"Disciplina no uso e
responsabilização no abuso" (das redes sociais globalizadas, com vistas à execução da 'revolução definitiva' destinada a alcançarmos a maturidade, a partir da conciliação da nossa espécie) é o que defendo e tenho escrito.
"Disciplina" e "responsabilização"...
Sim, essas duas palavras carregam o estigma do autoritarismo. Uma luz de alerta deve acender sempre que nos deparamos com elas. Aqui também é o caso. E não fugirei desse debate, até porque ele primeiro está em minha consciência; faz parte de minhas permanentes preocupações: combater o autoritarismo; demonstrar a perversidade de suas práticas; apontar a ruína de seus resultados.
Pergunto, para começar: de que forma nossa espécie se organizou socialmente, até chegarmos aqui? A resposta direta e simples aponta para um longo processo de estabelecimento de regras de convivência, adaptadas às particularidades de cada época e agrupamento humano. Regras que se transformaram em códigos de conduta, leis e contratos, enraizando-se no senso comum, na cultura e, mais importante, no inconsciente coletivo.
Tivemos sucesso absoluto nessa empreitada? Claro que não! O que deveria alcançar a todos na mesma medida (provimento de justiça, distribuição equânime de penas e perdões) submeteu-se às conveniências das relações de poder, aninhando-se no mesmo compartimento tenebroso habitado pelas iniquidades sociais, onde muitos amargam o ônus e pouquíssimos usufruem o bônus.
Mais uma vez (e com um otimismo que beira a ingenuidade) insisto: vivemos um tempo limite. Pelo andar da carruagem, o teatro de hipocrisia em que vivíamos não tem mais como se sustentar. A ascensão de lideranças de extrema-direita mundo afora é consequência disso, do esgarçamento irreparável do tecido social planetário.
Essas lideranças produzem um discurso destinado a insuflar o medo entre os indivíduos espiritualmente desarmados — perceba, quando digo espiritualmente não estou me referindo a religiões, nem a crenças, mas à consciência de pertencimento cósmico —, e assim prosperam, capturando corações, mentes e bolsos.
O fato é que o estresse geoeconômico/geopolítico em curso — patrocinado exatamente por essa extrema-direita em expansão — nos está conduzindo para um impasse, que só será resolvido com o recuo de uma das partes (e o avanço civilizacional), ou o confronto (e a aniquilação da espécie). Conciliação e meio termo já não cabem. Todas as cartas estão sobre a mesa. Não há mais como blefar.
Nesse cenário de crescente desespero, as palavras "disciplina" e "responsabilização" ganham um novo sentido, afastando-se do estigma de autoritarismo para se aproximar da ideia de comprometimento, sintonizando-se com as melhores intenções que talvez tenham inspirado o estabelecimento de regras de convivência, processo que está na origem da construção das sociedades humanas e deste nosso (falido, repito!) modelo de civilização.
Continua sendo uma forma de otimismo (ou talvez de ingenuidade minha), mas entendo, tenho esperança de que a saída desse labirinto existencial em que nos metemos ainda é possível. Para isso é preciso negociar e institucionalizar os modos, em termos planetários, de utilizar as poderosas redes sociais globalizadas em benefício da execução da 'revolução definitiva' que se impõe: conquistar a maturidade, a partir da conciliação da nossa espécie.
Este texto fará mais sentido se for lido depois de A Terra quer sabedoria e As condições estão dadas.