Em breve vai acontecer

A moeda gira rápido sobre a mesa: cara-corôa-cacocacocaoaoa…

O que é esse objeto em movimento, se não uma representação gráfica, embora tosca, de algo existindo em múltiplos estados, tal qual ocorre no fenômeno da superposição quântica?

Se o tocamos, ele tomba, expondo uma de suas faces, ou seja, ocorre o colapso da função de onda da mecânica quântica, e o objeto rotativo assume um específico e único estado, oferecendo-se à nossa observação e medição, conforme as leis da Física clássica.

Esse exemplo se encontra em podcast produzido a partir de publicações e aulas do professor Michio Kaku, como também a ideia de que a intuição humana equivale à manifestação quântica da superposição em nosso cérebro (e faz sentido que seja assim!), considerando e processando milhares informações simultaneamente, e não de forma linear.

Ao interromper (colapsar espontaneamente) o giro da moeda-pensamento, e assim congelar um específico insight, o cérebro se apropria de uma formulação inusitada, surpreendente, reveladora, produzindo saltos de compreensão e, portanto, avanços cognitivos reais.

Para seguir adiante, é necessário registrar que os esclarecimentos proporcionados por Michio Kaku se baseiam, entre outras, nas proposições teóricas e complementares de Kurt Gödel (matemático e lógico), Roger Penrose (físico e matemático), Max Planck (físico), Stuart Hameroff (médico anestesiologista), Anirban Bandyopadhyay (físico e nanocientista), entre outros.

Isto significa que o avanço do conhecimento humano, tal qual se dá na mecânica quântica, resulta de um processo multifacetado, aleatório, e realizado aos saltos. Tem sido assim desde o começo, até onde os registros antropológicos e arqueológicos alcançam. Tem sido assim em todos os campos de nossa evolução, embora com imenso hiato nas esferas mental e emocional, conscientes e inconscientes, o que impõe terríveis obstáculos e retardamento ao nosso imprescindível amadurecimento espiritual. 

Mas não é de imaturidade — tema sempre presente em minhas publicações — que este texto trata. Quero me deter aqui no mistério da intuição, do insight, e de sua essencialidade para este ser que somos e almejamos nos tornar. Agora que sabemos — através do esforço de compreensão da teoria e do trabalho de divulgação de Michio Kaku — que a alma não é um software operando em linguagem binária, mas um fenômeno físico real, ligado à geometria fundamental do Universo na Escala de Planck (*), pois atua segundo as leis quânticas, agora que sabemos disso podemos especular com maior liberdade a respeito do que nos é possível almejar.

E o quê nos é possível? Realizarmos novos saltos cognitivos é possível! Tão revolucionários e determinantes quanto o foram a criação da linguagem, o domínio do fogo, a produção de ferramentas de pedra lascada, a descoberta da roda, a utilização da alavanca, a invenção da escrita e tudo mais, até os nossos dias. Nada disso nos foi concedido, mesmo que ainda desconheçamos de onde viemos, por que e para que estamos aqui — nossas questões fundamentais.

Tudo o que conquistamos tem resultado de saltos cognitivos intuídos, que agora sabemos serem fruto de superposição quântica realizada nas infinitesimais estruturas de nosso cérebro, considerando milhares de informações simultaneamente processadas, em resposta a necessidades objetivas e demandadas.

Esses conhecimentos reforçam a abordagem racional da existência humana — afastando-nos da contraditória visão criacionista —, ainda que nem de longe respondam as tais perguntas fundamenteis. O fato promissor é que agora sabemos (parece) que nossa espécie pode estar na iminência de ingressar em nova era, realizando (quanticamente) um novo salto cognitivo, dado o inquestionável acúmulo de conhecimentos propiciadores de revolucionárias intuições.

Não estamos livres dos impactos planetários, sociais e pessoais que acompanham todo momento de ruptura — temos visto e sofrido com essas dores diariamente, em velocidade e quantidade cada vez maiores —, mas, e há sempre um mas, algo nos diz que, como Belchior em seu contexto anunciou há 50 anos, “uma nova mudança em breve vai acontecer”.

(*) Representado por 6,626070150 × 10¯³⁵ kg⋅m2/s, ou, em sua versão estendida, 0,0000000000000000000000000000000006626070150 Joules, que é a unidade de medida de energia mecânica (trabalho) e energia térmica (calor) utilizada pelo Sistema Internacional de Unidades.

    

Mal posso esperar

Especula-se a possibilidade disto que entendemos por vida humana ser uma simulação computacional gerada em máquina quântica, a partir de um tempo futuro, ou passado. Segundo essa hipótese, não haveria o nós, as pessoas, a sociedade, mas uma única cobaia exposta às complexidades de uma vivência virtual realista, destinada a pôr a prova a eficácia de todas as possíveis variáveis existenciais, com vistas à construção de um indivíduo perfeito. Para quê? Não sei.

Tudo é possível, costuma dizer um velho amigo, sempre atormentado com os altos e baixos da gangorra cotidiana, assombrado pelo despertar de velhos vírus ideológicos, disseminadores do extremismo de direita, e de velhíssimos vírus biológicos trazidos das profundezas da Terra pelo desequilíbrio climático. Sim, tudo é possível, inclusive a vida humana ser fruto de um Criador magnânimo e punitivista, o que não deixa de ser outra fantástica hipótese; ou, ainda, resultar do acaso. 

Cabe a este ser — a cobaia, o criado, o imprevisto — provar-se o que seja, e ir além 
— ir além é a chave aqui. Para isso, é imperativo enfrentar os eternos enigmas que a cognição lhe coloca. Enquanto não for capaz de responder as perguntas Quem sou? De onde vim?, como ele pode estar seguro quanto ao Para que existo?

Se ele se contenta em tocar sua vida trilhando este precário caminho, ignorando o abismo existencial instalado dentro, acima, abaixo e ao lado de si; se está disposto a isso, com que confiança pode afirmar possuir uma vida, uma história, uma hereditariedade, uma genética, um princípio, uma expectativa de fim?

Não, isso não é uma especulação metafísica, transcendental, irrelevante. É o que está aí posto (para os 8,2 bilhões de indivíduos que se diz existir), pois se tratam de questões que constituem e concretamente envolvem este ser, embora, como o diabo da cruz, sejam as que ele mais teme e tem evitado encarar — ‘que a Filosofia lide com elas’, é o que pensa.

Nesta altura dos acontecimentos, 350.000 anos após o surgimento de sua espécie (ele integra uma espécie?), depois de tudo o que tem sido por ele cogitado (as cogitações são mesmo suas?), não há mais como escapar destes questionamentos: 

Por que existo? Se não há um porquê, então, para que existo? Seguindo os passos da Lógica, ele há de concluir que nada existe sem uma razão, mesmo que tal razão ainda lhe seja desconhecida. Isso é uma questão proibida, interditada à sua potencialidade cognitiva? Ele já não crê nisso. Mas se assim for, resta-lhe uma derradeira pergunta: Para que continuo aqui, sem razão nem porquê, neste vale de lágrimas, frustrações, dores e sofrimentos?

Se sua existência não é um experimento computacional quântico proveniente do passado ou do futuro, engendrado por uma força ilimitada destituída de empatia; se não é obra divina e controversa; se não é fruto do acaso, se nada disso é, ainda assim carece de algum propósito, para que ele não seja nada, ou meramente uma piada cósmica, virtual, divina.

Ele é, em essência, átomos arranjados em moléculas animadas por energia química, constituindo um organismo complexo, capaz de pensar. Ao menos é isto o que pensa que é. Mas, por que e para que este organismo existe, afinal?

Ele diz que sua vida não carece de finalidade, ela apenas é. Sendo assim, a que diabos se presta este ser que especula sobre a razão e o valor de sua própria existência? Por que não aquieta seu espírito e apenas é? Por que deixou para trás a tal caverna, onde tinha uma ilusão do mundo, e isso lhe bastava? Por que buscou outras condições de existência, trilhando a interminável via do prosseguimento?

Não, essas perguntas não são ociosas, desnecessárias, inconvenientes, metafísicas. Elas são imperativas e está na hora de buscar respostas ao alcance do senso comum de sua (presumível) espécie. A princípio, as respostas haverão de ser especulativas, grosseiras, imprecisas, como têm sido, mesmo no âmbito da Filosofia, mas sua espécie não se conciliará enquanto não vislumbrar uma explicação factível. Enquanto não der esse novo passo no sentido de sua afirmação (virtual, criada ou ocasional).

Recapitulo: este indivíduo, fruto do acaso cósmico, ou da vontade de um Criador, ou de uma projeção computacional, teria aprendido a organizar sons para transmitir sentimentos e necessidades; desenvolvido caracteres e codificado linguagens para disseminar informações; reunido-se em grupos de semelhantes para potencializar suas capacidades e desfrutar de novos e mais benefícios; estabelecido governos e nações; constituído regras, códigos, regulamentos, leis, e assim erigido uma civilização, ainda que virtual, todos esses magníficos e improváveis passos ele deu para que?

Esse conjunto de conquistas terrenas, mundanas, serve a quê? Ao aprimoramento da existência de um ser virtualizado, criado ou fruto do acaso, mas certamente complexo? Parece que sim. Agora que essa etapa se mostra encaminhada, ainda que longe de se completar (virtual, criada ou ocasionada), qual é o próximo desafio, se não explorar os limites deste organismo de compreender os mistérios de sua existência? Quais conhecimentos estão ao alcance de sua evolução cognitiva?

Mal posso esperar para saber.

Sátira ao romantismo

A janela da alma não são os olhos. Os olhos são, e isto já é muito!, um dos cinco sensores — junto com a misteriosa capacidade de intuir — a nos conectar aos indivíduos que nos cercam, ao ambiente do entorno, ao Universo. Os olhos são instrumentos de recepção de luz destinada a processamento cerebral, segundo as regras da Física, mas não possuem vontade; não expressam o que nos vai n’alma.

Se queremos apontar uma janela anímica, que nomeemos então os seis músculos ao redor dos olhos — reto superior, reto inferior, reto medial, reto lateral, oblíquo superior e oblíquo inferior. Estes, sim, fiéis servidores ao que o cérebro lhes ordena, em 150 milissegundos revelam ao mundo exterior aquilo que nos toca a alma e cala ao coração. Tudo o mais é romantismo barato, sinto informar.

A interpretação romântica da experiência humana, digamos assim, é acalentadora, reconfortante, mas tem sido um dos tantos ardilosos embaraços inventados contra a necessária conquista da maturidade da nossa espécie — condição sine qua non para sairmos deste atoleiro civilizatório. Afinal, para que serve o romantismo, se ele não é capaz de produzir ação? É de ação que precisamos! 

Ao contrário do que se diz por aí, racionalismo não se contrapõe a romantismo, eles nem habitam o mesmo planeta cognitivo. Eles devem até conviver, harmonizar-se a bem da temperança, pois o predomínio da racionalidade pode produzir um ambiente árido, sufocante, enquanto, no outro extremo, a visão predominantemente romântica gera escapismo, inércia a serviço da desumanidade — a “virtude é o meio-termo”, nos avisou Aristóteles (384-322 a.C.). 

É escapismo porque diminui, simplifica, dilui, infantiliza nossa existência e desmobiliza a ação. Como? Caricaturando o drama, banalizando a comédia; substituindo a resposta imediata e necessária, por elaborações postergadoras, melosas, farsescas, ou, na melhor, na mais genuinamente romântica, na mais reconfortante das hipóteses, "fingindo tão intensamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente", como escreveu dos poetas o grande Fernando Pessoa (1888-1935). 

O romantismo pode ser belo, confortante, consolador, mas entender racionalmente como o nosso corpo funciona e reage ao ambiente em que estamos inseridos — por exemplo: que os olhos não refletem sentimentos, mas sim aquele insípido grupo de seis músculos, cuja função é expressar impulsos gerados a partir de estímulos externos processados pelo nosso cérebro —, isto não nos rouba a capacidade de perceber a maravilha da vida, ao contrário, expande a compreensão do milagre da existência humana.

As expressões “janela da alma” e “voz do coração” nos comovem e embalam (ah, o romantismo!). Mas, como são objetivamente impróprias, também desviam nossa atenção do que é a essência. Quero dizer, o importante não são os mensageiros, ou seja, os músculos que circundam os olhos, protegendo-os e projetando ao mundo externo os estados reativos originários do cérebro; o importante é a própria mensagem projetada por meio desse conjunto de músculos acionados pelos nervos, e a ação que ela demanda. O grave é a banalização que fazemos dessa mensagem, romantizando-a e, assim, adiando as respostas adequadas — as ações.

Romantizar — conforme entendo —, é uma forma de diluir, rebaixar, banalizar a tensão contida na mensagem racional. Esse rebaixamento e essa infantilização se traduzem, persistentemente, em desperdício de oportunidades de acumular e processar aprendizado — isto é, ao romantizar, nos distraímos e perseveramos na imaturidade. "Palestina livre!", gritamos. E daí?!

Se os olhos fossem as janelas da alma, o que se diria das pessoas destituídas desse sentido? Seriam elas incapazes de expressar sentimentos, impedidas que são de projetá-los ou recepcioná-los pelo órgão da visão? Sabemos que não é assim e, em decorrência, está claro que somos aptos, capazes de compreender que atribuir a órgãos do nosso corpo poderes que eles não possuem, de forma alguma nos ajuda a superar o nosso rebaixado estágio espiritual.

Tal prática pode e costuma embalar recorrentes sonhos românticos, embevecimentos, esperanças, expectativas, mas, por isso mesmo, nos impede, pela inibição (melhor diria pelo medo de enfrentar o desconhecido), de acolher o fluxo cognitivo que poderá (poderia) nos projetar a novos lances à frente.

Em poucas palavras: o romantismo é um agradável, indulgente, condescendente desperdício de tempo. Não nos percamos com o que é acessório e sintoma (as contrações e relaxamentos dos mensageiros músculos dos olhos e do coração), enquanto fazemos vistas grossas para o que é essencial e informativo (a mensagem que o cérebro processa e nos manda através dos nervos). Não reiteremos nessa, até hoje, intransponível covardia existencial. 
 

A força do indivíduo

Nossas portas e janelas já estão abertas, nossas casas invadidas, nossa vida financeira exposta, nossos segredos mais íntimos, incluindo nossos desejos, frustrações, fraquezas, desvios morais e medos estão plena e completamente acessíveis a quem quiser deles fazer uso.

Não nos iludamos sobre isso. 

Basta de hipocrisia, pois nossa privacidade não nos foi tomada a força por este ou aquele governo, por quaisquer corporações cibernéticas. Elas, as corporações, apenas nos estimulam a lhes ceder todas as informações do nosso modo de vida, dos nossos sentimentos, do que pensamos e desejamos, oferecendo-nos em troca os brinquedos tecnológicos certos — as tais conveniências telecomunicacionais irrecusáveis. E nós, de posse delas, nos encantamos.

Os governos vieram depois, atuando sobre a manipulação social (especialmente em eleições), quando o Capitalismo de Vigilância (coletar, analisar e vender dados comportamentais) — prática consolidada no início dos anos 2000, em especial entre 2000 e 2004, pelo Google e depois o Facebook — já havia se transformado no modelo de negócios mais lucrativo de todos os tempos, constituindo esta novíssima forma de escravidão.

Sim, escravidão, dominação.

Quase três décadas se passaram desde o advento do Capitalismo de Vigilância, mas essa técnica destinada a capturar corações e mentes não foi inventada agora. Como teria dito o francês Antoine Lavoisier (1743-1794), “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Embora ele estivesse se referindo ao mundo da química, a lição também se aplica à geopolítica e à geoeconomia.

Como sabemos, há mais de 500 anos, para conquistar confiança e submissão, espelhos, facas e miçangas foram amplamente distribuídas pelos colonizadores europeus aos habitantes originários das terras que viriam a ser chamadas de Brasil. Quem haveria de recusar as brilhantes conveniências tecnológicas de então?

Lembro-me do fascínio e alegria quando, pela primeira vez, recebi uma chamada de vídeo de minhas filhas. Eu e minha companheira caminhávamos por uma rua de nossa cidade e elas se encontravam em outro país, a mais de seis mil quilômetros de distância. Vê-las na pequena tela do aparelho que carregávamos no bolso foi uma experiência encantadora — tão empolgante quanto aqueles espelhos, facas e miçangas o foram. Não poderíamos mais prescindir daquela facilidade comunicacional. Pois é...

Então, amigas e amigos, não culpemos ninguém pelas nossas fraquezas — especialmente não culpemos a nós mesmos, vítimas conscientes (embora disso eu duvide) das tragédias destes dias. E por não termos culpados a apontar é que devemos refletir com responsabilidade (a que nos for possível) sobre as saídas para a enrascada existencial em que nos encontramos.

Um dos caminhos que tenho proposto é o da busca da compreensão da incontornabilidade da distopia produzida pelo processo tecnológico em curso, inclusive a chamada Inteligência Artificial. Sei o quanto é difícil reconhecer nossos próprios erros e fraquezas (a psicologia e a psicanálise estão aí para provar!), mas essa é talvez a principal saída que nos resta.

Não há como estancar o processo de dominação tecnológica em curso sem que nós, os dominados, tomemos, primeiro, consciência de que somos os condescendentes escravizados. Defender uma paralisação temporária desse processo, ou mesmo a sua desaceleração, é mais uma vez incorrer em hipocrisia — isso não vai acontecer, pois há muito dinheiro investido, certeza de lucros fabulosos, ânsia de poder ilimitado.

Disciplinar seu uso também não é uma opção, pois as nações e seus governos, mesmo nos mais poderosos países, não estão interessados, nem detêm os meios (conhecimentos teóricos) e os modos (ferramentas algorítmicas) para fazê-lo. Nações e governos são apenas clientes (e agentes) daqueles que os possuem.

Abdicar espontaneamente de usar esses recursos? Como, se nosso modelo de civilização já se encontra assentado sobre a informática globalizada, tanto quanto dos hidrocarbonetos, da água e da eletricidade por enquanto baratas?!

Repito: uma das únicas saídas que vejo (sim, porque as outras são catastróficas) é reconhecermos nossos reiterados erros civilizacionais e disseminarmos essa compreensão a quem estiver disposto a nos ouvir. E depois esperar que ainda nos reste tempo até o esgotamento de mais este ciclo de imaturidade — a partir daí talvez tenhamos uma nova chance.

Esperar? Sim, esperar, torcer, contar que a sorte que nos trouxe até aqui jogue seus dados a nosso favor. Muita destruição, muito sofrimento pessoal e coletivo nos esperam nesse processo. Mas, convenhamos, isso tem ocorrido e ocorrerá com ou sem a nossa concordância.

Já nos iludimos o suficiente com soluções milagrosas, apostando em lideranças bem-intencionados e/ou minimamente esclarecidas. Ocorre que não há liderança capaz de confrontar o passo da História — produzimos o caos e o caos tem sua própria dinâmica. Ninguém o cavalga.

Somos cada um, e todos, o que nunca deixamos de ser: apenas e tão somente coadjuvantes de um imenso drama planetário e, de muitas formas, cósmico. Se quisermos o protagonismo, a solução há de vir do indivíduo. Sócrates (470-399 a.C.) já dizia: “Conhece-te a ti mesmo”. Ou seja, muda-te a ti mesmo.  
 

Para o que brilha

Obrigado, Sol, pela vida que tens nos proporcionado! Agora mesmo, vendo-te presente, atravessando o vidro da janela do banheiro enquanto lavava meu rosto, antes de seguir para mais um dia, senti-me genuinamente alegre e ciente do teu valor.

Obrigado, Sol, pelas oportunidades que tens nos oferecido, mesmo quando te encontras atrás de nuvens espessas, ou furiosas tempestades. Obrigado por estar sempre aí, zelando pela nossa terrena e frágil existência, pronto para de novo se revelar e nos confortar.

Sábios foram os antigos egípcios, que, submetidos à tua imponência cósmica, mas, principalmente, conscientes da energia que te constitui, e sobre nós projeta, te alçaram à condição daquele que dita o ritmo da vida. Nada mais certo. Nada mais justo.

Muita desgraça, muita miséria, muito sofrimento e dissabores teríamos evitado se, ao invés de nos prostrarmos aos pés de deuses que punem, segregam e desunem, houvéssemos nos mantido na senda irradiante de Rá. Se era para adorarmos um ente, que este fosse ao menos o Sol.

A quem devemos, afinal, a vida que brevemente possuímos? Quem está lá, a nossa espera, após cada noite de possível descanso e sonhos, mas também de pesadelos? Quem não nos tem faltado na missão de renovar nossas esperanças a cada manhã, se não tu, Sol, e a certeza de tua luz?

É a ti, confesso, que recorro sempre que me falta o que for. Embora não te encare com estes olhos nus, ainda assim te olho pelo átimo que posso, respeitoso de tua brilhante presença. É o mínimo apreço que me cabe demonstrar.
 

Há angústia no mundo

A angústia que nos aflige, já admito, pode ser paradoxalmente um estímulo. O fato é que vivemos num mundo tão pleno de possibilidades quanto aquele de festa, descrito por Ernest Hemingway ao falar da Paris dos loucos anos 1920, quando, no sentido inverso ao que hoje ocorre, nutria-se uma enganosa certeza de prosperidade, ignorando-se os sinais vindos de uma Alemanha ressentida e desesperada pós derrota e humilhações na I Guerra Mundial.

Há, sim, importantes semelhanças conceituais quando olhamos para esses dois momentos separados por 100 anos deste período frenético da História. Semelhanças opostas, sem dúvida, pois a angústia que nos domina toca não a música de uma ilusão alegre e distraída dos horrores do nazifascismo que se avizinhava, mas a música esquizofrênica de um neonazifascismo que já está aí, à vista de todos, perturbadoramente poderoso, sincero e debochado. 

O bom, se assim podemos dizer, é que finalmente, graças à ascensão desse extremismo, as hipocrisias vêm sendo superadas, substituídas em ritmo desconcertante pela exposição nua e crua da milenar impostura nas relações humanas — em todos os planos em que elas se dão. Os códigos de conduta, os costumes, as leis reguladoras, os tratados que ordenam as relações de Estado vêm sendo, todos, ignorados, jogados no lixo, como só o fascismo ousa fazer.

No texto anterior — “Cem anos de confusão” —, falei desse novíssimo processo disruptivo em que os alicerces do nosso fracassado modelo de civilização se dissolve no ar, a serviço de um mundo controlado por meia dúzia de info-oligarcas praticantes de um neomarionetismo, manipuladores de linhas de códigos algorítmicos destinados a emascular a sociedade planetária, dela extraindo apenas a imprescindível força física para tarefas braçais.

Imaginei que esse processo se estenderia por mais uma ou duas décadas, antes de se completar, mas parece que errei no prognóstico. Tudo indica (pois agora a velocidade se mede em dias, talvez horas) que a info-oligarquia e seus agentes estão apostando alto, jogando todas as suas fichas, pagando para antecipar o fim desta civilização sedimentada em falsas amabilidades — ainda que pelos motivos errados e objetivos mais torpes, como o estabelecimento de uma sociedade planetária servil — ainda que isto custe maiores tragédias sociais e mais sofrimento individual.

Esse grupo de indivíduos está cacifado?

Não sei. Talvez sim. Ou apenas pense que está. Ou, quem sabe?, venha apenas tensionando os nervos de seus oponentes, caminhando sobre o fio da navalha que pode nos levar a uma III Guerra, nuclear, derradeira. Mas há uma espantosíssima possibilidade: o jogo estaria combinado, e o objetivo dos principais players seria fomentar inesperados impasses geopolíticos, os quais, de tão inéditos e assustadores, só poderiam mesmo se resolver com medidas extremadas. Por exemplo: estabelecer um novíssimo modelo de colonialismo, dividindo o planeta entre os dois verdadeiros blocos de poder — o americano e o sino-russo. Não acredito nessa hipótese, mas, como diz um amigo, o impossível hoje também deve ser considerado.

O fato é que estamos, paradoxalmente, vivendo um tempo a se ‘comemorar’. A era (ou seria a festa?) da falsidade, do fingimento, da brincadeira de faz de conta destinada a distrair adultos infantilizados, desinformados, iludidos, crentes e passivos, essa era está chegando ao fim — mais rápido do que se imagina. Mesmo que o desfecho seja aquele jogo combinado e inacreditável, os meios não levarão ao fim desejado — e numa velocidade tão rápida quanto esta em que a sociedade sedimentada na hipocrisia vem sendo desmascarada e destruída. E se a catástrofe nuclear vier, o que se haverá de fazer?! Teremos nos angustiado em vão.

“Cem anos de confusão”

Em 2007, um documentário de grande impacto sobre corações e mentes nos apresentou uma devastadora visão retroantropológica, digamos assim, projetada a partir da repentina subtração da nossa espécie da casca deste planeta — The World without Humans/O mundo sem os humanos.

Hoje sabemos que nossa existência na Terra um dia terá fim, só desconhecemos quando ou como isso se dará. E nem precisamos que um meteoro gigante volte a nos alcançar, uma guerra atômica ocorra, ou um vírus mortal desperte, desses que estão depositados nas profundezas das geleiras em acelerado derretimento pelo aquecimento global.

Nada disso. Um novo e até recentemente insuspeitado caminho de destruição, este humano, demasiadamente humano, salta à frente nessa corrida rumo ao nosso inevitável fim: o autossuicídio decorrente deste processo de retorno à barbárie, projeto em que estamos firmemente engajados.

Um amigo me disse, outro dia (em outras palavras, claro!): “Parece que teremos de chegar a um momento de consciente confronto, em que uma ou duas potências nucleares coloquem todas as suas fichas do Juízo Final na mesa, apostando em que no derradeiro instante o outro lado recuará. Não porque se viu derrotado, mas porque finalmente entendeu a imensa e definitiva grandeza do que está em jogo”.

É, parece que só essa opção nos dará uma chance de interromper a corrida anticivilizacional em que estamos firmemente engajados — uma aposta no tudo ou nada. O aspecto retrógrado, de retorno à barbárie a que me refiro, é este em que vemos todas as normas, leis e códigos de convivência internacionais sendo simplesmente revogados (quando deveriam ser aperfeiçoados), em prol dos interesses de alguns indivíduos, em quantidade que podemos contar nos dedos das mãos — sim, nem mesmo dos interesses de nações, mas de privilegiados indivíduos!

Há uma série lançada no final de 2025 — Pluribus, da Apple TV, cuja segunda temporada já se encontra em produção —, em que, de repente, quase todos os 8,3 bilhões de habitantes da Terra são transformados num único ‘indivíduo coletivo’ que se intercomunica e interage com seus iguais por meio de um banco de dados planetário instantâneo, que tudo sabe sobre tudo e sobre todos, transformando cada ‘indivíduo coletivo’, simultaneamente, num sábio e num idiota, pois subtrai desses seres a sua cognição, o seu poder de pensar diferente do que já foi pensado, transferindo essa tarefa à Inteligência Artificial (e às corporações que administram seus algoritmos). 

Isso é apenas ficção científica delirante? Penso que não. E, se não, vejamos: que tipo de sociedade está sendo construída hoje? Não ontem, hoje, neste exato 2026? Tudo aponta para um projeto destinado a, num primeiro momento, neutralizar, e depois eliminar qualquer vestígio ou possibilidade de contestação social, seja proveniente dos segmentos intelectualizados, seja da juventude por natureza rebelde, seja da massa de miseráveis. Para cada um desses segmentos há um subprojeto em andamento, todos convergindo para o mesmo fim — emascular a vontade das pessoas.

Como isso se dará?

Já está se dando, já está em andamento. Há duas décadas, pelo menos, as informações sobre os desejos, as fraquezas, os medos, as manias, os gostos, os vícios, os dados sobre a saúde física e mental de todo e cada indivíduo do planeta vêm sendo coletados, categorizados, segmentados, etarizados, hierarquizados, etnicizados, de modo a que se venha a construir esse ‘indivíduo coletivizado’ que a série Pluribus nos apresenta.

Não estou aqui a denunciar nada (talvez nem a série se proponha a isso), apenas constato que essa sociedade sedimentada em relações sociais amorfas — suave barbárie — já está em plena construção. Seus proponentes, patrocinadores e executores sabem que para efetivá-la é preciso pôr abaixo, desmontar e enterrar a estrutura de relacionamentos humanos ora vigente. Tanto aqueles que regulam a convivência entre as pessoas, quanto os que intermedeiam a vida em sociedade, e os que sustentam os pactos entre as nações. Tudo deve vir abaixo. Paulatinamente, mas em ritmo sempre mais acelerado.

O método é implantar a desordem.

Aquele mesmo amigo que apontou a “necessidade de confronto”, chegou a pensar num livro, a ser escrito por um Gabriel Garcia Márquez redivido, com o título “Cem Anos de Confusão”. Um século de confusão, sim, é no que estamos metidos neste XXI d.C. O que me conforta, como sempre, é que ninguém cavalga o caos. Se o plano cósmico é regulado pelo acaso, o projeto humano tem a marca do fracasso.