Quando me referi na postagem anterior sobre a ignorância dos lords hightechs — que combatem a imigração proveniente de países periféricos, pois com isso interditam o mais antigo, espontâneo e efetivo processo de oxigenação da genética e da cultura humana: a miscigenação dos povos —, quando me referi a isso tinha em mente a figura emblemática do indiano Srinivasa Ramanujan (1887-1920).
Ramanujan — define Jordana Cepelewicz, editora de Matemática da Quanta Magazine — cresceu pobre e sem instrução, realizando grande parte de suas pesquisas isolado no sul da Índia, mal conseguindo comprar comida. Em 1912, aos 24 anos, enviou uma série de cartas a matemáticos proeminentes. A maioria foi ignorada, mas um destinatário, o inglês G.H. Hardy, correspondeu-se com ele por um ano e acabou por convencê-lo a ir para a Inglaterra, facilitando o processo com as burocracias coloniais.
Para Hardy e seus colegas, ficou evidente que Ramanujan pressentia verdades matemáticas que outros simplesmente não conseguiam. Conta-se que Hardy chegou a dizer que sua maior contribuição para a matemática fora a descoberta do indiano. Antes de falecer em 1920, aos 32 anos, Ramanujan apresentou milhares de resultados elegantes e surpreendentes. Gostava de dizer que as equações lhe haviam sido concedidas pelos deuses. Suas contribuições transformaram a teoria dos números, a análise matemática e o estudo de séries infinitas, gerando fórmulas usadas hoje em áreas como física teórica e ciência da computação.
Além do aspecto humanitário e da dívida moral que os países hegemônicos carregam, de acolher as vítimas da exploração neocolonialista que perpetraram por séculos (Inglaterra) ou décadas (França, Itália, Espanha), minha defesa das modernas ondas migratórias em direção a esses países se deve a uma questão existencialmente prática: a oportunidade que o processo migratório proporciona ao avanço civilizacional. Não em favor desta ou daquela nação, mas do conjunto da Humanidade.
Ao criminalizarmos o livre trânsito de seres humanos no planeta, em nome de interesses mesquinhos e preconceituosos, estamos impedindo não apenas o surgimento de outros Ramanujan, mas, principalmente, interditando o cruzamento genético e a miscigenação cultural responsável, desde sempre, pelo enriquecimento de nossa espécie.
Qualquer manual de sociologia nos ensina que sociedades fechadas tendem a se enfraquecer a médio e longo prazo por falta de renovação de ideias, flexibilidade e fluxo livre de informações. Sem o contraditório externo e a inovação trazida pela troca cultural ou econômica, essas estruturas estagnam e perdem capacidade de adaptação às mudanças. Estudos indicam que 46,2% das 500 maiores empresas norte-americanas foram fundadas por imigrantes, ou seus filhos, quadro que se repete na União Europeia. Steven Paul Jobs, o criador da Apple, por exemplo, era filho biológico do imigrante sírio Abdulfattah Jandali e da americana Joanne Schieble, tendo sido adotado logo após o nascimento por Paul e Clara Jobs.
A mistura de raças proporciona enriquecimento genético, produz aproximação entre os diferentes, nutre o fenômeno afetivo, cognitivo e social da empatia. Toda argumentação em contrário é essencialmente burra, antes de ser preconceituosa e fomentadora de ódio. Não se sustenta, por exemplo, a justificativa de que a economia dos atuais países hegemônicos entrará em colapso caso absorvam indivíduos provenientes de suas ex-colônias ou de nações periféricas.
Os 300 milhões de migrantes que se deslocaram pelo mundo, em 2024 — Europa (94 milhões), América do Norte (61 milhões), Ásia Central e Meridional (20 milhões) Norte da África e Ásia Ocidental (54 milhões), África Subsaariana (24 milhões), Ásia e Sudeste Asiático (22 milhões), América Latina e Caribe (17 milhões) e Oceania (9 milhões), segundo a ONU/International Migrant Stock — ou seja, 3,6% da população mundial — na verdade proporcionaram mais benefícios do que prejuízos aos países em que buscaram abrigo. Eles são um motor de progresso, sobretudo para as velhas economias do Hemisfério Norte, através da oferta de mão de obra, geração de renda e arrecadação de impostos, apontam especialistas da ONU.
Não corresponde à verdade nem mesmo a afirmação de que expulsar imigrantes e seus descendentes, bem como fechar fronteiras, sejam medidas politicamente efetivas, a médio e longo prazos. O interdito ao desenvolvimento e o confinamento de 6,5 bilhões de pessoas dentro dos limites do chamado Sul Global (que abriga cerca de 79% da população do planeta) é um projeto fracassado. As nações sul-globalistas, que somam mais de uma centena, já vêm se organizando geopoliticamente para um dia não mais precisarem da tutela dos países hegemônicos de hoje.
Ah, mas os países ricos têm a força da persuasão nuclear. Sim, têm, mas estão impedidos de usá-la, sob pena de cruzarem a linha vermelha do frágil equilíbrio geopolítico. Se o fizerem, sofrerão retaliações proporcionais das potências nucleares que não integram o sistema hegemônico, independentemente de onde terão explodido suas bombas — uma bomba nuclear lançada, ainda que sobre um país periférico, é uma agressão existencial a todo o planeta.
Sei que é difícil, para quem até agora esteve mergulhado na ilusão de deter um poder ilimitado e insuperável, aceitar que a dinâmica do mundo mudou. Para esses, antes que o xeque geopolítico seja declarado, antecipando o final do jogo — e esse momento parece próximo—; antes que novas loucuras sejam cometidas, motivadas pelo desespero, o caminho mais sensato é retirar os recursos da indústria da guerra e destiná-los à promoção da prosperidade de todas as nações deste maravilhoso planeta. Este seria o xeque-mate desses que estão sendo derrotados. Uma surpreendente reviravolta.
Para isso — claro! —, faz-se necessário maturidade, visão histórica e coragem.
A escrita é a grande invenção. Foi a escrita, na verdade, aquilo que transformou um certo ser irracional em humano, esta espécie que domina o planeta para o bem e para o mal. Com a escrita, apenas, este blog se propõe a analisar e opinar sobre alguns dos principais temas da atualidade, no Brasil e no mundo, como qualquer cidadão faz ou deveria fazer. Meu nome é Oswaldo de Mello. Sou jornalista.