O futebol nos enobrece

Gosto de futebol. Torço pelo Santos desde 1963, quando ainda menino cheguei à cidade que lhe dá nome, vindo da então verdejante e decadente Manaus, AM. Mas não é do meu time (hoje combalido) que quero falar.

Dizem os especialistas que o futebol possui 3,5 bilhões de torcedores (quase a metade da população do planeta) e envolve mais de 270 milhões de pessoas no mundo, das quais 265 milhões são praticantes.

O que sempre me intrigou  — a partir do momento em que aceitei minha completa e total inaptidão para esse esporte, bem como para todos os demais, coletivos ou individuais  foi a paixão que ele desperta.

Teria sido o franco-argelino Albert Camus (1913-1960), filósofo autor de "O Estrangeiro", "A Peste", "O Mito de Sísifo", entre outras obras, aquele que pela primeira vez relacionou o futebol com a vida, na medida em que ele espelharia as complexidades da existência humana, como a superação de desafios, a alegria da vitória e a dor da derrota.

Mas também não é isso o que me interessa aqui, pois já sabemos que o futebol tem mesmo esse poder do projetar nossas superações e frustrações, sem deixar que as tristezas e euforias que ele traz sejam capazes de nos fazer esquecer dos deveres que o dia seguinte nos cobra. 

Não há "quartas-feiras de cinzas", nem ressacas no futebol — o dia após as vitórias ou derrotas é sempre mais um, sem nada de especial. Ou seja, cada time 'é o motivo de todo o nosso riso, de nossas lágrimas e emoção', cantam, a seu modo, os hinos de todos os clubes que se prezam.

Basta estar no meio de uma arquibancada, cercado por nossos iguais na paixão, exultando com as habilidades ou sofrendo com as insuficiências de nossos jogadores para intuir que alguma coisa o futebol toca, para além de simples vitórias ou derrotas.

E no que toca o futebol?

Penso que o encanto desse esporte começa por sua acessibilidade social — qualquer criança pode praticá-lo e, se a natureza a brindar com os necessários requisitos físicos e mentais, um(a) novo(a) atleta se revelará para o mundo. Mas isso ainda não explica a sedução planetária exercida pelo futebol.

Ele me parece, na verdade — mesmo para os que apenas veem as partidas, ou aqueles que no passado as ouviam pelo rádio, imaginando as jogadas a partir das fantásticas descrições dos narradores —, um meio inventado pela cognição para nos capacitar a todos de conhecimentos matemáticos práticos.

E o futebol, mais do que os demais esportes coletivos porque praticado basicamente com os pés, associados aos movimentos dos quadris e da cabeça, aos músculos das pernas e coxas, e à percepção espacial de curta, média e longa distância, além da concentração e intensidade — me parece exatamente isso: puro exercício de geometria, ramo da matemática cujos primeiros entendimentos se acham nos antigos egípcios e depois nos gregos.

A bola, esse objeto esférico que nos remete às formas basilares da natureza, desenha em campo, tocada de um a outro atleta rumo ao gol retangular, essencialmente retas, curvas, parábolas, ângulos, círculos, ondulações produtoras de movimentos e atos capazes de superar obstáculos quase sempre inesperados, num verdadeiro exercitar de contra-tempos e demonstração de pura arte. E lá na meta retangular ainda se acha um indivíduo quase intransponível, autorizado a realizar todos os movimentos de que for capaz, inclusive com as mãos.

Reside aí, me parece, nessa intuitiva apreensão dos fundamentos de uma linguagem universal, de forma lúdica e compartilhada, a essência da paixão produzida pelo futebol. Ele nos transforma a todos em matemáticos, geômetras, formuladores de possibilidades espaciais; destrava nossa imaginação, aguça nossos sentidos, estimula a inventividade daqueles que o praticam, e também dos que o veem e torcem. Ele nos enobrece.