Os patéticos embates políticos que ocorrem no Brasil [Sem Anistia!, é bom que se grite], tanto quanto os conflitos geopolíticos que assombram o mundo, são apenas mais do mesmo — distração daquilo que é a essência do nosso irresolvido dilema existencial. Isto me parece evidente, mas vou tentar me explicar.
O que justifica o caos em que nos encontramos? Ele não resulta exclusivamente de que há 12 mil anos o nomadismo (subsistência obtida pelo extrativismo) passou a ser substituído pelo sedentarismo (desenvolvimento da agricultura e pecuária), com o estabelecimento de relações humanas mais complexas, calcadas em hierarquias e desigualdades sociais.
Antes mesmo dessa radical mudança de paradigma — que 10 mil anos adiante fundamentaria a poderosa interpretação da História proposta por Karl Marx e Friedrich Engels —, os indivíduos originários já carregavam, em si, este que é o germe fundador da existência do Homo sapiens: viver sem porquê.
É sabido que a ‘via do prosseguimento’ exige de nós completa dedicação à luta pelo viver, em tudo que isto implica: saciar a sede, aplacar a fome, combater as dores físicas, usufruir da sexualidade, minorar os sofrimentos mentais, procriar, controlar os desconfortos impostos pelo ambiente etc. Essas são necessidades imediatas e incontornáveis.
Na interseção das demandas do viver com a fragilidade exposta pelo porquê — ou seja, na 'terra sem lei' povoada pelo sem —, o que se impõe é a busca desesperada pelo apaziguamento de nossas inseguranças existenciais; sem atentarmos para o fato de que todas as saídas (religiosas) tentadas têm basicamente fracassado, pois não aquietam, apenas postergam, nossas incertezas.
Isto é, embora sejamos dominados pela ‘via do prosseguimento’ — esta que se desdobra nos sistemas econômicos, nas disputas políticas nacionais e nos embates geopolíticos que nos cercam, e que absorvem nossas energias, validando a referida distração —, resta latente na psique da espécie o mistério desde o começo posto: viver sem porquê.
A questão seria trágica, caso não houvesse um caminho factível. E ele existe, sempre existiu! Trata-se de rejeitar o dilema que nos foi colocado, acatando a premissa de que, afinal, viver tem porquê.
Aceitar, porém, não é o bastante. É preciso entender e pôr em prática.
Viver faz sentido porque, embora não passemos de poeira cósmica, não há como negar nossa condição de existentes. Mesmo que possamos duvidar do valor (o porquê) de existirmos, e a partir desse questionamento mergulharmos em processos autodestrutivos, ou entregarmos nosso destino ao desconhecido — como temos feito, nos distraindo —, ainda assim continuaremos (para nós mesmos!) a existir, a ser.
E ser não sob o domínio implacável e exclusivo da luta que a ‘via do prosseguimento’ e seus desdobramentos nos impõem; e também não submetidos a recompensas espirituais ilusórias. Mas ser compreendendo, relativizando, superando as razões civilizatórias e amesquinhantes que nos trouxeram até este momento de caos nacionais e planetários.