A agonia (também) das palavras

Não só o trato entre as pessoas está em franca deterioração; não apenas as relações entre os países vêm desmoronando; não somente o meio ambiente se aproxima do colapso. Também o mundo da comunicação humana se encontra em agonia.

Nada disso começou agora. O declínio civilizatório, que se aproxima de seu ápice, é uma construção paulatina de milênios. Numa analogia com o corpo humano, podemos dizer que nascemos, crescemos, alcançamos a idade biologicamente adulta e hoje ingressamos no ocaso da nossa espécie.

Assim como o corpo humano paga o preço das nossas circunstâncias de vida e das nossas escolhas, os resultados catastróficos observados à nossa volta são meras consequências das opções feitas pelo ser humano ao longo de milhares de anos de 'evolução'.

No campo da comunicação interpessoal, podemos dizer que erigimos um monumento. Mas, hoje vemos, o que temos é um monumento com pés de barro, como quase tudo em que se assenta nossa civilização. As palavras, por exemplo, além de morfologicamente corrompidas, já não guardam coerência com as ideias que as originaram.

Os linguistas dirão que é assim mesmo; que o nome disso é também 'evolução'. Penso, porém, que evoluir é perseguir a precisão, não adotar a dubiedade. Não se evolui, do ponto de vista da superação da Babel humana, se uma mesma palavra (e aqui me refiro ao idioma alfabético, aquele que prevaleceu até estes dias) carrega inúmeros significados, e cujo entendimento depende de específicas circunstâncias. Se a linguagem matemática sofresse do mal da ambiguidade, nenhuma ciência (e, por consequência, tecnologia) teria se desenvolvido. Estaríamos ainda na Pré-História.

Tomemos um exemplo corriqueiro: o dicionário Webster esclarece que o termo contratempo (contratemps) apareceu pela primeira vez em inglês, no século XVII, no contexto da esgrima: um contratemps era um golpe ou passe feito na hora errada, quer a hora errada tivesse a ver com a falta de habilidade do indivíduo ou a proficiência do oponente (no futebol isso se chama finta).

Na pista de dança, para onde a palavra foi transportada, contratemps era um passo dançado em um ritmo sem acento (inflexão), estando ambos os significados de acordo com as raízes francesas do termo, contre- (contra) e temps (tempo), ou seja, algo que não ocorre no tempo previsto ou esperado.

Hoje (seguindo tendência iniciada no fim do século XVIII, e que muitos dirão tratar-se de uma 'evolução'), contratempo passou a também significar erro, obstáculo, estorvo, empecilho, infortúnio, percalço, revés, inconveniência, desvio, interrupção, circunstância, incidente, sinônimos que, em alguns casos, podem significar quase o oposto da ideia original.

Outro dia, por exemplo, retornando de viagem, o carro que me transportava apresentou um problema elétrico   não dava partida. Um mecânico foi chamado e, ao tentar ligar o veículo, este voltou a funcionar normalmente. Levado até uma oficina, detectou-se que o defeito poderia estar no motor de arranque. O especialista fez as recomendações necessárias e a viagem pôde prosseguir com os devidos cuidados, e sem sustos.

Esse episódio foi um contratempo?

Aos olhos da 'evolução' semântica do termo, sim, pois a viagem atrasou, houve nervosismo entre as pessoas envolvidas, foi gerado um custo inesperado com o atendimento domiciliar e o trabalho da oficina. Mas a palavra correta para definir esses aborrecimentos seria contratempo?

E, se ao invés de apresentar defeito, o carro tivesse funcionado normalmente na primeira partida, a viagem ocorrido no horário previsto e, no meio do caminho, o sistema elétrico de veículo entrasse em pane, seja após uma parada para refeição, ou mesmo repentinamente, no meio da estrada, com consequências imprevisíveis? Esse caso, que é hipotético mas possível, também seria um contratempo?    

Medindo os dois eventos pela relação de causa e efeito, penso que se o primeiro não foi um contratempo (mas uma falha feliz, que nos alertou para um risco e proporcionou a oportunidade de nos livrarmos de um verdadeiro erro, obstáculo, estorvo, empecilho, infortúnio, percalço, revés, inconveniência, desvio, interrupção, incidente), muito menos o segundo, o hipotético, pois esse tinha o potencial de ocasionar um grande prejuízo, uma infelicidade, ou mesmo uma tragédia. Não teria sido um simples estorvo, por exemplo.

Ou seja, a moderna definição de contratempo é um conceito tão impreciso e deturpado, ao longo de seu uso, que a palavra acabou por adquirir um significado apenas assemelhado à essência daquilo que o originou: quebra de uma expectativa no tempo e no espaço de uma ação.

Ao invés de sua acepção estrita ("um golpe ou passe feito na hora errada, quer a hora errada tivesse a ver com a falta de habilidade do indivíduo ou a proficiência do oponente"; ou "um passo dançado em um ritmo sem acento"), isto é, uma ação contrária ou tempo esperado, realizada no modo ativo (intencional ou involuntário), ao invés disso o termo se transmutou para uma ação passiva, vitimizada, digamos assim.

Essa reflexão semântica serve para apontar uma das tantas aberrações/declínio civilizatório do nosso tempo: a dessignificação da linguagem cotidiana, que leva à corrupção do discurso e à decadência das possibilidades de entendimento. 

Se palavras passam a transmitir ideias falsas, ou apenas assemelhadas aos seus significados originais, por que não usar termos exatos, precisos, inequívocos? De tanto verbalizar conceitos sem sentido, estamos nos tornando incomunicáveis.