Não existe o ser humano e a Terra sob nossos pés, mas a Terra no ser humano; não existe a Terra e lá fora o Cosmos, mas o Cosmos que contém a Terra. Esse é o entendimento básico, essencial, inequívoco, fundador de um novo tempo que precisamos/devemos construir. Esse é o ponto de partida, o nosso plano de voo, a rota de fuga desta condição civilizacional miserável em que nos encontramos.
A saída não está em religiões, essas precárias invenções do homem, destinadas a potencializar nossas fraquezas, nos manipular e dividir. A redenção da pequena espécie surgida neste remoto planeta, que, através da observação, da razão e da imaginação científica desenvolveu a capacidade de estudar o Universo e refletir sobre sua origem — na definição do inglês Roger Penrose, físico, matemático e filósofo da ciência —, essa redenção está onde sempre esteve: no avanço de nossa espiritualidade (inserção cósmica) e na compreensão de nossa humanidade (pertencimento ao planeta).
São essas ferramentas (o espírito associado à matéria, e não acima dela, como querem as religiões) que possibilitarão mudar o patamar do nosso desenvolvimento cognitivo, capacitando-nos a enfrentar os desafios terrenos (uso responsável dos recursos naturais e das Inteligências Artificiais, por exemplo) e os enigmas cósmicos. Você talvez saiba: o Universo observável com o conhecimento que hoje dominamos, e apenas o observável, possui 2 trilhões de galáxias; cada galáxia tem milhões ou bilhões de estrelas; e cada estrela contém seu próprio sistema complexo e único.
A Via Láctea é a nossa galáxia, em cuja periferia o Sistema Solar se encontra e a Terra reside. É aqui que estamos nós, com a missão de entender que o assombro diante do Cosmos constitui um dos motores fundamentais na busca pelo conhecimento. O Universo nos convida a formular perguntas, explorar novas possibilidades, expandir os limites de nossa compreensão.
Amanhã, quando acordar, pense nas suas dores físicas e mentais, nos compromissos do dia, nas contas a pagar, nas pessoas queridas, mas pense primeiro no que é fundamental: somos parte indissociável desta Terra e esta Terra integra o Cosmos. Comece seu dia assim, como um (haverá outros?) ente vivo pensante e ativo do Universo. O único (haverá outros?) capaz de fazer escolhas.
Admito que não é fácil adotar essa rotina, estendendo-a ao longo de nossa existência. As pequenas-grandes demandas cotidianas, determinadas pela imposição da sobrevivência, agem como poderoso ímã, nos atraindo para o rés do chão. E aqui restamos confinados, cegos a qualquer luz, significado ou saída, além de nos comprazermos em trilhar a monótona e exasperante via do prosseguimento para lugar nenhum.
Sei que é difícil, mas a busca pelo conhecimento é a única força capaz de impulsionar nossa espécie a, finalmente, romper a lei da gravidade mundana, vulgar, esta atração mental perniciosa, que nos reduz e transforma a busca pela felicidade em obtenção de riqueza e fama, apequenando o sentido de nossa existência; esta atração mediocrizante que, em seu percurso, gera frustrações, sofrimentos pessoais, injustiças e dores coletivas.
Quem é capaz de internalizar a compreensão de pertencimento terreno e inserção cósmica não sai por aí flutuando, em estado de graça, e muito menos tomado pelo menosprezo a seus semelhantes. A consciência dessas duas âncoras existenciais (pertencimento e inserção) garante, ao contrário, que nossos pés permaneçam muito bem fincados nesta Terra em que pisamos e da qual somos parte.
Se, apesar de tudo, você se sentir incapaz de viver sem uma crença, sem uma muleta emocional, sem adorar Algo, dirija suas preces ao Sol, o ente físico-químico que governa a existência terrena e, com poder inquestionável, se impõe como o verdadeiro elo entre nós, poeira de estrelas — na definição de Carl Sagan —, e o infinito Cosmos.
A escrita é a grande invenção. Foi a escrita, na verdade, aquilo que transformou um certo ser irracional em humano, esta espécie que domina o planeta para o bem e para o mal. Com a escrita, apenas, este blog se propõe a analisar e opinar sobre alguns dos principais temas da atualidade, no Brasil e no mundo, como qualquer cidadão faz ou deveria fazer. Meu nome é Oswaldo de Mello. Sou jornalista.