Talvez

Enfado é mais do que falta de entusiasmo, mais do que ausência de vontade. É isso, mas também impaciência e, ao mesmo tempo, saber que desistir não é uma opção. É vislumbrar uma saída, uma solução, uma luz no fim do túnel, e constatar que não pode alcançá-las (a saída, a solução, a luz) sozinho. Não pode e, mesmo que pudesse, não quer, porque não vale a pena; porque isso é (seria) exatamente o contrário de sair, de solucionar, de ver.

Penso nisso enquanto recapitulo os trôpegos passos que construíram nossa frágil hereditariedade, iniciada há 4 bilhões de anos, desde a sopa primordial que dominava a crosta deste planeta, naquela era sob som e fúria.

Quem estuda isso nos conta que tudo começou com pontos microscópicos de gordura perdidos naquele caldo quente, seguidos, sempre bilhões de anos atrás (ou adiante), pelo surgimento de fungos, espículas e organismos multicelulares aquáticos.

Depois vieram minúsculos seres dotados de incipientes cabeça, olhos, antenas e bocas; vermes com coluna vertebral, órgãos sensoriais e simetria bilateral; peixes sem mandíbulas, que se alimentavam por sucção; peixes com mandíbulas; peixes com nadadeiras ósseas robustas e musculosas, predecessoras dos braços e pernas dos futuros animais de quatro patas; peixes pulmonados capazes de respirar e armazenar oxigênio.

E desse espantoso processo, aparentemente aleatório, surgiram pequenos animais semelhantes a salamandras, que punham ovos na água e se deslocavam por margens lamacentas, seguidos de lagartos produtores de ovos revestidos de uma camada porosa, capazes de se desenvolverem sob o ar atmosférico, rastejantes e sempre alertas, tementes aos ataques dos superpredadores de outras espécies.

Mais milhões de anos se passaram, e nossa linhagem evoluiu para pan-primatas dotados de polegares opositores e, no lugar de garras, unhas que lhes permitiam manipular coisas com mais delicadeza e precisão. Seguiu-se uma longa sequência de bípedes, que resultaram nos Hominídios e depois, milhões de anos depois, no Homo habilis, no Homo erectus e, finalmente, no Homo sapiens, este de quem diretamente descendemos.

Entre 12 e 10 mil anos atrás, quando entramos no Holoceno — a inter-glaciação em que nos encontramos —, a Terra principiou a ficar mais quente, úmida, e apareceram as primeiras aglomerações humanas estabelecidas ao redor de grandes rios na região do Crescente Fértil. 

Ali, às margens do Tigre, do Eufrates, do Nilo e do Jordão, os humanos passaram a plantar seu próprio alimento e criar animais, abandonando o antigo modo de vida caçador-coletor. Adotaram vida sedentária e produziram cada vez mais excedentes agrícolas, o que resultou em crescimento populacional e no estabelecimento das bases materiais fundamentais para a criação da propriedade privada, das classes sociais e do comércio de mercadorias que mais tarde estruturaria o sistema capitalista.

Em prosseguimento a esse espantoso processo, surgiram e se consolidaram as primeiras formas de escrita, o que propiciou a expansão do pensamento abstrato, a elaboração de documentos para comunicar ideias e normas de convivência social, o desenvolvimento das ciências e a sofisticação das tecnologias.

Essa é a descrição sucinta de nossa evolução misteriosa — porque em diversos momentos a epopeia orgânica que nos beneficiou poderia ter enveredado por diferentes caminhos, impossibilitando que aqui estivéssemos.

Neste 2026 da era cristã, o que temos é uma espécie animal tomada pela insolência, divorciada da Natureza que julga dominar, considerando-se inquestionavelmente superior aos demais seres vivos, arrogando-se protagonista do Universo, julgando-se o motivo da existência de todas as coisas. 

Pior que tudo: relutante em sair, solucionar, ver que só nos resta um caminho: conquistar, em conjunto, a maturidade.

É patético.

Ah, sim, 4 bilhões de anos depois daquela bolha primordial de gordura, nos tornamos indivíduos compostos de 37 trilhões de células distribuídas em mais de 200 tipos diferentes de tecidos altamente organizados, que desempenham as mais variadas e sofisticadas funções.

Um milagre evolutivo. E (talvez) um desperdício.