Tua meta — substituição do Estado Democrático (o que ainda é uma utopia) pelo domínio das Corporações e, em última instância, da Corporação Planetária — é um erro de análise, uma compreensão presunçosa da dinâmica humana e um projeto já fracassado. É mais uma piada cósmica, enfim.
Estás a brincar com os alargados potenciais vislumbrados pela categorização, processamento e aplicação civil/militar dos dados individuais e coletivos extraídos dos sistemas que os coletam, ao redor do planeta;
Tens enriquecido através da comercialização das soluções cibernéticas que esse sistema proporciona, potencializado por meio de IAs;
Tens angariado poder junto aos governos dos países hegemônicos, com a intenção de orientá-los, manipulá-los e, em breve, substituí-los, mas não enxergas o óbvio: o futuro pertence ao indivíduo emancipado, não ao ser manipulado que imaginas.
O futuro é infinitamente mais complexo e desafiador do que propõe tua vã filosofia. Como já disseram tantos, o buraco é mais embaixo, meu caro.
Esse futuro conceitualmente pobre que empreendes, ao lado de teus parceiros bigtechistas, é velho, anacrônico, furado. Isto se deve ao fato de estares a repetir os mesmos velhos erros inaugurados no passado mais remoto de nossa espécie, aprofundados ao longo de milênios, petrificados em nossa moderna psique, os quais, hoje, julgas contestar.
Não, meu caro, não estás a contestar nada; estás a oferecer um caminho sedimentado sobre os mesmos velhos valores fracassados que nos trouxeram até aqui — o poder hierarquizado.
Não há nada de novo, revolucionário, duradouro nesse empreendimento psicossocial. Há apenas, infelizmente (porque deténs os meios para buscar teu fim), a perda de mais uma oportunidade histórica de darmos um passo adiante rumo à necessária emancipação da espécie humana.
Quando me refiro a emancipação, quero dizer conquista da maturidade espiritual. Quando digo maturidade espiritual não estou me referindo a nenhuma religião — deus meu livre! —, mas à compreensão individual e coletiva de que pertencemos a esta Terra e estamos inseridos no Cosmos. Somos poeira de estrelas, como já nos avisou Carl Sagan.
Sem a incorporação desse entendimento, sem sua internalização psíquica nenhuma chance de futuro teremos. Se o empreendimento de poder, esse poder neohierarquizado que tu e teus pares propõem, seguir adiante, o que veremos logo à frente será mais um retumbante fracasso civilizacional.
Teremos perdido mais uma oportunidade de avançar na construção do ser humano verdadeiro. Com uma agravante: teremos regredido a eras e culturas em que as sociedades se dividiam em especializações laborais e neocastas sociais fomentadoras de descontentamentos, revoltas, retrocessos.
Não sei se esses argumentos são capazes de produzir algum valor ético para a lógica do futuro que estás a empreender, mas tenho absoluta convicção de que eles, esses argumentos, são incontornáveis.
Tu e teu grupo podem fazer fortuna e reunir imenso poder ao longo da implementação desse projeto de controle planetário, e isso preencherá as carências psicológicas de cada um dos envolvidos, mas sequer um milímetro de avanço e consolidação cognitiva para nossa espécie será alcançado.
Se tu não almejas apenas o efêmero, a vanglória, então estás a falhar.
Estás errado.
Miseravelmente.