Aprendeu, deveria ter aprendido, ou aprenderá

Não se trata de nos rendermos ao desastre civilizacional construído por sucessivas gerações, milênios afora. Não se trata de aceitarmos a ideia de inevitabilidade desse rumo, nem de — em específico — abdicar das poderosas ferramentas comunicacionais paulatinamente desenvolvidas, e que nas primeiras décadas deste XXI estão em acelerada evolução. O desastre há de ser combatido sempre, mas o mal não está nas ferramentas e sim no uso que delas fazemos, como já se disse.

Se hoje os meios e modos de comunicação interpessoal se colocam a serviço da manjada estrutura de produção de riqueza e privilégios, gerando no processo a desagregação social pelo desestímulo ao florescimento da sempre bem-vinda individualidade inconformada — coisa que até certo momento do passado não ocorria, pois todo indivíduo inventivo, qualquer que fosse sua origem social, tinha a chance de angariar respeito (ou temor) no ceio da pólis —, essa neodesagregação por interdição ao inconformismo não pode, nem deve ser passivamente assimilada.

O clima cultural, intelectual e moral, o zeitgeist proposto por Friedrich Hegel para definir comportamentos, tendências, artes e políticas numa determinada época, esse espírito do tempo quem estabelece são as dinâmicas sociais, ou seja, o conjunto dos indivíduos através de suas lideranças. A despeito da força dos lords da manipulação planetária e de seus sistemas de controle, a resistência continua de pé — desde que não rejeite as novas ferramentas de trabalho e as novas armas de combate. 

Se os modos de interlocução pessoal e direta do mundo pré advento das tecnologias de comunicação de massa produziram seres humanos melhores, mais confiantes e tolerantes, como a história nos relata — acordos entre indivíduos eram firmados no fio de barba, por exemplo, sob pena de desmoralização pública do descumpridor —, ainda assim não nos cabe ignorar ou condenar as novas tecnologias.

Não, o avanço do conhecimento e sua tradução utilitária (tecnológica) não vai parar porque queremos e/ou o rejeitamos. Tem se falado ultimamente sobre a necessidade de uma moratória na corrida das chamadas Inteligências Artificiais, para que a sociedade avalie seus impactos e se prepare devidamente.

Esqueça isso, não haverá moratória alguma; a curiosidade humana é indomável, impossível de ser modulada, moderada, contida. A ideia de adiamento do processo é mais um lance de hipocrisia patrocinada. De um lado, por aqueles que receiam o futuro, e, de outro, por quem vem perdendo a corrida da inovação e precisa de um tempo para se colocar no mesmo patamar dos que hoje estão à frente. Tudo se resume a medo e falsidade, nada mais.

Outro ponto de questionamento e motivo de alarme são os impactos ambientais gerados pela infra-estrutura necessária à operação das IAs (o absurdo consumo de energia e de água pelos Data Centers que coletam e processam dados em nuvem). Esquecem, ou desconhecem os críticos dessa novíssima tecnologia (esses mesmos que as utilizam em seu dia a dia de trabalho) que as pesquisas destinadas a substituir os recursos naturais vêm avançando, e apontam para ganhos expressivos de desempenho operacional pelos DCs.

Não sou um apaixonado por tecnologias, prefiro e procuro me limitar ao básico para viver. Mas não posso ignorar, nem rejeitar, as vantagens e os benefícios que elas em geral nos proporcionam, especialmente no campo da Saúde. E na esfera da Comunicação também, porque é pela Comunicação que nos redimiremos como espécie.

Dou preferência ao livro físico, por exemplo, mas sempre que tenho um em mãos penso em quantos insumos (energia, água, celulose produzida a partir de árvores derrubadas e tinta preparada com derivados de petróleo), entre outros, não foram necessários para que eu tivesse acesso a esse produto, transportado até mim por navios, aviões, trens, caminhões e automóveis. Um livro físico, o velho e amado livro físico, embora seja valioso instrumento de disseminação de conhecimentos e indutor de novas ideias, não é um produto inocente. Sem esquecermos o desperdício (daqueles insumos) decorrente da indigência mental contida em tantos deles.

Raciocínio semelhante deve ser aplicado às nascentes tecnologias comunicacionais. As redes sociais são um inferno — fomentam ódio, discórdia, indigência cognitiva, enfraquecimento espiritual e crimes. Mas o mundo digital também tem possibilitado a distribuição rápida e ampla de informações científicas, aproximado pessoas, universalizado o debate sobre assuntos cruciais para o nosso tempo, gerado valor intelectual, moral e ético.

Nada é totalmente bom, nem inteiramente ruim. O que não podemos, não devemos, é rejeitar, por medo do desconhecido, os desafios que as ciências e as tecnologias nos proporcionam. Também não podemos, não devemos, ser ingênuos e abrir mão do controle sobre essas inovações. Nossa espécie já aprendeu, deveria ter aprendido, ou aprenderá na marra que os sistemas digitais, mesmo (e principalmente) aqueles que no futuro rodarão em estado quântico, são máquinas a serviço da humanidade. Não o contrário.