Nada é fácil

Não nos cabe escolher a época em que existimos, mas, se me fosse possível decidir, teria sido exatamente neste presente histórico onde eu preferiria estar, e ser. Estar como testemunha consciente deste tempo conturbado, extremado, imprevisível, mas, sem dúvida, também magnífico, pleno de possibilidades palpáveis e renovadoras. E ser a serviço deste mesmo tempo, na condição de um existente dedicado a conhecer e superar sua própria imaturidade, sem ignorar as demandas objetivas.

Como escreveu o amigo e mestre Cid Marcus — A vida como viagem interior“todas as filosofias do ocidente, desde Platão, colocaram o homem acima do mundo, contra o mundo, diante do mundo, de costas para ele, mas não dentro dele. A nossa colocação dentro do mundo (somos parte) só acontecerá se ficarmos no aqui e no agora”.

Sim, este mundo que construímos é injusto, egoísta, dominado pela competição e o ódio, mas o planeta em que estamos, e somos, é uma bela joia cultivada pelo Cosmos. Defendê-lo não se traduz em promover revoluções, ao contrário. E de novo recorro a Cid: em vez de nos perdermos no mundo exterior, “movermo-nos em direção do nosso mundo interior, uma viagem a que alguns dão o nome de meditação, de introspecção; o oposto do movimento centrífugo, um movimento centrípeto, como uma tentativa de aproximação de um eixo de rotação”.

E por que a prática revolucionária está fadada ao fracasso? Porque nada do que façamos em favor ou contra o mundo exterior estará sob o nosso controle; tudo resulta no inesperado, e às vezes no oposto do que pretendíamos. Não se trata de cruzar os braços frente as iniquidades; nem de abdicar o direito e o dever de fazer diferente. Trata-se, em primeiríssimo lugar, de dar prova do sincero e inteiro propósito daquilo que fizermos. Ou seja, de nos revolucionarmos.

Volto ao Cid: “O ser humano está sempre em luta contra si mesmo e contra o mundo. Criou-se a máxima de que viver é competir e não colaborar. Estamos em luta contra a raiva que sentimos, contra a bebida, contra a comida, contra as forças eróticas que nos subjugam, contra o tempo, mas geralmente acabamos nos complicando, nos sentindo, na maioria das vezes, derrotados. Essas coisas, porém, precisamos lembrar, não acontecem só conosco. Desde que o homem está no mundo é assim. Uma pergunta então poderá se tornar cabível: por que esse tipo de luta nos põe sempre contra nós? Ora tomamos o partido de um lado, ora de outro. Esta luta é, no fundo, absurda”.

Fazer com sincero e inteiro propósito também é isto: viver e ser no presente, na certeza tranquila de que o futuro sempre virá, e que será tanto mais promissor quanto melhor nos dedicarmos às tarefas de agora.

Corresponder a cada momento àquilo que o momento exige não é tarefa banal. Todas as distrações nos convocam; todas carregam alto poder de atração. A começar pela mitificação do passado, quando dele retiramos as vicissitudes. A terminar pela idealização do futuro, quando nele fingimos não ver os inevitáveis imprevistos.

Não espero obter dos outros nada disso que aqui defendo. Não alimento ilusões, até porque desconheço o quanto de mim está de fato convencido, compromissado, determinado a agir conforme meus próprios argumentos. A tradição se assenta, pesada, sobre meus (nossos) ombros; sobrecarrega minha (nossa) vontade; freia o impulso das boas intenções.

Nada é fácil.