Dois grandes pensadores, ambos russos, enfrentaram a pergunta “Que fazer?”. O primeiro foi Nikolai Tchernichevski (1828-1889), que escreveu seu livro em forma de romance, em 1863, contando a história de Vera Pavlovna, que se recusa a seguir um casamento arranjado e se junta a um grupo de jovens em busca de uma nova sociedade baseada em cooperativas e igualdade.
A obra inspirou revolucionários como Lenin, e teve grande importância no contexto da Revolução Russa. Sobre o herói do livro, Rachmetjev, o historiador inglês Orlando Figes publicou, em 1996, “A tragédia de um povo”, resumindo a obra de Nikolai. Aqui, um resumo do que Figes diz sobre o herói:
Este Titã monolítico que serviria de inspiração a uma geração de revolucionários (incluindo Lenin), renuncia a toda a alegria da vida para fortalecer a sua vontade sobre-humana e se tornar imune contra todo o sofrimento que a futura revolução trará forçosamente consigo. Ele é um puritano e ascético: numa certa ocasião chega mesmo a dormir numa tábua de pregos para oprimir o seu impulso sexual. Treina o seu corpo com ginástica e levantamento de peso. Não come nada que não carne crua e treina o seu raciocínio de forma semelhante, pela leitura de dia e de noite de ‘apenas o essencial’ (política e ciências naturais) até que ele se apoderou do conhecimento da Humanidade. Só então o herói revolucionário se inicia na sua missão. Nada o desvia da sua causa, nem mesmo os interesses amorosos de uma bela jovem viúva, que ele recusa. Ele leva uma vida rigorosa e disciplinada, com tantas horas de leitura, tantas com exercícios, etc. E (esta a mensagem da história) é apenas essa devoção que possibilita o novo homem a deixar para trás a existência alienada do velho ‘homem supérfluo’. Ele encontra a redenção através da política.
O “Que fazer?”, de Vladimir Lênin (1870-1924), foi publicado em 1902, na linha da pregação de Nikolai Chernyshevsky. Trouxe a noção de organização revolucionária como uma necessidade para o avanço das lutas proletárias, num contexto onde as diferenças no interior do Partido Operário Social-Democrata Russo se ampliavam. E buscou tratar de questões práticas para o movimento socialista não se perder em meio ao desmoronamento do regime tzarista. Confrontando-se com as vias do socialismo moderado e reformista, bem como com teorias liberais mais radicais, Lênin descreve qual a ação política necessária para dar um caráter revolucionário às transformações que ocorriam na Rússia de então.
Como um mantra destinado a produzir autoconvencimento, reafirmo a cada dia a decisão de não parar de tentar. Por aqueles que me são próximos e pelo dever que o fato de existir me impõe. E, como já escrevi em outro texto, é preciso tentar de forma consciente, ‘compreendendo, relativizando, superando as razões civilizatórias e amesquinhantes que nos trouxeram até este momento de caos, nacionais e planetário’.
A mim; a todos nós, os existentes, não é permitido abrir mão de tentar. Muitos, talvez a maioria, esteja desistindo, ‘entregando os pontos’, abatidos pelos reveses ou frustrados com breves êxitos. Sim, os pequenos êxitos embalam erros, turvam nossa visão, enganam o julgamento.
Talvez essa teimosia — a de tentar — venha a ser igualmente uma covardia, uma imodéstia, uma arrogância, uma pretensa superioridade moral. Talvez. Mas ainda que seja assim, nega-la não é uma opção, pois tenho intimamente a visão, o pressentimento, a intuição — ou, quem sabe, apenas a esperança — de que algum caminho factível exista.
Não são Nikolai Tchernichevski (com sua abordagem romântica) e Vladimir Lênin (com sua prática revolucionária) que embalam minha visão. Penso que estou mais próximo das ideias do pensador italiano Pietro Ubaldi (1886-1972), que no livro “Profecias”, de 1953, explicita o futuro possível:
“E, dado que a vida é sempre luta contra algum inimigo que obstaculiza a emancipação, desta vez o inimigo não será mais o próprio semelhante que vamos agredir, mas a nossa própria natureza animalesca, para superá-la e vencê-la. Como se vê, guerra contra ninguém, mas apenas contra as inferiores leis da vida, que ainda sobrevivem no homem, com o fim de sobrepujá-las. A emancipação da animalidade — eis a nova conquista; ou seja, um ‘requintamento’ de vida, não só na forma de fidalguia exterior, mas na substância, que é uma atitude psicológica de compreensão para com o próximo, de ordem na vida social, de bondade para com todos os seres. Embora tudo isso possa parecer utopia, não há outro futuro, se quisermos que haja verdadeiro progresso. Esta é a nova ordem do mundo.”
[As passagens em itálico foram extraídas de verbetes da enciclopédia livre digital Wikipédia.]