A angústia que nos aflige, já admito, pode ser paradoxalmente um estímulo. O fato é que vivemos num mundo tão pleno de possibilidades quanto aquele de festa, descrito por Ernest Hemingway ao falar da Paris dos loucos anos 1920, quando, no sentido inverso ao que hoje ocorre, nutria-se uma enganosa certeza de prosperidade, ignorando-se os sinais vindos de uma Alemanha ressentida e desesperada pós derrota e humilhações na I Guerra Mundial.
Há, sim, importantes semelhanças conceituais quando olhamos para esses dois momentos separados por 100 anos deste período frenético da História. Semelhanças opostas, sem dúvida, pois a angústia que nos domina toca não a música de uma ilusão alegre e distraída dos horrores do nazifascismo que se avizinhava, mas a música esquizofrênica de um neonazifascismo que já está aí, à vista de todos, perturbadoramente poderoso, sincero e debochado.
O bom, se assim podemos dizer, é que finalmente, graças à ascensão desse extremismo, as hipocrisias vêm sendo superadas, substituídas em ritmo desconcertante pela exposição nua e crua da milenar impostura nas relações humanas — em todos os planos em que elas se dão. Os códigos de conduta, os costumes, as leis reguladoras, os tratados que ordenam as relações de Estado vêm sendo, todos, ignorados, jogados no lixo, como só o fascismo ousa fazer.
No texto anterior — “Cem anos de confusão” —, falei desse novíssimo processo disruptivo em que os alicerces do nosso fracassado modelo de civilização se dissolve no ar, a serviço de um mundo controlado por meia dúzia de info-oligarcas praticantes de um neomarionetismo, manipuladores de linhas de códigos algorítmicos destinados a emascular a sociedade planetária, dela extraindo apenas a imprescindível força física para tarefas braçais.
Imaginei que esse processo se estenderia por mais uma ou duas décadas, antes de se completar, mas parece que errei no prognóstico. Tudo indica (pois agora a velocidade se mede em dias, talvez horas) que a info-oligarquia e seus agentes estão apostando alto, jogando todas as suas fichas, pagando para antecipar o fim desta civilização sedimentada em falsas amabilidades — ainda que pelos motivos errados e objetivos mais torpes, como o estabelecimento de uma sociedade planetária servil — ainda que isto custe maiores tragédias sociais e mais sofrimento individual.
Esse grupo de indivíduos está cacifado?
Não sei. Talvez sim. Ou apenas pense que está. Ou, quem sabe?, venha apenas tensionando os nervos de seus oponentes, caminhando sobre o fio da navalha que pode nos levar a uma III Guerra, nuclear, derradeira. Mas há uma espantosíssima possibilidade: o jogo estaria combinado, e o objetivo dos principais players seria fomentar inesperados impasses geopolíticos, os quais, de tão inéditos e assustadores, só poderiam mesmo se resolver com medidas extremadas. Por exemplo: estabelecer um novíssimo modelo de colonialismo, dividindo o planeta entre os dois verdadeiros blocos de poder — o americano e o sino-russo. Não acredito nessa hipótese, mas, como diz um amigo, o impossível hoje também deve ser considerado.
O fato é que estamos, paradoxalmente, vivendo um tempo a se ‘comemorar’. A era (ou seria a festa?) da falsidade, do fingimento, da brincadeira de faz de conta destinada a distrair adultos infantilizados, desinformados, iludidos, crentes e passivos, essa era está chegando ao fim — mais rápido do que se imagina. Mesmo que o desfecho seja aquele jogo combinado e inacreditável, os meios não levarão ao fim desejado — e numa velocidade tão rápida quanto esta em que a sociedade sedimentada na hipocrisia vem sendo desmascarada e destruída. E se a catástrofe nuclear vier, o que se haverá de fazer?! Teremos nos angustiado em vão.
A escrita é a grande invenção. Foi a escrita, na verdade, aquilo que transformou um certo ser irracional em humano, esta espécie que domina o planeta para o bem e para o mal. Com a escrita, apenas, este blog se propõe a analisar e opinar sobre alguns dos principais temas da atualidade, no Brasil e no mundo, como qualquer cidadão faz ou deveria fazer. Meu nome é Oswaldo de Mello. Sou jornalista.
Há angústia no mundo
“Cem anos de confusão”
Em 2007, um documentário de grande impacto sobre corações e mentes nos apresentou uma devastadora visão retroantropológica, digamos assim, projetada a partir da repentina subtração da nossa espécie da casca deste planeta — The World without Humans/O mundo sem os humanos.
Hoje sabemos que nossa existência na Terra um dia terá fim, só desconhecemos quando ou como isso se dará. E nem precisamos que um meteoro gigante volte a nos alcançar, uma guerra atômica ocorra, ou um vírus mortal desperte, desses que estão depositados nas profundezas das geleiras em acelerado derretimento pelo aquecimento global.
Nada disso. Um novo e até recentemente insuspeitado caminho de destruição, este humano, demasiadamente humano, salta à frente nessa corrida rumo ao nosso inevitável fim: o autossuicídio decorrente deste processo de retorno à barbárie, projeto em que estamos firmemente engajados.
Um amigo me disse, outro dia (em outras palavras, claro!): “Parece que teremos de chegar a um momento de consciente confronto, em que uma ou duas potências nucleares coloquem todas as suas fichas do Juízo Final na mesa, apostando em que no derradeiro instante o outro lado recuará. Não porque se viu derrotado, mas porque finalmente entendeu a imensa e definitiva grandeza do que está em jogo”.
É, parece que só essa opção nos dará uma chance de interromper a corrida anticivilizacional em que estamos firmemente engajados — uma aposta no tudo ou nada. O aspecto retrógrado, de retorno à barbárie a que me refiro, é este em que vemos todas as normas, leis e códigos de convivência internacionais sendo simplesmente revogados (quando deveriam ser aperfeiçoados), em prol dos interesses de alguns indivíduos, em quantidade que podemos contar nos dedos das mãos — sim, nem mesmo dos interesses de nações, mas de privilegiados indivíduos!
Há uma série lançada no final de 2025 — Pluribus, da Apple TV, cuja segunda temporada já se encontra em produção —, em que, de repente, quase todos os 8,3 bilhões de habitantes da Terra são transformados num único ‘indivíduo coletivo’ que se intercomunica e interage com seus iguais por meio de um banco de dados planetário instantâneo, que tudo sabe sobre tudo e sobre todos, transformando cada ‘indivíduo coletivo’, simultaneamente, num sábio e num idiota, pois subtrai desses seres a sua cognição, o seu poder de pensar diferente do que já foi pensado, transferindo essa tarefa à Inteligência Artificial (e às corporações que administram seus algoritmos).
Isso é apenas ficção científica delirante? Penso que não. E, se não, vejamos: que tipo de sociedade está sendo construída hoje? Não ontem, hoje, neste exato 2026? Tudo aponta para um projeto destinado a, num primeiro momento, neutralizar, e depois eliminar qualquer vestígio ou possibilidade de contestação social, seja proveniente dos segmentos intelectualizados, seja da juventude por natureza rebelde, seja da massa de miseráveis. Para cada um desses segmentos há um subprojeto em andamento, todos convergindo para o mesmo fim — emascular a vontade das pessoas.
Como isso se dará?
Já está se dando, já está em andamento. Há duas décadas, pelo menos, as informações sobre os desejos, as fraquezas, os medos, as manias, os gostos, os vícios, os dados sobre a saúde física e mental de todo e cada indivíduo do planeta vêm sendo coletados, categorizados, segmentados, etarizados, hierarquizados, etnicizados, de modo a que se venha a construir esse ‘indivíduo coletivizado’ que a série Pluribus nos apresenta.
Não estou aqui a denunciar nada (talvez nem a série se proponha a isso), apenas constato que essa sociedade sedimentada em relações sociais amorfas — suave barbárie — já está em plena construção. Seus proponentes, patrocinadores e executores sabem que para efetivá-la é preciso pôr abaixo, desmontar e enterrar a estrutura de relacionamentos humanos ora vigente. Tanto aqueles que regulam a convivência entre as pessoas, quanto os que intermedeiam a vida em sociedade, e os que sustentam os pactos entre as nações. Tudo deve vir abaixo. Paulatinamente, mas em ritmo sempre mais acelerado.
O método é implantar a desordem.
Aquele mesmo amigo que apontou a “necessidade de confronto”, chegou a pensar num livro, a ser escrito por um Gabriel Garcia Márquez redivido, com o título “Cem Anos de Confusão”. Um século de confusão, sim, é no que estamos metidos neste XXI d.C. O que me conforta, como sempre, é que ninguém cavalga o caos. Se o plano cósmico é regulado pelo acaso, o projeto humano tem a marca do fracasso.