“O pulso ainda pulsa”

Sei que para bom entendedor, meia palavra basta. Mas também sei que mesmo os bons entendedores preferem se fazer de desentendidos, a enfrentar a realidade. Refiro-me ao que afirmei no texto anterior aqui publicado — O básico, o mistério, o ridículo e o ceticismo —, em que no tópico “o ridículo” critico o caminho da ideologia progressista, ou de esquerda, para alcançarmos a emancipação do ser humano.

Defendo ali que “os embates intermináveis por poder, de um lado centrado no acúmulo de riquezas, privatização e privilégios; de outro na mobilização de vontades em prol da coletividade de indivíduos” são igualmente ineficazes. Nesta altura do jogo da História, quando tanto já experimentamos desses dois remédios (capitalismo e/ou socialismo), quem mais tem o direito intelectual de se iludir com tais alternativas ideológicas?

Quanto à primeira, centrada em individualismo, acumulação de riquezas, privilégios de classes, exploração do trabalho de terceiros, preconceitos, xenofobias, etc., não resta mais dúvida de que está e sempre esteve fadada ao fracasso, embora continue livre — porque detém o poder da força e do dinheiro — para impor sofrimentos de toda a ordem à maioria da sociedade e ao planeta inteiro. 

Mas a segunda não fica atrás. Há ainda muitos indivíduos apegados à ilusão de que a via distributivista seria o caminho adequado, quando ele não é. E não é porque a generosidade dessa proposta esteja formalmente incorreta. Não é porque se trata de tão somente de uma visão, um ideal, uma expectativa, e não um verdadeiro caminho.

Todas as tentativas já realizadas (União Soviética e China, em especial) demonstraram, para quem estiver disposto a enxergar, que a prática socialista na verdade se frustrou. E não avançou porque esses países tenham enfrentado resistências geopolíticas e geoeconômicas, como de fato ocorreu. Não avançou porque o socialismo não é um meio, mas um fim.

Não se realiza uma mudança política e cultural pelo fim. O fim tem de estar lá, como uma visão, uma luz a ser alcançada, mas também como um farol a nos alertar para os perigos do caminho. E o maior perigo que ignoramos é a imaturidade do próprio ser humano, o agente e paciente do ideal socialista.

Quando me refiro a imaturidade, estou falando de todas as travas psicológicas e mentais que têm impedido nossa espécie de se libertar de seu medo primordial, aquele que o espelho diariamente nos mostra — a nossa solitária e incontornável individualidade e, consequentemente, solidão cósmica.

A convivência social foi o motor que nos possibilitou chegar até aqui, construindo este modelo de civilização que temos. Mas o meio social não é suficiente, nem adequado, para a resolução da agonia existencial de nossa espécie. Ah, inventamos religiões e a elas delegamos a tarefa de aquietar nossos desassossegos... Mas como está provado, as religiões também não possuem esse poder; a maioria nem a isso se dedica, verdadeiramente.

Estamos diante de um impasse? Sim e não.

Sim, porque intelectualmente (ou seria por medo?) resistimos em ver a realidade claramente posta diante de nossos olhos, depois de tantos milênios reiterando erros. Não, porque ainda não conseguimos extinguir a vida humana; estamos próximos disso, mas ainda não chegamos ao fim. E se "o pulso ainda pulsa" — como cantam os Titãs —, por que desistir?    

O verdadeiro caminho é a conquista da maturidade, caros amigos.

A conquista da maturidade! 

O básico, o mistério, o ridículo e o ceticismo

 A vida humana se reduz a um aglomerado de partículas subatômicas que formam átomos, que se juntam em moléculas, que se organizam em células, que constituem tecidos, que se agrupam para criar órgãos, os quais, providos de eletricidade bioquímica através de suas células, desempenham funções específicas e essenciais para o funcionamento geral do nosso organismo.

Isto é o básico.

Tendo chegado a essa compreensão dos elementos (quase) invisíveis de que somos compostos, regidos pelos princípios da física quântica, só nos resta aceitar que integramos, em essência, a mesma grandeza capaz de produzir ação, movimento ou calor, ou seja, a mesma energia presente em nosso sistema solar, em nossa galáxia e no Cosmos. Foi a isto que se referiu o astrônomo Carl Sagan (1934-1996), quando afirmou que somos “poeira de estrelas”.

Essa energia, que não pode ser criada nem destruída, é a mesma a que somos ligados ao nascer, e da qual somos desligados ao morrer. É aquela que determina a existência da nossa espécie, e que pode ser entendida como a mais aproximada expressão (para a nossa limitada capacidade cognitiva) do que denominamos espiritualidade, a corrente misteriosa e sutil que nos vincula ao Universo.

Este é o mistério.

Quando nos referimos a tal entidade, a energia, estamos falando do Uno, do Um a que todo conhecimento mais antigo já se referia, com menções encontradas na Suméria (3500 a.C.), no Egito Antigo (3000 a.C.) e na Grécia (1400 a.C.), trazida até os nossos dias, embora de forma corrompida (no sentido de “rompimento”), primeiro pela apropriação do enigma da vida (a morte), colocando-o a serviço da manipulação da insegurança dos indivíduos; depois, pelo progressivo deslumbramento científico proporcionado pelas facilidades tecnológicas desenvolvidas ao longo do caminho até aqui. E, finalmente, por esses dois fatores (manipulação e deslumbramento) operando em conjunto, que é o que temos hoje.

O deslumbramento garantiu o crescente domínio de conhecimentos úteis à via do prosseguimento (processos desencadeados desde o advento dos primeiros humanos, destinados a prover e aprimorar nossa condição física e mental), e assim bloqueou a possibilidade de nos entendermos como aquilo que somos, entes atômicos, moleculares, e celulares eletrificados. A manipulação do medo pelo cultivo da insegurança dos indivíduos se deu por caminhos mais tortuosos, pois não foi capaz (nem poderia!) de oferecer mais do que dogmas, crenças e vãs esperanças. 

Ambas se complementaram, porém, produzindo o que temos: seres humanos dependentes dessa simplificação existencial deslumbrada e temerosa, afastados de nossa origem e essência, ignorantes de nosso pertencimento cósmico. Só não conseguimos fugir da morte — a inevitável finitude de nossa constituição orgânica. Esse é o fantasma que nos assombra desde sempre.

Para dissimulá-lo, nos dedicamos a chorar os mortos, em invés de celebrar o valor de suas transitórias existências e legados. E o fim de cada vida, ao contrário de significar o inevitável desligar de um indivíduo por essência finito, transformou-se em motivo de desespero pela consciência da iminente perda de nossos individuais privilégios de existir — privilégios nutridos por benesses proporcionadas através de um sempre mais sofisticado sistema de exploração de outros indivíduos, blá, blá, blá; blá, blá, blá.

Aqui mora o ridículo.

Neste terreno grassam as ideologias, os embates intermináveis por poder, de um lado centrado no acúmulo de riquezas, privatização e privilégios; de outro, na mobilização de vontades em prol da coletividade de indivíduos. Ambos tragicamente ineficazes e/ou risíveis, porque incapazes de nos levar ao bom desfecho. Incapazes porque deixam de considerar o básico (materialidade efêmera) e o mistério (espiritualidade imanente) do ser humano.

Se as ideologias não conseguem apreender a coexistência dessas duas vertentes, como assimilarão o fato de que nossa espécie é um caminhante solitário e angustiado de uma senda sutil e imprevisível? Se cada indivíduo é uma insegurança em si, e se nos interditam o direito de desenvolver nossa maturidade — que se define na consciência de nossa existência cósmica, a tal convergência matéria-espírito —, como é possível vislumbrar (ou prometer) alguma esperança?

Aqui resta o ceticismo.    

Para muitos, essas reflexões podem soar irrelevantes — e admito que o são, frente às dores físicas e/ou mentais que estejamos sofrendo —, mas não nos deixemos enganar. Tenhamos a humildade de reconhecer que somos apenas isto: um aglomerado de átomos energizados por elétrons, com prótons específicos em seus núcleos, protagonizando um mistério que insistimos em ignorar.

“Gente quer saber o um”

A consciência da espiritualidade é um dos pilares da condição humana. Não me refiro à espiritualidade vulgar, hierarquizada, opressora, punitivista, que se manifesta em religiões, crenças e cultos, mas à verdadeira, à única, a que nos vincula ao Universo e está presente na materialidade do planeta, viva, ativa e pulsante em nossa existência cotidiana.

As provas de que esta espiritualidade é real estão, literalmente, em todo e qualquer lugar — ela atravessa o Cosmos, as Galáxias, as Estrelas, nosso sistema Solar e esta Terra a que pertencemos. Para qualquer ponto que olhemos, tal qual um fractal (padrão geométrico que se repete em diferentes escalas, com cada parte menor sendo uma cópia do todo, um conceito conhecido como autossimilaridade), a espiritualidade lá está.

Não há quem desconheça sua existência, mesmo que se trate de pessoa comum, dita simplória, sem educação formal, pois estamos falando de um conhecimento intuitivo, que dispensa intermediações, inerente aos indivíduos de nossa espécie desde o primeiro choro, quando o ar invade os pulmões e o sistema nervoso é, literalmente, ligado ao Todo. Ao Um.

Por isso que o nascimento de uma criança é compreendido, em qualquer cultura, como um milagre, graças às potencialidades que aquele novo ser nos traz e oferece ao mundo dos fenômenos, este onde existimos. Não há nascimento sem alegria, sem estímulo, sem esperança por parte daqueles que recebem o novo ser. Todos sabem, embora não verbalizem, que um mistério ali se corporificou.

A consciência desse milagre está impressa e confirmada em nossa memória pessoal e coletiva; sabemos que ele aconteceu fruto do enigma de uma concepção, daquele átimo em que duas células, dois gametas complementares se uniram para constituir um indivíduo completo e pleno de vir a ser, sob as bênçãos do Desconhecido.

No melhor dos mundos, a consciência cósmica que o milagre do nascimento suscita seria preservada e nutrida, lançando adiante a compreensão transcendente da existência da espécie humana. Mas, como sabemos, não é isso que ocorre. Fieis às nossas “vãs filosofias”, imediatamente projetamos um futuro feliz e brilhante para o recém-chegado, a ele almejando a realização de tudo o que não fomos capazes de ser e construir em nossa existência mundana.

Ao seja, lançamos em seus ombros nossas frustrações e o peso de uma civilização fracassada, sedimentada em falsas expectativas, valores superficiais, certezas imodestas, ganhos passageiros, heranças de sucessivas gerações de seres espiritualmente pervertidos pelo medo de estarem sozinhos no espaço.

É neste exato instante que se inicia o processo de corrupção do novíssimo indivíduo, e ele perde a chance de incorporar sua real espiritualidade cósmica. Em seu lugar, lhe impingimos dogmas, mandamentos, superstições; religiões, crenças, cultos. E o milagre da grandeza humana se esgarça. E nossa espécie retroalimenta o conformismo desse simulacro de humanidade, essa vida de vanglórias.

Quase não há força interior que faça esse indivíduo desde o berço corrompido escapar da armadilha da História, como também não há vontade exterior — isto é, nas diferentes instituições de poder que constituem as sociedades — disposta a enfrentar tamanho desafio existencial.

O indivíduo, porque é refém de sua própria conveniência imediatista e vítima da manipulação promovida pelos grupos perpetuadores da submissão interesseira; as instituições de poder, porque enxergam na emancipação espiritual do ser humano uma ameaça à sua permanência, o que de fato é, pois quem se emancipa não se submete.

Resta-nos, como tenho dito, as possibilidades que se abrem a partir do caos em que estamos metidos. E para ilustrar, ocorre-me esta música de Caetano Veloso, onde já no primeiro verso está posto: “Gente olha pro céu, gente quer saber o um”.

“Aos vencedores as batatas”

Em 2001, quando o mundo ainda estava sob o impacto do ataque de 11 de Setembro à sede do capitalismo planetário, a cidade de Nova Iorque, o renomado compositor alemão de música contemporânea Karlheinz Stockhausen (1928-2007) afirmou que aquele ato terrorista teria sido “uma obra de arte tão grande quanto qualquer outra”.

O comentário produziu grande incômodo, mas Stockhausen nunca se explicou, nem se desculpou; afastou-se, ou foi afastado de apresentações públicas a partir dali, até sua morte. A frase, no entanto, é importante, pois nos dá a oportunidade de refletir sobre essa questão balizadora de nossa existência: o mal.

Por definição, o mal é a ausência do bem, isto é, a falta da capacidade de compreender e compartilhar os sentimentos dos outros (empatia) e de refletir sobre o certo e o errado (ética). Trata-se de uma construção da mente e, portanto, exclusivamente humana — se um peixe grande come um peixe pequeno, ele não age assim por maldade, mas por instinto, em favor da sobrevivência de sua espécie. 

Nossa espécie, resultante de singularíssima conjunção cósmica — dê-se a Ela o nome que se der —, deparou-se desde o princípio com alguns desafios existenciais, dentre eles, e talvez o mais importante, a obrigação e necessidade de superar os instintos.

Isto é: jamais teríamos constituído os laços sociais fundadores de nossa civilização — por mais fracassado que seja este modelo civilizacional que erigimos —, sem que estivessem presentes em nossa consciência os conceitos de bem e de mal. O problema fundador desta nossa realidade esquizofrênica é que fomos incapazes de realizar aquela obrigação e necessidade: os instintos nunca foram superados, porque nunca de fato alcançamos a maturidade.

Uma explicação talvez se encontre no fato de que os instintos nos são convenientes; afinal, são eles que impulsionam a busca permanente por minorar nossas carências físicas e materiais (o que chamo de via do prosseguimento), sobrepondo-se assim, pela urgência, aos conceitos morais que balizam o bem e o mal. Estes se destinam a prover a convivência utilitária entre semelhantes, a qual pode ser, e usualmente é, relativa às circunstâncias pessoais, sociais, históricas; aqueles, os instintos, atendem às nossas demandas existenciais imediatas — tanto quanto as de qualquer animal —, sendo, portanto, condição imperativa e incontornável de sobrevivência.

Os sucessos individuais e coletivos — “aos vencedores as batatas”, como sentenciou Machado de Assis em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” —, validam a prática multimilenar da lógica relativista norteada pelos instintos. Validam, confirmam, mas igualmente consolidam os obstáculos ao avanço da consciência que fundamenta os conceitos de bem e de mal. Eis a esquizofrenia plenamente incorporada às nossas vidas.

Nesse sentido, o 11 de Setembro de 2001 nova-iorquino, se formos capazes de abstrair os sofrimentos e as destruições ocasionadas, pode ser visto, sim, como “uma obra de arte tão grande quanto qualquer outra”. A definição de Stockhausen, por mais chocante que sempre pareça, não contempla a (i)moralidade do ato; principalmente porque, como sabemos, nossa civilização relativiza o mal. Sem qualquer cerimônia.

A “arte” por Stockhausen referida está (esteve) no fato estético em si, realizado conforme os mais avançados conhecimentos disponíveis (técnica), executado com inquestionável eficácia (maestria) e produtor de efeito devastador sobre a consciência do Ocidente (mensagem) — três requisitos presentes, entre outros, em qualquer manifestação artística. 

Já o mal apontado, e de fato presente naquele atentado, em nada difere de outros tantos e sanguinários males perpetrados ao longo da História de nossa fracassada civilização, com destaque para os que me vêm à memória:

Santa Inquisição;

Colonialismo predador extrativista;

Escravidão de 12,5 milhões de africanos;

Genocídio dos povos indígenas de todo o planeta;

Assassinatos em massa pelo nazismo, fascismo, stalinismo; 

Bombardeio atômico de Hiroshima e Nagasaki;

Exploração continuada das nações pobres;

Fome, doenças físicas e mentais etc. etc. etc. etc., e ainda todos os males que impingimos uns aos outros, cotidianamente, mundo afora.

Amar e praticar a sabedoria

Às vezes me perguntam como definiria meu trabalho, tanto o dos livros — A primeira lição a aprender —, quanto este que publico aqui regularmente, e que na verdade se trata de analisar as mesmas ideias dos livros, sob diferentes aspectos e realidades. Sinceramente, ou talvez por ignorância, não sei em que categoria encaixar essas reflexões.

Sem assumir ares de presunção intelectual — até porque reivindico a todos os seres humanos, mais do que o direito, o dever de pensar e expor suas opiniões —, arrisco dizer que minhas balizas são a antropologia (o estudo do ser humano em todas as suas vertentes) e a cosmologia (o estudo da totalidade dos fenômenos no universo). Entendo o ser humano como um indivíduo que pertence à Terra, mas integra o Cosmos — e vice-versa.

Não se tratam de filosofia, essas ideais, disso tenho certeza. E nem me interessa que assim sejam entendidas, pois contra as imposições dessa ou daquela corrente filosófica é exatamente onde me coloco. Não que despreze o amor à sabedoria, mas porque quero estar longe da mitificação do saber; distante do exibicionismo teórico; e, principalmente, em oposição à ideia de que o saber se destina a poucos eleitos.

Sabedoria não é, e não pode ser, algo que se deva conquistar, possuir e, eventualmente, compartilhar com selecionados ouvintes e iniciados. Sabedoria é alcançar e desenvolver a capacidade de desvelar caminhos e apontar modos através dos quais todos os indivíduos, absolutamente todos, estejam aptos a amá-la e praticá-la, porque ela está (ou deveria estar) presente em cada instante de nosso cotidiano. Sabedoria é compreender e trazer à luz as potencialidades da mente humana; não é uma condição egoísta, mas um exercício de permanente deslumbramento e generosidade.

O problema, o verdadeiro problema com o qual nos debatemos em nosso cotidiano é a dificuldade de alcançarmos a compreensão dessa capacidade intrínseca à nossa espécie — a de amar e praticar a sabedoria, e de fazê-lo não de forma eventual, irrefletida, episódica, mas de modo consciente, intencional e permanente. É nesse espaço que, julgo, venho refletindo.

Penso que o único meio de nos apoderarmos da referida compreensão (amar e praticar a sabedoria) é entendermos a dupla e coexistente condição de sermos integrantes deste planeta e pertencermos ao Cosmos. Os modos e os meios para a realização dessa tarefa fundamental já estão dados. Abordo isso em vários textos aqui publicados, como em Nosso primeiro passo

O dia em que esse entendimento for apropriado não por meia dúzia de ‘filósofos’, mas pela maioria e depois pela totalidade dos habitantes desta Terra, a partir desse instante nossa espécie terá uma chance de harmonizar a via do prosseguimento (esta que busca minorar todas as nossas carências físicas e materiais, e que perseguimos em nosso dia a dia, desde sempre) com a conquista compartilhada do saber. E, então, verdadeiramente, amar e praticar a sabedoria.

Em resposta às alegações de que ‘isso tudo é apenas ingenuidade’, recorro à maior e melhor prova do que defendo: os indivíduos que, mesmo não possuindo o status de filósofos, são sábios e inspiradores naquilo que fazem, porque exploram o máximo de suas potencialidades. Para o bem, ou para o mal (sim, porque o mal deliberado, decorrente da corrupção da humana empatia, também pode ser exercido com sociopática perfeição).

Sugiro no primeiro caso, por exemplo, que se ouça essa seleção de João Gilberto, um ser que, como tantos outros, soube valorizar sua passagem por esta Terra, e com essa sabedoria produziu o melhor que seus dons lhe permitiram, tornando-se, a seu modo, universal. Os exemplos disruptivos (melhor assim dizer, ao invés de defini-los como “maus”) são muitos, e exatamente aqueles que queremos combater.

O caos, a ordem e as distrações

Para mudar o mundo, é preciso mudar o ser humano.

Para mudar o ser humano, é preciso que a consciência da mudança promova a mobilização da vontade em cada um dos 8,2 bilhões de indivíduos deste planeta, sem exceções.

Para que a consciência e a vontade desses indivíduos tenham a chance de serem alcançadas, neste turbilhão de distrações que a luta pela simples sobrevivência nos impõe cotidianamente, é preciso que alguém ou algo dotado de inquestionável credibilidade e poder de convencimento assuma o protagonismo e a liderança do processo.

Qual a chance, para a espécie humana, de que isso — a ascensão de uma liderança protagonista capaz de conduzir a mudança do mundo — venha a ocorrer? 

Nenhuma, admito.

Quê esperança nos resta, então, dado que mudar o mundo é urgente e imprescindível?

Antes de encarar a questão crucial — Que esperança nos resta? 
, quero voltar ao texto anterior  ‘Eu não quero descer’ —, onde destaco a interpretação dos grandes ciclos históricos proporcionada pela Astrologia (conhecimento hermético originário da antiga Suméria, no quarto milênio a.C., que foi transformado em superstição com a decadência do Império Romano e, mais adiante, ridicularizado e/ou reduzido a mera curiosidade de salão, com o advento do empirismo científico no séc. XII d.C., quando a visão de curto e médio prazos ganhou status de verdade).

A Astrologia não nos traz conforto nem desculpa, digo logo, embora não passe de alguém que apenas respeita suas proposições — não sou um especialista, como foi meu amigo Cid Marcus, sobre quem tenho me referido com frequência em outras postagens. E não nos traz conforto nem desculpa, porque não há consolo nem alívio a serem oferecidos.

Repito o que escrevi no começou deste texto: para mudar o ser humano, é preciso que a consciência da mudança promova a mobilização da vontade de cada um dos 8,2 bilhões de indivíduos deste planeta, sem exceções.

Se nada e ninguém será capaz de deflagrar um consistente e continuado processo endógeno (que tem origem no interior de nossa espécie) no sentido da consciência da mudança e mobilização da vontade, a conclusão óbvia é de que estamos entregues ao nosso próprio fado, ou seja, submetidos a uma dinâmica exógena, além do nosso controle.

Esse é o diagnóstico proposto pela Astrologia, à luz dos ciclos cósmicos que se projetam sobre nosso planeta desde sempre.

Como já disse, a opção da mudança ser empreendida por nós mesmos sempre esteve e está à nossa disposição e alcance, mas se não a fizermos — como não temos feito, e nos recusamos a fazer —, a inevitabilidade cósmica se encarregará de fazê-la.

De que maneira?

Da forma como estamos vendo e vivendo: com sofrimento individual e coletivo crescente.

Alimentamos o caos e, como somos incapazes de domá-lo e cavalgá-lo, só nos resta esperar até que alguma ordem se estabeleça e, depois, até que um novo ciclo caótico se inicie. Porque nos recusamos a cumprir aquilo a que estamos destinados no Cosmos: conquistar a maturidade espiritual.

Escolha, sempre foi uma questão de escolha. 

‘Eu não quero descer’

Ao analisarmos o quadro ora vigente de emergência planetária — que se traduz no crescimento da insegurança social produzida por uma série impressionante e convergente de fatores, envolvendo o agravamento da luta geopolítica, da xenofobia, desigualdade socioeconômica, decadência do ensino, precariedade laboral, ausência ou insuficiência de serviços básicos, violência pública, criminalidade privada, transtornos neurológicos, distúrbios e doenças mentais, tudo se dando no interior de um ecossistema dominado por extrema corrupção e inegável incompetência —, ao analisarmos esse quadro temos a sensação de que chegamos a um momento de inflexão civilizacional.

Concretamente, é isto mesmo o que está em curso.

É fato que o acelerado decaimento da qualidade geral da vida drena nossas forças, contamina nosso núcleo familiar, projeta-se para nossa rede de relacionamentos e ao conjunto da sociedade, de onde retorna, como um bumerangue, para retroalimentar e potencializar negativamente o mesmo sistema já degradado. Não é pouco o que os 8,2 bilhões de habitantes da Terra estamos enfrentando neste exato instante.

Para nosso conforto, se é possível assim definir, não há nenhuma surpresa sobre o que se passa na Terra — trata-se apenas de um processo de transição, de transformação, de evolução, enfim. Isto não diminui os sofrimentos presentes e futuros, pessoais e coletivos, mas pode nos ajudar a assimilar o entendimento, sempre necessário, de que integramos o Cosmos. Sim, o Cosmos! E, ainda que cause estranhamento ou suscite deboche, proveniente das mentes ditas racionais, a explicação para o que ocorre na Terra vem da Astrologia. 

Não, evidentemente, “a pop astrology, como ela aparece em jornais e em muitos livros sobre ela publicados, mas com o que ela nos oferece desde tempos muito remotos como legado praticamente encontrado em todas as culturas, desde a pré-história, abandonado, por pressões dos representantes da ‘racionalidade’, pelas academias no séc. XVII. Nem tem a ver com a afirmação de pessoas que peremptoriamente declaram nela não ‘acreditar’, como se ela fosse uma religião, ainda que dela nada conheçam. A Astrologia, uma carta astral, nesta perspectiva, por exemplo, se parece com um hemograma [análise laboratorial dos elementos do sangue]. Não ‘acreditamos’ num hemograma; apenas sabemos lê-lo ou não. E mesmo sabendo lê-los, os hemogramas, quantos erros não se cometem na interpretação de seus dados?”

O esclarecimento acima é do amigo e sempre mestre Cid Marcus, falecido há três anos — a quem sempre recorro —, um cara que se dedicou ao estudo “sério” da Astrologia. Em um de seus textos — Os salões do séc. XVIII —, ele discorre sobre os sinais da aproximação deste momento de transição (para a Era de Aquário), na qual a humanidade finalmente ingressará em 2.672, daqui a 647 anos.

Preparem seus corações e mentes, caros amigos, pois o que já vem se impondo é de fato uma grande mudança:

“Urano [regente de Aquário] é essencialmente um planeta variável, eletromagnético, espasmódico, intuitivo, impulsivo, excêntrico, pioneiro, independente, súbito, político, comunitário, excitante, maníaco [no sentido grego de ‘estado de loucura’], explosivo, convulsivo, revolucionário, brutal, anárquico, incongruente, individualista, diferente (vedetismo), associativo, futurista, utópico, original, inédito e estéril.

“No século XVIII [quando esse processo já apresentava seus sinais], a verdade das religiões, tida como revelada, começou, por inspiração uraniana, a ser substituída por propostas filosóficas pragmáticas. A atitude, diante do mundo, começou ser inspirada pela empiria. Mesmo com todas as suas tâtonnements [tentativas e erros], como diziam os franceses, o conhecimento deveria derivar agora da experiência humana e não da revelação divina. (…) Na política, as lutas de independência de várias colônias foi um desses sintomas.

“Hoje, na ciência, temos a inteligência artificial”, as redes sociais globalizadas, a computação quântica, a robótica associada à IA etc. etc. “No campo filosófico-religioso, o fim da filosofia, o transumanismo [uso da tecnologia para superar as limitações humanas, tanto físicas quanto intelectuais] e o fim de Deus e das religiões (profecia de Nietzsche), estas oferecendo uma grande resistência, diante dos altíssimos lucros que obtêm.”

Nosso desespero civilizacional é que “o mundo aquariano nos permite obter uma quantidade cada vez maior de informações, mas talvez nunca tenhamos nos deparado com tanta falta de conhecimento e muito menos de sabedoria quanto hoje, estes dois [conhecimento e sabedoria] a serem construídos por nós a partir daquelas [informações]. A velocidade e o alcance da nossa comunicação é espantosa, enorme, mas a solidão e a depressão aumentam cada vez mais. Enquanto isso, orgulhosamente, a ciência aquariana vai nos dando condições de visitar todo o sistema solar, de colonizar alguns planetas e de explorar a nossa galáxia." 

“Pare o mundo, que eu quero descer!”, me disseram outro dia.

Entendo o desespero, mas confesso que eu mesmo “não quero”.   
 

A ironia do limite

Olhemos para o básico. A Terra nos oferece três tipos de riquezas: animais, vegetais e minerais, além de outras renováveis, como a luz solar, o ar e a água, embora esta esteja submetida à degradação continuada, à escassez crescente e ao encarecimento devido aos elevados custos de depuração ou dessalinização. Não se tratam de um legado, essas riquezas, mas de um usufruto, pois a Terra, ela mesma, é constituída desses mesmos elementos, e através deles se nutre.

Tais recursos naturais são o que garante a continuidade da via do prosseguimento, que é como defino os processos desencadeados desde o advento dos primeiros humanos, destinados a prover e aprimorar nossa condição física, mental e, se formos capazes, também espiritual. 

No entanto, a exploração intensiva desse patrimônio, decorrente do crescimento demográfico (somos hoje quase 8,2 bilhões de seres) tem produzido a fragilização do planeta. Tanto porque sua utilização é intrinsecamente destrutiva (vegetais e animais), quanto por se tratarem de elementos finitos e sua extração (minérios) ser causadora de profundos impactos ambientais. Exemplo dramático são os hidrocarbonetos, que sustentam nosso modelo de civilização e estão se esgotando, enquanto seu consumo se expande.

Parte significativa da sociedade planetária, herdeira de antigas e sucessivas linhagens de poderosos indivíduos (‘as velhas famílias’), age no sentido predatório, defendendo o direito à posse privilegiada de todos os recursos naturais, não apenas para o seu próprio usufruto, mas, principalmente, para ampliar seu estoque de renda, bem como acumular patrimônio — são os praticantes da ideologia capitalista, em todos os seus matizes e localizações geográficas.

Outra parte também numerosa, orientada pela ideologia socialista, distributiva — e que, convenhamos, não existe em estado puro, pois, para que isso se realize é necessário que a humanidade, em seu conjunto, alcance o patamar da maturidade espiritual —, busca promover a exploração de tais riquezas segundo a lógica do interesse coletivo. Ou seja, feita racionalmente, de acordo com as necessidades, sem perder de vista a ameaça de fragilização planetária. Este é o segmento que se coloca no centro do espectro social.

No extremo oposto temos aqueles que se inspiram no purismo ideológico conservacionista, defendendo a tese de que as riquezas do planeta devem ser integralmente preservadas, porque Gaia (a visão da Terra como um único organismo) já atingiu seu extremo de depredação e, tanto quanto qualquer ser vivo, precisa ser protegida. Como alternativa, defendem que a humanidade adote modos de sobrevivência idealizados, voltados para a vida simples, natural e equilibrada. Não são tão numerosos, mas são os mais motivados e conceitualmente aceitos por segmentos do estrato intermediário, o distributivista, e simultaneamente instrumentalizados pelo primeiro grupo, o dos capitalistas.

De que forma superar esse complexo dilema existencial, se cada grupo possui sua força e seus argumentos? Como sempre, é preciso recorrer à Filosofia, sempre ela! 

Atribui-se a Aristóteles (384-322 a.C.) a chamada doutrina do meio-termo, em que a virtude e a sabedoria residem no equilíbrio entre dois extremos, evitando tanto o excesso quanto a deficiência. Ela pode ser aplicada à maioria das atitudes e ações humanas, com exceção daquelas relativas à ética e à moral, como a honestidade, respeito ao próximo, responsabilidade, cooperação, lealdade, empatia, liberdade, altruísmo, justiça, onde a verdade ocupa uma postura intransigente.

No caso da utilização dos recursos da Terra em prol da via do prosseguimento, não há como fugir da regra aristotélica. Mesmo que venha a ser reduzido, ao custo de políticas repressivas de governos, o crescimento demográfico não será conveniente a longo prazo, pois é necessário haver equilíbrio entre morte e nascimento de indivíduos. 

O caso chinês é o maior exemplo disso: sua política do filho único, implantada em 1979, passou a ser flexibilizada em 2015 porque causou desequilíbrio de gênero e um rápido envelhecimento da população. Atualmente, a China até incentiva nascimentos, mas enfrenta declínio populacional devido a fatores como o alto custo de vida e mudanças culturais.

Outra iniciativa, esta cruel e perturbadora, tem o patrocínio do primeiro grupo social, de forma cada vez menos dissimulada: reduzir a população do planeta através da imposição da fome, da disseminação de pandemias, da promoção de guerras, genocídios etc.

Essa estratégia, no entanto, está fadada ao insucesso, como temos visto. Seu ponto irreversivelmente fraco é que as desgraças provocadas (miséria, doenças, conflitos, extermínios) não se restringem ao grupo-alvo (a massa empobrecida), mas impactam todas as camadas da população planetária, dado que a sociedade é um corpo intercomunicante e interdependente. A crise migratória está aí para provar este fato.

Voltamos à doutrina do meio-termo. Não há como negar que a Terra está plenamente ocupada por seres humanos, e que cada um desses bilhões de indivíduos faz jus ao seu quinhão na via do prosseguimento — esta é uma daquelas questões éticas e morais com as quais não podemos transigir. Como oferecer os meios para que esse compartilhamento equitativo de benefícios ocorra?

Só há um modo capaz de conciliar os três grupos sociais acima descritos: rompermos o ciclo vicioso da imaturidade (e alcançarmos aquilo que denomino de consciência cósmica, ou seja, pertencemos a este planeta mas estamos integrados ao universo) e, a partir desse novo patamar espiritual, harmonizarmos nossa convivência com a Terra, dela recolhendo o estritamente necessário (alimento, água, ar limpo, energias sempre mais renováveis, insumos estratégicos reutilizáveis e recicláveis, como minerais, por exemplo) para prover e avançar na via do prosseguimento.

Isto não nos garantirá vida eterna, mas nos dará a chance de um novo paradigma de felicidade.

A ironia é que só chegamos a este ponto porque alcançamos o limite.
 

Sem direito, nem tempo de errar

Nossa velocidade reativa precisa aumentar. Não se trata de sair às ruas distribuindo panfletos, ostentando cartazes e faixas, feito aqueles pregadores desvairados que empunham suas bíblias mal lidas e incompreendidas nas calçadas movimentadas. Nem mesmo é o caso de nos pendurarmos nas redes sociais, dissipando nossa energia ao disparar mensagens ineficazes ao léu.

Não. A velocidade começa na mente de cada um, nesse lugar onde tudo sempre tem e teve início. É na mente das pessoas que já compreenderam o estado caótico em que se encontra nosso planeta, e que se põem do lado certo da História, o lado que busca a harmonização da espécie humana, é nessas mentes que a reação primeiro se constrói.

De novo: aumentar a velocidade reativa é não esvaziar nossas potencialidades, não é enfraquecer nossas defesas espirituais. Não me refiro aqui a religiões, mas à genuína espiritualidade, aquela que está mais próxima do conceito de inconsciente coletivo que nos foi legado por Carl Jung (1875-1961), definido como “uma camada da psique que contém arquétipos ou padrões de pensamento e imaginação herdados por toda a humanidade, através de gerações”.

Essa “herança psicológica universal”, ou “memória comum que se manifesta em mitos, sonhos e símbolos semelhantes em diferentes culturas”, constitui a substância imaterial que, confirmada ou desafiada por nossa capacidade cognitiva, e então mobilizada e compartilhada, é o que pode nos levar à geração de novas materialidades e resultados efetivos.

Confirmar ou desafiar esses arquétipos é nosso dever como espécie em evolução. Mobilizá-los e compartilhá-los só depende de nossa convicção e vontade. Convicção para não esmorecer, mesmo reconhecendo o poder da monstruosidade que está em curso; vontade para não nos distrairmos com inevitáveis dificuldades, e não perdermos o foco de nosso objetivo.

Atribui-se a Buda (vivido no período de 563-483 a.C.) a lição de que “toda grande caminhada começa com um primeiro passo”. Na verdade, trata-se de uma metáfora que nos conduz não ao ato físico propriamente dito, mas à determinação de agir quando e sempre que as condições apropriadas estiverem postas. E isto ocorre a todo momento de nossa existência.

Quem é de cantar, que cante com a melhor técnica e emoção; quem é de falar e escrever, que escolha as palavras mais pertinentes e compreensíveis, para que a mensagem não se perca. Quem é de correr, que o faça com determinação e leveza; quem é marceneiro, padeiro, escriturário, jornalista, jardineiro, professor, médico, serralheiro, aluno, encanador, enfermeiro, advogado, balconista, pintor, entregador, todos, de qualquer profissão, de qualquer ofício ou atividade tenhamos em mente que o “primeiro passo” é a disposição de fazer sempre o nosso melhor.

A monstruosidade que está em curso nos empurra, como indivíduos e sociedade, para a displicência, o descrédito, a impotência, o medo, a desistência. É com esses ingredientes que ela nos submete, extraindo do nosso sangue, nervos, músculos a seiva capaz de nutrir as mais efetivas e eficazes ideias de luta que possamos elaborar — a monstruosidade embota nossas ideias, logo as ideias, onde tudo começa!

É urgente que aumentemos nossa velocidade reativa. Mas ela não pode ser aleatória, descoordenada, inconstante, ingênua e débil. Para sermos efetivos e eficazes, ‘é preciso estarmos atentos e fortes’, como já nos avisaram Gilberto Gil e Caetano Veloso em 1969, no canto incisivo de Gal Gosta. 

Não nos iludamos, porém. Muita desgraça ainda veremos e sofreremos pela frente. A monstruosidade está em pleno curso, apostando no aprofundamento de nossa fraqueza espiritual, festejando o individualismo, promovendo o ódio a serviço da ganância, à espera de nossa rendição. Não a deixemos passar! Não temos mais direito, nem tempo de errar.