Ouvi hoje meu neto mais novo, o Otto, prestes a completar 7 anos, exercitando sua recente conquista: a capacidade de ler palavras e compreender mensagens contidas em seus livrinhos de histórias.
Feliz com o significado desse momento, o que me ocorreu de imediato foi a importância transcende do processo de invenção da linguagem falada, e depois escrita, para o desenvolvimento cognitivo da nossa espécie. Ainda que sobre sua origem só nos restem suposições, tal mistério se assemelha à pergunta que se faz a respeito da matemática: ela foi descoberta ou inventada? Com uma agravante: superando a linguagem dos números, a linguagem dos signos revela inegáveis fragilidades e insuficiências.
Prova disso é que — muito mais do que a matemática, cuja expansão tem proporcionado o incessante desenvolvimento das ciências e a interminável revolução tecnológica — a linguagem dos signos e dos significados tem fracassado naquilo a que exatamente se propõe: promover o entendimento entre os seres humanos. É sobre isso o Capítulo III do meu primeiro livro — “Do que se fazem as salsichas” —, parcialmente reproduzido abaixo:
A linguagem codificada é um confortável obstáculo ao avanço da nossa espécie. Com a invenção e o desenvolvimento dos idiomas falados e, mais ainda, com suas representações escritas e depois amplamente reproduzíveis, fomos capazes de exprimir conceitos, transmitir experiências, disseminar ensinamentos, definir contratos, construir uma civilização.
Porém, embevecidos com os sons que passamos a produzir, as ideias e os conceitos expressados, deixamos de perceber que ela, a linguagem, é incapaz de transmitir a complexidade da compreensão que os nossos sentidos e intuição, associados, alcançam. Como tantas (todas?) as invenções humanas, a linguagem é limitada, enganosa, intangível, imensurável em seu significado.
Alguém já questionou sua precariedade para cumprir plenamente seu papel como código a serviço do entendimento entre as pessoas, mesmo aquelas detentoras de repertórios equivalentes e pertencentes aos mesmos estratos culturais e sociais, ainda que contemporâneas das mesmas experiências.
Todos os atos e produtos humanos são passíveis de avaliação e quase sempre se revelam falhos, ou fraudulentos. Já a linguagem, ela própria uma das primeiras e fundamentais invenções (ou descobertas) humanas, condição indispensável para a evolução da nossa espécie (embora ainda haja dúvida se de fato isto que temos é evolução), esta resta majestosa, depositada num Olimpo inquestionável. E, no entanto, porém, não obstante, a despeito da crença cega em seus poderes, trata-se de uma ferramenta insuficiente e, por isso, se não fracassada, ao menos passível de muitos aprimoramentos.
Quando nos dedicamos a quaisquer tentativas de produzir esclarecimento, o que brota dali (e daqui, reconheço!) são borrões, rascunhos de percepções, interpretações equivocadas. Por isso, construir uma comunicação por meio exclusivo das formas de linguagem de que dispomos pode até ser nobre tentativa, mas, convenhamos, é uma tarefa frustrante. Vejam estes tempos que nos cercam. Quanto entendimento pode ser obtido, neste exato instante, por meio do uso da linguagem falada e escrita, em qualquer mídia (media) que se queira utilizar?
Não culpemos nossos antepassados mais remotos, aqueles que do grito, da associação de ideias primárias e da mimetização dos ruídos produzidos por seus próprios corpos e pelo ambiente que os cercava desenvolveram magníficos códigos, significantes de tantos sentimentos e instigadores de tantas ações. Foram heroicos aqueles seres. Graças ao modo e ao método com que responderam ao desespero de suas existências, alguma oportunidade civilizatória se abriu para nossa espécie.
Mas, o fato é que, veja, estamos encarcerados pela linguagem, presos ao que os textos e as falas podem, precariamente, nos dizer. Nem mesmo o que nos chega por intermédio de imagens e de sons organizados, como a pintura e a música (também elas linguagens); nem mesmo o que nossos músculos espontaneamente expressam (o que se apresenta como uma outra forma de comunicação) somos capazes de valorizar, pois a linguagem lida/ouvida tornou-se a nossa prisão, a chancela do nosso (des)entendimento.
Com a linguagem constituímos um modo de ser e sobreviver, e a isso denominamos civilização. Mas não fomos capazes, ainda, de aceitar a fragilidade de sua simbologia para enfrentar a grande tarefa de nos situarmos no espaço-tempo. Daqui de dentro deste código, no mesmo instante em que o utilizo e enquanto agradeço a tantos que o criaram, desenvolveram e aperfeiçoaram, não posso deixar de nele reconhecer os contornos de um cárcere suave. E, no entanto, um cárcere.
A escrita é a grande invenção. Foi a escrita, na verdade, aquilo que transformou um certo ser irracional em humano, esta espécie que domina o planeta para o bem e para o mal. Com a escrita, apenas, este blog se propõe a analisar e opinar sobre alguns dos principais temas da atualidade, no Brasil e no mundo, como qualquer cidadão faz ou deveria fazer. Meu nome é Oswaldo de Mello. Sou jornalista.