Refletir (ainda) é humano

Outro dia cometi um erro grosseiro no título de uma postagem, que assim foi encaminhada por e-mail automático aos meus assinantes, embora eu tenha de imediato corrigido no post. Paciência, "errar é humano".

Esse episódio, no entanto, se presta a reflexões sob a ótica do que tenho publicado aqui nos últimos dias o uso da Inteligência Artificial (IA), associada à computação quântica, como valiosa oportunidade para os indivíduos da nossa espécie, em seu conjunto, darem um salto rumo à conquista da maturidade. 

Para começar, estou convencido de que o tipo de erro que cometi a IA não cometeria. Não estou me rendendo incondicionalmente aos poderes computacionais, nem admitindo uma pretensa infalibilidade; ao contrário, continuo a ver a IA como aquilo que ela é, ou seja, uma valiosa ferramenta a serviço do avanço (mais acelerado) da nossa cognição.

O fato é que as plataformas de Inteligência Artificial todas elas, norte-americanas ou chinesas são realmente capazes de produzir respostas em conformidade com os pilares da boa escrita (sintaxe, morfologia, concordância, regência, gramática) de qualquer idioma, inclusive das chamadas ''línguas mortas', como o Latim.

Afinal, todas se alimentam de informações (ou podem vir a incorporá-las e constantemente aprimorá-las através de algoritmos de aprendizado de máquina, machine learning) contidas em bases de dados robustas e confiáveis sobre todos os domínios do conhecimento humano, inclusive da estrutura dos idiomas. Esse é o seu truque; esse é o seu valor.

E por serem o que são, mais razão vejo em utilizá-las. Não como substitutas do nosso inviolável direito e obrigação de pensar, mas na estrita condição de uma ferramenta pragmática, cognitivamente 'burra' (por enquanto, dizem!), mas dotada de grande capacidade de processamento de informações (a serem amplificadas com a chegada da computação quântica) e por isso capaz de corrigir a rota de muitas de nossas ideias, acelerando o passo dessa jornada intelectual.

Não devemos nos incomodar (muito) com todo o lixo que tem aparecido nas redes sociais, produzidos com recursos da IA. Embora esses detritos anti informacionais sejam capazes de produzir incontáveis danos, prejuízos, malefícios, crimes, tragédias, tratam-se de manifestações da nossa antiquíssima imaturidade. São passageiros.

O que interessa é o que vem acontecendo nos bastidores desse processo. Ou seja, o que importa é o valor incontestável dessa ferramenta virtual desenvolvida e disponibilizada nas primeiras décadas deste século XXI, que já conquistou amplo reconhecimento e vem sendo intensivamente utilizada nos meios científicos.

Aqueles que, como eu, atuam no campo das humanas e da reflexão sobre o comportamento das pessoas e as relações entre indivíduos, também não podemos recusar o uso dessa ferramenta. Ela é tão útil como um dia foram e são as bibliotecas e a enciclopédia; como têm sido os sites de busca e a Wikipedia.

Os livros e os diálogos presenciais continuam imprescindíveis, pois nos proporcionam experiências infinitamente mais ricas os primeiros, pela oportunidade de focar nossa atenção; os segundos, pela possibilidade de interagirmos com outras mentes igualmente questionadoras. Já a Inteligência Artificial tem o mérito de nos disponibilizar acesso rápido e amplo à essência dos conhecimentos já reunidos pela Humanidade, o que não é desprezível.

De volta ao erro que motivou este post... Esta é talvez uma das únicas ações que a IA não está interessada (ou capacitada) a executar: refletir sobre suas próprias falhas. Não porque isso seja irrelevante (afinal, um algoritmo poderia muito bem ser programado para executar essa tarefa), mas porque refletir significa pensar, pesar, relacionar, confrontar, avaliar, ponderar e, de certa forma, recuar para retomar algumas casas adiante.

A IA quer corrigir suas falhas (tanto que suas respostas sempre trazem o alerta de que podem conter erros), pois as plataforma precisam se precaver de eventuais prejuízos (e processos) do que venham a produzir, e também almejam superar a desconfiança de seus usuários e conquistar credibilidade. O que ela não quer é meditar sobre seus erros, pois isso demanda compromissos éticos.

Refletir (ainda) é uma atividade essencialmente humana.