O pulso do tempo

Em sua origem ele não se revelou monstruoso, e na verdade não era. Tratava-se de um jovem cortês, afável, descendente das mais antigas linhagens do Império Britânico, recém-retornado da guerra do Afeganistão, de onde trouxe lembranças que assombravam suas noites. Não era um monstro, mas o que veremos a seguir talvez revele a construção da monstruosidade, aquela que se torna inevitável pelas circunstâncias e que pode definir um pouco este tempo desesperado em que vivemos.

O pai desse jovem, para enfrentar a decadência financeira — que se abatera, de resto, sobre toda a aristocracia inglesa desde a Grande Depressão Agrícola do final do séc. XIX —, passara a alugar as propriedades da família para o cultivo de marijuana — verdadeiras fazendas foram instaladas no subsolo escavado de suas terras. Quando o velho morreu, ciente do ‘milagre’ que havia possibilitado recuperar o padrão de vida familiar, o jovem nobre decidiu expandir o modelo de negócio para as terras de outros aristocratas falidos espalhados pela Europa.

Na véspera de seu casamento com uma suave e bela condessa italiana, afilhada de um capo mafioso com quem o jovem inglês negociava (neste século XXI, a crise da aristocracia se estende a toda a Europa, e não é raro que seus membros liderem ou se associem a atividades ilícitas), o nobre feito gângster aceita se confessar com o sacerdote que oficiaria a cerimônia. Ele ingressa na igreja, entra no confessionário, e mantém o seguinte diálogo:

Bom dia, filho.

—Buongiorne, padre.

Quero garantir que tudo que disser hoje para mim está sob o sigilo da confissão.

—Certo.

Então, por que acha que Isabella pediu que viesse?

—Ela deve achar que eu quero desabafar sobre certas coisas.

Coisas?

—Sim. Principalmente porque matei um homem.

Entendo. Quando isso aconteceu?

—Ontem à noite.

[Na verdade, tratou-se de um indivíduo que na juventude convivera com Isabella e, durante a festa da véspera do casamento, assediou-a, foi expulso do local e, quando o nobre gangster o procurou no quarto, exigindo desculpas, voltou a ofender duramente a moça, levou um soco no queixo, bateu a cabeça na quina de uma mesa e ali morreu. Não houve testemunhas, nem escândalo, porque o padrino da noiva se encarregou de dar sumiço ao corpo, sem que nenhum convidado soubesse do ocorrido.] 

O clima muda no confessionário. O padre está surpreso, incomodado com a revelação. Tira os óculos.

É, de fato, um grande pecado, diz.

—Claro.

Mas você veio pedir perdão?

—Bem, antes de chegarmos ao perdão, padre, e já que estou aqui, tem mais algumas coisas que eu quero contar.
 
Continue, por favor.

—Obrigado. Bom, também teve o homem que matei no conjunto habitacional, mas esse foi legítima-defesa; e o H.C., que foi a sangue-frio, mas ele definitivamente mereceu. De todos, o contador é o que mais me deixa em dúvida. Mesmo assim, não havia outra opção, sabe? Quanto aos afegãos, eu estava em combate, numa guerra, então seguia ordens.

Mais chocado ainda, o padre o questiona:

Sinto uma falta de remorso na sua voz?

—Não, padre, não. Tirar vidas humanas sempre traz remorso. Por isso, estamos tendo esta conversa. A questão com a qual eu luto é como eu presto contas por esse remorso.

Mas você entende que assassinato é pecado? O sexto mandamento declara que não devemos assassinar.

—Acho que o original em hebraico diz simplesmente que não devemos matar: NÃO MATARÁS.

Parece que você conhece bem as Escrituras.

—O suficiente para saber que há uma contradição nesta declaração. O Eclesiastes diz: “Tempo de semear, tempo de colher, tempo de curar, tempo de matar”.

Não, não. É importante que não distorça a palavra de Deus para justificar suas ações. Você deve pedir perdão a Deus!

—Para esclarecer ambiguidades, padre, quando usa a palavra “Deus”, de qual aspecto de Deus falamos? Da estrutura externa, ou da essência interna? Podemos esclarecer a delimitação, para avançarmos com eficiência?

Não sei se entendi a pergunta.

—Bem, um aponta para fora, e o outro aponta para dentro. Ou você é responsável por suas ações, ou terceiriza a responsabilidade por elas para um conveniente agente de salvação.

Confuso, o padre pergunta:

E o que seria esse agente?

—Na verdade, pode ser qualquer coisa. Cocaína, prostitutas, dinheiro, heroína, Jesus, Maomé, ou, inconvenientemente, Deus.

Mas Deus é o Ser Supremo.

—Mas essa não é a questão, padre. Só estou questionando o local do Ser Supremo.

Está comparando heroína com Deus...

—Com certeza mais pessoas morreram pelo álibi externo de Deus, do que pelas sensações estimulantes da heroína. Como reconciliar essa contradição, se quisermos assumir de fato nossa responsabilidade?

[Silêncio]

—Vou deixar o senhor pensar, padre, e podemos conversar mais, depois. Arrivederci! 
 despede-se o nobre gangster, deixando o confessionário para encontrar a noiva que o esperava no carro em frente à igreja, sem atender os pedidos do padre para que ele volte ao confessionário.

Pergunto:

Onde, nesse episódio extraído de uma série de streaming, está a construção da monstruosidade a que me referi no começo? Está na banalização da morte imposta a terceiros, do assassinato autojustificado, e não por um indivíduo proveniente da classe dos destituídos, mas por um jovem cortês, afável, um aristocrata culto e plenamente capacitado, e capaz, de estabelecer limites às suas ações.

A degradação ética e moral que avançou sociedade adentro, nestes tempos, resulta, a meu ver, de uma crise mais profunda e antiga: nosso sentimento de impotência frente a uma realidade que não mais se justifica, nem mesmo (e principalmente) do ponto de vista espiritual. Perdemos de vez a inocência; nossas esperanças estão desacreditadas; vivemos no hoje, pelo hoje, para o hoje. E não sob o prisma filosófico, mas do ponto prático, utilitarista, interesseiro.

O fato é que — e lá venho eu com meu bordão! —, enquanto nossa capacidade cognitiva não der conta do Desconhecido — o que jamais ocorrerá, pois a estrutura do cérebro humano evoluiu para garantir a sobrevivência em ambientes práticos e imediatos, o que lhe impõe barreiras biológicas para compreender fenômenos abstratos, de escalas infinitas e incalculável complexidade sistêmica — nada restará, além de nos rendermos ao entendimento mediano.

Aceitar o inalcançável — ou seja, a impossibilidade de conhecermos as forças e energias que superam os limites do mundo físico e da experiência comum — é, portanto, a constrição realista, conformada, mediana dos humildes. O problema começa quando, traídos pela arrogância, reivindicamos o direito de criar sistemas de intermediação entre nossa restrita racionalidade e o Desconhecido. Essa tem sido a inútil busca que empreendemos, ou talvez a má sina humana consubstanciada na edificação das religiões — todas as religiões.

Interpor entre nossas limitações biológicas, e o ilimitado Desconhecido, uma instância fundada em dogmas e fé, na esperança de que esse subterfúgio mental aquiete nossa primitiva insegurança, é o que nos aprisiona a este estado de permanente imaturidade. A pompa e a circunstância das crenças institucionalizadas não as redimem do pecado capital resultante de sua intrínseca desonestidade. Todos os credos vendem esperança, embora estejam cientes de que não possuem o poder de entregá-la. Por isso, o que têm produzido, por milênios, não passa de um sofisticado estelionato existencial.  

Mudando de assunto:

Logo após sua invenção, percebeu-se que a cinematografia era um eficiente meio para contar histórias a um público maior do que o do teatro. Ali, ao terminar o século XVIII, inaugurava-se uma indústria que viria revolucionar o modo como as sociedades passariam a comunicar fatos, ideias e desejos — o cinema.

Até o final da década de 1960, a magia cinematográfica se dava em salas onde um público heterogêneo fruía histórias ficcionais e acompanhava relatos jornalísticos. Tudo se resumia a sensações simplificadas experimentadas em grupo. As análises formais e as reflexões estéticas cabiam a críticos, uma nova atividade profissional adotada por jornais e revistas.

Em meados dos 1970, com o advento e popularização de dispositivos reprodutores de vídeos gravados em fita, teve início a primeira grande mudança naquela indústria: os filmes podiam ser assistidos repetidamente por uma única pessoa, libertando esse indivíduo das grandes salas e suas catarses inibidoras da racionalidade, capacitando-o a desenvolver suas próprias e tranquilas reflexões. As salas de cinema entraram em decadência, até quase desaparecerem.

Nas primeiras décadas deste século XXI, com a internet e o barateamento dos computadores, as fitas de vídeo cederam lugar aos serviços de streaming, onde toda produção áudio-visual está disponível sob demanda (inclusive os filmes mais antigos), diretamente na tela de sua preferência.

Em pouco mais de 200 anos, portanto, a cinematografia mudou de formato, sem perder seu histórico valor como instrumento de disseminação cultural. Se alguém quer sentir o pulso do nosso tempo, basta conectar seu smartphone, laptop, desktop ou smart Tv, e assistir filmes, séries ou documentários em serviços de streaming gratuitos ou pagos. Até mesmo as piores produções têm algo a nos ensinar.

De volta ao começo:

A incapacidade cognitiva de darmos conta do Desconhecido — forças e energias que superam os limites do mundo físico e da experiência comum —, bem como nossa submissão a dogmas e crenças, estão abertamente expostas em vídeos sob demanda. Nem sempre com clareza, qualidade e profundidade reflexiva, mas, sem dúvida, o debate está presente aí. Inclusive, e principalmente, a crise ética e moral que se estabeleceu em todos os estratos da sociedade.