No seu pronunciamento de abertura da 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em 22 de setembro de 2026, Luiz Inácio Lula da Silva, Presidente do Brasil, definiu como “gestos anacrônicos” a divisão do mundo em zonas de influência e as investidas neocoloniais por recursos estratégicos. Vamos examinar melhor essa afirmativa, mas, desde já proponho que a mesma definição se aplique às críticas que inúmeros pensadores, do alto de suas meritórias boas-intenções, fazem hoje ao avanço das Inteligências Artificiais (generativa e geral).
Onde o anacronismo geopolítico e o intelectual se equivalem?
A resposta ao primeiro parece evidente: as relações de força entre as nações hegemônicas vêm mudando radicalmente nos últimos trinta e seis anos, e de forma dramática na última década. Neste exato 2026, ninguém em sã consciência, especialmente quem se arvora à condição de líder, tem o direito de afirmar que o mundo bipolar persiste.
Não, não persiste.
A divisão do mundo em dois sistemas antagônicos (capitalismo x socialismo) começou a se enfraquecer lá pelo final da década de 1980, com a Queda do Muro de Berlim, sendo consumada em 1999, com a nomeação de Vladimir Putin, chefe do Serviço Federal de Segurança, para primeiro-ministro da Federação Russa. A recuperação do poderio militar, junto com a relevância geopolítica daquele país, iniciou-se ali. Não mais como um Estado socialista, antagônico ao capitalismo, mas lastreado no caráter resiliente, altivo e guerreiro de seu povo.
O que temos agora, portanto, não é antagonismo, mas a célere construção de um mundo multipolar, sob a sombra de um poderio nuclear distribuído por várias nações, com destaque para os Estados Unidos da América, a Federação Russa e a República Popular da China. Frente a este novo mundo, o melhor dos cenários possíveis é que ele venha a ser cooperativo, e o pior é que se torne crescentemente disruptivo.
Cooperativo, se todos os países do planeta — que em essência é uma única comunidade — compreenderem que o intercâmbio étnico as fortalece, tanto quanto a tolerância (no sentido de estarmos dispostos a ouvir ou aceitar ideias, opiniões ou atitudes diferentes ou opostas às nossas). E, tendo incorporado essas compreensões, passarem a atuar em harmonia com o propósito maior, qual seja, o amadurecimento espiritual da espécie humana.
Disruptivo, como já vem ocorrendo, se insistirmos — por ignorância e/ou soberba — nos anacronismos acima referidos. A disrupção ocorre porque as guerras por zonas de influência e pelo estabelecimento de um neocolonialismo por recursos estratégicos, que se complementam, estão irremediavelmente perdidas. Não reconhecer este fato só contribui para amplificar a barbárie (ódio nas redes, desesperança, suicídios, violência nas ruas, extremismo político, genocídios, eclosão de epidemias e desastres ambientais provocados por negacionismo científico etc.) e, assim, estender a agonia planetária. Para o bem, ou para o mal, esse jogo acabou.
O outro anacronismo é o intelectual. E este é mais delicado, pois diz respeito ao pensamento e às ações de indivíduos reconhecidamente inteligentes, de boa índole e bem-intencionados.
Em resumo, trata-se do seguinte: não há como interromper o avanço do conhecimento científico e, por decorrência, o fluxo de sua aplicação tecnológica. O que hoje denominamos de Inteligências Artificiais (generativa e geral), e que poderia ter qualquer outro nome, é um fato consumado. Tanto quanto o foram o desenvolvimento da linguagem, a invenção da escrita, a descoberta do princípio da alavanca, a criação dos tipos móveis de impressão, e tudo mais que nos trouxe até este momento na História.
Se o uso disseminado e em evolução das IAs geram impactos ambientais e cognitivos inaceitáveis, haveremos de cobrar do próprio conhecimento científico as soluções necessárias. Ainda que, de acordo com a Escala de Kardashev, nossa espécie esteja fadada a parar no ponto em que nos encontramos: a Civilização do Tipo 0 (aquela que extrai sua energia de fontes brutas e orgânicas de seu planeta natal, como combustíveis fósseis, madeira e carvão, em vez de dominar toda a energia planetária).
Por enquanto, segundo Carl Sagan, ainda não ultrapassamos o nível 0,73, pois centenas de anos nos separam da obtenção dos conhecimentos científicos e ferramentas tecnológicas que nos possibilitarão controlar toda a energia deste planeta, como o clima e os oceanos.
Se e quando formos capazes de superar os anacronismos geopolítico e intelectual que persistem, então, sim, teremos uma chance de almejar o Tipo I proposto pelo astrofísico russo Nikolai Semenovich Kardashev (1932-2019): aproveitamento e domínio de toda a energia disponível na Terra (cerca de 10¹⁶ watts), incluindo a solar, eólica, geotérmica e a gerada pelos fenômenos naturais, como o clima.
O que não podemos sequer sonhar são as civilizações dos tipos II (a que captura toda a energia irradiada por sua estrela hospedeira) e III (aquela capaz de controlar a energia de sua galáxia, a Via Lactea, que engloba bilhões de estrelas). E não podemos porque, neste caso, já não seríamos humanos e, muito antes disso, nosso planeta já teria sido consumido pela Gigante Vermelha em que se transformará o nosso Sol.
Por não podermos e, eticamente, não devermos tentar interromper o avanço do conhecimento científico — e, em decorrência, impedirmos o fluxo de sua aplicação tecnológica — é que temos de prestar atenção aos alertas de Luiz Inácio Lula da Silva, na ONU. E não só àqueles relativos aos anacronismos geopolíticos, mas igualmente, por similaridade, aos intelectuais, esses que buscam nos cativar com argumentos (quase reacionários) em defesa do banimento das Inteligências Artificiais.
As IAs não devem ser banidas, nada voltará atrás, nada será como antes. O que o conjunto das nações, o mundo multipolar e cooperativo precisa e deve fazer, com urgência, é controlá-las, determinando que essa tecnologia trabalhe em prol do interesse humano. Única e exclusivamente.
A escrita é a grande invenção. Foi a escrita, na verdade, aquilo que transformou um certo ser irracional em humano, esta espécie que domina o planeta para o bem e para o mal. Com a escrita, apenas, este blog se propõe a analisar e opinar sobre alguns dos principais temas da atualidade, no Brasil e no mundo, como qualquer cidadão faz ou deveria fazer. Meu nome é Oswaldo de Mello. Sou jornalista.