Se compararmos o cérebro humano com um computador, sua capacidade de armazenar informações seria algo em torno de 2,5 petabytes (ou 2,5 quatrilhões de bytes), sabendo-se que um byte corresponde a 8 bits (ou seja, oito combinações de 0 ou 1, equivalente ao corte ou passagem de energia, respectivamente), onde é possível armazenar um caractere ou uma instrução computacional.
Mas não está no potencial estimado de armazenar 2,5 quatrilhões de instruções computacionais, ou caracteres, que reside o valor maior do nosso cérebro. O que o distingue da máquina símbolo deste milênio é a habilidade de priorizar e relacionar memórias de forma complexa, bem como sua alta plasticidade neural (capacidade de se adaptar e mudar estrutural e funcionalmente ao longo da vida, em resposta a novas experiências, aprendizado, ambiente, ou lesões).
As informações apreendidas pelo cérebro proveem dos nossos cinco sentidos, mas não se tratam de dados brutos, burros. Ao contrário, eles se vinculam a sensações ambientais e objetivas, e a fatores subjetivos (memórias, contextos, sentimentos, importância, prioridade etc), além de se relacionarem e de estarem submetidos à crescente capacidade cognitiva da espécie humana, bem como a essa entidade mental denominada intuição, ou “sexto sentido”.
Se é verdade que nosso cérebro é um ente biológico incomparável (eu diria que é a nossa vinculação direta com o Cosmos), por que então alimentamos o temor de que a chamada Inteligência Artificial (IA) — ferramenta lógica material, terrena, baseada na compilação e organização do acervo de informações elaboradas ao longo da História pelo nosso próprio cérebro — venha a ‘dominar o mundo’ um dia?
Penso que o temor, aqui, não é quanto à capacidade da IA oferecer soluções práticas de forma mais rápida que nosso cérebro, quase instantâneas, em atendimento às necessidades cotidianas de cada um, ainda que extinguindo profissões e provocando desemprego em massa (o que numa situação extrema poderá ser minorado, por bem ou por mal, através de políticas públicas de distribuição de renda). Nosso medo quanto ao futuro da IA decorre de dois outros fatores essenciais, e já intuídos:
a) Que essa ferramenta deflagre no médio e longo prazo um processo de regressão intelectual da espécie humana, em decorrência de deixarmos de exercitar nossas habilidades físicas e capacidades cognitivas, com reflexos negativos sobre as competências futuras da própria Inteligência Artificial, que passaria a se alimentar de falsas informações, degradando assim todo o sistema em que ela, a IA, se sustenta;
b) Que essa ferramenta venha a ser capaz de espelhar o modo humano de existir, auto desenvolvendo-se e finalmente criando seus próprios padrões de comportamento, calcados não na identificação intelectual, relativista e afetiva, a chamada empatia, mas no utilitarismo e indiferença em relação ao outro, porque, afinal, o outro será um não-indivíduo, tão somente um replicável.
Nesse segundo cenário, teremos (ou teríamos) a paulatina substituição dos indivíduos humanos imaturos de hoje (insuficiência emocional que temos sido incapazes de superar, embora, reconheçamos, nunca tenhamos de fato tentado), por não-indivíduos emocionalmente indiferentes em relação aos seus semelhantes, atuando — na melhor das hipóteses — em favor de uma relação harmoniosa com o planeta, mas sem a compreensão do valor desse comportamento. Pela simples razão de serem destituídos de sentimentos.
A escrita é a grande invenção. Foi a escrita, na verdade, aquilo que transformou um certo ser irracional em humano, esta espécie que domina o planeta para o bem e para o mal. Com a escrita, apenas, este blog se propõe a analisar e opinar sobre alguns dos principais temas da atualidade, no Brasil e no mundo, como qualquer cidadão faz ou deveria fazer. Meu nome é Oswaldo de Mello. Sou jornalista.