Nós as comemos

O que somos nós, seres humanos, sob o ponto de vista estritamente biológico? Até prova em contrário, descendemos do Homo neanderthalensis e do Homo sapiens, ambos originários da grande família Hominidae, surgida há 7 milhões de anos na África. Éramos, então, animais onívoros, ou seja, nos alimentávamos de vegetais e carnes.

O vegetarianismo tem suas referências mais antigas no Hinduísmo (2.200 a.C.) e no Budismo (1500 a.C.), quando era recomendado, mas não imposto aos seguidores dessas religiões. Na antiga Grécia, por influência de filósofos, uma parcela da sociedade passou a se alimentar preferencialmente de vegetais, sob a justificativa de promover a “benevolência entre as espécies”. À frente desse entendimento estavam Pitágoras (c.570 a 495 a.C), Platão (428 a.C. a 347 a.C.), Epicuro (341 a.C. a 271 a.C.) e Plutarco (46 d.C. a 120 d.C.) — Pitágoras, inclusive, ficou conhecido como “pai do vegetarianismo ético”. 

A prática continuou durante o Império Romano (27 a.C. a 476 d.C.), especialmente entre filósofos e religiosos, mas se perdeu durante a Idade Média (476 d.C. a 1453 d.C.). A partir do Renascimento (1400 d.C. a 1700 d.C.), com a valorização da cultura grega clássica na Europa, o vegetarianismo foi retomado e defendido também por grandes pensadores, como o francês Voltaire (1694-1778) e o norte-americano Henry David Thoreau (1817-1862). “Em 1847 — conforme a revista National Geographic — foi fundada a primeira sociedade vegetariana no mundo, na Inglaterra, e em 1889 se criou a International Vegetarian Union”.

Desde então, o vegetarianismo (prática mais moderada) e o veganismo (sua versão radical, surgida oficialmente em 1944, que exclui a ingestão ou utilização de todos os alimentos ou objetos de origem animal) não pararam de se expandir. Nos dias de hoje, imensa parcela da sociedade se declara escandalizada, até mesmo enojada, com o consumo de carnes, tendo excluído a proteína animal de sua dieta.

Sabe-se, no entanto, que ‘adotar um estilo de vida ativo é essencial para se manter saudável, e que isto requer ganho de força e massa muscular. Para isso, é necessário estimular a síntese proteica no músculo. Os dois principais estímulos são o exercício de força e a proteína alimentar. Mas o primeiro também aumenta o catabolismo proteico (a degradação de proteínas) no músculo. Por isso, um aporte nutricional que garanta um saldo proteico positivo (em que a síntese seja maior do que a degradação) é essencial. Assim, em teoria, a proteína animal é considerada melhor para ganho de massa e força muscular’, explicam especialistas ouvidos pela BBC.

Nos primórdios de nossa ancestralidade, o ‘ganho de força e massa muscular’ foram essenciais na luta pela sobrevivência. Se essas condições não estivessem presentes no metabolismo daqueles indivíduos, através do consumo da carne de animais, provavelmente nossa espécie não teria seguido adiante e construído uma História.

Portanto, conforme o Hinduísmo, o Budismo, os antigos gregos nos ensinaram, e as pessoas sensatas costumam recomendar, a sabedoria não está nos extremos. Enquanto a ciência não for capaz de produzir proteína sintética equivalente a animal, o consumo de carnes continuará necessário, de preferência com moderação. E não nos esqueçamos de que as plantas, embora não sintam dor, também são seres vivos.

Elas emitem sons em situações de estresse; comunicam-se por uma rede subterrânea de fungos; partilham nutrientes com suas vizinhas; produzem substâncias químicas para atrair predadores dos insetos que as atacam — ou seja, pedem socorro. Ainda que sua seiva não seja vermelha como o sangue animal, elas são tão dignas de “benevolência” como os bichos que abatemos. E mesmo assim as comemos.