Habemus Papam! E daí?!

Li há pouco um artigo crítico às chamadas esquerdas brasileiras (as quais prefiro tratar de progressistas, quando muito), a propósito de senões que esses indivíduos já estariam fazendo ao papa recém eleito, o americano-peruano Leão XIV A esquerda que ainda espera o papa perfeito.

O que seria o papa perfeito? Pra mim, seria um que admitisse a falência (eu diria engodo, mais aí já seria demais) do cristianismo e demais religiões monoteístas (judaísmo e islamismo). E que se propusesse, a partir daí, engajar-se na verdadeira obra espiritual que interessa: a construção do ser humano consciente de sua presença cósmica e ciente de suas responsabilidades terrenas.

Claro, isso provocaria uma hecatombe na cúpula, no meio e na base de todas essas religiões, com potencial para produzir desesperos coletivos, caça às bruxas (a começar pelo próprio 'papa perfeito'), guerras santas e jihads intermináveis.

O mundo das crenças entraria em convulsão. Ocorreria um cataclismo urbi et orbe, mas, finalmente, nossa espécie teria a chance, talvez a última, de acertar o passo com a História grande, aquela que transcende esta pequena história medíocre e limitada que viemos erigindo ao longo dos últimos 10.000 anos, desde que passamos a domesticar plantas e animais no antigo Oriente.

Pois, então, pergunto:

Mas já não é exatamente isto (convulsão social, cataclismo ideológico, agitação social desordenada) o que se vê mundo afora? Já não estamos mergulhados no caos? Os dogmas das religiões monoteístas já não caíram por terra, desmoralizados pela ação cotidiana de todos os seus líderes?

Ou devemos aceitar passivamente, como fatos inexoráveis da vida, a miséria permanentemente ofendida pelo fausto de uma, os assassinatos em massa promovidos por outra, a violência vingativa de uma terceira?

Dirão alguns: 'Ah, mas não é bem assim, o mundo é complicado, não dá para harmonizar forças opostas num passe de mágica; temos de ter paciência e perseverar na busca de soluções de consenso'.

Volto a perguntar:

Mas não é exatamente isso o que tem sido feito ao longo de todos esses milênios, sob a 'administração' das religiões monoteístas — condescender e esperançar? Aceitar as iniquidades do mundo e suplicar para que elas (testemunhadas por nós, ou por nós sofridas) ao menos nos garantam um lugar ao lado do Criador, tenha o nome que Ele tiver?  

Não seria melhor, para os membros da nossa espécie, para o planeta e para todas as coisas que compõem e integram a Terra, dar um basta à relação de submissão espiritual a que estamos sujeitos? Não daríamos um salto civilizatório à frente, se assumíssemos nossa existência cósmica e pertencimento terreno?

Qual é a dificuldade disso? Até recentemente, uma proposição dessas talvez soasse estranha ou mesmo ridícula, pois nos acostumamos a olhar apenas para o nosso umbigo, mas, neste instante, estranho e ridículo é continuar ignorando a imagem corrompida refletida pelo nosso espelho.

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