Tributo a Sagan

John Lennon, aquele velho romântico do rock and roll planetário dos 1960-70 (hoje teria 85 anos), cantou até a exaustão que ‘de amor é o que cada um de nós precisa’. Hoje sabemos que as coisas da vida não são bem assim. Não é de ‘amor’ que cada uma das pessoas deste mundo carece, mas de pensar.

Pensar é mais difícil do que amar. O amor decorre de processos neurológicos associados à empatia entre indivíduos; de compromissos sociais; de interações químicas — nada disso está sob nosso controle; são manifestações espontâneas, individuais, irracionais.

Pensar é diferente. Exige abstinência das distrações que subvertem nosso momento (tais quais as guloseimas, que devemos evitar, pois sequestram nossa fome); pede desprendimento para considerar posições contrárias (pois a força de um argumento independe de ideologias, é uma questão de lógica); e também requer tempo e ambiente propício (porque o pensamento é incompatível, por exemplo, com uma chaleira chiando na cozinha).

Essas são algumas das condições para se obter reflexões produtivas. A crescente ausência desses fatores subjetivos e/ou objetivos talvez explique o porquê do pensamento filosófico deste nosso tempo não superar as melhores ideias formuladas pelos filósofos do passado.

O fato é que, desde o início do século XX, quando já se definiam as linhas mestras da cultura de massas, instalada no mundo após a II Guerra Mundial — tendência antecipada por Francis Bacon (1561-1626) e René Descartes (1596-1650) —, o que temos tido são sucessivos intelectuais dedicados a gravitar em torno dos antigos teóricos.

Sim, alguns têm sido ousados e esclarecedores — cito Sigmund Freud (1856-1939), Carl Gustav Jung (1875-1961), Jean-Paul Sartre (1905-1980), Zygmunt Bauman (1925-2017), apenas para ficar nos meus preferidos —, mas, talvez por ignorância minha, não enxergo em nenhum desses, e em outros, desde a virada do século XIX para o XX, a condição de propositores de passos à frente na compreensão da existência humana.

Onde vi alguma luz foi na iniciativa de astrofísicos, como Carl Sagan (1934-1996), que insistentemente nos apontou o caminho do Cosmos, e no dia 14 de fevereiro de 1990 conseguiu que a Voyager I direcionasse suas câmeras para o espaço atrás, já percorrido, capturando uma sequência de 60 imagens inéditas da Terra, pouco antes de mergulhar para além do Sistema Solar.

Esse evento transcendente (naquele dia a Voyager I, lançada doze anos antes, se encontrava a 6 bilhões de quilômetros do nosso planeta) deveria ter despertado “mais e melhores” reflexões filosóficas, pois nos proporcionou a inédita e inestimável prova da insignificante presença cósmica do ser humano, em contraste com nossa imensurável imodéstia.

Não foi o que aconteceu. Sagan lançou muitos livros, produziu incontáveis artigos, proferiu inúmeras conferências, mas seu enlightenment cosmológico ficou restrito ao campo das curiosidades, nunca tendo superado a arrogância dos ‘pensadores autorizados’ a interpretar nossa existência.

Esquecem-se esses ‘intérpretes’ que tem sido a prática da ciência, desde as eras primitivas (quando ainda nem de ciência se falava), a responsável por puxar os fios da cognição humana. Pensar é preciso. Mas para pensar “mais e melhor” é necessário ter os pés plantados na Terra. Ainda que a Terra não passe de um “pálido ponto azul” perdido no espaço.