Glorificarmos o passado e, por consequência, atribuirmos ao presente todos os males responsáveis pela destruição do futuro é, em essência, uma atitude preguiçosa e condenável. Mas, infelizmente, é isto o que fartamente temos disponível no mercado das ideias. E não é de hoje.
Pergunto: se a valiosa prática de interagir sem intermediações tecnológicas proporcionaram um ambiente social mais rico e criativo no passado, por que razão aqueles felizardos indivíduos não foram capazes de identificar o monstro desenhado pela criação de possibilidades teóricas (ciências) e, no devido tempo, prevenir seu desenvolvimento, ou seja, a adoção de instrumentos e meios (tecnologias) destinados a substituir a rica convivência humana pela mediação impessoal e desagregadora deste nosso tempo?
Dito de outra forma: se as relações havidas no passado anterior ao advento da tecnologia de massa — que se pode estabelecer como a Primeira Revolução Industrial, no séc. XVIII, com a invenção da máquina a vapor e o início da substituição do trabalho manual pelo mecanizado — eram mais verdadeiras, humanas, estimulantes, por que o processo pernicioso (avanço da tecnologia) não foi logo interditado, preservando-se a possibilidade de um mundo mais justo e são?
Isto é, se éramos tão felizes, por que escolhemos nos infelicitar? Essa pergunta não encontra resposta suficientemente, por exemplo, no diagnóstico marxista do materialismo histórico, cuja dinâmica (tese-antítese) busca avançar (síntese) a partir das contradições internas do capitalismo. E não encontra a tal resposta matadora porque os fenômenos sociais não decorrem inteira e unicamente do processo de organização de indivíduos na luta pela sobrevivência; do advento da agricultura que gerou excedentes de produção; e do sedentarismo promotor da especialização do trabalho, hierarquização de funções e criação de classes sociais.
Nesta altura do campeonato, frente aos conhecimentos antropológicos, neurológicos e psicossociais acumulados ao longo dos últimos cento e cinquenta anos, é perfeitamente cabível dizer que nada, ou ninguém, seria e é capaz de deter, ou mesmo inflexionar o processo histórico.
Processo que, na verdade, teve início com a abertura da Caixa de Pandora, aquela que espalhou sobre a humanidade todos os males do mundo, como retaliação de Zeus pela entrega do fogo do Olimpo à nossa espécie. Foi aquele ato emblemático — significador da aquisição cognitiva pelos nossos ancestrais, seja de que forma isto tenha ocorrido — o que de fato inaugurou a história dos homens.
Tudo o mais que se seguiu — a ideia e a prática do capitalismo, do materialismo, do socialismo — decorreu da interação físico-química que proveu à nossa espécie a capacidade de, a partir do ambiente em que estávamos inseridos, adquirir, organizar e processar novas informações. Com requintes de olímpica maldade, pois na Caixa de Pandora restou a esperança, aquela que, se é o consolo final da humanidade, também é, e principalmente, o pior dos males, pois — segundo Friedrich Nietzsche — prolonga o sofrimento humano ao gerar falsas expectativas.
A longa argumentação acima se destina a dizer que, para mudar o rumo do desastre civilizacional em que estamos há milênios engajados não bastam belos e reconfortantes discursos ideológicos. As ideologias são o patético (ou seria o conveniente?) refúgio dos acomodados.
Tal qual o desafio de Sísifo enfrentado com alegria — conforme nos ensinou Albert Camus — o que poderá reverter o processo suicida em acelerado curso é enfrentarmos a essência de nossas fraquezas, aquelas liberadas pela Caixa de Pandora. Para isso, é preciso reconhecer o pertencimento terreno da espécie humana, e a nossa inserção cósmica. E vice-versa.
Nessa cartada, nesse empreendimento é que deposito minha única esperança.
A escrita é a grande invenção. Foi a escrita, na verdade, aquilo que transformou um certo ser irracional em humano, esta espécie que domina o planeta para o bem e para o mal. Com a escrita, apenas, este blog se propõe a analisar e opinar sobre alguns dos principais temas da atualidade, no Brasil e no mundo, como qualquer cidadão faz ou deveria fazer. Meu nome é Oswaldo de Mello. Sou jornalista.