A janela da alma não são os olhos. Os olhos são, e isto já é muito!, um dos cinco sensores — junto com a misteriosa capacidade de intuir — a nos conectar aos indivíduos que nos cercam, ao ambiente do entorno, ao Universo. Os olhos são instrumentos de recepção de luz destinada a processamento cerebral, segundo as regras da Física, mas não possuem vontade; não expressam o que nos vai n’alma.
Se queremos apontar uma janela anímica, que nomeemos então os seis músculos ao redor dos olhos — reto superior, reto inferior, reto medial, reto lateral, oblíquo superior e oblíquo inferior. Estes, sim, fiéis servidores ao que o cérebro lhes ordena, em 150 milissegundos revelam ao mundo exterior aquilo que nos toca a alma e cala ao coração. Tudo o mais é romantismo barato, sinto informar.
A interpretação romântica da experiência humana, digamos assim, é acalentadora, reconfortante, mas tem sido um dos tantos ardilosos embaraços inventados contra a necessária conquista da maturidade da nossa espécie — condição sine qua non para sairmos deste atoleiro civilizatório. Afinal, para que serve o romantismo, se ele não é capaz de produzir ação? É de ação que precisamos!
Ao contrário do que se diz por aí, racionalismo não se contrapõe a romantismo, eles nem habitam o mesmo planeta cognitivo. Eles devem até conviver, harmonizar-se a bem da temperança, pois o predomínio da racionalidade pode produzir um ambiente árido, sufocante, enquanto, no outro extremo, a visão predominantemente romântica gera escapismo, inércia a serviço da desumanidade — a “virtude é o meio-termo”, nos avisou Aristóteles (384-322 a.C.).
É escapismo porque diminui, simplifica, dilui, infantiliza nossa existência e desmobiliza a ação. Como? Caricaturando o drama, banalizando a comédia; substituindo a resposta imediata e necessária, por elaborações postergadoras, melosas, farsescas, ou, na melhor, na mais genuinamente romântica, na mais reconfortante das hipóteses, "fingindo tão intensamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente", como escreveu dos poetas o grande Fernando Pessoa (1888-1935).
O romantismo pode ser belo, confortante, consolador, mas entender racionalmente como o nosso corpo funciona e reage ao ambiente em que estamos inseridos — por exemplo: que os olhos não refletem sentimentos, mas sim aquele insípido grupo de seis músculos, cuja função é expressar impulsos gerados a partir de estímulos externos processados pelo nosso cérebro —, isto não nos rouba a capacidade de perceber a maravilha da vida, ao contrário, expande a compreensão do milagre da existência humana.
As expressões “janela da alma” e “voz do coração” nos comovem e embalam (ah, o romantismo!). Mas, como são objetivamente impróprias, também desviam nossa atenção do que é a essência. Quero dizer, o importante não são os mensageiros, ou seja, os músculos que circundam os olhos, protegendo-os e projetando ao mundo externo os estados reativos originários do cérebro; o importante é a própria mensagem projetada por meio desse conjunto de músculos acionados pelos nervos, e a ação que ela demanda. O grave é a banalização que fazemos dessa mensagem, romantizando-a e, assim, adiando as respostas adequadas — as ações.
Romantizar — conforme entendo —, é uma forma de diluir, rebaixar, banalizar a tensão contida na mensagem racional. Esse rebaixamento e essa infantilização se traduzem, persistentemente, em desperdício de oportunidades de acumular e processar aprendizado — isto é, ao romantizar, nos distraímos e perseveramos na imaturidade. "Palestina livre!", gritamos. E daí?!
Se os olhos fossem as janelas da alma, o que se diria das pessoas destituídas desse sentido? Seriam elas incapazes de expressar sentimentos, impedidas que são de projetá-los ou recepcioná-los pelo órgão da visão? Sabemos que não é assim e, em decorrência, está claro que somos aptos, capazes de compreender que atribuir a órgãos do nosso corpo poderes que eles não possuem, de forma alguma nos ajuda a superar o nosso rebaixado estágio espiritual.
Tal prática pode e costuma embalar recorrentes sonhos românticos, embevecimentos, esperanças, expectativas, mas, por isso mesmo, nos impede, pela inibição (melhor diria pelo medo de enfrentar o desconhecido), de acolher o fluxo cognitivo que poderá (poderia) nos projetar a novos lances à frente.
Em poucas palavras: o romantismo é um agradável, indulgente, condescendente desperdício de tempo. Não nos percamos com o que é acessório e sintoma (as contrações e relaxamentos dos mensageiros músculos dos olhos e do coração), enquanto fazemos vistas grossas para o que é essencial e informativo (a mensagem que o cérebro processa e nos manda através dos nervos). Não reiteremos nessa, até hoje, intransponível covardia existencial.
A escrita é a grande invenção. Foi a escrita, na verdade, aquilo que transformou um certo ser irracional em humano, esta espécie que domina o planeta para o bem e para o mal. Com a escrita, apenas, este blog se propõe a analisar e opinar sobre alguns dos principais temas da atualidade, no Brasil e no mundo, como qualquer cidadão faz ou deveria fazer. Meu nome é Oswaldo de Mello. Sou jornalista.