Você não está entendendo, caro amigo...
A questão que se coloca aqui não é como e quando nosso modelo de civilização entrará em colapso. Ele já está colapsado; já não temos alternativas, ou melhor, a única que nos resta(va) — perseguir desde a infância o amadurecimento espiritual —, esta alternativa nós temos sido (fomos) incapazes de adotar, porque somos um tipo covarde de indivíduos, e fazemos da opção pela ignorância o nosso refúgio.
Pouco importa se será hoje, amanhã, ou como o encerramento desta nossa experiência se dará. E há muitas possibilidades de que esse desfecho, que nunca deixou de estar em curso, venha a ser breve e doloroso.
Paciência.
Paciência, não, caralho! Embora não pareça, somos humanos e não ratos escondidos em bueiros, aproveitando restos do banquete da existência, fartados de superficialidades mundanas, conformados com migalhas de entendimento.
Embora tenhamos desde sempre nos empenhado a ignorar isto, a verdade é que dentre todos os seres conhecidos somos (talvez) os únicos detentores de quália, as qualidades subjetivas das experiências mentais conscientes, ou seja, da experiência do sentir.
Não somos algo destinado a ser jogado fora, descartado, menosprezado, ignorado no conjunto da dinâmica do Universo. O fato de termos escolhido nos apequenar, ao longo de séculos e milênios, não nos retira o direito nem elimina o dever de (ao menos) refletirmos sobre as alternativas que nos foram (são) dadas.
Sim, é certo que já atravessamos o Rubicão, já atingimos o ponto de não retorno, pois nenhuma civilização alcança impunemente a manipulação do núcleo atômico, produz armas a partir desse conhecimento limite, e põe em prática, conscientemente, o poder de se auto aniquilar.
Isto não é uma coisa banal. Não é tema para conversas inconsequentes embaladas por substâncias destinadas a alterar nosso estado de consciência, sejam elas proibidas ou consentidas. Não é diletantismo praticado em happy hours após uma jornada de trabalho pela sobrevivência.
Isto é a nossa essencialidade existencial. É o porquê de estarmos aqui e sermos o que (Poderíamos? Ainda podemos?) ser.
Após tudo o que tenho visto, lido, vivido e refletido, sinceramente não acredito que nos restem condições objetivas de revertermos o processo terminal em curso. Fomos (somos) mais uma experiência cósmica que não deu certo.
Ou talvez, para o nosso íntimo e trágico consolo, tenhamos sido (sejamos) só um novo degrau na longa escada evolutiva. Um fantástico degrau, é verdade, pois quase chegamos lá. Quase chegamos.
A escrita é a grande invenção. Foi a escrita, na verdade, aquilo que transformou um certo ser irracional em humano, esta espécie que domina o planeta para o bem e para o mal. Com a escrita, apenas, este blog se propõe a analisar e opinar sobre alguns dos principais temas da atualidade, no Brasil e no mundo, como qualquer cidadão faz ou deveria fazer. Meu nome é Oswaldo de Mello. Sou jornalista.
Quase chegamos!
Menos o cobrador e o motorneiro
Não nos deixemos enganar, nós não somos inteligentes, somos apenas astutos. Ou melhor, não somos inteligentes porque somos ardilosos, matreiros, manhosos…, ou seja, apregoamos inteligência, mas somos só desonestos e, portanto, essencialmente ignorantes.
Vamos trocar isto em miúdos, a começar pela astúcia.
Ser astuto é tão somente dominar habilidades físicas e mentais destinadas sobrepujar o oponente, e assim obter vantagens imediatas — pequenas, médias ou grandes vantagens, mas basicamente vitórias de curto prazo, lucros passageiros, proveitos efêmeros. Isso não é inteligência, repito, é apenas canalhice, patifaria, malandragem e, em última instância, fraqueza, covardia, burrice.
Ser inteligente é o oposto disso. É dispor-se a questionar os fenômenos que nos envolvem e constituem, buscar compreender o mundo, e nos dedicarmos desde criancinhas ao desenvolvimento permanente de nossas capacidades cognitivas e empáticas, com vistas a alcançarmos, se alguma chance nos resta (restasse), a melhoria existencial da espécie humana.
Não nos iludamos, porém. A prática da astúcia é a que tem prevalecido através dos séculos e milênios, e sobre a qual se assentam as relações humanas deste nosso modelo civilizatório. Nos tempos mais recentes, em particular, ser astuto se transformou — vejam só! — em oportunidade de angariar fama e sucesso financeiro. Mas esses astutos, coitados, desconhecem que riem e dançam à beira do velho vulcão.
O pior de todos os astutos não são esses poucos indivíduos alegremente iludidos. O pior é o próprio sistema da astúcia, o manipulador institucionalizado das massas populacionais — este sistema em que vivemos cotidianamente mergulhados. Ele não nos impinge mentiras ostensivas, grosseiras, toscas, em troca de fama e sucesso financeiro. Não!, ele as propaga almejando convencer as pessoas a tomarem decisões e seguirem caminhos convenientes à perpetuação dos interesses das oligarquias planetárias — as oligarquias planetárias, sempre elas, que cansativo! Para isso, adicionam algumas pitadas de tênues verdades às suas grandes mentiras.
É o que, desde a Grécia Antiga (490 a.C.), os filósofos chamavam de praticar o sofisma, ou seja, produzir a ilusão de verdade. A diferença é que hoje isto é realizado por algoritmos e Inteligência Artificial, através das fontes oniscientes e onipresentes deste nosso tempo, as denominadas redes sociais, além de todos os tipos de aplicativos, apps, sistema a que no futuro (aquele pouco que ainda nos resta) se juntará a infinitamente rápida computação quântica.
O ponto crucial é que essa estratégia de manipulação não se restringe ao âmbito dos interesses corporativos. O sistema astuto, depois de testado e aprovado pela iniciativa privada, foi incorporado, aprimorado, ampliado e monopolizado pelos órgãos de controle de corações e mentes geridos pelas potências hegemônicas, constituindo-se hoje na mais importante máquina de guerra psicossocial de massas.
Acabou-se a era da possibilidade de pensamento crítico, e da construção de algum futuro (nossa acalentada esperança). Neste instante, o que vem sendo imposto aos habitantes da Terra (cerca de 8,2 bilhões de indivíduos) são as ‘verdades’ que interessam aos oligarcas planetários, aquelas que possibilitam a expansão de suas (vãs) influências e a perpetuação de seus (ilusórios) poderes. Se isto resultar em mortes, extermínios, genocídios, que assim seja. Who cares, quem se importa?!
Temos um antídoto para isso?
Não temos!
E não temos porque o único remédio eficaz seria a disseminação e a promoção da liberdade de pensamento, aquela que (embora condicionada pelo encadeamento determinístico cósmico, planetário, genético, geográfico, histórico, social, familiar) depende da aquisição de conhecimentos, do confronto de ideias, do desenvolvimento cognitivo, da empatia — isto é, exatamente a liberdade capaz de pôr em xeque a permanência das oligarquias planetárias.
Caminhamos, então, para o fim deste modelo civilizacional?
Sim! E num passo acelerado.
Nós, os pequenos, os médios, os grandes astutos vencemos! E isto principalmente significa que todos os humanos, o conjunto dos indivíduos da nossa espécie, perdemos. Somos isto: a vanglória e uma piada no Cosmos.
Como se dizia antigamente, na época em que os bondes circulavam pelos florescentes centros urbanos, tudo na vida é passageiro, menos o cobrador (o Tempo) e o motorneiro (o Espaço).
Fodam-se!
Está cada vez mais difícil, e ridículo, sustentar a tese de que a Cosmologia é uma questão afeta exclusivamente a pessoas esquisitas (filósofos em geral) e alienadas (poetas em particular). Eu diria que, a esta altura de nossa História, esse argumento escapista é que constitui, ele sim!, uma atitude reacionária e profundamente prejudicial à continuidade de nossa espécie.
Relegar o Cosmos a mera curiosidade intelectual, sem relevância para a vida cotidiana das pessoas, é recusar-se a enxergar o único caminho possível — que sempre existiu, mas nunca foi admitido — para a alcançar a redenção da vida humana, ou seja, o caminho da conquista da maturidade espiritual, esse que nos possibilitará harmonizar os impasses terrenos.
Guardem estas palavras:
Nunca, jamais superaremos as sempre renovadas fraquezas humanas, essas que têm impossibilitado o aprimoramento e o avanço civilizacional — preconceito, intolerância, ódio, genocídio, guerra, tânatos —, enquanto não superarmos nossa imaturidade, o que significa finalmente compreendermos as origens e a dinâmica de nossos medos. E o primeiro passo desse caminho libertador é exatamente a aceitação da identidade cósmica do gênero humano.
Este planeta é o nosso habitat, o ambiente onde biologicamente nos desenvolvemos, a nossa morada, mas ele não nos define; nós não somos apenas terráqueos, mas também indivíduos solares, galácticos e cósmicos; mais do que ser, nós pertencemos. O que nos define é a nossa inserção no Universo, o nosso pertencimento ao Todo, ao Uno, ao Desconhecido. Será que é tão difícil, assim, entender isso, caralho?!
Quanto é difícil perceber que estamos há pelos menos doze milênios (desde que passamos de caçadores-coletores nômades a produtores de alimentos sedentários e domesticadores de animais) nadando contra a maré, contra o nosso destino, presos aos acima citados baixos instintos? É desesperador constatar a má-fé dos indivíduos que se sucedem em posições de poder mundo afora, os quais, através de decisões políticas e atitudes pessoais insistem em aprofundar o estado disruptivo em que nos encontramos.
São esses personagens eticamente desqualificados, sempre eles (e elas), que através desta História de 120 séculos têm liderado as massas rumo a sucessivos e cada vez mais profundos abismos anticivilizatórios. A responsabilidade desses indivíduos reside no fato de que, mais do que ninguém, são eles (e elas) que tiveram e têm o dever de compreender a obviedade de nossa cosmo presença, e de pelejar para que esse conhecimento libertador chegue a seus liderados, ou seja, a todos os habitantes dos países que constituem a comunidade humana.
Foda-se a propriedade privada! Foda-se a oligarquia! Foda-se o enriquecimento pessoal! Foda-se o cultivo da idolatria! Foda-se a corrida pelo sucesso! Foda-se a glorificação do narcisismo! Fodam-se as intolerâncias, os privilégios, as discriminações! Fodam-se todos os que criam e cultivam esses sistemas corrompidos e corruptores da real natureza humana!
Nossa espécie não merece essa condição desgraçada, infeliz, a que está relegada. Somos, sim, poeira de estrelas, mas somos igualmente indivíduos orgânicos, complexos, capazes de pensar. E ainda que nossa existência esteja submetida às determinações do indeterminismo orquestrado pelo Uno, e que não tenhamos absoluto poder sobre o nosso destino, ainda assim não nos é dado o direito de abdicar de nossa particularíssima condição humana.
Particularíssima porque aquilo (isto) que somos nos confere a nobre condição de ponte, de intermediários entre o que existe e o que é intuído. Somos seres em busca de completude. Este é o nosso valor incontornável e intransferível. Nenhuma inteligência artificial, mesmo a realizada no mundo das partículas subatômicas, será capaz de superar a complexidade proporcionada pela plasticidade da biologia, ela mesma decorrente de interações quânticas.