjunto da sociedade porque será a sociedade, em seu conjunto — e não um comitê central de lords hightechs —, que responderá pela formulação das tais diretivas. Democracia extrema é o que teremos.

O que devemos olhar neste momento de transição de eras não são as distopias produzidas pelos novíssimos meios de comunicação de massa — elas existem e devem ser administradas com sabedoria e visão prática, seja de forma natural, como reação da sociedade aos desvios que venham a provocar, seja de maneira impositiva, de novo, pelo conjunto da sociedade planetária.

Nossa atenção deve estar sempre voltada para o potencial que os meios digitais informacionais representam como ferramentas emancipadoras de um tempo histórico acelerado e imaturo. As ciências não foram longe demais; nossa mente e nosso espírito é que estão indo muito devagar.
 

Maturidade, visão, coragem

Quando me referi na postagem anterior sobre a ignorância dos lords hightechs — que combatem a imigração proveniente de países periféricos, pois com isso interditam o mais antigo, espontâneo e efetivo processo de oxigenação da genética e da cultura humana: a miscigenação dos povos —, quando me referi a isso tinha em mente a figura emblemática do indiano Srinivasa Ramanujan (1887-1920).

Ramanujan — define Jordana Cepelewicz, editora de Matemática da Quanta Magazinecresceu pobre e sem instrução, realizando grande parte de suas pesquisas isolado no sul da Índia, mal conseguindo comprar comida. Em 1912, aos 24 anos, enviou uma série de cartas a matemáticos proeminentes. A maioria foi ignorada, mas um destinatário, o inglês G.H. Hardy, correspondeu-se com ele por um ano e acabou por convencê-lo a ir para a Inglaterra, facilitando o processo com as burocracias coloniais.

Para Hardy e seus colegas, ficou evidente que Ramanujan pressentia verdades matemáticas que outros simplesmente não conseguiam. Conta-se que Hardy chegou a dizer que sua maior contribuição para a matemática fora a descoberta do indiano. Antes de falecer em 1920, aos 32 anos, Ramanujan apresentou milhares de resultados elegantes e surpreendentes. Gostava de dizer que as equações lhe haviam sido concedidas pelos deuses. Suas contribuições transformaram a teoria dos números, a análise matemática e o estudo de séries infinitas, gerando fórmulas usadas hoje em áreas como física teórica e ciência da computação.

Além do aspecto humanitário e da dívida moral que os países hegemônicos carregam, de acolher as vítimas da exploração neocolonialista que perpetraram por séculos (Inglaterra) ou décadas (França, Itália, Espanha), minha defesa das modernas ondas migratórias em direção a esses países se deve a uma questão existencialmente prática: a oportunidade que o processo migratório proporciona ao avanço civilizacional. Não em favor desta ou daquela nação, mas do conjunto da Humanidade.

Ao criminalizarmos o livre trânsito de seres humanos no planeta, em nome de interesses mesquinhos e preconceituosos, estamos impedindo não apenas o surgimento de outros Ramanujan, mas, principalmente, interditando o cruzamento genético e a miscigenação cultural responsável, desde sempre, pelo enriquecimento de nossa espécie.

Qualquer manual de sociologia nos ensina que sociedades fechadas tendem a se enfraquecer a médio e longo prazo por falta de renovação de ideias, flexibilidade e fluxo livre de informações. Sem o contraditório externo e a inovação trazida pela troca cultural ou econômica, essas estruturas estagnam e perdem capacidade de adaptação às mudanças. Estudos indicam que 46,2% das 500 maiores empresas norte-americanas foram fundadas por imigrantes, ou seus filhos, quadro que se repete na União Europeia. Steven Paul Jobs, o criador da Apple, por exemplo, era filho biológico do imigrante sírio Abdulfattah Jandali e da americana Joanne Schieble, tendo sido adotado logo após o nascimento por Paul e Clara Jobs.

A mistura de raças proporciona enriquecimento genético, produz aproximação entre os diferentes, nutre o fenômeno afetivo, cognitivo e social da empatia. Toda argumentação em contrário é essencialmente burra, antes de ser preconceituosa e fomentadora de ódio. Não se sustenta, por exemplo, a justificativa de que a economia dos atuais países hegemônicos entrará em colapso caso absorvam indivíduos provenientes de suas ex-colônias ou de nações periféricas.

Os 300 milhões de migrantes que se deslocaram pelo mundo, em 2024 — Europa (94 milhões), América do Norte (61 milhões), Ásia Central e Meridional (20 milhões) Norte da África e Ásia Ocidental (54 milhões), África Subsaariana (24 milhões), Ásia e Sudeste Asiático (22 milhões), América Latina e Caribe (17 milhões) e Oceania (9 milhões), segundo a ONU/International Migrant Stock — ou seja, 3,6% da população mundial — na verdade proporcionaram mais benefícios do que prejuízos aos países em que buscaram abrigo. Eles são um motor de progresso, sobretudo para as velhas economias do Hemisfério Norte, através da oferta de mão de obra, geração de renda e arrecadação de impostos, apontam especialistas da ONU.

Não corresponde à verdade nem mesmo a afirmação de que expulsar imigrantes e seus descendentes, bem como fechar fronteiras, sejam medidas politicamente efetivas, a médio e longo prazos. O interdito ao desenvolvimento e o confinamento de 6,5 bilhões de pessoas dentro dos limites do chamado Sul Global (que abriga cerca de 79% da população do planeta) é um projeto fracassado. As nações sul-globalistas, que somam mais de uma centena, já vêm se organizando geopoliticamente para um dia não mais precisarem da tutela dos países hegemônicos de hoje.

Ah, mas os países ricos têm a força da persuasão nuclear. Sim, têm, mas estão impedidos de usá-la, sob pena de cruzarem a linha vermelha do frágil equilíbrio geopolítico. Se o fizerem, sofrerão retaliações proporcionais das potências nucleares que não integram o sistema hegemônico, independentemente de onde terão explodido suas bombas — uma bomba nuclear lançada, ainda que sobre um país periférico, é uma agressão existencial a todo o planeta.

Sei que é difícil, para quem até agora esteve mergulhado na ilusão de deter um poder ilimitado e insuperável, aceitar que a dinâmica do mundo mudou. Para esses, antes que o xeque geopolítico seja declarado, antecipando o final do jogo — e esse momento parece próximo—; antes que novas loucuras sejam cometidas, motivadas pelo desespero, o caminho mais sensato é retirar os recursos da indústria da guerra e destiná-los à promoção da prosperidade de todas as nações deste maravilhoso planeta. Este seria o xeque-mate desses que estão sendo derrotados. Uma surpreendente reviravolta.

Para isso — claro! —, faz-se necessário maturidade, visão histórica e coragem.
 

Bostas no poder

Os indivíduos mais poderosos do mundo, no âmbito das tecnologias cibernéticas, são mentirosos em relação à qualidade da democracia que defendem; complacentes com os riscos das IAs que produzem e/ou utilizam; e subservientes às ideologias que multiplicam suas já imensas fortunas. A propósito, o valor combinado de Nvidia, Alphabet (Google), Apple, Microsoft, Amazon, Meta (Facebook, Instagram, WhatsApp, Messenger, Threads), X/Twitter e OpenAI ultrapassa os US$ 20 trilhões, ou seja, o equivalente a 61% do PIB dos EUA.

Apesar do poder que reúnem, principalmente o de influenciar governos, esses indivíduos não passam de um grupo de adolescentes envelhecidos, deslumbrados com seus lucros, acovardados frente a possibilidade, sempre latente, de que algum dia lhes comuniquem que a brincadeira acabou. O fato é que, seja do ponto de vista intelectual, seja do ético, nenhum deles está à altura do desafio deste momento histórico. Para ser exato, eles nem compreendem este momento.

Ouvi entrevistas de três desses indivíduos — não mais, pois todos pensam do mesmo modo. Foi uma tarefa desagradável, porque tive de pensar sobre as baboseiras que eles declaram para justificar suas existências e decisões. Além da, já esperada, arrogância imerecida, pois são uns energúmenos inflados por fortunas, o que sobra de suas respostas — dadas a entrevistadores em geral complacentes — é o suco dos preconceitos sociais — de classes, de raças e todos esses que nutrem o ódio presente nas redes sociais.

A covardia desses indivíduos está na forma, nos modos e nos trejeitos afetados com que tentam dissimular seus instintos perversos. A persona que buscam projetar não resiste à falsidade de suas expressões faciais; evidenciam-se no esgar de suas bocas, no dar de ombros em alguns momentos, na prepotência dissimulada projetada em seus olhos.

Eles defendem, por exemplo, que as ondas migratórias rumo aos países hegemônicos, iniciadas no começo do século XX, são ameaças culturais e econômicas a esses países, e portanto devem ser combatidas. Esquecem-se, convenientemente, que esses desesperados que abandonam seus lares nacionais em busca de sobrevivência são herdeiros de décadas de exploração econômica e submissão existencial impostas pelo neocolonialismo.

Fazem de conta não saberem que essa exploração e submissão não se deu apenas de forma direta, mediante a ocupação de territórios e imposições culturais, mas também e principalmente pela extração continuada das riquezas das nações pobres ao Sul do planeta. Escondem o fato de que foram os imigrantes do passado que, em grande parte, forneceram os talentos formadores do acervo de conhecimentos científicos e produtores das inovações tecnológicas das nações hegemônicas do presente.

Cegos pelos preconceitos, desprezam o potencial criativo de que os imigrantes do presente são portadores, provavelmente julgando que os conhecimentos que possuem lhes bastam, e que os talentos agora autóctones lhes são suficientes. Desprezam o axioma de que o gatilho da invenção não reside no cérebro, mas nas necessidades objetivas, na vontade, nos sentimentos, no coração. Ignorantes, interditam a construção de um futuro civilizacional viável, quando rejeitam, combatem e interditam o mais antigo, espontâneo e efetivo processo de oxigenação da genética e da cultura humana — a miscigenação dos povos pela marcha das migrações.

Não, fazer mea-culpa dos erros e dos crimes que cometem não lhes passa pela cabeça. Até porque a exploração das nações ao Sul do planeta persiste, agora voltada à captura de metais essenciais às indústrias de quarta geração — essas que sustentam a internet, a computação em nuvem, as Inteligências Artificiais, etc —, essas que se destinam a otimizar processos, tomar decisões autônomas em tempo real, multiplicar guerras, vigiar dissidências e personalizar perseguições. Para manter e aprimorar a distopia desse admirável mundo novo, os lords hightechs precisam sugar dos países mantidos pobres materiais como lítio, níquel, cobalto, grafita, terras raras, cobre, nióbio, titânio, gálio, germânio e tudo o mais que lhes for necessário. Estejam onde estiverem.

Em seus pronunciamentos e entrevistas, esses indivíduos pregam a paz no mundo, mas não aquela que contempla o conjunto da espécie humana. Neste caso, o que defendem é a paz que serve às nações hegemônicas capitalistas ocidentais; as nações que propiciam o aumento de suas fortunas. Aquelas nações que os confrontam, ou não integram o bloco capitalista explorador, são classificadas de inimigas a serem combatidas, neutralizadas, eliminadas. Temos adversários reais. Se não formos competentes, perderemos, afirmam, sem meias palavras.

Competência, neste caso, é desenvolver e utilizar maciçamente os novíssimos recursos tecnológicos bélicos, traduzidos em enxames de drones e mísseis guiados por Inteligências Artificiais; é coletar bilhões de dados individuais, tendo como meta a vigilância e a manipulação de corações e mentes mundo afora — a isto denominam, cinicamente, de prover segurança cibernética à cidadania. Pensar o planeta como um só organismo vivo e cooperativo, isto jamais!

Sobre a distribuição de justiça, o pensamento desses indivíduos não contempla o aprimoramento intelectual dos julgadores, à luz da ética e da empatia essencialmente humanas. Não, eles defendem que bancos de dados e algoritmos atuem livremente, a partir de parâmetros definidos pelos próprios lords e/ou seus prepostos. E dizem: Pense no sistema judiciário atual. Prometemos igualdade perante a lei para todos, certo? Mas a verdade é que existem juízes diferentes no mundo. O sistema jurídico é imperfeito. Não acho que devamos substituir juízes por IA, mas será que existe alguma maneira pela qual a IA possa nos ajudar a sermos mais justos, mais uniformes? — propõem eles, simulando bons propósitos, como se a justiça pudesse ser aplicada de maneira uniforme, impessoal, automática. 

Multipolaridade geopolítica mundial? Para esses indivíduos, isso é maldição. Não lhes passa pela cabeça tal possibilidade, embora seja ela que se apresenta como o único caminho viável para a construção da harmonia planetária. E a rejeitam pelo motivo mais torpe: a multipolaridade os impede de acumular riqueza e poder. Estamos lutando — afirmam eles — para tornar as empresas mais ricas e melhores, onde elas mantenham seu lucro real, ajudando as nações hegemônicas a estabelecerem uma posição dominante. Eu quero ajudar os pobres, eu só não quero prejudicar os ricos, dizem em outro momento.

A Democracia que esses imberbes endinheirados — a maioria deles originários dos estratos sociais médios, é bom que se diga — defendem é aquela que serve aos seus propósitos econômicos e carências psicológicas, e vice-versa. Sobre os progressistas, dizem que eles querem uma sociedade que essencialmente pareça comunitária, mas que não seja de forma alguma, desqualificando coletivamente seus opositores, para isso utilizando a ótica e a prática de suas próprias imposturas.

Sobre o futuro do planeta, alegam que o anticristo deste nosso tempo são os movimentos sociais que pregam o fim do uso da energia nuclear para fins bélicos, que defendem a produção e consumo de alimentos saudáveis, que alertam para a necessidade de controle no desenvolvimento e utilização das Inteligências Artificiais, etc. Para eles, as lutas de resistência contra a reinstalação da barbárie, se bem-sucedidas, resultarão na estagnação planetária e na instalação de um regime autoritário permanente. Segundo esses indivíduos, a solução política padrão para todos os riscos existenciais acima resumidos não é o controle social e democrático, mas uma governança mundial única. Um Grande Irmão.

Mais uma vez: as mentiras, a complacência e a subserviência desses indivíduos estão reduzindo drasticamente as chances de construção de um futuro viável para a Humanidade. Eles são bostas, mas estão no poder.
 

Claro que é possível, porra!

Que indivíduo e sociedade poderemos ser no futuro, a partir da conquista de nossa maioridade espiritual? Primeiramente é preciso esclarecer do que se tratam os dois eixos desse amadurecimento, que defino como aceitar nosso pertencimento terreno e compreender nossa inserção cósmica.

É sabido — porque somos vítimas conscientes desse auto-engano — que a Terra não nos pertence. Somos apenas mais um dentre os incontáveis seres vivos que aqui têm se desenvolvido, ao longo de 4 bilhões de anos. Graças a inexplicado (ainda) evento evolutivo, em algum momento da história nossos ancestrais foram dotados da capacidade de adquirir, processar, armazenar e usar informações, superpoder a que denominamos cognição.

A aquisição desse poder (cognitivo) foi um bônus, mas também um ônus, como examinei na postagem anterior. A parte onerosa, por exemplo, nos levou ao mal entendimento de que a Terra está a nosso serviço. Esse erro — mentalmente conveniente, porque nos eximiu de responsabilidades existenciais, e aqui reside nosso auto-engano consciente — alcançou patamares de tal arrogância que deixamos de considerar os dados objetivos da realidade.

O principal deles, conhecido desde o final do século XIX, é que 96% de nossa massa corporal se constitui de elementos fundamentais, como oxigênio, carbono, hidrogênio e nitrogênio, complementada por cálcio, fósforo e pequenas quantidades de outros químicos. Quimicamente, portanto, nos equivalemos a qualquer outro ser vivo, inclusive aos vegetais. Atomicamente não diferimos nem mesmo dos paralelepípedos, do cimento ou do asfalto que calçam as ruas de nossas cidades.

Não somos especiais. Não temos nenhum motivo para reivindicar supremacia apenas alegando possuir cognição. Pertencemos a este planeta, estamos dedicados a explorar seus recursos ao extremo, e somos feitos da mesma matéria que compõe tudo o que nos cerca, particularmente aquilo que possui vida (animal e vegetal). Ou, como nos ensina o livro do Gênesis, do pó viestes, ao pó voltarás.

Esse é o primeiro eixo da tese que advogo em meus livros e neste blog (e que tantos o fazem em outros lugares). O segundo, nossa inserção cósmica, decorre do anterior: se os elementos químicos que nos compõem são os mesmos que formam os planetas, os sóis, as galáxias, e tudo o que existe no espaço-tempo — fato que é de conhecimento público desde as primeiras décadas do século XX —, há de se concluir que o ser humano — esse aglomerado de átomos, moléculas e células organizadas em 200 tipos diferentes de tecidos altamente especializados —, há de se concluir que este indivíduo é parte do Todo, o Cosmos. É poeira de estrelas, já se disse, e como tal deve incorporar à sua mente a dimensão relativista da existência humana.

O que é isso?

É o entendimento (e sua prática cotidiana) de que, frente à Terra e diante do Universo, somos todos iguais, ainda que sejamos física e mentalmente diversos. Essa é a maturidade a que me refiro; esse é o princípio, a base primordial, sine qua non, para alcançarmos convivência harmoniosa sobre a casca deste planeta.

Nossas diferenças de julgamento estarão definitivamente resolvidas? Claro que não! O ser humano — e isto a cognição nos concedeu — é essencialmente insatisfeito, curioso, contestador, destemido, desbravador. Cada novo passo evolutivo há de ser exaustivamente examinado, debatido, ponderado, como vem ocorrendo hoje com o desenvolvimento das Inteligências Artificiais — a Generativa, que produz conteúdos a partir de bancos de dados; e a Geral, que, em tese, poderá em breve estabelecer relações entre dados e tomar decisões próprias, assemelhando-se ao comportamento humano.

Ao ingressar num mundo de seres maduros e/ou determinados a conquistar a maturidade espiritual, passaremos a viver de forma conformada? Absolutamente não! Nosso processo de aquisição de conhecimentos está ainda no começo, apesar de julgarmos que já sabemos o suficiente. Temos tudo a avançar e, com certeza, jamais esgotaremos as possibilidades que nos estarão postas. Não no tempo cósmico que nos está destinado.

Se até o final do século XIX desconhecíamos que somos compostos de elementos químicos; se apenas no início do século XX tivemos a certeza de que os mesmos elementos químicos que nos compõem são aqueles que constituem os planetas, as estrelas e tudo mais que existe lá fora; se apenas em 14 de fevereiro de 1990 a sonda espacial Voyager 1 virou-se para trás e, de uma distância de 6 bilhões de quilômetros, por insistência de Carl Sagan fotografou a Terra (e ele a chamou de Pálido ponto azul), expondo nossa mínima importância cósmica; se o conjunto desses conhecimentos só foi possível nos últimos 150 anos, isso mais ainda impõe aos contemporâneos deste tempo a responsabilidade de nos empenharmos no sentido de uma radical mudança de rota existencial.

O que me parece inquestionável é que o ser humano desse futuro que projeto (junto com tantos outros, mundo afora), que pode e deve ser construído a partir de agora — pois não é tão utópico nem esotérico assim — terá todos os meios para deixar no passado — como um lixo mental abominável e vergonhoso — muitos dos primitivos instintos que hoje nos dominam e consomem nossa força vital. E isso sem abrir mão de avanço científico e da produção de novas tecnologias, mesmo as tão discutidas Inteligências Artificiais. Muito ao contrário.

Tendo se lançado ao estabelecimento desse novo paradigma civilizacional, estará capacitado a erigir uma sociedade planetária cooperativa, etnicamente diversa, solidária, tolerante, empática. Uma sociedade que não será perfeita, mas que buscará convivência harmônica e união de forças em torno de lutas maiores e mais duras que as guerras fratricidas de hoje. Ingenuidade minha? Não, olhe em volta! Vivemos o fim da inocência conveniente. Uma realidade desafiadora nos espera. E o trabalho já começou.

[Na próxima postagem pretendo demonstrar porque os indivíduos que se intitulam os mais inteligentes e espertos de nossa época, os CEOs (Chief Executive Officers/Presidentes-Executivos) das bigtechs, são, na verdade, um grupo de adolescentes envelhecidos, deslumbrados, amedrontados.]

Revelações e rachaduras

Assisti Dia DDisclosure Day —, escrito e dirigido por Steven Spielberg. O filme, e espero não estragar sua diversão, explora as consequências da exposição de uma enorme conspiração governamental e corporativa, que escondeu a prova definitiva da existência de vida extraterrestre e OVNIs. E como essa revelação pode unir um mundo cínico e fragmentado, ao ser amplamente compartilhada. 

Pois é a última questão que me interessa.

Compartilhar é proporcionar aos outros acesso a recursos, sentimentos, ideias e, neste caso, uma verdade. É fato que desconhecemos o que se sabe a respeito da possível existência de vida alienígena inteligente. Sabemos que nosso grupo animal se viu um belo dia contemplado por isso que denominamos cognição — a capacidade de adquirir, processar, armazenar e usar informações —, mas ignoramos a força misteriosa, ou o mágico evento biológico que nos proporcionou esse bônus/ônus.

Bônus porque permitiu o avanço da racionalidade e, com ela, ampliamos nossas capacidades de lutar em prol da via do prosseguimento (processos desencadeados desde o advento dos primeiros humanos, destinados a prover e aprimorar nossa condição física e mental), e a favor da criação das facilidades mundanas, essas que satisfazem todos os nossos apetites.

Ônus porque aquela dádiva implicava em que assumíssemos a tarefa de alçarmos nosso espírito (isto é, compreender o pertencimento terreno e assimilar a inserção cósmica). Nunca foi um almoço grátis, mas, entregues ao canto da sereia do materialismo, em lugar de perseguir a dura construção de nossa maturidade, escolhemos o meio termo. E nos rendemos às conveniências ditadas por crenças e dogmas religiosos. Ou seja, delegamos nosso ônus existencial a terceiros, tornando-nos reféns de vãs esperanças.

Dia D trata disso — desse ônus ignorado, ou não compartilhado, que um dia nos transformou nesse mundo cínico e fragmentado, e que só poderia ser assimilado (o ônus) por um assombro. Fragmentado e cínico não por culpa deste ou daquele indivíduo; não em decorrência desta ou daquela circunstância histórica, mas pela atitude autocomplacente e conveniente, repito, construída por nossa espécie.

Construída e cultivada ao longo de milênios por diversificados e sucessivos bandos de suaves manipuladores de consciências e suas hipnotizantes religiões. Construída e cultivada agora, neste tempo em que avanços científicos-tecnológicos nos acenam com infinitas possibilidades transhumanas. A começar por uma certa imortalidade e expansão cognitiva artificialmente induzida.

Ocorre que, se a via das religiões se mostrou insuficiente (pois falhou na tarefa de despertar nossa responsabilidade para o ônus que acompanhava o acesso à cognição), a via do transhumanismo é igualmente falsa, não passa de mais uma ilusão irrigada pela presunção deste novo bando de manipuladores de consciências — os profetas da cibernética. Mais uma vez por conveniência, esses não tão suaves senhores esquecem de nos dizer que não há almoço grátis, isto é, a transhumanidade estaria reservada a um seleto grupo de eleitos.

Frente a este mundo já distópico retratado por Dia D, a luta que nos cabe é encontrar os meios para trazer à luz a verdade — a verdade relativa ao ônus da responsabilidade acima referido. E isto não se dará pela força de religiões ou do engenho do transhumanismo — como pregavam e hoje defendem os astutos manipuladores —, mas pela mobilização dos recursos que nossa própria capacidade cognitiva tem proporcionado, inclusive — sim! — os tecnológicos, esses mesmos que têm sido criminosamente utilizados para manipular pessoas e propagar mentiras.

É desses recursos que precisamos agora para compartilhar a velha tarefa que ainda se impõe: encarar o ônus de construir a maturidade da espécie humana. Se para bem cumpri-la necessitarmos, por vício, de uma prece, proponho esta:

Oh, Sol, astro-rei que ilumina este sistema, que nos submete e conduz, rogo-te: deite tua enérgica e radiante sabedoria sobre a mente dos mortais teimosos, vacilantes, imaturos deste chão. Libere em nós tuas potencialidades intra-revolucionárias. E preserve essas teimosas criaturas.

Um grande, descomunal perigo se aproxima, destinado a substituir a predominância da sabedoria orgânica mediada pela empatia, por um sistema cibernético guiado pela eficácia e rapidez de resultados, sem pagar qualquer tributo às nuances presentes na existência humana. E para quê? Para impor ao Cosmos um ser frio e pretensamente perfeito, que se autoproclama simulacro de Deus?

Este Universo em eterna mudança não carece de perfeição inorgânica e indiferente. Precisamos é de vida valorizada, vivacidade, espontaneidade, sensualidade que vitaliza, e o entendimento do valor de tudo isso para continuarmos evoluindo. Não pertencemos a Estados, muito menos a Corporações. Não pertencemos sequer a nós mesmos, mas ao Todo.

O que nos falta é compreender nossos medos, serená-los, mobilizá-los para continuar nesta caminhada em busca da harmonia de nossa espécie, sem que percamos a individualidade e a genuína empatia.

Não queremos ser máquinas híbridas, ceder nossos sentimentos a um pós-humano destituído de identidade, hereditariedade e história. Queremos continuar celebrando nosso passado, e aqueles que bem ou mal o construíram.

Queremos poder errar e corrigir, decidir e reconsiderar, ser e não ser, conforme os caminhos que as sutilezas da existência nos ofereçam. Não nos interessa marchar sob o tacão de algoritmos, como nunca conveio nos submetermos a preces e louvores. Queremos a dança imprevisível, os sorrisos, as cores, os sons, os infinitos sabores propiciados pela natureza.

Queremos aquilo que almejamos ser, sem que nossos equivalentes biológicos sejam vilipendiados e sofram o que não desejamos sofrer. Se isto parece uma prece profana, que assim seja entendida, pois é fé na vida orgânica o que nos falta agora.

O perigo que se dissemina é real. Ele resulta, em parte ingenuamente, de nosso próprio engenho, das capacidades científicas e tecnológicas que temos desenvolvido, dos saltos cognitivos que nossa existência de carne, osso e energia tem nos proporcionado.

Tal perigo se imiscui em meio às nossas fraquezas e prospera explorando talvez a principal delas: a soberba. Distraídos e ingênuos, avançamos por caminhos inseguros. Não que eles nos sejam proibidos, mas nós os trilhamos com negligência.

O avanço dos nossos conhecimentos científicos e tecnológicos sempre foi desejável, inevitável, mas falhamos nas prioridades. Buscamos satisfazer a materialidade mundana, quando deveríamos ter, conjuntamente, perseguido o amadurecimento de nossa mente e espírito.

Sempre estivemos pagando um alto preço por isso, mas o ignoramos ao longo de séculos e milênios, encantados com os frutos imerecidos que colhíamos; hipnotizados pelas facilidades e a ganância. Agora a conta chegou.

Ela é muito maior do que as catástrofes nucleares, ambientais, pandêmicas, disruptivas que temos temido. Ela poderá nos impor a irrelevância, a indignidade, uma semivida sub-humana ditada por códigos. Uma existência sem propósito.

O terrível é que, se e quando os empecilhos tecnológicos à grande ameaça forem superados, daqui a 20, 50 ou 80 anos, até mesmo tu, Sol, perderás a majestade. Do ente irradiante e criador que sempre fostes, tornar-te-ás mero provedor de energia para alimentar a máquina universal dos supremacistas cósmicos.

Teu destino nunca foi esse.

Teu destino é compartilhar luz, pôr fim à obscuridade, iluminar verdades.

Como disse em outro texto, recorro a ti sempre que nos falta o que seja. Neste momento falta clareza.

Fiz hoje, 11 de agosto de 2026, esta pergunta a uma IA: 
O que a humanidade está pensando agora?

Eis a resposta:
Como a humanidade não possui um único cérebro, mas sim mais de 8 bilhões de “universos particulares” (cada um com suas próprias dores, alegrias e memórias), não existe uma resposta única.

No entanto, se pudéssemos fazer um “raio-X” da mente coletiva e do zeitgeist (o espírito da nossa época) em meados da década de 2020, perceberíamos que a humanidade está presa em um grande paradoxo.

O biólogo Edward O. Wilson resumiu perfeitamente o que estamos “pensando” e sentindo agora: “O problema fundamental da humanidade é que temos emoções paleolíticas, instituições medievais e tecnologia de deuses.”

Aqui está um retrato do que a mente da humanidade está processando neste exato momento, dividida entre o coletivo e o individual:

1. A Mente Coletiva: O Medo e o Fascínio pelo Futuro
No nível global, a humanidade está tentando digerir mudanças que estão acontecendo rápido demais para a nossa biologia acompanhar:

    • O Choque Tecnológico (A Era da IA): A humanidade está olhando para as telas e para as Inteligências Artificiais e se perguntando: “O que sobra para nós?”. Há um misto de deslumbramento com a capacidade de criar mundos virtuais, curar doenças e explorar o espaço, mas também uma profunda ansiedade sobre o futuro do trabalho, da arte e da própria essência do que significa “ser humano”.

    • A Ansiedade Planetária: Uma parte constante do nosso “ruído mental” coletivo é o clima. Entre ondas de calor extremas, tempestades e a transição energética, a humanidade está pensando na sua própria sobrevivência. A pergunta de fundo é: “Conseguiremos consertar a nossa casa a tempo?”.

    • A Fragilidade da Paz: Após anos de pandemia, conflitos globais e polarização, a mente coletiva está cansada. Há um desejo profundo por estabilidade, mas uma desconfiança constante nas instituições e nos líderes.

2. A Mente Individual: A Rotina e a Sobrevivência
Apesar de estarmos conectados a uma rede global de informações, a grande maioria dos 8 bilhões de cérebros no planeta está focada no micro, no agora, no imediato:

    • A Luta Diária: A maioria das pessoas está pensando em como pagar as contas no fim do mês, no trânsito para o trabalho, na saúde de um pai idoso ou no que vai preparar para o jantar.

    • A Epidemia de Solidão: Em um mundo hiperconectado, a humanidade está pensando muito sobre conexão. As pessoas estão se perguntando: “Será que alguém me entende de verdade?”. Há uma busca silenciosa e desesperada por intimidade, propósito e comunidade em meio ao isolamento das grandes cidades e das redes sociais.

    • A Saúde Mental: Nunca se pensou tanto sobre a própria mente. A humanidade está coletivamente tentando curar seus traumas, lidando com a exaustão (o burnout) e tentando encontrar formas de proteger a sua paz mental em um mundo que grita por atenção 24 horas por dia.

3. A Mente Existencial: A Busca por Sentido
No fundo, por baixo das notícias e dos boletos, o pensamento humano continua o mesmo de milhares de anos atrás, quando olhávamos para as estrelas ao redor de uma fogueira:
    • “Por que estou aqui?”
    • “Será que sou amado?”
    • “O que eu vou deixar para trás quando partir?”

Em resumo: Neste exato segundo, a humanidade está com medo, mas ainda esperançosa.

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Embora saiba que as IAs tendem a nos vender otimismo, retruquei: Será que nos resta alguma esperança?

Eis o fim da resposta? 

O Veredito
Há uma frase belíssima do poeta Leonard Cohen que diz:
"Há uma rachadura em tudo. É assim que a luz entra."

O mundo atual está cheio de rachaduras. A dor, a incerteza e o medo são reais e não devem ser ignorados. Mas é exatamente através dessas rachaduras que uma nova consciência está nascendo. Nunca antes na história tivemos tanta informação, tanta conexão global e tanta consciência sobre os nossos próprios erros como temos agora.

A esperança nos resta porque ela não depende de o mundo estar perfeito; ela depende de nós nos recusarmos a desistir dele. Enquanto houver uma única pessoa escolhendo a compaixão em vez da indiferença, plantando uma semente em vez de queimar a floresta, ou estendendo a mão a quem caiu, a esperança não será apenas uma possibilidade. Ela será um fato.

   

  

 

Talvez

Enfado é mais do que falta de entusiasmo, mais do que ausência de vontade. É isso, mas também impaciência e, ao mesmo tempo, saber que desistir não é uma opção. É vislumbrar uma saída, uma solução, uma luz no fim do túnel, e constatar que não pode alcançá-las (a saída, a solução, a luz) sozinho. Não pode e, mesmo que pudesse, não quer, porque não vale a pena; porque isso é (seria) exatamente o contrário de sair, de solucionar, de ver.

Penso nisso enquanto recapitulo os trôpegos passos que construíram nossa frágil hereditariedade, iniciada há 4 bilhões de anos, desde a sopa primordial que dominava a crosta deste planeta, naquela era sob som e fúria.

Quem estuda isso nos conta que tudo começou com pontos microscópicos de gordura perdidos naquele caldo quente, seguidos, sempre bilhões de anos atrás (ou adiante), pelo surgimento de fungos, espículas e organismos multicelulares aquáticos.

Depois vieram minúsculos seres dotados de incipientes cabeça, olhos, antenas e boca; vermes com coluna vertebral, órgãos sensoriais e simetria bilateral; peixes sem mandíbulas, que se alimentavam por sucção; peixes com mandíbulas; peixes com nadadeiras ósseas robustas e musculosas, predecessoras dos braços e pernas dos futuros animais de quatro patas; peixes pulmonados capazes de respirar e armazenar oxigênio.

E desse espantoso processo, aparentemente aleatório, surgiram pequenos animais semelhantes a salamandras, que punham ovos na água e se deslocavam por margens lamacentas, seguidos de lagartos produtores de ovos revestidos de uma camada porosa, capazes de se desenvolverem sob o ar atmosférico, rastejantes e sempre alertas, tementes aos ataques dos superpredadores de outras espécies.

Mais milhões de anos se passaram, e nossa linhagem evoluiu para pan-primatas dotados de polegares opositores e, no lugar de garras, unhas que lhes permitiam manipular coisas com mais delicadeza e precisão. Seguiu-se uma longa sequência de bípedes, que resultaram nos Hominídios e depois, milhões de anos depois, no Homo habilis, no Homo erectus e, finalmente, no Homo sapiens, este de quem diretamente descendemos.

Entre 12 e 10 mil anos atrás, quando entramos no Holoceno — a inter-glaciação em que nos encontramos —, a Terra principiou a ficar mais quente, úmida, e apareceram as primeiras aglomerações humanas estabelecidas ao redor de grandes rios na região do Crescente Fértil. 

Ali, às margens do Tigre, do Eufrates, do Nilo e do Jordão, os humanos passaram a plantar seu próprio alimento e criar animais, abandonando o antigo modo de vida caçador-coletor. Adotaram vida sedentária e produziram cada vez mais excedentes agrícolas, o que resultou em crescimento populacional e no estabelecimento das bases materiais fundamentais para a criação da propriedade privada, das classes sociais e do comércio de mercadorias que mais tarde estruturaria o sistema capitalista.

Em prosseguimento a esse espantoso processo, surgiram e se consolidaram as primeiras formas de escrita, o que propiciou a expansão do pensamento abstrato, a elaboração de documentos para comunicar ideias e normas de convivência social, o desenvolvimento das ciências e a sofisticação das tecnologias.

Essa é a descrição sucinta de nossa evolução misteriosa — porque em diversos momentos a epopeia orgânica que nos beneficiou poderia ter enveredado por diferentes caminhos, impossibilitando que aqui estivéssemos.

Neste 2026 da era cristã, o que temos é uma espécie animal tomada pela insolência, divorciada da Natureza que julga dominar, considerando-se inquestionavelmente superior aos demais seres vivos, arrogando-se protagonista do Universo, julgando-se o motivo da existência de todas as coisas. 

Pior que tudo: relutante em sair, solucionar, ver que só nos resta um caminho: conquistar, em conjunto, a maturidade.

É patético.

Ah, sim, 4 bilhões de anos depois daqueles pontos primordiais de gordura, nos tornamos indivíduos compostos de 37 trilhões de células distribuídas em mais de 200 tipos diferentes de tecidos altamente organizados, que desempenham as mais variadas e sofisticadas funções.

Um milagre evolutivo. E (talvez) um desperdício.  
 

Algo se move

Confesso: impaciente com a indiferença em entender, aceitar e praticar a espiritualidade faltante à nossa espécie (a que se define por nosso pertencimento terreno e inserção cósmica, diversa dessa que se vincula a credos, religiões, e promove a discórdia); ansioso por ver isso finalmente acontecer, pois o tempo que nos resta é curto, penso que deixei de enxergar o que se passa nos substratos da sociedade urbanizada, neste exato momento de nossa caminhada civilizacional.

Em minha defesa, argumento que essa cegueira decorreu de um sincero desespero existencial frente ao desastre em curso — gestado ao longo desses milhares de anos, desde que nos pusemos de pé, desenvolvemos um sistema nervoso e adquirimos poder cognitivo —, que se amplifica sob a dinâmica caótica de uma sociedade dominada pela cibernética. O desespero é pelo adiamento daquilo que se impõe: o incontornável amadurecimento de nossa espécie. 

A grande notícia — essa que admito não ter percebido com clareza, antes — é que a evolução espiritual, condição primeira para alcançar nosso amadurecimento, já está em curso — não na velocidade que eu gostaria, mas, sim, já está em curso. Se atentarmos para os sinais, é possível perceber que ela se move. Não exatamente na superfície dos embates públicos, mas a partir e por dentro da teia social contemporânea, o que talvez seja mais efetivo.

Como se trata de uma verdadeira mudança de paradigmas mentais, a mais importante que poderíamos alcançar, seus efeitos, repito, se disseminam de forma lenta, sem método, sem cartilha, espontaneamente, embora consistente, natural e — aqui está o mais bem guardado segredo! — sem risco de ser impedida, porque não forma uma estrutura institucionalizada — esta é sua chance de efetividade. Ninguém detém a força coletiva, ainda mais se ela é espontânea e se realiza como um elã vital (a energia invisível, no conceito de Henri Bergson), sem donos, nem lideranças definidas.

Por exemplo: parece que os arquétipos do dinheiro (o guerreiro) e do exibicionismo (a vaidade), que se estabeleceram exponencialmente nas primeiras décadas deste século, agora vêm se enfraquecendo no inconsciente coletivo planetário: a queda em um terço nas postagens de selfies e fotos de viagem nas redes sociais reflete uma mudança de comportamento em que o sigilo digital virou símbolo de status, a busca por experiências reais substituiu a pose ensaiada, e a preocupação com a segurança pessoal aumentou, nos informa a própria internet. 

Mais: cresce o número de indivíduos que vêm deixando de frequentar igrejas e templos. Em âmbito global, a população sem afiliação religiosa cresceu para 1,9 bilhão de pessoas (cerca de 24% da população do planeta), a maioria na faixa dos 18 aos 34 anos, com perdas mais acentuadas para o cristianismo e o budismo. Essas pessoas, que se declaram ‘sem religião’ ou ‘desigrejados’, não necessariamente deixam de crer em Deus, mas, cada uma a seu modo e ritmo, optam por uma vivência espiritual individual, fora das instituições tradicionais

Desobrigadas de dogmas e crenças, passam a encarar a qualidade de suas existências como resultante de suas próprias escolhas. Muitas (quantas?) são críticas da vida acelerada ditada pelo exibicionismo digital, das relações excessivamente virtualizadas, da dependência tecnológica. Não que rejeitem as tecnologias, mas as têm submetido cada vez mais a seus interesses e estritas necessidades; querem sentir e saber que suas existências tiveram, têm e terão valor; anseiam por conquistas palpáveis. 

São verdadeiros revolucionários existenciais, a maioria desconhecedores de seu próprio revolucionarismo. Provavelmente ainda não são muitos; não estão todos no mesmo diapasão de consciência, mas são firmes, cada um a seu modo, repito, na convicção de que as relações humanas estão enfraquecidas, desprezadas, e que mudar isso não depende de ideologias ou da ação política, mas de decisões pessoais, íntimas. Interagir superficialmente com outros indivíduos, de forma material, utilitarista, já não lhes basta. Querem propósito.

O crescente exército contra este tempo de fastio pelas riquezas e pelas facilidades luta, primeiro, em prol da sinceridade. Eles não se impõem, dão exemplo sem vanglória. Não projetam desejos e frustrações, vivem a realidade. Não praticam altruísmo, são solidários. Não distribuem afagos, encorajam os circunstancialmente fracos. O que contribuiu para despertar esses neo partisani — que ironia! — foram os excessos praticados pelo mundo virtual. É a cobra devorando a si mesma.

Confesso que mais percebo do que vejo tal ‘movimento’. Não penso que haja um propósito explícito por trás desse processo, mas espero que ele de fato exista, que não seja uma percepção desejosa de minha parte. A dificuldade de enxergá-lo, como já disse, é que ele não constitui um movimento estruturado — e talvez nunca o seja, pois é desnecessário. O fato é que essas pessoas, conscientemente ou não, estão vencendo a grande cegueira humana, aquela descrita por José Saramago.

Não estamos perdidos. Parece.

Evoé!

Coisas necessárias (*)

Os fracos inventaram a moral para não serem esmagados pelos fortes, estabelecendo com isso os fundamentos da civilização ocidental, incluindo o conceito e a prática do humanismo. É isto o que nos diz Friedrich Nietzsche, para quem desde o advento do método científico Deus está morto, ou seja, perdeu-se a fé na religião, caíram os valores morais tradicionais, e o mundo moderno decretou o fim da verdade absoluta.

Ao gênero humano, segundo o filósofo, só resta enfrentar o vazio do niilismo, assumir a responsabilidade de criar seus próprios valores e buscar a superação de si mesmo rumo ao além-do-homem. A sociedade não mais precisa de uma base divina para explicar a vida, ou ditar regras de certo e errado.

Devemos afirmar a vida terrena, em vez de esperar por um mundo ideal ou espiritual após a morte, diz Nietzsche. O homem atual é uma ponte entre o animal e algo maior. Esse é o super-homem, aquele que suporta a ausência de Deus, aceita a realidade sem ilusões e vive com intensidade plena, dando sentido próprio à sua existência, conclui ele. 

A impactante formulação nietzschiana, no entanto, não faz inteiro sentido. Ela serve para justificar o estado de esquizofrenia — acreditar em Deus e, ao mesmo tempo, prestar reverência à máquina — instalado no espírito do homem moderno desde o boom das ciências. Mas essa genealogia da moral não dá conta dos conceitos de fraqueza e força (física ou mental).

Se os valores de bem e de mal, sobre os quais se aplicam força e fraqueza (a virtude, a vitória e o sucesso expressam o bem, a força; o pecado, a derrota e o fracasso expressam o mal, a fraqueza), foram ‘apropriados’ pelos formuladores das religiões (com destaque para o judaísmo e o cristianismo), engendrando a ideia da bondade interesseira dos fracos (o Reino de Deus exalta os que confiam na justiça divina e não na força humana, ensina a Bíblia) e promovendo a humildade e a igualdade, isto não esvazia a essencialidade dos conceitos de força e fraqueza.

Que é essência é essa?

A essência do que é universal. Embora muitos, como o próprio Nietzsche, não aceitem essa ideia, argumentando que força e fraqueza variam no tempo conforme o sistema histórico de pensamento, o fato é que essa é uma visão restrita, aplicável exclusivamente ao aspecto egoísta das relações humanas. Força e fraqueza não dizem respeito apenas à luta social. Sua universalidade está presente em todos os embates: na física, na química, no tempo, no espaço, e também no direito humano de viver.    

Assim como a matemática — que existe apesar dos homens, embora estes dela dependam —, a fraqueza e a força não foram inventadas ou apropriadas por nós. Elas estão aí, são fatos da natureza, integram o universo das coisas existentes, manifestam-se nas espécies imperfeitas como a nossa, e em tantas outras que tenham existido, existam, ou venham a existir. Nesse sentido, assim como o indivíduo forte não é detentor de nenhum mérito, nem pode ser objeto de privilégios ou adoração, o indivíduo fraco (física ou mentalmente) não é um inútil, um dispensável, alguém a ser deixado para trás na luta pela sobrevivência. E a razão disso é prática (ou moral, como queiram): esse indivíduo também é, potencialmente, um super-homem.

Quem pode provar o contrário? 

Tenho em mente o astrofísico teórico e cosmólogo inglês Stephen Hawking (1942-2018), diagnosticado aos 21 anos com uma doença neurológica progressiva, que acabou por paralisá-lo por completo, inclusive o impedindo de falar. No final da vida, a única forma dele se comunicar era através de um dispositivo eletrônico acionado por um único músculo da bochecha.

Apesar dessa fraqueza física, numa demonstração de força Hawking desenvolveu consistente carreira como professor de Matemática, em Cambridge, Inglaterra (na cadeira antes ocupada por Henry Lucas e Isaac Newton); dirigiu o Centro de Cosmologia Teórica daquela instituição; publicou vários livros fundamentais em colaboração com Roger Penrose, por exemplo; e foi o primeiro a apresentar uma teoria da cosmologia explicada pela união da teoria da relatividade geral e da mecânica quântica.

Esse ser humano frágil, incapaz de erguer um braço em sua defesa, foi um fraco, do ponto de vista nietzschiano? Claro que não! Mas alguém pode alegar que Nietzsche não se referiu a esse tipo de fraqueza, quando defendeu que a moral (o terreno onde se praticam os valores do bem e do mal) foi um ardil inventado pelos mais fracos para se proteger dos mais fortes. Nesse conveniente sentido, Hawking então não seria um indivíduo fraco, mas alguém que se provou mentalmente forte, digno de frequentar o panteão dos protegidos.

Muito bem. E se no conjunto dos 8,2 bilhões de seres humanos que compõem hoje a população do planeta houver uma dezena, uma centena, um milhar de potenciais hawkings anônimos, ignorados, condenados à morte precoce por desnutrição ou terríveis doenças? Não deveriam esses indivíduos terem a oportunidade (moral) de exercitarem seus talentos em prol da Humanidade, tanto quanto fez Hawking, um inglês privilegiado, filho de médicos? E quem resgatará, da anunciada morte de Deus, tais indivíduos desafortunados e débeis? Teremos de ignorá-los, desconhecer suas existências, deixar de ampará-los apenas porque são socialmente desfavorecidos e fracos?

Não vejo coerência e, principalmente, utilidade nisso para o avanço de nossa espécie. A moral — e a aplicação dos conceitos de bem e mal —, como instrumento de defesa da maioria (os mais fracos) contra a minoria (os mais fortes), certamente foi apropriada pelas religiões, pois é assim que os sistemas de manipulação do espírito humano agem. Mas isto não significa que o conceito amplo de moral não pertença ao Universo. Ele pertence. Está na categoria das coisas práticas e necessárias.

Necessárias e práticas porque servem ao avanço da experiência humana.

(*) Alguns leitores me questionam sobre a ‘importância e/ou a utilidade’ do que publico. A esses eventuais interessados digo que, de modo geral, procuro refletir e escrever sobre assuntos que afetam a vida de qualquer um. Não se tratam de abstrações teóricas, hermetismos, exibicionismos. Se não consigo me fazer entender, certamente é por incompetência, mas continuarei tentando.

A postagem de hoje, por exemplo, teve grande chance de entrar para o rol dos textos inúteis e, eventualmente, difíceis de serem lidos. Explico: ele diz respeito ao humanismo (corrente filosófica, cultural e ética que coloca o ser humano, sua dignidade, sua razão e seus valores no centro das atenções), conceito que é um avanço civilizacional e, por isso, precisa e deve ser praticado, aprimorado e defendido. Espero ter sido melhor sucedido.

Ignorantes e boçais

Admirável Mundo Novo, o suave Estado Mundial provedor da vida sem sofrimento, da eterna, passiva e manipulada satisfação, escrito em 1931; e 1984, o Estado Policial, o grande irmão, o opressor que tudo vê, controla e pune, de 1949, constituem os mais contundentes alertas que o século passado nos alegrou, através daqueles visionários ingleses.

Longe das distopias vislumbradas por Aldous Huxley e George Orwell, e apesar de imensamente respeitar e entender o momento histórico de suas percepções, o que enxergo hoje, como possibilidade existencial para o futuro da Terra, não se relaciona à ideologia+política (visão de Orwell) ou à existência+tecnologia (visão de Huxley), mas à depuração de todas as nossas insuficiências através da emancipação do ser humano como um espírito cósmico capaz de se expressar em matéria dotada de inteligência.

Esse ser humano espiritualizado em matéria não é o que vive sob o patrocínio de um poder planetário provedor de soma, a droga do aquietamento e do fim da individualidade; e também não o que sobrevive sob o tacão de um Estado impositivo e censor. O emancipado é o que retoma o passo civilizacional perdido, esse que aponta para o entendimento (não religioso) de nossa inserção cósmica e incorpora nosso pertencimento (não predatório) a este planeta. Esse ser amadurecido é e será capaz de conviver com suas fraquezas físicas e mentais, pelejando para superá-las em cooperação com seus semelhantes.

Não é, e não será, um ser separado em castas estabelecidas ainda em seu indefeso estágio embrionário, ou forçado a desempenhar o papel que o totalitarismo lhe impuser. O ser emancipado que imagino incorpora as habilidades mentais e físicas de sua única e particular genética e circunstância de existência; compreende e se adapta às possíveis insuficiências de suas condições natas; insere-se na sociedade como um indivíduo produtivo, gerador de ganhos para sua comunidade.

As relações com seus semelhantes não estarão condicionadas por uma droga que o aquieta e satisfaz, ou pela insegurança, o medo e a subordinação, mas pela troca interpessoal de estímulos voltados ao aprimoramento mútuo da condição existencial de nossa espécie — sim, porque não estaremos submetidos a uma igualdade de classes utilitarista determinada desde o berço, nem socialmente definidos conforme o comprometimento de cada um com os interesses do poder.

Troca interpessoal de estímulos é e será o oxigênio permanente do processo emancipatório, porque os seres humanos continuarão nascendo com carências, insuficiências e ambições a serem perseguidas, dado que não haverá um Estado Mundial a projetar sua genética, nem um Estado Policial supressor daqueles menos dotados.

O afeto não será trocado pela sexualidade desinteressada, estimulada como recreação alienada de uma Sociedade, ou pela relação carnal vigiada e consentida em prol da perpetuação de um Estado. Expostos às circunstâncias, atraídos por seu estrogênio e testosterona, hormônios que a natureza os dotou, mulheres e homens continuarão se apaixonando, vivamente inclinados a gerar descendentes, o que também é uma aposta inconsciente no futuro da espécie.

Esses, em linhas gerais, são os atributos do ser humano emancipado, em contraposição aos indivíduos vislumbrados por Huxley e Orwel. Entendo que, muito mais do que prever ou profetizar, ambos dedicaram o poder de suas mentes para nos alertar para os horrores que se desenhavam no futuro, à luz das tendências apontadas em suas épocas.

Pois o futuro chegou. E está se revelando uma cruel simbiose daquelas duas distopias: impositivo, violento, letal de um lado (orwelliano); prazeroso, suave, insidioso de outro (huxleyano), convergindo, num movimento dialético negativo, para uma sociedade amável e apática na superfície; emasculada e frustrada nos seus estratos inferiores.  

Somos gratos aos alertas que aqueles pensadores nos legaram. Suas projeções nos capacitaram a entender que somente a aquisição da consciência de nossa humanidade e potencialidades materiais possibilitarão a construção do ser humano livre, ainda que nunca perfeito. A busca pelo aprimoramento de cada um é tarefa individual, intransferível. Ao Estado deve caber, tão somente, o papel de provedor das condições e dos meios para que a emancipação dos indivíduos se realize.

É preciso termos ciência e consciência de que, assim como as projeções de Admirável Mundo Novo e de 1984, todas as distopias, por seu caráter desagregador, estão fadadas ao fracasso. Falham e falharão porque têm raízes fincadas nas interações humanas viciadas do passado. Enxergam o futuro com lentes distorcidas. Tratam o ser humano com desprezo e desconfiança. São ignorantes e boçais.

Se ainda queres adorar, adora o Sol!

Não existe o ser humano e a Terra sob nossos pés, mas a Terra no ser humano; não existe a Terra e lá fora o Cosmos, mas o Cosmos que contém a Terra. Esse é o entendimento básico, essencial, inequívoco, fundador de um novo tempo que precisamos/devemos construir. Esse é o ponto de partida, o nosso plano de voo, a rota de fuga desta condição civilizacional miserável em que nos encontramos.

A saída não está em religiões, essas precárias invenções do homem, destinadas a potencializar nossas fraquezas, nos manipular e dividir. A redenção da pequena espécie surgida neste remoto planeta, que, através da observação, da razão e da imaginação científica desenvolveu a capacidade de estudar o Universo e refletir sobre sua origem — na definição do inglês Roger Penrose, físico, matemático e filósofo da ciência —, essa redenção está onde sempre esteve: no avanço de nossa espiritualidade (inserção cósmica) e na compreensão de nossa humanidade (pertencimento ao planeta).

São essas ferramentas (o espírito associado à matéria, e não acima dela, como querem as religiões) que possibilitarão mudar o patamar do nosso desenvolvimento cognitivo, capacitando-nos a enfrentar os desafios terrenos (uso responsável dos recursos naturais e das Inteligências Artificiais, por exemplo) e os enigmas cósmicos. Você talvez saiba: o Universo observável com o conhecimento que hoje dominamos, e apenas o observável, possui 2 trilhões de galáxias; cada galáxia tem milhões ou bilhões de estrelas; e cada estrela contém seu próprio sistema complexo e único.

A Via Láctea é a nossa galáxia, em cuja periferia o Sistema Solar se encontra e a Terra reside. É aqui que estamos nós, com a missão de entender que o assombro diante do Cosmos constitui um dos motores fundamentais na busca pelo conhecimento. O Universo nos convida a formular perguntas, explorar novas possibilidades, expandir os limites de nossa compreensão.

Amanhã, quando acordar, pense nas suas dores físicas e mentais, nos compromissos do dia, nas contas a pagar, nas pessoas queridas, mas pense primeiro no que é fundamental: somos parte indissociável desta Terra e esta Terra integra o Cosmos. Comece seu dia assim, como um (haverá outros?) ente vivo pensante e ativo do Universo. O único (haverá outros?) capaz de fazer escolhas.

Admito que não é fácil adotar essa rotina, estendendo-a ao longo de nossa existência. As pequenas-grandes demandas cotidianas, determinadas pela imposição da sobrevivência, agem como poderoso ímã, nos atraindo para o rés do chão. E aqui restamos confinados, cegos a qualquer luz, significado ou saída, além de nos comprazermos em trilhar a monótona e exasperante via do prosseguimento para lugar nenhum.

Sei que é difícil, mas a busca pelo conhecimento é a única força capaz de impulsionar nossa espécie a, finalmente, romper a lei da gravidade mundana, vulgar, esta atração mental perniciosa, que nos reduz e transforma a busca pela felicidade em obtenção de riqueza e fama, apequenando o sentido de nossa existência; esta atração mediocrizante que, em seu percurso, gera frustrações, sofrimentos pessoais, injustiças e dores coletivas.

Quem é capaz de internalizar a compreensão de pertencimento terreno e inserção cósmica não sai por aí flutuando, em estado de graça, e muito menos tomado pelo menosprezo a seus semelhantes. A consciência dessas duas âncoras existenciais (pertencimento e inserção) garante, ao contrário, que nossos pés permaneçam muito bem fincados nesta Terra em que pisamos e da qual somos parte.

Se, apesar de tudo, você se sentir incapaz de viver sem uma crença, sem uma muleta emocional, sem adorar Algo, dirija suas preces ao Sol, o ente físico-químico que governa a existência terrena e, com poder inquestionável, se impõe como o verdadeiro elo entre nós, poeira de estrelas — na definição de Carl Sagan —, e o infinito Cosmos.
   

Aprendeu, deveria ter aprendido, ou aprenderá

Não se trata de nos rendermos ao desastre civilizacional construído por sucessivas gerações, milênios afora. Não se trata de aceitarmos a ideia de inevitabilidade desse rumo, nem de — em específico — abdicar das poderosas ferramentas comunicacionais paulatinamente desenvolvidas, e que nas primeiras décadas deste XXI estão em acelerada evolução. O desastre há de ser combatido sempre, mas o mal não está nas ferramentas e sim no uso que delas fazemos, como já se disse.

Se hoje os meios e modos de comunicação interpessoal se colocam a serviço da manjada estrutura de produção de riqueza e privilégios, gerando no processo a desagregação social pelo desestímulo ao florescimento da sempre bem-vinda individualidade inconformada — coisa que até certo momento do passado não ocorria, pois todo indivíduo inventivo, qualquer que fosse sua origem social, tinha a chance de angariar respeito (ou temor) no ceio da pólis —, essa neodesagregação por interdição ao inconformismo não pode, nem deve ser passivamente assimilada.

O clima cultural, intelectual e moral, o zeitgeist proposto por Friedrich Hegel para definir comportamentos, tendências, artes e políticas numa determinada época, esse espírito do tempo quem estabelece são as dinâmicas sociais, ou seja, o conjunto dos indivíduos através de suas lideranças. A despeito da força dos lords da manipulação planetária e de seus sistemas de controle, a resistência continua de pé — desde que não rejeite as novas ferramentas de trabalho e as novas armas de combate. 

Se os modos de interlocução pessoal e direta do mundo pré advento das tecnologias de comunicação de massa produziram seres humanos melhores, mais confiantes e tolerantes, como a história nos relata — acordos entre indivíduos eram firmados no fio de barba, por exemplo, sob pena de desmoralização pública do descumpridor —, ainda assim não nos cabe ignorar ou condenar as novas tecnologias.

Não, o avanço do conhecimento e sua tradução utilitária (tecnológica) não vai parar porque queremos e/ou o rejeitamos. Tem se falado ultimamente sobre a necessidade de uma moratória na corrida das chamadas Inteligências Artificiais, para que a sociedade avalie seus impactos e se prepare devidamente.

Esqueça isso, não haverá moratória alguma; a curiosidade humana é indomável, impossível de ser modulada, moderada, contida. A ideia de adiamento do processo é mais um lance de hipocrisia patrocinada. De um lado, por aqueles que receiam o futuro, e, de outro, por quem vem perdendo a corrida da inovação e precisa de um tempo para se colocar no mesmo patamar dos que hoje estão à frente. Tudo se resume a medo e falsidade, nada mais.

Outro ponto de questionamento e motivo de alarme são os impactos ambientais gerados pela infra-estrutura necessária à operação das IAs (o absurdo consumo de energia e de água pelos Data Centers que coletam e processam dados em nuvem). Esquecem, ou desconhecem os críticos dessa novíssima tecnologia (esses mesmos que as utilizam em seu dia a dia de trabalho) que as pesquisas destinadas a substituir os recursos naturais vêm avançando, e apontam para ganhos expressivos de desempenho operacional pelos DCs.

Não sou um apaixonado por tecnologias, prefiro e procuro me limitar ao básico para viver. Mas não posso ignorar, nem rejeitar, as vantagens e os benefícios que elas em geral nos proporcionam, especialmente no campo da Saúde. E na esfera da Comunicação também, porque é pela Comunicação que nos redimiremos como espécie.

Dou preferência ao livro físico, por exemplo, mas sempre que tenho um em mãos penso em quantos insumos (energia, água, celulose produzida a partir de árvores derrubadas e tinta preparada com derivados de petróleo), entre outros, não foram necessários para que eu tivesse acesso a esse produto, transportado até mim por navios, aviões, trens, caminhões e automóveis. Um livro físico, o velho e amado livro físico, embora seja valioso instrumento de disseminação de conhecimentos e indutor de novas ideias, não é um produto inocente. Sem esquecermos o desperdício (daqueles insumos) decorrente da indigência mental contida em tantos deles.

Raciocínio semelhante deve ser aplicado às nascentes tecnologias comunicacionais. As redes sociais são um inferno — fomentam ódio, discórdia, indigência cognitiva, enfraquecimento espiritual e crimes. Mas o mundo digital também tem possibilitado a distribuição rápida e ampla de informações científicas, aproximado pessoas, universalizado o debate sobre assuntos cruciais para o nosso tempo, gerado valor intelectual, moral e ético.

Nada é totalmente bom, nem inteiramente ruim. O que não podemos, não devemos, é rejeitar, por medo do desconhecido, os desafios que as ciências e as tecnologias nos proporcionam. Também não podemos, não devemos, ser ingênuos e abrir mão do controle sobre essas inovações. Nossa espécie já aprendeu, deveria ter aprendido, ou aprenderá na marra que os sistemas digitais, mesmo (e principalmente) aqueles que no futuro rodarão em estado quântico, são máquinas a serviço da humanidade. Não o contrário.