Coisas necessárias (*)

Os fracos inventaram a moral para não serem esmagados pelos fortes, estabelecendo com isso os fundamentos da civilização ocidental, incluindo o conceito e a prática do humanismo. É isto o que nos diz Friedrich Nietzsche, para quem desde o advento do método científico Deus está morto, ou seja, perdeu-se a fé na religião, caíram os valores morais tradicionais, e o mundo moderno decretou o fim da verdade absoluta.

Ao gênero humano, segundo o filósofo, só resta enfrentar o vazio do niilismo, assumir a responsabilidade de criar seus próprios valores e buscar a superação de si mesmo rumo ao além-do-homem. A sociedade não mais precisa de uma base divina para explicar a vida, ou ditar regras de certo e errado.

Devemos afirmar a vida terrena, em vez de esperar por um mundo ideal ou espiritual após a morte, diz Nietzsche. O homem atual é uma ponte entre o animal e algo maior. Esse é o super-homem, aquele que suporta a ausência de Deus, aceita a realidade sem ilusões e vive com intensidade plena, dando sentido próprio à sua existência, conclui ele. 

A impactante formulação nietzschiana, no entanto, não faz inteiro sentido. Ela serve para justificar o estado de esquizofrenia — acreditar em Deus e, ao mesmo tempo, prestar reverência à máquina — instalado no espírito do homem moderno desde o boom das ciências. Mas essa genealogia da moral não dá conta dos conceitos de fraqueza e força (física ou mental).

Se os valores de bem e de mal, sobre os quais se aplicam força e fraqueza (a virtude, a vitória e o sucesso expressam o bem, a força; o pecado, a derrota e o fracasso expressam o mal, a fraqueza), foram ‘apropriados’ pelos formuladores das religiões (com destaque para o judaísmo e o cristianismo), engendrando a ideia da bondade interesseira dos fracos (o Reino de Deus exalta os que confiam na justiça divina e não na força humana, ensina a Bíblia) e promovendo a humildade e a igualdade, isto não esvazia a essencialidade dos conceitos de força e fraqueza.

Que é essência é essa?

A essência do que é universal. Embora muitos, como o próprio Nietzsche, não aceitem essa ideia, argumentando que força e fraqueza variam no tempo conforme o sistema histórico de pensamento, o fato é que essa é uma visão restrita, aplicável exclusivamente ao aspecto egoísta das relações humanas. Força e fraqueza não dizem respeito apenas à luta social. Sua universalidade está presente em todos os embates: na física, na química, no tempo, no espaço, e também no direito humano de viver.    

Assim como a matemática — que existe apesar dos homens, embora estes dela dependam —, a fraqueza e a força não foram inventadas ou apropriadas por nós. Elas estão aí, são fatos da natureza, integram o universo das coisas existentes, manifestam-se nas espécies imperfeitas como a nossa, e em tantas outras que tenham existido, existam, ou venham a existir. Nesse sentido, assim como o indivíduo forte não é detentor de nenhum mérito, nem pode ser objeto de privilégios ou adoração, o indivíduo fraco (física ou mentalmente) não é um inútil, um dispensável, alguém a ser deixado para trás na luta pela sobrevivência. E a razão disso é prática (ou moral, como queiram): esse indivíduo também é, potencialmente, um super-homem.

Quem pode provar o contrário? 

Tenho em mente o astrofísico teórico e cosmólogo inglês Stephen Hawking (1942-2018), diagnosticado aos 21 anos com uma doença neurológica progressiva, que acabou por paralisá-lo por completo, inclusive o impedindo de falar. No final da vida, a única forma dele se comunicar era através de um dispositivo eletrônico acionado por um único músculo da bochecha.

Apesar dessa fraqueza física, numa demonstração de força Hawking desenvolveu consistente carreira como professor de Matemática, em Cambridge, Inglaterra (na cadeira antes ocupada por Henry Lucas e Isaac Newton); dirigiu o Centro de Cosmologia Teórica daquela instituição; publicou vários livros fundamentais em colaboração com Roger Penrose, por exemplo; e foi o primeiro a apresentar uma teoria da cosmologia explicada pela união da teoria da relatividade geral e da mecânica quântica.

Esse ser humano frágil, incapaz de erguer um braço em sua defesa, foi um fraco, do ponto de vista nietzschiano? Claro que não! Mas alguém pode alegar que Nietzsche não se referiu a esse tipo de fraqueza, quando defendeu que a moral (o terreno onde se praticam os valores do bem e do mal) foi um ardil inventado pelos mais fracos para se proteger dos mais fortes. Nesse conveniente sentido, Hawking então não seria um indivíduo fraco, mas alguém que se provou mentalmente forte, digno de frequentar o panteão dos protegidos.

Muito bem. E se no conjunto dos 8,2 bilhões de seres humanos que compõem hoje a população do planeta houver uma dezena, uma centena, um milhar de potenciais hawkings anônimos, ignorados, condenados à morte precoce por desnutrição ou terríveis doenças? Não deveriam esses indivíduos terem a oportunidade (moral) de exercitarem seus talentos em prol da Humanidade, tanto quanto fez Hawking, um inglês privilegiado, filho de médicos? E quem resgatará, da anunciada morte de Deus, tais indivíduos desafortunados e débeis? Teremos de ignorá-los, desconhecer suas existências, deixar de ampará-los apenas porque são socialmente desfavorecidos e fracos?

Não vejo coerência e, principalmente, utilidade nisso para o avanço de nossa espécie. A moral — e a aplicação dos conceitos de bem e mal —, como instrumento de defesa da maioria (os mais fracos) contra a minoria (os mais fortes), certamente foi apropriada pelas religiões, pois é assim que os sistemas de manipulação do espírito humano agem. Mas isto não significa que o conceito amplo de moral não pertença ao Universo. Ele pertence. Está na categoria das coisas práticas e necessárias.

Necessárias e práticas porque servem ao avanço da experiência humana.

(*) Alguns leitores me questionam sobre a ‘importância e/ou a utilidade’ do que publico. A esses eventuais interessados digo que, de modo geral, procuro refletir e escrever sobre assuntos que afetam a vida de qualquer um. Não se tratam de abstrações teóricas, hermetismos, exibicionismos. Se não consigo me fazer entender, certamente é por incompetência, mas continuarei tentando.

A postagem de hoje, por exemplo, teve grande chance de entrar para o rol dos textos inúteis e, eventualmente, difíceis de serem lidos. Explico: ele diz respeito ao humanismo (corrente filosófica, cultural e ética que coloca o ser humano, sua dignidade, sua razão e seus valores no centro das atenções), conceito que é um avanço civilizacional e, por isso, precisa e deve ser praticado, aprimorado e defendido. Espero ter sido melhor sucedido.

Ignorantes e boçais

Admirável Mundo Novo, o suave Estado Mundial provedor da vida sem sofrimento, da eterna, passiva e manipulada satisfação, escrito em 1931; e 1984, o Estado Policial, o grande irmão, o opressor que tudo vê, controla e pune, de 1949, constituem os mais contundentes alertas que o século passado nos alegrou, através daqueles visionários ingleses.

Longe das distopias vislumbradas por Aldous Huxley e George Orwell, e apesar de imensamente respeitar e entender o momento histórico de suas percepções, o que enxergo hoje, como possibilidade existencial para o futuro da Terra, não se relaciona à ideologia+política (visão de Orwell) ou à existência+tecnologia (visão de Huxley), mas à depuração de todas as nossas insuficiências através da emancipação do ser humano como um espírito cósmico capaz de se expressar em matéria dotada de inteligência.

Esse ser humano espiritualizado em matéria não é o que vive sob o patrocínio de um poder planetário provedor de soma, a droga do aquietamento e do fim da individualidade; e também não o que sobrevive sob o tacão de um Estado impositivo e censor. O emancipado é o que retoma o passo civilizacional perdido, esse que aponta para o entendimento (não religioso) de nossa inserção cósmica e incorpora nosso pertencimento (não predatório) a este planeta. Esse ser amadurecido é e será capaz de conviver com suas fraquezas físicas e mentais, pelejando para superá-las em cooperação com seus semelhantes.

Não é, e não será, um ser separado em castas estabelecidas ainda em seu indefeso estágio embrionário, ou forçado a desempenhar o papel que o totalitarismo lhe impuser. O ser emancipado que imagino incorpora as habilidades mentais e físicas de sua única e particular genética e circunstância de existência; compreende e se adapta às possíveis insuficiências de suas condições natas; insere-se na sociedade como um indivíduo produtivo, gerador de ganhos para sua comunidade.

As relações com seus semelhantes não estarão condicionadas por uma droga que o aquieta e satisfaz, ou pela insegurança, o medo e a subordinação, mas pela troca interpessoal de estímulos voltados ao aprimoramento mútuo da condição existencial de nossa espécie — sim, porque não estaremos submetidos a uma igualdade de classes utilitarista determinada desde o berço, nem socialmente definidos conforme o comprometimento de cada um com os interesses do poder.

Troca interpessoal de estímulos é e será o oxigênio permanente do processo emancipatório, porque os seres humanos continuarão nascendo com carências, insuficiências e ambições a serem perseguidas, dado que não haverá um Estado Mundial a projetar sua genética, nem um Estado Policial supressor daqueles menos dotados.

O afeto não será trocado pela sexualidade desinteressada, estimulada como recreação alienada de uma Sociedade, ou pela relação carnal vigiada e consentida em prol da perpetuação de um Estado. Expostos às circunstâncias, atraídos por seu estrogênio e testosterona, hormônios que a natureza os dotou, mulheres e homens continuarão se apaixonando, vivamente inclinados a gerar descendentes, o que também é uma aposta inconsciente no futuro da espécie.

Esses, em linhas gerais, são os atributos do ser humano emancipado, em contraposição aos indivíduos vislumbrados por Huxley e Orwel. Entendo que, muito mais do que prever ou profetizar, ambos dedicaram o poder de suas mentes para nos alertar para os horrores que se desenhavam no futuro, à luz das tendências apontadas em suas épocas.

Pois o futuro chegou. E está se revelando uma cruel simbiose daquelas duas distopias: impositivo, violento, letal de um lado (orwelliano); prazeroso, suave, insidioso de outro (huxleyano), convergindo, num movimento dialético negativo, para uma sociedade amável e apática na superfície; emasculada e frustrada nos seus estratos inferiores.  

Somos gratos aos alertas que aqueles pensadores nos legaram. Suas projeções nos capacitaram a entender que somente a aquisição da consciência de nossa humanidade e potencialidades materiais possibilitarão a construção do ser humano livre, ainda que nunca perfeito. A busca pelo aprimoramento de cada um é tarefa individual, intransferível. Ao Estado deve caber, tão somente, o papel de provedor das condições e dos meios para que a emancipação dos indivíduos se realize.

É preciso termos ciência e consciência de que, assim como as projeções de Admirável Mundo Novo e de 1984, todas as distopias, por seu caráter desagregador, estão fadadas ao fracasso. Falham e falharão porque têm raízes fincadas nas interações humanas viciadas do passado. Enxergam o futuro com lentes distorcidas. Tratam o ser humano com desprezo e desconfiança. São ignorantes e boçais.

Se ainda queres adorar, adora o Sol!

Não existe o ser humano e a Terra sob nossos pés, mas a Terra no ser humano; não existe a Terra e lá fora o Cosmos, mas o Cosmos que contém a Terra. Esse é o entendimento básico, essencial, inequívoco, fundador de um novo tempo que precisamos/devemos construir. Esse é o ponto de partida, o nosso plano de voo, a rota de fuga desta condição civilizacional miserável em que nos encontramos.

A saída não está em religiões, essas precárias invenções do homem, destinadas a potencializar nossas fraquezas, nos manipular e dividir. A redenção da pequena espécie surgida neste remoto planeta, que, através da observação, da razão e da imaginação científica desenvolveu a capacidade de estudar o Universo e refletir sobre sua origem — na definição do inglês Roger Penrose, físico, matemático e filósofo da ciência —, essa redenção está onde sempre esteve: no avanço de nossa espiritualidade (inserção cósmica) e na compreensão de nossa humanidade (pertencimento ao planeta).

São essas ferramentas (o espírito associado à matéria, e não acima dela, como querem as religiões) que possibilitarão mudar o patamar do nosso desenvolvimento cognitivo, capacitando-nos a enfrentar os desafios terrenos (uso responsável dos recursos naturais e das Inteligências Artificiais, por exemplo) e os enigmas cósmicos. Você talvez saiba: o Universo observável com o conhecimento que hoje dominamos, e apenas o observável, possui 2 trilhões de galáxias; cada galáxia tem milhões ou bilhões de estrelas; e cada estrela contém seu próprio sistema complexo e único.

A Via Láctea é a nossa galáxia, em cuja periferia o Sistema Solar se encontra e a Terra reside. É aqui que estamos nós, com a missão de entender que o assombro diante do Cosmos constitui um dos motores fundamentais na busca pelo conhecimento. O Universo nos convida a formular perguntas, explorar novas possibilidades, expandir os limites de nossa compreensão.

Amanhã, quando acordar, pense nas suas dores físicas e mentais, nos compromissos do dia, nas contas a pagar, nas pessoas queridas, mas pense primeiro no que é fundamental: somos parte indissociável desta Terra e esta Terra integra o Cosmos. Comece seu dia assim, como um (haverá outros?) ente vivo pensante e ativo do Universo. O único (haverá outros?) capaz de fazer escolhas.

Admito que não é fácil adotar essa rotina, estendendo-a ao longo de nossa existência. As pequenas-grandes demandas cotidianas, determinadas pela imposição da sobrevivência, agem como poderoso ímã, nos atraindo para o rés do chão. E aqui restamos confinados, cegos a qualquer luz, significado ou saída, além de nos comprazermos em trilhar a monótona e exasperante via do prosseguimento para lugar nenhum.

Sei que é difícil, mas a busca pelo conhecimento é a única força capaz de impulsionar nossa espécie a, finalmente, romper a lei da gravidade mundana, vulgar, esta atração mental perniciosa, que nos reduz e transforma a busca pela felicidade em obtenção de riqueza e fama, apequenando o sentido de nossa existência; esta atração mediocrizante que, em seu percurso, gera frustrações, sofrimentos pessoais, injustiças e dores coletivas.

Quem é capaz de internalizar a compreensão de pertencimento terreno e inserção cósmica não sai por aí flutuando, em estado de graça, e muito menos tomado pelo menosprezo a seus semelhantes. A consciência dessas duas âncoras existenciais (pertencimento e inserção) garante, ao contrário, que nossos pés permaneçam muito bem fincados nesta Terra em que pisamos e da qual somos parte.

Se, apesar de tudo, você se sentir incapaz de viver sem uma crença, sem uma muleta emocional, sem adorar Algo, dirija suas preces ao Sol, o ente físico-químico que governa a existência terrena e, com poder inquestionável, se impõe como o verdadeiro elo entre nós, poeira de estrelas — na definição de Carl Sagan —, e o infinito Cosmos.
   

Aprendeu, deveria ter aprendido, ou aprenderá

Não se trata de nos rendermos ao desastre civilizacional construído por sucessivas gerações, milênios afora. Não se trata de aceitarmos a ideia de inevitabilidade desse rumo, nem de — em específico — abdicar das poderosas ferramentas comunicacionais paulatinamente desenvolvidas, e que nas primeiras décadas deste XXI estão em acelerada evolução. O desastre há de ser combatido sempre, mas o mal não está nas ferramentas e sim no uso que delas fazemos, como já se disse.

Se hoje os meios e modos de comunicação interpessoal se colocam a serviço da manjada estrutura de produção de riqueza e privilégios, gerando no processo a desagregação social pelo desestímulo ao florescimento da sempre bem-vinda individualidade inconformada — coisa que até certo momento do passado não ocorria, pois todo indivíduo inventivo, qualquer que fosse sua origem social, tinha a chance de angariar respeito (ou temor) no ceio da pólis —, essa neodesagregação por interdição ao inconformismo não pode, nem deve ser passivamente assimilada.

O clima cultural, intelectual e moral, o zeitgeist proposto por Friedrich Hegel para definir comportamentos, tendências, artes e políticas numa determinada época, esse espírito do tempo quem estabelece são as dinâmicas sociais, ou seja, o conjunto dos indivíduos através de suas lideranças. A despeito da força dos lords da manipulação planetária e de seus sistemas de controle, a resistência continua de pé — desde que não rejeite as novas ferramentas de trabalho e as novas armas de combate. 

Se os modos de interlocução pessoal e direta do mundo pré advento das tecnologias de comunicação de massa produziram seres humanos melhores, mais confiantes e tolerantes, como a história nos relata — acordos entre indivíduos eram firmados no fio de barba, por exemplo, sob pena de desmoralização pública do descumpridor —, ainda assim não nos cabe ignorar ou condenar as novas tecnologias.

Não, o avanço do conhecimento e sua tradução utilitária (tecnológica) não vai parar porque queremos e/ou o rejeitamos. Tem se falado ultimamente sobre a necessidade de uma moratória na corrida das chamadas Inteligências Artificiais, para que a sociedade avalie seus impactos e se prepare devidamente.

Esqueça isso, não haverá moratória alguma; a curiosidade humana é indomável, impossível de ser modulada, moderada, contida. A ideia de adiamento do processo é mais um lance de hipocrisia patrocinada. De um lado, por aqueles que receiam o futuro, e, de outro, por quem vem perdendo a corrida da inovação e precisa de um tempo para se colocar no mesmo patamar dos que hoje estão à frente. Tudo se resume a medo e falsidade, nada mais.

Outro ponto de questionamento e motivo de alarme são os impactos ambientais gerados pela infra-estrutura necessária à operação das IAs (o absurdo consumo de energia e de água pelos Data Centers que coletam e processam dados em nuvem). Esquecem, ou desconhecem os críticos dessa novíssima tecnologia (esses mesmos que as utilizam em seu dia a dia de trabalho) que as pesquisas destinadas a substituir os recursos naturais vêm avançando, e apontam para ganhos expressivos de desempenho operacional pelos DCs.

Não sou um apaixonado por tecnologias, prefiro e procuro me limitar ao básico para viver. Mas não posso ignorar, nem rejeitar, as vantagens e os benefícios que elas em geral nos proporcionam, especialmente no campo da Saúde. E na esfera da Comunicação também, porque é pela Comunicação que nos redimiremos como espécie.

Dou preferência ao livro físico, por exemplo, mas sempre que tenho um em mãos penso em quantos insumos (energia, água, celulose produzida a partir de árvores derrubadas e tinta preparada com derivados de petróleo), entre outros, não foram necessários para que eu tivesse acesso a esse produto, transportado até mim por navios, aviões, trens, caminhões e automóveis. Um livro físico, o velho e amado livro físico, embora seja valioso instrumento de disseminação de conhecimentos e indutor de novas ideias, não é um produto inocente. Sem esquecermos o desperdício (daqueles insumos) decorrente da indigência mental contida em tantos deles.

Raciocínio semelhante deve ser aplicado às nascentes tecnologias comunicacionais. As redes sociais são um inferno — fomentam ódio, discórdia, indigência cognitiva, enfraquecimento espiritual e crimes. Mas o mundo digital também tem possibilitado a distribuição rápida e ampla de informações científicas, aproximado pessoas, universalizado o debate sobre assuntos cruciais para o nosso tempo, gerado valor intelectual, moral e ético.

Nada é totalmente bom, nem inteiramente ruim. O que não podemos, não devemos, é rejeitar, por medo do desconhecido, os desafios que as ciências e as tecnologias nos proporcionam. Também não podemos, não devemos, ser ingênuos e abrir mão do controle sobre essas inovações. Nossa espécie já aprendeu, deveria ter aprendido, ou aprenderá na marra que os sistemas digitais, mesmo (e principalmente) aqueles que no futuro rodarão em estado quântico, são máquinas a serviço da humanidade. Não o contrário.

E vice-versa

Glorificarmos o passado e, por consequência, atribuirmos ao presente todos os males responsáveis pela destruição do futuro é, em essência, uma atitude preguiçosa e condenável. Mas, infelizmente, é isto o que fartamente temos disponível no mercado das ideias. E não é de hoje.

Pergunto: se a valiosa prática de interagir sem intermediações tecnológicas proporcionaram um ambiente social mais rico e criativo no passado, por que razão aqueles felizardos indivíduos não foram capazes de identificar o monstro desenhado pela criação de possibilidades teóricas (ciências) e, no devido tempo, prevenir seu desenvolvimento, ou seja, a adoção de instrumentos e meios (tecnologias) destinados a substituir a rica convivência humana pela mediação impessoal e desagregadora deste nosso tempo?

Dito de outra forma: se as relações havidas no passado anterior ao advento da tecnologia de massa — que se pode estabelecer como a Primeira Revolução Industrial, no séc. XVIII, com a invenção da máquina a vapor e o início da substituição do trabalho manual pelo mecanizado — eram mais verdadeiras, humanas, estimulantes, por que o processo pernicioso (avanço da tecnologia) não foi logo interditado, preservando-se a possibilidade de um mundo mais justo e são?

Isto é, se éramos tão felizes, por que escolhemos nos infelicitar? Essa pergunta não encontra resposta suficientemente, por exemplo, no diagnóstico marxista do materialismo histórico, cuja dinâmica (tese-antítese) busca avançar (síntese) a partir das contradições internas do capitalismo. E não encontra a tal resposta matadora porque os fenômenos sociais não decorrem inteira e unicamente do processo de organização de indivíduos na luta pela sobrevivência; do advento da agricultura que gerou excedentes de produção; e do sedentarismo promotor da especialização do trabalho, hierarquização de funções e criação de classes sociais.  

Nesta altura do campeonato, frente aos conhecimentos antropológicos, neurológicos e psicossociais acumulados ao longo dos últimos cento e cinquenta anos, é perfeitamente cabível dizer que nada, ou ninguém, seria e é capaz de deter, ou mesmo inflexionar o processo histórico.

Processo que, na verdade, teve início com a abertura da Caixa de Pandora, aquela que espalhou sobre a humanidade todos os males do mundo, como retaliação de Zeus pela entrega do fogo do Olimpo à nossa espécie. Foi aquele ato emblemático — significador da aquisição cognitiva pelos nossos ancestrais, seja de que forma isto tenha ocorrido — o que de fato inaugurou a história dos homens.

Tudo o mais que se seguiu — a ideia e a prática do capitalismo, do materialismo, do socialismo — decorreu da interação físico-química que proveu à nossa espécie a capacidade de, a partir do ambiente em que estávamos inseridos, adquirir, organizar e processar novas informações. Com requintes de olímpica maldade, pois na Caixa de Pandora restou a esperança, aquela que, se é o consolo final da humanidade, também é, e principalmente, o pior dos males, pois — segundo Friedrich Nietzsche — prolonga o sofrimento humano ao gerar falsas expectativas.

A longa argumentação acima se destina a dizer que, para mudar o rumo do desastre civilizacional em que estamos há milênios engajados não bastam belos e reconfortantes discursos ideológicos. As ideologias são o patético (ou seria o conveniente?) refúgio dos acomodados.

Tal qual o desafio de Sísifo enfrentado com alegria — conforme nos ensinou Albert Camus — o que poderá reverter o processo suicida em acelerado curso é enfrentarmos a essência de nossas fraquezas, aquelas liberadas pela Caixa de Pandora. Para isso, é preciso reconhecer o pertencimento terreno da espécie humana, e a nossa inserção cósmica. E vice-versa.

Nessa cartada, nesse empreendimento é que deposito minha única esperança.
 

O desafio de Sísifo

Na visão hermética (34 mil anos a.C.), que se desenvolveu no Egito e está na raiz da filosofia grega, o ato de tirar a própria vida é uma conduta maléfica e demoníaca, que interrompe o propósito de evolução e purificação da alma. (…) O corpo físico é um instrumento de aprendizado, no qual o ser humano deve buscar a elevação e a união com o divino. Encerrar a vida artificialmente é uma fuga da Grande Obra de purificação e regeneração. 

Para Sócrates (470-399 a.C.), pai da filosofia ocidental, tirar a própria vida é moralmente errado, porque o ser humano pertence aos deuses e não deve abandonar o posto que lhe foi designado. Sócrates defendeu que o verdadeiro filósofo não teme a morte, pois a vida terrena é uma preparação para separar a alma do corpo. Ao ser acusado de corromper a juventude ateniense, ensinando-a a questionar a religião e a ordem política, ele recusou o exílio e a fuga, aceitando tomar veneno em obediência às leis da pólis e para ser fiel a seus princípios.

Platão (428-347 a.C.) apontou o suicídio como um ato de impiedade e uma fuga indevida, pois, como a alma pertence aos deuses e foi colocada no corpo como punição, o suicídio é uma tentativa ilegal de escapar dessa tutela divina. Para ele, o suicídio só é admissível em casos extremados de saúde, ou por determinação da pólis, como ocorreu com Sócrates.

Aristóteles (384-322 a.C.) entendeu que o suicídio é condenável porque representa um ato de injustiça contra a pólis e uma fuga covarde. Ao tirar a própria vida para escapar da dor ou do sofrimento, o indivíduo priva a sociedade de um membro valioso e viola as leis comuns: O indivíduo pertence à comunidade, portanto, quem comete suicídio rompe a trama social e subtrai da pólis alguém que poderia contribuir para o bem comum. 

Immanuel Kant (1724-1804) disse que o suicídio é eticamente inadmissível e uma violação do dever fundamental para consigo mesmo. Tirar a própria vida destrói a condição de possibilidade de todos os outros deveres morais e reduz a pessoa (que é um fim em si mesma) a um mero meio. Isso é considerado uma violação do respeito devido à própria pessoa e uma ofensa ao dever estrito para consigo mesmo. Para Kant, tal ato contraria a regra de ouro do agir apenas por máximas que você desejaria que se tornassem uma lei universal (imperativo categórico).

Friedrich Hegel (1770-1831) afirmou que o suicídio é um ato irracional e uma contradição à liberdade. Como a vida é a condição necessária para o Espírito se realizar no mundo, tirar a própria vida é uma negação da personalidade e um ato contrário ao Direito. Embora diferencie suicídio (fuga negativa) de sacrifício (morrer por uma causa justa), ele afirma que o eu não pode ter domínio destrutivo sobre si mesmo, pois isso destrói a própria base material de sua agência e racionalidade, sem alcançar uma síntese superior.

Arthur Schopenhauer (1788-1860) disse que o suicídio é uma contradição e um equívoco. Embora reconheça a vida como um estado de dor e tédio insuportáveis, para ele o suicida destrói o corpo, mas a Vontade de viver permanece intacta. A pessoa não quer deixar de viver, ela apenas não suporta as condições de sua existência e a dor que está enfrentando. Em vez de negar a vida, o suicida na verdade a afirma. Para Schopenhauer, a morte não é um aniquilamento absoluto da existência, mas um retorno ao estado original de onde viemos. 

Friedrich Nietzsche (1844-1900) viu o suicídio como uma questão ambígua: se, de um lado, era a morte por negação, motivada por ressentimento ou fraqueza, de outro se manifestava como morte voluntária, o derradeiro ato de auto-afirmação de um espírito nobre. Para ele, é preferível escolher o momento da própria morte de forma lúcida e orgulhosa, do que vegetar em uma dependência covarde (como prolongar a vida artificialmente quando o sentido dela já se perdeu)

Jean-Paul Sartre (1905-1980) entendeu o suicídio como uma escolha paradoxal e o limite da liberdade. Como o homem é definido por suas escolhas e pela responsabilidade absoluta, o suicídio é um ato livre, mas que, ironicamente, destrói a própria condição para a liberdade ao eliminar as possibilidades futuras do indivíduo. Ao se suicidar, o sujeito age para fugir da angústia ou das dores do mundo, mas se transforma em um objeto nas mãos dos outros, cujos significados (a sua essência) passam a ser definidos e julgados apenas pelos que ficam. 

Albert Camus (1913-1960) rejeitou a morte voluntária, pois ela elimina o absurdo da vida através da destruição da própria consciência, o que não resolve o problema existencial. Para ele, é preciso abraçar a vida com todas as suas contradições e viver com a máxima consciência possível, uma atitude que define como revolta. Para isso, Camus se utiliza da figura mitológica de Sísifo — condenado eternamente a empurrar uma pedra montanha acima, apenas para vê-la rolar montanha abaixo — como um símbolo do homem absurdo: é preciso imaginar Sísifo feliz, encontrando satisfação na sua própria luta e naquilo que está ao seu alcance, sem precisar de uma recompensa ou sentido final.

Durante seis meses pensei se deveria escrever sobre esse tema (*). Hoje entendo que enfrentar a realidade que me cerca não me dá direito a escolhas convenientes. Pensar sobre a vida, suas carências, vicissitudes, desafios, alegrias, impasses e frustrações; pensar sobre essas realidades que, bem ou mal, apontam para alguma permanência e expectativa de futuro, isso é relativamente confortável, edificante, meritório. O difícil é encarar a esperança posta do avesso pela imagem de um cérebro despedaçado e um corpo tombado na calçada.

Incapaz de contornar as questões que me estão postas desde o último janeiro, pergunto agora em voz alta: Que pensamentos abrigaram aquele tecido nervoso em seu momento final? Que equação lhe coube desvendar no vero instante? Quais dúvidas, paixões, nobres e vis sentimentos habitaram seus neurônios, realizaram-se em sinapses geradoras do impulso público e derradeiro? Que trágica ruptura transportou aquele indivíduo até ali, e o derrubou sobre um canto do passeio público, no mesmo canto onde seres sem-teto se abrigavam (nunca mais os vi no local!) e onde transita o ir e vir cotidiano?

Acostumei-me a pensar que a vida é feita de escolhas. Escolher é estar colocado diante de opções claras, objetivas, racionalmente sopesáveis, passíveis inclusive de arrependimentos e reconsiderações. Há instantes, vero instantes, porém, onde o que parece escolha se apresenta como um só e inevitável caminho. Isso não é escolher, não é optar, mas se entregar a um impulso (pretensamente) libertador.

Aquele que assim se liberta está consciente das consequências de seu gesto, e talvez seja exatamente essa consciência aquilo que o anima, por desprendimento ou egoísmo — saber que tal ato guarda simbolismo, produz resultados, traça limites incontornáveis. Tudo é mistério naquele átimo, mas também é evidência e clareza existencial — ser e, num instante, não-ser, sabendo que nada do que ficou para trás importa.

Neste mundo em que a Grande Obra de purificação e regeneração se mostra mais uma quimera; em que os deuses parecem ter nos abandonado, e não o contrário; em que a impiedade está institucionalizada e qualquer fuga se mostra inútil; em que a pólis se provou um logro; em que ética e o dever perderam o valor; em que irracionalidade e contradição são festejadas; em que o equívoco é relativo; em que auto-afirmação de um espírito nobre se confunde com ressentimento e fraqueza; neste mundo em que um ato livre ironicamente destrói a própria condição para a liberdade, pela eliminação das possibilidades futuras do indivíduo; neste mundo em que nove nações possuem ao menos 4.240 ogivas nucleares ativas, neste exato mundo, diante de um corpo largado na calçada só nos resta a perplexidade, a insegurança, a consciência do absurdo e o desafio da vida. 


(*) Se você ou alguém próximo está passando por momentos difíceis, procure ajuda. No Brasil, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional e prevenção ao suicídio 24 horas por dia pelo telefone 188.

A cada novo pôr do Sol

Os lords da manipulação humana, cujas origens remontam aos primórdios da organização social de nossa espécie, anteriores ao advento da agricultura e do sedentarismo, ganharam a partir do início deste século XXI uma poderosa ferramenta: a novíssima técnica de tratamento e formatação dos dados capturados de todos os indivíduos ativos do mundo.

Já não lhes bastava moldar os destinos da Terra pela exploração do medo atávico dos seres humanos, através, principalmente, do fomento à indústria da guerra. Agora os lords, aqueles que determinam de fato os destinos do globo, podem controlar nossos desejos, escolhas e atos, e com muito mais eficácia, utilizando-se das informações que recolhem a cada segundo das interações cibernéticas de nós, os 8,5 bilhões de indivíduos do planeta.

Se antes havia o medo imposto pela força bruta, aterrorizante, materialmente destrutiva dos conflitos e guerras intra e internacionais, hoje temos, cumulativamente, a disseminação do medo traiçoeiro, castrador, construído a partir da exploração das fraquezas de cada um e todos os seres presentes e futuros.  

Não esperemos que os Estados venham nos resgatar das garras dos lords da manipulação. Eles, os Estados, não detêm qualquer autonomia decisória (nunca a tiveram!); são apenas gestores das carências cotidianas dos cidadãos nacionais, periodicamente substituídos pela força ou em rituais ditos democráticos. Como se democracia (poder que emana do povo?) realmente existisse em algum país.

A complexidade das relações neste planeta — ditada pela interdependência entre as nações, decorrente da aleatoriedade geográfica na distribuição dos recursos essenciais à manutenção do modelo de civilização que adotamos (água, hidrocarbonetos, metais raros ou não, áreas para cultivo e criação etc.) — impede atitude soberana de qualquer Estado. Quem reivindica soberania, ilude-se; quem a defende, engana-se; quem por ela aspira, sonha acordado.   

A manipulação humana não é uma ficção, ou uma teoria conspiratória, mas um fato à vista de todos. Também é fato que tais lords não possuem rosto definido; não têm endereço administrativo; não se reúnem periodicamente; não redigem decisões. Eles constituem um sistema de poder impessoal, que se manifesta de forma harmônica, coerente com seus interesses, delegando a alguns segundos, vários terceiros e incontáveis quartos prepostos a execução das tarefas que lhes são imprescindíveis.

Muito sofrimento têm produzido e ainda produzirão esses senhores, ou esse sistema de dominação, se assim preferirmos nomear. Disso não podemos escapar, pois eles reúnem toda a riqueza de que precisam e ilimitados poderes para utilizá-la. No entanto, é exatamente nesses aspectos — riqueza e poder, que, somados, resultam em vaidade e imodéstia extremada  — onde residem a fraqueza e a inevitabilidade da derrota que os espera, da qual eles próprios não se dão conta. 

Quê derrota será essa?

A derrota da terra arrasada, como apontou Jonathan Crary no livro que leva exatamente esse nome: Terra Arrasada: Além da era digital, rumo a um mundo pós-capitalista. Crary defende a necessidade de recuperarmos um senso de socialismo e de comunidade, em que a interdependência entre pessoas possa construir novas formas de vida igualitária. O remédio prescrito é perfeito, sempre foi, mas, frente a Terra arrasada que os lords da manipulação estão a construir, penso que a receita chega tarde demais.

Um dia também imaginei (sonhei, desejei) que a redenção humana poderia se dar por meio da conquista de nossa maturidade espiritual (pertencimento terreno e integração cósmica). Hoje, venho duvidando disso a cada novo pôr do Sol. Os lords, em suas extremadas vaidade e imodéstia, não se emendam — serão derrotados, e nos levarão junto.

Inseguros, deixamos de vencer

Começo apresentando minhas (des)credenciais.

Embora tenha atuado a vida toda em Comunicação (propaganda, jornalismo e, por fim, assessoria de imprensa), só eventualmente, e muito mal, trabalhei na área de futebol. Não sou, portanto, especialista em táticas. Enxergo toda modalidade esportiva como resultante da qualidade técnica de seus praticantes, de sua condição física, mas principalmente, e acima de tudo, do estado mental e emocional dos atletas. Ah, sim, desde o começo da adolescência torço para aquele que melhor jogou futebol no mundo, o Santos Futebol Clube, time que hoje atravessa uma fase lamentável devido basicamente à perda de sua identidade.

Ou seja, não possuo as credenciais corriqueiras para analisar o jogo de ontem, 5 de julho de 2026, em que a seleção brasileira perdeu para a norueguesa, e se viu fora da Copa do Mundo. Não as possuo, mas vou palpitar, pois acima de tudo sou um torcedor de futebol — já revelei isto em textos anteriores, por exemplo: O futebol nos enobrece 
 e, como todo brasileiro, tenho o direito de dizer o que penso sobre essa eliminação.

Principio, à moda de Torquato Neto, desafinando o coro dos (des)contentes: não foi a Noruega que venceu esse jogo, mas o Brasil que deixou de ganhar. Isso me parece óbvio, pois deixamos de converter um pênalti logo no início; criamos inúmeras oportunidades de marcar ao longo de toda a partida, falhando nos momentos decisivos; nosso adversário nunca de fato nos ameaçou, embora tenha ficado trocando bolas para lá e para cá em seu próprio campo; e tivemos a sabedoria de não partir voluntariosamente ao ataque, deixando nossa defesa desguarnecida, sujeita a lançamentos em direção ao principal atacante do time adversário, um indivíduo alto, forte, rápido, ágil, habilidoso e exímio fazedor de gols, como todos já sabem.

Aquele mesmo indivíduo que, em dois momentos de descuido, venceu nossos defensores e, com uma cabeçada precisa e um chute certeiro, fez aquilo que todos sabiam que ele faria, e tem feito em seu clube e na seleção de seu país.

Por quê afirmo que deixamos de ganhar (em vez de termos sido derrotados)? Objetivamente, porque não aproveitamos as chances que criamos, é claro. Mas essa incapacidade se deveu, ou se deve, a quê? Aí é que está o x da questão.

O fato é que nossa equipe, individual e coletivamente, nunca esteve equilibrada nos aspectos mental e emocional, o que para mim, um completo idiota em táticas e estratégias futebolísticas, é condição essencial, determinante. Há décadas, desde que o futebol ganhou o status de esporte mais popular do planeta — aquele em que seus atletas saem da miséria, ou de uma existência de padrão mediano, para uma vida de glamour e fortuna, que coincide com a explosão das comunicações de massa, agora globalizadas via rede mundial de informática — desde aquele momento os atletas brasileiros nunca estiveram devidamente preparados, mental e emocionalmente, para qualquer disputa de extremo nível de exigência.

Exceção feita a alguns poucos instantes de brilho, decorrentes de nossa reconhecida habilidade física para a prática desse esporte (diz-se que devido à elasticidade de nosso biótipo, resultante da miscigenação das raças que nos constituem), tudo o que temos experimentado são renovadas frustrações.

Ah, questionarão alguns, mas o Brasil venceu as Copas de 1958 (Suécia),1962 (Chile), 1970 (México), 1994 (Estados Unidos), 2002 (Coreia do Sul e Japão). Sim, mas até 2002 o mundo não havia mergulhado nesse processo de dispersão de povos latinos e africanos pelo mundo, provocada por perseguições, guerras, desastres ou migrações forçadas. Ou pelo menos suas consequências ainda não haviam se manifestado.

Essa diáspora estabeleceu um novo patamar para a prática de futebol profissional planeta afora (pois as seleções hoje estão mescladas, ou às vezes dominadas, por atletas originários das mesmas regiões que produziram a magia do futebol latino-americano e brasileiro, em particular), tanto quanto tem sido fundamental, e crescente, a importância do preparo físico, da alimentação, da medicina esportiva e de todos os novos equipamentos e recursos utilizados por essa modalidade.

O Brasil ficou para trás? Sim, especialmente quanto ao condicionamento mental e emocional. Não se disputa uma Copa do Mundo tendo como motivação determinante a conquista ou a manutenção da fama e/ou a obtenção de riqueza. Numa competição como essa, a única razão de ser e jogar é a reafirmação de nossas próprias raízes, o nosso caráter, aquilo que nos distingue como povo. 

A culpa não foi daquele jogador que perdeu o pênalti, nem de cada um dos que deixaram de marcar os gols que pareciam inevitáveis a nosso favor — e foram muitos. Falhamos (e temos falhado há décadas) porque não fomos determinados. 

Distraídos e inseguros, deixamos de vencer.

Alex Karp, tu erras

Tua meta — substituição do Estado Democrático (o que ainda é uma utopia) pelo domínio das Corporações e, em última instância, da Corporação Planetária — é um erro de análise, uma compreensão presunçosa da dinâmica humana e um projeto já fracassado. É mais uma piada cósmica, enfim.

Estás a brincar com os alargados potenciais vislumbrados pela categorização, processamento e aplicação civil/militar dos dados individuais e coletivos extraídos dos sistemas que os coletam, ao redor do planeta;

Tens enriquecido através da comercialização das soluções cibernéticas que esse sistema proporciona, potencializado por meio de IAs;

Tens angariado poder junto aos governos dos países hegemônicos, com a intenção de orientá-los, manipulá-los e, em breve, substituí-los, mas não enxergas o óbvio: o futuro pertence ao indivíduo emancipado, não ao ser manipulado que imaginas.

O futuro é infinitamente mais complexo e desafiador do que propõe tua vã filosofia. Como já disseram tantos, o buraco é mais embaixo, meu caro.

Esse futuro conceitualmente pobre que empreendes, ao lado de teus parceiros bigtechistas, é velho, anacrônico, furado. Isto se deve ao fato de estares a repetir os mesmos velhos erros inaugurados no passado mais remoto de nossa espécie, aprofundados ao longo de milênios, petrificados em nossa moderna psique, os quais, hoje, julgas contestar.

Não, meu caro, não estás a contestar nada; estás a oferecer um caminho sedimentado sobre os mesmos velhos valores fracassados que nos trouxeram até aqui — o poder hierarquizado.

Não há nada de novo, revolucionário, duradouro nesse empreendimento psicossocial. Há apenas, infelizmente (porque deténs os meios para buscar teu fim), a perda de mais uma oportunidade histórica de darmos um passo adiante rumo à necessária emancipação da espécie humana.

Quando me refiro a emancipação, quero dizer conquista da maturidade espiritual. Quando digo maturidade espiritual não estou me referindo a nenhuma religião — deus meu livre! —, mas à compreensão individual e coletiva de que pertencemos a esta Terra e estamos inseridos no Cosmos. Somos poeira de estrelas, como já nos avisou Carl Sagan.

Sem a incorporação desse entendimento, sem sua internalização psíquica nenhuma chance de futuro teremos. Se o empreendimento de poder, esse poder neohierarquizado que tu e teus pares propõem, seguir adiante, o que veremos logo à frente será mais um retumbante fracasso civilizacional.

Teremos perdido mais uma oportunidade de avançar na construção do ser humano verdadeiro. Com uma agravante: teremos regredido a eras e culturas em que as sociedades se dividiam em especializações laborais e neocastas sociais fomentadoras de descontentamentos, revoltas, retrocessos.

Não sei se esses argumentos são capazes de produzir algum valor ético para a lógica do futuro que estás a empreender, mas tenho absoluta convicção de que eles, esses argumentos, são incontornáveis.

Tu e teu grupo podem fazer fortuna e reunir imenso poder ao longo da implementação desse projeto de controle planetário, e isso preencherá as carências psicológicas de cada um dos envolvidos, mas sequer um milímetro de avanço e consolidação cognitiva para nossa espécie será alcançado.

Se tu não almejas apenas o efêmero, a vanglória, então estás a falhar.

Estás errado.

Miseravelmente.