Mal posso esperar

Especula-se a possibilidade disto que entendemos por vida humana ser uma simulação computacional gerada em máquina quântica, a partir de um tempo futuro, ou passado. Segundo essa hipótese, não haveria o nós, as pessoas, a sociedade, mas uma única cobaia exposta às complexidades de uma vivência virtual realista, destinada a pôr a prova a eficácia de todas as possíveis variáveis existenciais, com vistas à construção de um indivíduo perfeito. Para quê? Não sei.

Tudo é possível, costuma dizer um velho amigo, sempre atormentado com os altos e baixos da gangorra cotidiana, assombrado pelo despertar de velhos vírus ideológicos, disseminadores do extremismo de direita, e de velhíssimos vírus biológicos trazidos das profundezas da Terra pelo desequilíbrio climático. Sim, tudo é possível, inclusive a vida humana ser fruto de um Criador magnânimo e punitivista, o que não deixa de ser outra fantástica hipótese; ou, ainda, resultar do acaso. 

Cabe a este ser — a cobaia, o criado, o imprevisto — provar-se o que seja, e ir além 
— ir além é a chave aqui. Para isso, é imperativo enfrentar os eternos enigmas que a cognição lhe coloca. Enquanto não for capaz de responder as perguntas Quem sou? De onde vim?, como ele pode estar seguro quanto ao Para que existo?

Se ele se contenta em tocar sua vida trilhando este precário caminho, ignorando o abismo existencial instalado dentro, acima, abaixo e ao lado de si; se está disposto a isso, com que confiança pode afirmar possuir uma vida, uma história, uma hereditariedade, uma genética, um princípio, uma expectativa de fim?

Não, isso não é uma especulação metafísica, transcendental, irrelevante. É o que está aí posto (para os 8,2 bilhões de indivíduos que se diz existir), pois se tratam de questões que constituem e concretamente envolvem este ser, embora, como o diabo da cruz, sejam as que ele mais teme e tem evitado encarar — ‘que a Filosofia lide com elas’, é o que pensa.

Nesta altura dos acontecimentos, 350.000 anos após o surgimento de sua espécie (ele integra uma espécie?), depois de tudo o que tem sido por ele cogitado (as cogitações são mesmo suas?), não há mais como escapar destes questionamentos: 

Por que existo? Se não há um porquê, então, para que existo? Seguindo os passos da Lógica, ele há de concluir que nada existe sem uma razão, mesmo que tal razão ainda lhe seja desconhecida. Isso é uma questão proibida, interditada à sua potencialidade cognitiva? Ele já não crê nisso. Mas se assim for, resta-lhe uma derradeira pergunta: Para que continuo aqui, sem razão nem porquê, neste vale de lágrimas, frustrações, dores e sofrimentos?

Se sua existência não é um experimento computacional quântico proveniente do passado ou do futuro, engendrado por uma força ilimitada destituída de empatia; se não é obra divina e controversa; se não é fruto do acaso, se nada disso é, ainda assim carece de algum propósito, para que ele não seja nada, ou meramente uma piada cósmica, virtual, divina.

Ele é, em essência, átomos arranjados em moléculas animadas por energia química, constituindo um organismo complexo, capaz de pensar. Ao menos é isto o que pensa que é. Mas, por que e para que este organismo existe, afinal?

Ele diz que sua vida não carece de finalidade, ela apenas é. Sendo assim, a que diabos se presta este ser que especula sobre a razão e o valor de sua própria existência? Por que não aquieta seu espírito e apenas é? Por que deixou para trás a tal caverna, onde tinha uma ilusão do mundo, e isso lhe bastava? Por que buscou outras condições de existência, trilhando a interminável via do prosseguimento?

Não, essas perguntas não são ociosas, desnecessárias, inconvenientes, metafísicas. Elas são imperativas e está na hora de buscar respostas ao alcance do senso comum de sua (presumível) espécie. A princípio, as respostas haverão de ser especulativas, grosseiras, imprecisas, como têm sido, mesmo no âmbito da Filosofia, mas sua espécie não se conciliará enquanto não vislumbrar uma explicação factível. Enquanto não der esse novo passo no sentido de sua afirmação (virtual, criada ou ocasional).

Recapitulo: este indivíduo, fruto do acaso cósmico, ou da vontade de um Criador, ou de uma projeção computacional, teria aprendido a organizar sons para transmitir sentimentos e necessidades; desenvolvido caracteres e codificado linguagens para disseminar informações; reunido-se em grupos de semelhantes para potencializar suas capacidades e desfrutar de novos e mais benefícios; estabelecido governos e nações; constituído regras, códigos, regulamentos, leis, e assim erigido uma civilização, ainda que virtual, todos esses magníficos e improváveis passos ele deu para que?

Esse conjunto de conquistas terrenas, mundanas, serve a quê? Ao aprimoramento da existência de um ser virtualizado, criado ou fruto do acaso, mas certamente complexo? Parece que sim. Agora que essa etapa se mostra encaminhada, ainda que longe de se completar (virtual, criada ou ocasionada), qual é o próximo desafio, se não explorar os limites deste organismo de compreender os mistérios de sua existência? Quais conhecimentos estão ao alcance de sua evolução cognitiva?

Mal posso esperar para saber.