Nossas portas e janelas já estão abertas, nossas casas invadidas, nossa vida financeira exposta, nossos segredos mais íntimos, incluindo nossos desejos, frustrações, fraquezas, desvios morais e medos estão plena e completamente acessíveis a quem quiser deles fazer uso.
Não nos iludamos sobre isso.
Basta de hipocrisia, pois nossa privacidade não nos foi tomada a força por este ou aquele governo, por quaisquer corporações cibernéticas. Elas, as corporações, apenas nos estimulam a lhes ceder todas as informações do nosso modo de vida, dos nossos sentimentos, do que pensamos e desejamos, oferecendo-nos em troca os brinquedos tecnológicos certos — as tais conveniências telecomunicacionais irrecusáveis. E nós, de posse delas, nos encantamos.
Os governos vieram depois, atuando sobre a manipulação social (especialmente em eleições), quando o Capitalismo de Vigilância (coletar, analisar e vender dados comportamentais) — prática consolidada no início dos anos 2000, em especial entre 2000 e 2004, pelo Google e depois o Facebook — já havia se transformado no modelo de negócios mais lucrativo de todos os tempos, constituindo esta novíssima forma de escravidão.
Sim, escravidão, dominação.
Quase três décadas se passaram desde o advento do Capitalismo de Vigilância, mas essa técnica destinada a capturar corações e mentes não foi inventada agora. Como teria dito o francês Antoine Lavoisier (1743-1794), “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Embora ele estivesse se referindo ao mundo da química, a lição também se aplica à geopolítica e à geoeconomia.
Como sabemos, há mais de 500 anos, para conquistar confiança e submissão, espelhos, facas e miçangas foram amplamente distribuídas pelos colonizadores europeus aos habitantes originários das terras que viriam a ser chamadas de Brasil. Quem haveria de recusar as brilhantes conveniências tecnológicas de então?
Lembro-me do fascínio e alegria quando, pela primeira vez, recebi uma chamada de vídeo de minhas filhas. Eu e minha companheira caminhávamos por uma rua de nossa cidade e elas se encontravam em outro país, a mais de seis mil quilômetros de distância. Vê-las na pequena tela do aparelho que carregávamos no bolso foi uma experiência encantadora — tão empolgante quanto aqueles espelhos, facas e miçangas o foram. Não poderíamos mais prescindir daquela facilidade comunicacional. Pois é...
Então, amigas e amigos, não culpemos ninguém pelas nossas fraquezas — especialmente não culpemos a nós mesmos, vítimas conscientes (embora disso eu duvide) das tragédias destes dias. E por não termos culpados a apontar é que devemos refletir com responsabilidade (a que nos for possível) sobre as saídas para a enrascada existencial em que nos encontramos.
Um dos caminhos que tenho proposto é o da busca da compreensão da incontornabilidade da distopia produzida pelo processo tecnológico em curso, inclusive a chamada Inteligência Artificial. Sei o quanto é difícil reconhecer nossos próprios erros e fraquezas (a psicologia e a psicanálise estão aí para provar!), mas essa é talvez a principal saída que nos resta.
Não há como estancar o processo de dominação tecnológica em curso sem que nós, os dominados, tomemos, primeiro, consciência de que somos os condescendentes escravizados. Defender uma paralisação temporária desse processo, ou mesmo a sua desaceleração, é mais uma vez incorrer em hipocrisia — isso não vai acontecer, pois há muito dinheiro investido, certeza de lucros fabulosos, ânsia de poder ilimitado.
Disciplinar seu uso também não é uma opção, pois as nações e seus governos, mesmo nos mais poderosos países, não estão interessados, nem detêm os meios (conhecimentos teóricos) e os modos (ferramentas algorítmicas) para fazê-lo. Nações e governos são apenas clientes (e agentes) daqueles que os possuem.
Abdicar espontaneamente de usar esses recursos? Como, se nosso modelo de civilização já se encontra assentado sobre a informática globalizada, tanto quanto dos hidrocarbonetos, da água e da eletricidade por enquanto baratas?!
Repito: uma das únicas saídas que vejo (sim, porque as outras são catastróficas) é reconhecermos nossos reiterados erros civilizacionais e disseminarmos essa compreensão a quem estiver disposto a nos ouvir. E depois esperar que ainda nos reste tempo até o esgotamento de mais este ciclo de imaturidade — a partir daí talvez tenhamos uma nova chance.
Esperar? Sim, esperar, torcer, contar que a sorte que nos trouxe até aqui jogue seus dados a nosso favor. Muita destruição, muito sofrimento pessoal e coletivo nos esperam nesse processo. Mas, convenhamos, isso tem ocorrido e ocorrerá com ou sem a nossa concordância.
Já nos iludimos o suficiente com soluções milagrosas, apostando em lideranças bem-intencionados e/ou minimamente esclarecidas. Ocorre que não há liderança capaz de confrontar o passo da História — produzimos o caos e o caos tem sua própria dinâmica. Ninguém o cavalga.
Somos cada um, e todos, o que nunca deixamos de ser: apenas e tão somente coadjuvantes de um imenso drama planetário e, de muitas formas, cósmico. Se quisermos o protagonismo, a solução há de vir do indivíduo. Sócrates (470-399 a.C.) já dizia: “Conhece-te a ti mesmo”. Ou seja, muda-te a ti mesmo.
A escrita é a grande invenção. Foi a escrita, na verdade, aquilo que transformou um certo ser irracional em humano, esta espécie que domina o planeta para o bem e para o mal. Com a escrita, apenas, este blog se propõe a analisar e opinar sobre alguns dos principais temas da atualidade, no Brasil e no mundo, como qualquer cidadão faz ou deveria fazer. Meu nome é Oswaldo de Mello. Sou jornalista.