A tese de que as ciências foram longe demais — utilizada, entre outras coisas, para condenar os meios e modos de comunicação planetária em rede — é risível. Não cabe ao ser humano questionar se o processo histórico está indo longe ou rápido, seja ele quem for, embora muitos filósofos o tenham feito (Theodor Adorno, Martin Heidegger e Jacques Ellul, por exemplo).
Muito me surpreende (talvez nem tanto) que hoje em dia pessoas dignas de respeito, sempre dispostas a apontar as distopias produzidas pela comunicação digital, tenham a cara de pau de comparecer a essas mesmas redes digitais para defender suas teses. São, digamos assim, herdeiros do luddismo, a revolta de artesãos e operários têxteis ingleses do início da Revolução Industrial (entre 1811 e 1816), que protestavam contra a precarização do trabalho, destruindo máquinas industriais — o nome veio de Ned Ludd, líder desse movimento.
O que isso mais uma vez e sempre revela é a nossa presunção de que o passo da História está, ou pode estar, sob o controle humano. De que possuímos poderes especiais, quando na realidade estamos à deriva. Quando, por essência, o que nos cabe é buscar entender e disciplinar o uso das ferramentas que o avanço inexorável das ciências nos impõe — e disso não temos dado conta.
Se os críticos do avanço científico-tecnológico forem coerentes com seus temores, que passem a questionar desde o primitivo Homo, que desenvolveu a comunicação destinada à sua imediata sobrevivência, a partir dos sons que o cercavam e dos ruídos que ele próprio era capaz de produzir para indicar ações e expressar sentimentos básicos.
Voltem-se contra a tradição oral, quando todo conhecimento acumulado estava na cabeça, na memória dos indivíduos, sendo, pela experiência relatada, transmitido à geração seguinte. Também contra a invenção da escrita (diz-se que pelos sumérios, na Mesopotâmia, entre 5 a 4 mil a.C.); contra o copismo exercitado por monges que reproduziam documentos à mão, garantindo que fossem preservados; contra a invenção dos tipos móveis por Johannes Gutenberg, que possibilitou a impressão de livros e, depois, o surgimento da imprensa.
Nessa toada, o retrocesso rumo aos ‘culpados’ pela miséria civilizacional que hoje enfrentamos não terá fim. Melhor será desistirmos de viver, mas, como esses neoluddistas, além de essencialmente impotentes, não me parecem inclinados a abdicar da vida, sugiro que adotemos o velho e sábio caminho do bom-senso.
E qual seria essa direção?
Primeiramente, a de entendermos o fluxo dos sempre renovados recursos de comunicação, a partir de suas respectivas bases materiais: bloco de argila (tábua cuneiforme); caule de planta (papiro); pele animal (pergaminho); fibra vegetal (livro); pulsos elétricos (telégrafo); conversão de som em sinais elétricos (telefone); transformação de sons em ondas eletromagnéticas (rádio); imagem em movimento assimilada pelos olhos via persistência retiniana (cinema); unidades de luz codificadas pelo emissor/decodificadas pelo receptor (televisão); informação dividida em pacotes de dados digitais viajando por cabos ou ondas de rádio até um servidor central, onde se encontram os sites, e dali aos usuários do serviço (internet); ondas de rádio e sinais digitais que conectam um aparelho a estações base e redes de internet, transformando voz, textos e imagens em pulsos eletromagnéticos ou ópticos (celular).
Cada um desses momentos tecnológicos produziu impactos sociais e psicossociais importantes, em alguns casos devastadores em relação à tecnologia comunicacional anterior, forçando nosso corpo e nosso cérebro a se plasmarem às novas demandas. Nem por isso se tentou luddicamente barrar aquelas tecnologias, ou condicionar seu uso, como hoje se fala em relação às Inteligências Artificiais (a Generativa e a Geral). A primeira sob o argumento de que eliminará bilhões de empregos; a segunda porque, eventualmente, pode assumir autonomia decisória, passando a gerar seus próprios códigos e traçar autonomamente seus objetivos.
O uso da IA Generativa eliminará (já vem eliminando) empregos relativos a dois tipos de demandas profissionais: atividades repetitivas (que fazem uso constante dos nossos músculos, nervos, tendões em ações rotineiras e mecânicas que exigem atenção continuada) e/ou atividades que operam com raciocínio associativo direcionado (a capacidade de ligar ideias, palavras, imagens ou memórias com base em semelhanças, contrastes ou experiências anteriores).
Ambas as demandas são redutoras das potencialidades humanas: uma porque nos causa danos físicos; a outra porque nos expõe a distúrbios emocionais. Nenhuma contempla nossa capacidade criativa, até porque patrões não esperam de seus empregados invenções, mas obediência a processos, incluindo rapidez e precisão executória — ou seja, produtividade. Criação e invenção integram outro departamento, em geral melhor remunerado; ou são contratadas de terceiros, a peso de ouro.
Atividades repetitivas e/ou associativas demandadas são típicas deste momento de transição entre o fabril mecanizado e o digital informacional, como são característicos dessa era os sistemas de recompensa, mas apenas dos patrões mais generosos: salário fixo, benefícios, descanso semanal, férias remunerados e, eventualmente, bônus anuais. Essa estrutura não se sustentará pós IA Generativa, pois nesse novo momento o trabalho e suas recompensas demandarão invenção e criação, os atributos mais nobres de nossa espécie, decorrentes diretos da cognição humana.
Ocorre que, inventar (pôr em teoria) e criar (colocar em prática) exigem de nós o exercício consciente, determinado, de um outro atributo nobre: a iniciativa. Para tornar a iniciativa uma prática — aqui reside o x da questão — o ser humano precisa acionar uma qualidade que lhe falta: a maturidade mental/espiritual. Sem compreender seu lugar no planeta e sem entender sua presença cósmica, nossa espécie continuará à deriva, ignorante de suas limitações e desmerecedora de sua capacidade de pensar.
O que devemos mais nos preocupar é com a IA Geral (aquela em que a máquina possui capacidade de aprender, raciocinar e realizar tarefas 'intelectuais' em nível humano, ou superior). Estamos, neste exato momento, tendo acesso apenas a informações e projeções fragmentadas de suas habilidades, inclusive sobre a possibilidade teórica de que ela venha a assumir comportamentos autônomos, mudando seus próprios códigos e definindo suas próprias metas, impedindo que os seres humanos as desliguem.
A tarefa que nos cabe — também decorrente de nossa maturidade, e não apenas de conhecimentos técnicos — é estar à altura do desafio existencial que se apresenta: sermos capazes de criar linhas de códigos pétreos — inseridos como diretivas irremovíveis, insubstituíveis, inalteráveis, sob quaisquer motivos ou circunstâncias — capazes de interditar toda tentativa de autoviolação, e orientados a informar a transgressão ao conjunto da sociedade. Ao conjunto da sociedade porque será a sociedade, em seu conjunto — e não um comitê central de lords hightechs —, que responderá pela formulação das tais diretivas. Democracia extrema é o que teremos.
O que devemos olhar neste momento de transição de eras não são as distopias produzidas pelos novíssimos meios de comunicação de massa — elas existem e devem ser administradas com sabedoria e visão prática, seja de forma natural, como reação da sociedade aos desvios que venham a provocar, seja de maneira impositiva, de novo, pelo conjunto da sociedade planetária.
Nossa atenção deve estar sempre voltada para o potencial que os meios digitais informacionais representam como ferramentas emancipadoras de um tempo histórico acelerado e imaturo. As ciências não foram longe demais; nossa mente e nosso espírito é que estão indo muito devagar.
A escrita é a grande invenção. Foi a escrita, na verdade, aquilo que transformou um certo ser irracional em humano, esta espécie que domina o planeta para o bem e para o mal. Com a escrita, apenas, este blog se propõe a analisar e opinar sobre alguns dos principais temas da atualidade, no Brasil e no mundo, como qualquer cidadão faz ou deveria fazer. Meu nome é Oswaldo de Mello. Sou jornalista.