As pessoas que aqui vêm espontaneamente votarão no Lula para Presidente, e em candidatos progressistas para os demais cargos em disputa nas eleições de 4 de Outubro — disto não tenho dúvida, pois só os idiotas e os corrompidos de corpo e de espírito são capazes de escolher o outro lado dessa disputa. Mas, como este blog é acessado eventualmente por pessoas distraídas, que parecem viver no mundo da lua, quero me dedicar hoje a refletir sobre a importância histórica da próxima eleição presidencial brasileira. Para não perder tempo, recorro em essência a um texto meu do começo de 2024:
Tomando-se o entendimento de que os séculos são apenas uma convenção, um recorte temporal arbitrário da História grande (a cósmica, de onde se origina a materialidade e o espírito humano) e da História pequena (esta, em que os humanos existem e agem), ouso afirmar que o brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva é exatamente isso: o homem de um século que, a meu critério, se iniciou na primeira metade dos anos 1900.
Os mais céticos, e principalmente aqueles que sofrem de complexo de inferioridade, hão de perguntar: Mas, por que seria ele merecedor de tal distinção? Simples: porque Lula é um sábio intuitivo e prático dedicado ao difícil campo da Política, a arte de exercer o poder e a mais importante ferramenta em prol da conciliação da nossa espécie. E porque realiza esse seu trabalho com sabedoria, num período singular, de inflexão civilizacional, em que esse tipo de qualidade mais necessária se faz.
Lula não está lá nas alturas tibetanas, confinado a um templo, jejuando e orando pela salvação da Humanidade. Ele está entre nós; é um ser do mundo, frequenta a planície da vida pública nacional e planetária, expõe-se a todo tipo de crivo, e mantém uma irretocável coerência, mesmo quando (aos olhos de seus críticos mais ferrenhos) erra.
Ah, mas desta forma você está pintando um deus, alguns poderão dizer. Bom, esse é o x da questão: Lula não é um deus no sentido religioso, ou mesmo mitológico, apartado das vicissitudes humanas. No entanto, ele e seres como ele encarnam a essência do ser humano ideal, aquele que compreende e assume um compromisso com o futuro, sabendo que podem e devem agir no presente, com o máximo de flexibilidade e o mínimo de erro.
O método de Lula da Silva é bem conhecido: ele acumula conhecimentos práticos (os teóricos, resultantes de suas leituras e conversas, ele mastiga, processa e os utiliza para enriquecer sua capacidade intuitiva) e se movimenta em sintonia com a realidade que está à sua volta. Ele não briga com os fatos da vida, pois sabe que estes são sempre dinâmicos e multifacetados.
Sua meta intuitivamente construída e consolidada, que se apoia nos sempre citados conselhos de sua mãe, Dona Lindú (referência de força/perseverança e, não por acaso, uma pessoa de carne e osso, e não uma construção mental), é a busca do primado da condição humana. Para quem ainda não sabe, isto significa dizer que Lula da Silva combate o melhor combate que todo ser humano pode combater: a luta pela continuidade da nossa espécie, preservando condições dignas a todos, sem exceção.
Os indivíduos engajados nessa guerra cósmica, juntamente com Lula da Silva, não pensam (apenas) em si e nos seus. Pensam no gênero humano e, ao mesmo tempo em que momentaneamente se desesperam frente às incompreensões, e que às vezes se abatem diante das fraquezas de seus semelhantes, sabem relativizar tais falhas e falsetas, delas extraindo o ânimo, o combustível para perseverar no caminho; talvez apressando ainda mais o passo.
Graças às conjunções cósmicas, neste século de Lula da Silva é possível falar dessas coisas sem causar muita estranheza, tão desesperadas estão as pessoas em todos os cantos da Terra. Desesperadas e ansiosas por encontrar um sentido para suas vidas e uma razão para as dores e os desafios que a existência e o cotidiano lhes/nos impõe. E a Grande Nova, como diriam os cristãos, é que nada mais resta a ser dito; o que nos cabe agora, enfim, é exercitar a nossa relativa cota de livre arbítrio da forma que nos for possível, da forma como Lula da Silva faz.
Felizmente, e infelizmente, o homem deste século teve e tem tido a oportunidade de ocupar posições de poder, o que lhe permite pôr em prática a sabedoria intuitiva que ele vem construindo e aprimorando. O ‘infelizmente’, aqui, se refere ao fato de que no exercício dessas ‘posições de poder’ ele precisa lidar como a realidade cambiante e multifacetada, estando sujeito a desgastes e incompreensões.
Mas esse ‘infelizmente’, além de incontornável, também é relativo, porque, ao avançar apesar dos ‘desgastes e incompreensões’, Lula da Silva é didático e, ao mesmo tempo — como me referi acima —, ganha forças para os passos seguintes rumo ao objetivo de construir o primado da condição humana. Esse indivíduo não é um deus — isto não existe! Ele é um exemplo, um revolucionário exemplo ao alcance dos sentidos e da compreensão de todos.
O Brasil desta primeira metade do século XXI precisa de Lula da Silva. E digo mais: graças ao Cosmos esse indivíduo existe neste instante planetário. E ainda bem que ele é brasileiro, embora, de um ponto de vista pietro-ubaldiano, talvez ele só pudesse mesmo ter surgido no Brasil, esta terra de tanta miscigenação, riquezas e possibilidades (e que há não mais de quatro anos passou por uma desafiadora prova de fogo, que foi a tentativa de destruição de sua condição transcendental).
Pietro Ubaldi (*), acima referido, explicita em seu livro “Profecias”, de 1953, o futuro possível a que sempre me refiro: “E, dado que a vida é sempre luta contra algum inimigo que obstaculiza a emancipação, desta vez o inimigo não será mais o próprio semelhante que vamos agredir, mas a nossa própria natureza animalesca, para superá-la e vencê-la. Como se vê, guerra contra ninguém, mas apenas contra as inferiores leis da vida, que ainda sobrevivem no homem, com o fim de sobrepujá-las. A emancipação da animalidade — eis a nova conquista; ou seja, um 'requintamento' de vida, não só na forma de fidalguia exterior, mas na substância, que é uma atitude psicológica de compreensão para com o próximo, de ordem na vida social, de bondade para com todos os seres. Embora tudo isso possa parecer utopia, não há outro futuro, se quisermos que haja verdadeiro progresso. Esta é a nova ordem do mundo.”
(*) Pietro de Alleori Ubaldi nasceu em Foligno, Itália (18 de agosto de 1886) e morreu em São Vicente, Brasil (29 de fevereiro de 1972). É definido, de forma insuficiente, como “um filósofo e pensador espiritualista”.