“O pulso ainda pulsa”

Sei que para bom entendedor, meia palavra basta. Mas também sei que mesmo os bons entendedores preferem se fazer de desentendidos, a enfrentar a realidade. Refiro-me ao que afirmei no texto anterior aqui publicado — O básico, o mistério, o ridículo e o ceticismo —, em que no tópico “o ridículo” critico o caminho da ideologia progressista, ou de esquerda, para alcançarmos a emancipação do ser humano.

Defendo ali que “os embates intermináveis por poder, de um lado centrado no acúmulo de riquezas, privatização e privilégios; de outro na mobilização de vontades em prol da coletividade de indivíduos” são igualmente ineficazes. Nesta altura do jogo da História, quando tanto já experimentamos desses dois remédios (capitalismo e/ou socialismo), quem mais tem o direito intelectual de se iludir com tais alternativas ideológicas?

Quanto à primeira, centrada em individualismo, acumulação de riquezas, privilégios de classes, exploração do trabalho de terceiros, preconceitos, xenofobias, etc., não resta mais dúvida de que está e sempre esteve fadada ao fracasso, embora continue livre — porque detém o poder da força e do dinheiro — para impor sofrimentos de toda a ordem à maioria da sociedade e ao planeta inteiro. 

Mas a segunda não fica atrás. Há ainda muitos indivíduos apegados à ilusão de que a via distributivista seria o caminho adequado, quando ele não é. E não é porque a generosidade dessa proposta esteja formalmente incorreta. Não é porque se trata de tão somente de uma visão, um ideal, uma expectativa, e não um verdadeiro caminho.

Todas as tentativas já realizadas (União Soviética e China, em especial) demonstraram, para quem estiver disposto a enxergar, que a prática socialista na verdade se frustrou. E não avançou porque esses países tenham enfrentado resistências geopolíticas e geoeconômicas, como de fato ocorreu. Não avançou porque o socialismo não é um meio, mas um fim.

Não se realiza uma mudança política e cultural pelo fim. O fim tem de estar lá, como uma visão, uma luz a ser alcançada, mas também como um farol a nos alertar para os perigos do caminho. E o maior perigo que ignoramos é a imaturidade do próprio ser humano, o agente e paciente do ideal socialista.

Quando me refiro a imaturidade, estou falando de todas as travas psicológicas e mentais que têm impedido nossa espécie de se libertar de seu medo primordial, aquele que o espelho diariamente nos mostra — a nossa solitária e incontornável individualidade e, consequentemente, solidão cósmica.

A convivência social foi o motor que nos possibilitou chegar até aqui, construindo este modelo de civilização que temos. Mas o meio social não é suficiente, nem adequado, para a resolução da agonia existencial de nossa espécie. Ah, inventamos religiões e a elas delegamos a tarefa de aquietar nossos desassossegos... Mas como está provado, as religiões também não possuem esse poder; a maioria nem a isso se dedica, verdadeiramente.

Estamos diante de um impasse? Sim e não.

Sim, porque intelectualmente (ou seria por medo?) resistimos em ver a realidade claramente posta diante de nossos olhos, depois de tantos milênios reiterando erros. Não, porque ainda não conseguimos extinguir a vida humana; estamos próximos disso, mas ainda não chegamos ao fim. E se "o pulso ainda pulsa" — como cantam os Titãs —, por que desistir?    

O verdadeiro caminho é a conquista da maturidade, caros amigos.

A conquista da maturidade!