Pensar é só pensar. Digo isso, quase citando na íntegra Millôr Fernandes (1923-2012), depois de reler o último texto que aqui postei — “O caminho da intuição” —, na linha das ideias e objetivos de tantos dos meus textos e livros já publicados. E confesso que encontrei pela frente, alto e nítido, o muro maciço desta evidência existencial concreta: não temos saída.
Estamos irremediavelmente aprisionados às demandas da vida material, cotidiana, a via do prosseguimento, como um dia nomeei — aquela que se impõe, de sol a sol, sem nos deixar tempo nem espaço para empreendermos qualquer tentativa de fuga deste labirinto em que nos encontramos.
Nossos pensamentos acerca da conquista do amadurecimento mental de nossa espécie não passam de hipóteses, reflexões de certa forma presunçosas, pois se trata tão somente de pensar sem consequências, sem as ações requeridas.
Parece ser verdade que a tomada de consciência de nosso status cósmico — coisa que tenho defendido em todo lugar — tem, terá ou teria o poder de realizar a necessária inflexão mental que nossa espécie necessita. A questão é como essa maravilha se dá, dará, ou daria.
Não será — e aí se encontra o ‘muro’ — através de palavras faladas ou escritas. A poder de convencimento da linguagem é limitado. Não há argumento capaz de superar a imposição das necessidades básicas da existência — a tal via do prosseguimento.
No resumo da ópera, o que prevalece é o grito da fome, da sede, dos sofrimentos físicos e psicológicos, das inseguranças pessoais e sociais, do abandono, e não menos da sexualidade mal resolvida.
Impossível competir com tais demônios concretos, onipresentes, carnais.
O que é isso, uma renúncia, uma confissão de fracasso, o fim da História? Não, ainda, pois tanto quanto as exigências do corpo e da mente, está na essência do ser humano conjecturar sobre outras e melhores possibilidades existenciais.
Irônico, vivermos imersos nessa quase maldição de pensar em saídas, sem vislumbrar luz; conscientes de que tal circunstância, em si mesma, é uma daquelas necessidades básicas que nos estão determinadas...
Desconhecemos o tempo que nos resta para encontrar a solução desse mistério. E, como indivíduos imaturos, que somos, seguimos esta jornada inconsequente, formulando ideias libertadoras sem realmente nos determinarmos a construir a tal conciliação cósmica; consumidos pelas imposições da via do prosseguimento.
Tenho defendido aqui, desde o começo, e nos meus livros também, que essa conciliação subordina-se à conquista de nossa maturidade. Continuo pensando assim, mas o que agora percebo, de forma cristalina (e para mim sempre dramática), é que não seremos capazes de cumprir essa tarefa; ao menos na ordem de eventos que eu imaginava, ou desejava; não ao menos até onde minha vista alcança no futuro.
Queremos que o outro venha nos resgatar.
O outro. Sempre o outro.