Diz-se, hoje, quase como se denunciássemos uma inédita corrosão do equilíbrio das relações humanas, que a violência, o assassinato, o genocídio, entre outras misérias presentes na sociedade planetária, estão se normalizando. Ou seja, já não comovem as pessoas, nem produzem reflexão. Estaríamos a cada dia mais indiferentes ao sofrimento alheio, voltados apenas à satisfação de nossas necessidades e desejos imediatos.
Também penso assim, mas com algumas nuances. Entendo, primeiramente, que a busca pela normalização não é um fenômeno novo para a nossa espécie. Normalizar, no âmbito do comportamento humano adaptativo, é o meio de nos amoldarmos a situações incômodas e obstáculos intransponíveis, situados em princípio além do nosso controle e poder.
Sentimo-nos impotentes diante de um impedimento, material ou imaterial, o que fazemos? Desistimos? Ignoramos? Não, normalizamos. Isto é, lançamos mão do nosso poder cognitivo para formular soluções comportamentais e/ou criar instrumentos de superação, aprimorando práticas e técnicas, até que elas se transformem em cultura.
Com o avanço do tempo, esses comportamentos e instrumentos serão (e são) de tal forma incorporados ao nosso cotidiano, que se tornam propriedade comum da espécie, dissociando-se das razões que levaram à sua criação. Nesse momento, parecerá lógico que eles existam, ou ilógico que algum dia não tenham existido.
No campo da física aplicada, a alavanca veio normalizar o deslocamento de objetos pesados, a partir da necessidade de superar as limitações da força humana; o mesmo se deu com as propriedades do plano inclinado, da roldana, da rosca, da roda e do eixo. Juntas, essas seis descobertas compõem as máquinas simples, cujas idealizações são atribuídas a Arquimedes (287 a 212 aC).
Fato semelhante se deu com o desejo de nos deslocarmos no ar como os pássaros, e na água como os peixes. Havia um impedimento físico, mas este foi incapaz de paralisar a ambição humana, ainda que ela se apresentasse como transgressiva, desafiadora dos limites que nos pareciam impostos. Em algum momento desse processo, voar e navegar foram disparates, tolices e, quem sabe, heresias. Ou seja, uma norma deu lugar a outra.
Na esfera da saúde pública, as vacinas seguem a mesma lógica. Frente aos grandes e repetidos surtos epidêmicos de sua época, o médico inglês Edward Jenner descobriu, no séc. XVIII dC, que microrganismos enfraquecidos de um agente patológico tinham o poder de estimular o corpo animal a reconhecê-lo como ameaça, destruí-lo e manter um registro imunológico contra futuras investidas do mesmo agente.
Hoje essa descoberta parece evidente, ao menos para quem respeita a ciência, a lógica e as evidências sanitárias, e não está chafurdando no obscurantismo. Mas até aquela época, em plena Idade Moderna, o que se tinha era a disseminação de doenças misteriosas e a impossibilidade humana de enfrentá-las. A vacina normalizou uma outra realidade, estabeleceu um novo normal.
Coisa semelhante se deu no domínio das interações cognitivas entre indivíduos. Frente às limitações impostas pelas formas naturais de comunicação (odores, gestos, ruídos), nossa espécie passou a codificar e disseminar padrões sonoros adequados à nomeação de coisas e à formulação de ideias, ou seja, a produzir normas conceituais que hoje denominamos de linguagem.
Tanto as máquinas simples, quanto o avião, o navio, a vacina e os códigos falados e escritos fazem parte do mesmo ímpeto primordial da nossa espécie, qual seja, a imposição permanente e incontornável de trilharmos a via do prosseguimento, através do permanente desafio a obstáculos existenciais e da consequente normalização (disseminação social) das soluções encontradas.
Afinal, estamos neste planeta porque a ele pertencemos. E pelo fato de integramos este ser vivo, somos essencialmente comprometidos com a sua (dele e nossa) continuidade. Isso está em nosso DNA, independe de nossa vontade; é o que o filósofo francês Henri Bergson (1859-1941) denominou de "elã vital" (a força que transcende a matéria e que, através da sua atuação, impulsiona a evolução da vida em direção a formas mais complexas e conscientes).
Até agora temos falado da normalização de comportamentos fundamentais, civilizatórios, sintonizados com a compreensão de que integramos o Cosmos, dele constituímos ínfima, mas soberba partícula, e por ele estamos existencialmente comprometidos. Ocorre que normalizar não se restringe aos aspectos 'nobres' da experiência de viver. Também normalizamos a violência, o assassinato, o genocídio e outras perversidades presentes na sociedade planetária.
Se hoje nos sentimos impotentes diante desse obstáculo civilizacional, o que resta a fazer — conforme nos está essencialmente destinado, como espécie em busca do eterno, enquanto dure, prosseguimento — é não desistir da construção da empatia, assim como um dia não desistimos de perseguir as máquinas simples, o avião, o navio, a vacina, os códigos falados e escritos. Um novo normal haveremos de estabelecer.
"Até o apagar da velha chama."