Dizem historiadores que, ao contrário do que se convencionou, a primeira povoação do nascente Brasil, no início do século XVI, teria sido Cananéia, surgida cinco meses antes da fundação de São Vicente (a 22 de janeiro de 1532), hoje tida como a “célula mater na nacionalidade”.
Alguns atribuem o nome à palavra tupi kanindé, ou kaniné, um tipo de arara existente na região, aportuguesada ao longo do tempo para Cananéia. Ocorre que, em 24 de janeiro de 1502, dois anos após a ‘descoberta’ do futuro Brasil, uma expedição exploratória tendo à frente Gaspar de Lemos e Américo Vespúcio — destinada a reivindicar e demarcar as novas terras para Portugal — teria nomeado a região como Barra do Rio Cananor. Talvez em homenagem à importante cidade portuária de mesmo nome, localizada na costa sudoeste da Índia, dedicada ao comércio com a Pérsia e Arábia nos séculos XII e XIII.
Dizem também que em 1531, quando Portugal enviou uma nova expedição, sob o comando de Martim Afonso de Souza, o local não se chamava Kanindé, ou Kaniné, mas Maratayama (mara = mar e tayama = terra, ‘onde o mar encontra a terra’).
Fato curioso é que a mesma expedição exploratória de Lemos e Vespúcio, a de 1502, teria trazido de Portugal uma ‘figura obscura, o degredado português Cosme Fernandes’, desterrado exatamente naquela localidade, onde se tornou personagem poderosa.
Há controvérsias sobre o verdadeiro nome de Cosme Fernandes; sobre quem o trouxe de Portugal; e até mesmo sobre a data em que ele aqui chegou. Mas o que se dizia, à época, era que a ilha de Cananeia havia se tornado ‘um verdadeiro depósito de degredados’, destinado a povoar os limites portugueses, ao Sul, do Tratado de Tordesilhas (firmado entre Portugal e Espanha em 1494). Degredados ‘eram pessoas condenadas pela justiça ou pela Inquisição a cumprir pena no exílio. E não só criminosos comuns, mas também presos políticos e cristãos-novos perseguidos’.
Cristãos-novos era a designação dada a judeus e muçulmanos convertidos à força ao cristianismo na Península Ibérica, especialmente a partir do final do século XV. Ou seja, Cosme Fernandes (ou Cosme Fernandes Pessoa, ou Duarte Perez) pode muito bem ter sido um cananeu, denominação dos indivíduos vinculados à antiga Canaã (atual Israel e Palestina, vejam só!), uma das mais antigas civilizações da história da humanidade.
Muitos degredados eram jovens, fundamentais para a ocupação dos primeiros povoados, contribuindo com suas habilidades de negociação e força de trabalho para o desenvolvimento das terras além-mar. Mas, como a História é cheia de surpresas, Cosme Fernandes, o Bacharel de Cananéia, nunca prestou obediência à coroa portuguesa. Passou a combatê-la e, na opinião de muitos, inaugurou o espírito indômito que marcaria a alma do povo de Santos [*], São Paulo, a cidade-sede da região.
[*] Meu livro “Sonífera ILHA” conta em 100 páginas a história de como o caráter combativo do santista se estabeleceu, e foi substituído pela apatia desde a segunda metade do século passado.