O que se ilumina

Karl Marx, na Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel (1844), afirma: “A religião é o soluço da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, o espírito de uma situação carente de espírito. É o ópio do povo. A verdadeira felicidade do povo implica que a religião seja suprimida, enquanto felicidade ilusória”.

Camille Paglia, no livro Imagens cintilantes (2013), escreve: “Respeito todas as religiões e as levo a sério como vastos sistemas de símbolos que contêm uma verdade profunda sobre a existência humana. Embora em seu nome se tenham cometido males, a religião tem sido uma força enorme de civilização na história do mundo”.

Não tenho o objetivo, aqui, de buscar validação para minhas reflexões a partir das ideias de pensadores consagrados. Quero, com as citações acima, apenas destacar interpretações amplamente difundidas, mas que, a meu ver, são igualmente insuficientes ou equivocadas.

Paglia, tocada pelo espírito deste tempo, apresenta um entendimento condescendente do fenômeno religioso; Marx, submetido ao espírito de seu tempo, primeira metade do século XIX, expressou uma oposição que hoje sabemos desfocada do mesmo fato. O ‘pecado’ em que se equivalem (por insuficiência das análises, repito) é a redução da espiritualidade a suas manifestações mundanas, apesar de milenares — as religiões.

Ocorre que em 12 de abril de 1961, quando a nave russa Vostok 1 lançou-se ao espaço, levando a bordo Yuri Gagarin, um ser humano, o que se rompeu não foi apenas a imensa força gravitacional deste planeta. Ao longo dos 64 anos que nos separam daquele feito científico-tecnológico-transcendente temos aprendido que a Terra não nos pertence, mas dela fazemos parte e juntos integramos o Cosmos — esse é o outro e mais importante rompimento ocorrido naquele dia, e que relutamos em aceitar. 

Segundo essa compreensão, a ideia de religião se esvazia, não sem antes produzir as agitações e violências naturais das agonias que antecedem todo fim inconformado. Paulatinamente, o ser humano deixa de se curvar às misérias terrenas em busca de redenção.

Não estamos mais subjugados aos desígnios d’Ele, seja Ele quem se queira, em cada manifestação monoteísta. Assim, não precisamos cultivar esperanças — “felicidade ilusória”, como apontou Marx; ou condescender com seus “males”, como admitiu Paglia. O futuro pertence a cada um nesta casca de planeta. Ele é intransferível, e o presente é o nosso instrumento para construí-lo.

Essa visão nos assusta, mas também estimula. Se de um lado retira nossas muletas e justificativas milenares, de outro nos liberta desses grilhões; desvela o modo como as coisas da existência são (e sempre foram); e nos coloca frente as consequências de nossas imediatas escolhas.

O fato que vai se iluminando é que não há mais de se falar de religiões “enquanto felicidade ilusória”, ou “força enorme de civilização”. O mal do mundo está exatamente aí: tomar religião como sinônimo de espiritualidade.