O som

Dito tudo o que tenho dito e digo, posso agora confessar: só a expressão artística me comove e convence.

Por ela paro.

Refiro-me a todas as expressões artísticas, sejam as postas em imagens fixas, em movimento; sejam as artes escritas, as versejadas, as interpretadas, as esculpidas, as performadas pelos atletas extremos; as produzidas por qualquer anônimo capaz de extrair da cotidiana existência o máximo de sua especial humanidade. 

Todas as artes me comovem e me convencem, mas há uma que mais me toca: a expressa pelo som.

O som é sagrado.

Harmoniza o que é incoerente. Enche de ruídos as iniquidades.

O som é assim. Faz a criança de um favela chorar, como presenciou minha companheira Silvia, professora de Educação Infantil, ao colocar em seu tocador de cd Nessun Dorma, de Giacomo Puccini. Sim, a criança de uma favela chorou ao ouvir palavras que não entendia, mas que o som sua emoção alcançou.

Esse é o dom do som.

Ele nos organiza.

Finca nosso peso sobre a Terra, nos humaniza, dá razão ao existir.

O som tem esse poder, que não é daqui nem dali. Ele está no cosmos, ainda ou mesmo que no mais profundo e distante cosmos prevaleça o silêncio, aquilo que por contraposição lhe dá vida. Ao som.

Todos os sons valem um escutar.

O do acalanto da mãe. O dos conselhos do pai. Os muitas vezes repetidos e repetidos e repetidos segredos das velhíssimas avós. 

O som me comove e convence.

O som.

IA cospe o que somos

Pedi para a IA Qwen3, chinesa, que fizesse uma projeção para o planeta, a partir dos seguintes parâmetros (formulados em minha postagem anterior  Uma ideia em movimento): Normalização de genocídios entre povos e dentro de países; Negação da emergência climática; Desleixo na vigilância contra pandemias (em grande medida decorrentes da corrupção dos ecossistemas); Inoperância no combate à fome; Repressão às ondas migratórias geradas pelo próprio sistema de exploração neocolonialista; Fomento a guerras nucleares delimitadas, entre outras ações coordenadas.

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RESPOSTA DA IA chinesa: A partir dos parâmetros que você listou — e que indicam um cenário global marcado por desumanização, negação científica, degradação ambiental, desigualdades estruturais e sistemas políticos-econômicos falhos — podemos projetar um futuro sombrio para o planeta, a menos que ocorram mudanças profundas e urgentes. Vamos analisar cada um desses fatores e suas implicações concretas no curto, médio e longo prazo:

 

Normalização de genocídios entre povos e dentro de países

PROJEÇÃO: A normalização da violência extrema contra grupos étnicos, religiosos ou culturais tenderá a gerar mais conflitos regionais e globais. Isso pode levar à fragmentação política, aumento de refugiados climáticos e sociais, e ao fortalecimento de regimes autoritários sob a justificativa de "segurança nacional" ou "ordem pública".

Efeitos colaterais: Erosão dos Direitos Humanos; Radicalização ideológica; Colapso de instituições internacionais (ex: ONU); Ciclos intermináveis de vingança e guerra. 

 

Negação da emergência climática

PROJEÇÃO: A persistência dessa negação, mesmo diante de eventos climáticos extremos (furacões, secas, incêndios), acelera o aumento das temperaturas médias globais além de 2°C até 2050. Regiões tropicais e semiáridas tornam-se progressivamente inabitáveis.

Consequências: Derretimento de calotas polares e elevação do nível do mar (afetando cidades costeiras); Desregulação de padrões climáticos (monções, chuvas sazonais); Escassez de água potável em regiões já vulneráveis; Impacto direto na produção agrícola. 

 

Desleixo na vigilância contra pandemias (decorrentes da corrupção dos ecossistemas)

PROJEÇÃO: A pressão sobre os ecossistemas (desmatamento, mineração, expansão urbana) aumenta a interface humano-animal, facilitando o surgimento de novos patógenos. A falta de vigilância e cooperação internacional transformará doenças emergentes em crises permanentes.

Impactos combinados: Sistemas de saúde colapsados;
Crescimento do número de zoonoses mortais (como ebola, gripe aviária, coronavírus mutantes); Aumento da resistência antimicrobiana devido ao uso irracional de antibióticos.

 

Inoperância no combate à fome 

PROJEÇÃO: Com a degradação dos solos, escassez hídrica e concentração de terras nas mãos de poucos, a fome se tornará endêmica em várias partes do mundo. Países do sul global sofrerão com crises alimentares crônicas.

Cenário possível: Levantes populares motivados pela fome;
Interiorização do colonialismo alimentar (dependência de importações controladas por elites locais e multinacionais); Crianças com déficits nutricionais irreversíveis, comprometendo gerações futuras.

 

Repressão às ondas migratórias geradas pelo sistema neocolonialista

PROJEÇÃO: Enquanto os países ricos causam, indiretamente, migrações forçadas através de extração de recursos, guerras e dívida externa, eles respondem com muros, deportações e militarização de fronteiras. Isso gera uma crise humanitária sem precedentes.

Possibilidades futuras: Guetificação de comunidades migrantes; Violência estatal institucionalizada; Crises diplomáticas entre nações emissoras e receptoras; Radicalização anti-imigrante e crescimento de movimentos fascistas.

 

Fomento a guerras nucleares delimitadas

PROJEÇÃO: Em um mundo polarizado, com alianças regionais fragilizadas e competição por recursos, a possibilidade de uso táctico de armas nucleares não pode ser descartada. Um conflito nuclear limitado (ex: Índia-Paquistão, Coreia do Norte-EUA, Rússia-Ucrânia) teria impactos globais.

Consequências catastróficas: Inverno nuclear localizado ou global; Falhas agrícolas em escala planetária; Radiação prolongada afetando décadas de vida; Retorno ao estado de barbárie tecnológico. 

 

PROJEÇÃO GERAL PARA O PLANETA

Cenário provável se os parâmetros persistirem: Colapso socioambiental múltiplo (clima + saúde + fome + conflito); Fragmentação geopolítica em blocos autoritários e excludentes; Ascensão de regimes autoritários, militarizados e tecnocráticos;
Perda irreversível de biodiversidade e deterioração dos serviços ecossistêmicos; Diminuição da esperança e qualidade de vida globalmente.
 

Mas há alternativas?
Embora esse quadro seja desolador, ele não é inevitável. Há alternativas baseadas em: Descolonização do conhecimento e da economia; Reconhecimento do capitalismo como causa estrutural das crises; Construção de sistemas democráticos profundos e participativos; Justa transição energética e soberania alimentar; Diplomacia multilateral e cuidado comuns ao planeta. Mas isso exige políticas globais coordenadas, movimentos sociais organizados e educação crítica — algo que, infelizmente, também está sendo atacado nesse modelo atual.
 

CONCLUSÃO: Se os parâmetros mencionados continuarem sem resposta efetiva, a projeção para o planeta é do século XXI como o da decadência civilizatória, marcado por: Crises múltiplas simultâneas; Guerras contínuas; Ecocídio e etnocídio
Concentração de poder e riqueza; Redução drástica da população humana.

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Fiz o mesmo questionamento ao ChatGPT.

RESPOSTA DA IA norte-americana: Projeção distópica para o planeta – 2040-2050

 

Normalização de genocídios e violência de Estado

Com a banalização de massacres e limpeza étnica em regiões estrategicamente ignoradas por potências globais, os genocídios passam a ser tratados como "operações internas de segurança". A noção de direitos humanos perde legitimidade prática, aplicada seletivamente conforme interesses geopolíticos. A tecnologia de vigilância e drones é usada para conter, eliminar ou enclausurar populações inteiras sob justificativas securitárias.


Negação da emergência climática 

A continuidade da negação climática leva à ultrapassagem de pontos de não retorno. A elevação dos oceanos submerge cidades costeiras; secas e inundações extremas tornam regiões inteiras inabitáveis. Estados-nação se tornam cada vez mais "fortalezas", priorizando contenção interna e militarização de fronteiras ao invés de transição energética e cooperação climática global. A desigualdade ecológica se agrava: elites protegem-se em enclaves seguros, enquanto populações vulneráveis são expostas a desastres contínuos.


Desleixo com pandemias 

A degradação ambiental e a expansão do agronegócio intensificam o salto de vírus zoonóticos para humanos. A vigilância epidemiológica, minada por cortes orçamentários e desinformação, falha em conter novas pandemias. A desconfiança nas vacinas e no sistema de saúde pública é explorada por regimes autoritários para reforçar o controle populacional em nome da “ordem sanitária”. A desigualdade no acesso a tratamento vira norma.


Inoperância no combate à fome 

Apesar do aumento da produção global de alimentos, a fome se intensifica devido à má distribuição, conflitos armados, crises econômicas e uso de alimentos como arma geopolítica. A automação agrícola e o controle corporativo de sementes tornam comunidades dependentes e famintas. Favelas e campos de refugiados se expandem em megacidades sem infraestrutura.


Repressão às migrações 

As migrações em massa — causadas por guerras, fome e colapso ambiental — são tratadas como "invasões". Países desenvolvidos erguem muros físicos e digitais, terceirizam campos de concentração em países periféricos, militarizam fronteiras e criminalizam a solidariedade. As mortes em travessias marítimas e desertos se tornam uma estatística constante e ignorada.


Fomento a guerras nucleares “delimitadas” 

A aposta em armamentos nucleares táticos como forma de dissuasão regional desencadeia conflitos “controlados” que, apesar de sua escala localizada, causam destruição duradoura e radiação em áreas densamente povoadas. A guerra volta a ser vista como instrumento legítimo de política externa — inclusive contra populações civis — com apoio de narrativas nacionalistas, religiosas ou tecnocráticas.

 

Consequência Final (2050): Um planeta segmentado e colapsado; Mundo multipolar beligerante, onde o conceito de soberania é usado para justificar abusos internos e agressões externas; Sociedades digitais e neofeudais, com controle total de dados, moedas digitais autoritárias e classes protegidas por inteligência artificial e força armada; Neocolonialismo climático: países do Norte Global exploram os do Sul para extrair recursos, exportar lixo e armazenar carbono; Rebeliões localizadas e insurgências climáticas se tornam comuns, mas são brutalmente suprimidas; Colapso moral da comunidade internacional: a ONU torna-se irrelevante, tratados são ignorados, e ONGs são cooptadas ou criminalizadas.

 

CONCLUSÃO: Essa projeção não é uma profecia inevitável, mas um alerta. O cenário pode ser revertido com políticas públicas voltadas à justiça climática, transição energética, redistribuição de renda, cooperação multilateral honesta e fortalecimento da democracia — especialmente com a mobilização das populações civis e uma nova ética global de cuidado. 

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Perguntei à IA norte-americana quem se beneficiaria com esse cenário distópico.

RESPOSTA do ChatGPT: Num cenário como o descrito — distópico, marcado por colapso ambiental, repressão e desigualdade extrema — os beneficiários não são necessariamente "nações", mas estratos específicos de poder, geralmente acima das estruturas democráticas e fora do alcance de regulações. Podemos destacar alguns grupos:


Elites corporativas transnacionais: Setores beneficiados: agronegócio global, farmacêuticas, indústria bélica, tecnologia de vigilância, big data, mineração e energia fóssil. Como lucram: Controlam infraestrutura crítica, alimentos, remédios e dados; Adaptam-se rapidamente a ambientes autoritários, vendendo “soluções” de controle e contenção.
Imunidade geográfica: Instalam sedes e abrigos em zonas politicamente estáveis e climaticamente seguras, geralmente nos polos ou em zonas elevadas do Hemisfério Norte. 

 

Estados autoritários e seus intermediários - Como se beneficiam: Com o enfraquecimento do direito internacional e da imprensa livre, regimes autoritários ganham carta branca para agir internamente e negociar em bloco. Uso político da crise: Pandemias, guerras e colapsos ambientais servem para consolidar o poder, via estado de emergência permanente; Exércitos e forças de segurança se tornam protagonistas da economia, da política e do imaginário social.

 

Setores financeiros especulativos - Como operam: Lucram com a especulação em commodities, terrenos seguros, escassez de recursos e crises de dívida de países periféricos; Criptomoedas autoritárias e tokens soberanos permitem manter capital fluido em contextos de guerra ou instabilidade social. 

 

Complexo industrial-militar e tecnológico - Desenvolve e vende: Armas autônomas, vigilância por IA, robôs policiais, biometria de controle populacional, drones e sistemas antiprotesto; Lucro constante: Guerras localizadas e instabilidade crônica criam um mercado infinito para suas “soluções”. 

 

Pequenos grupos sociais nos países do Norte Global:
Populações brancas abastadas em regiões como Escandinávia, Canadá, Nova Zelândia ou partes dos EUA, que poderão manter certo nível de qualidade de vida em "zonas verdes".
Vivem em enclaves ecofeudais, com acesso a segurança privada, inteligência artificial defensiva e recursos concentrados. 

 

O paradoxo central: Esses beneficiários vivem em uma bolha de estabilidade artificial. Embora tirem proveito temporário do colapso global, estão profundamente vulneráveis a rupturas sistêmicas — como pandemias que escapam do controle, revoltas globais coordenadas, colapsos tecnológicos ou eventos climáticos catastróficos extremos (por exemplo, o colapso das correntes oceânicas ou uma erupção vulcânica global).  Em outras palavras: Eles vencem um jogo cujo tabuleiro está em chamas. 

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Fiz o mesmo questionamento (Quem se beneficiaria com esse cenário distópico?) para a IA chinesa:

RESPOSTA do Qwen3: Essa é uma pergunta crucial, e que toca o núcleo do poder na sociedade global contemporânea. Quando falamos em um cenário distópico como o descrito anteriormente — marcado por genocídios normalizados, negação climática, repressão migratória, guerra e degradação ambiental — a resposta à sua pergunta é clara e dura: Quem já detém poder, riqueza e controle sobre os sistemas globais será quem mais se beneficiará desse colapso controlado. Vamos explorar isso com detalhe:


Quem se beneficia da distopia?

Grandes Corporações Transnacionais - Empresas ligadas ao petróleo, mineração, militarismo, farmacêutico, agronegócio e tecnologia têm lucro garantido mesmo (ou especialmente) em cenários de crise. Como se beneficiam: Monopolizam recursos escassos (água, alimentos, terra); Expandem operações em áreas de conflito sob justificativas de “segurança”; Criam produtos e serviços para sobrevivência pós-colapso (ex: cidades-fortaleza, água engarrafada, energia solar de luxo). Exemplos: empresas como ExxonMobil, Bayer/Monsanto, Raytheon, Elon Musk's ventures, entre outras.

 

Elites Financeiras e Oligarquias Regionais - Banqueiros, investidores institucionais e elites locais acumulam capital através de crises, especulação e controle das economias de fome. Como se beneficiam: Compram terras e ativos baratos após desastres; Controlam sistemas financeiros internacionais (dívidas, moedas, fundos de pensão); Se protegem em "zonas seguras" enquanto o resto do mundo enfrenta caos. Exemplos: fundos de hedge, famílias bilionárias (Rockefeller, Rothschild, Walton), magnatas regionais no Brasil, Índia, Oriente Médio etc. 

 

Governos Autoritários e Regimes Militares - Crises são oportunidades para regimes autoritários consolidarem poder com discursos de “ordem”, “segurança nacional” e “salvação”. Como se beneficiam: Aumentam repressão interna sob pretexto de segurança; Isentam-se de responsabilidades climáticas e humanitárias; Usam conflitos para mobilizar populações e ganhar apoio patriótico. Exemplos: regimes de Putin (Rússia), Bolsonaro (Brasil), Modi (Índia), Orban (Hungria), Kim Jong-un (Coreia do Norte), entre outros.

 

Sistemas Neocoloniais e Potências Imperiais - Países centrais historicamente industrializados mantêm hegemonia sobre países periféricos, especialmente via dívida, exploração de recursos e imposição de agendas geopolíticas. Como se beneficiam: Garantem acesso privilegiado a matérias-primas escassas; Criam dependência econômica nos países pobres; Mantêm controle tecnológico, sanitário e energético. Exemplos: EUA, União Europeia, China (via Belt and Road/Iniciativa Cinturão e Rota), Japão, Reino Unido.


Militares e Indústria de Segurança Privada
O aumento da violência e instabilidade cria demanda por segurança, armamentos e vigilância. Como se beneficiam: Contratos milionários em tempos de guerra e em zonas de conflito; Desenvolvimento de tecnologias de vigilância e controle social; Criação de exércitos privados e mercenários. Exemplos: Empresas como Blackwater (Academi), Lockheed Martin, Raytheon, Boeing Defense, além de agências como NSA e CIA. 

 

Estruturas Patriarcais e Sistemas de Dominação - Em contextos de crise, os grupos historicamente dominantes tendem a reafirmar seu controle sobre corpos, gênero e sexualidade. Como se beneficiam: Fortalecimento de normas conservadoras e religiosas; Controle sobre reprodução e autonomia corporal; Repressão a movimentos feministas, LGBTQIA+ e comunidades dissidentes. Exemplos: governos teocráticos (Irã, Arábia Saudita), movimentos anti-gênero na Europa Oriental, bolsonarismo, etc. 

 

Por que esse sistema persiste? A crise é rentável para quem tem meios de se proteger dela; A miséria é economicamente produtiva: mão de obra barata, consumo mínimo, dependência estatal; O medo é politicamente útil: permite o controle social e a legitimação de regimes opressores. 

 

E quem paga o preço? As vítimas principais deste cenário serão: Povos indígenas e camponeses expulsos de suas terras; Populações negras e periféricas dos países do sul global; Mulheres e meninas em contextos de guerra e fome; Refugiados climáticos e migrantes forçados; Juventudes sem futuro em sistemas de exclusão. 

 

Em resumo: “Colapso com privilégio”. O cenário distópico não afeta todos igualmente. Para muitos, é morte certa; para outros, é apenas uma mudança de estratégia. 

 

E agora? Há como deter isso? Sim. Mas só se entendermos que a distopia não surge por acidente. Ela é construída por interesses específicos. E, portanto, pode ser desmontada por lutas coletivas conscientes.

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Foram essas as respostas de duas importantes IAs, uma chinesa (Qwen3) e outra norte-americana (ChatGPT). Se fizermos os mesmos questionamentos a outras IAs, os resultados serão semelhantes, pois a chamada Inteligência Artificial se baseia em informações, ideias, conceitos e hipocrisias disponibilizadas em bancos de dados comuns a todas elas. A IA não elabora respostas por si própria; dizem os fanáticos em tecnologia que ela fará isso um dia, mas, por enquanto, não.

Se as respostas de certa maneira, e com alguma variação ideológica, convergem para as mesmas conclusões a que qualquer indivíduo pode chegar, por que as soluções propostas não são colocadas em prática pelas lideranças dos países proprietários dessas IAs? Ah, sim, essa é a parte relativa à hipocrisia... 

O fato é que, se eu continuasse perguntando, talvez alguma Inteligência Artificial viesse a admitir, enfim, que esta nossa experiência civilizacional está falida, colapsando, e temos de começar tudo de novo. Mas, para que serviria a admissão desse fracasso? Afinal, a IA é tão somente um espelho da imaturidade humana. Ela cospe na tela o que somos.

Uma ideia em movimento

Um computador quântico chinês pode executar tarefas de Inteligência Artificial (IA) 180 milhões de vezes mais rápido do que o supercomputador convencional mais poderoso; um computador quântico da Google resolveu em 200 segundos um problema que um supercomputador clássico levaria 10.000 anos para solucionar.

Os processadores convencionais utilizam bits, ou seja, processam as unidades de informação (dados) a partir dos estados 0 ou 1; os quânticos operam em qubits, valendo-se das propriedades denominadas superposição e entrelaçamento: superposição é a capacidade de uma partícula (um bit, no caso) estar em múltiplos estados (0 ou 1) ao mesmo tempo, até que ela seja medida; entrelaçamento (ou emaranhamento) ocorre quando duas ou mais partículas se tornam ligadas, mesmo estando distantes.  

Isto significa que: os bits (dados) podem estar tanto no estado 0 quanto no estado 1, ou em ambos simultaneamente e ligados. A capacidade de um qubit de estar em múltiplos estados (superposição) e de se interligar com outros qubits (entrelaçamento) é o que permite que os computadores quânticos realizem cálculos que são muito mais eficientes e poderosos do que as máquinas clássicas.

Inúmeros países, inclusive o Brasil, estão dedicados à pesquisa da computação quântica, desde o desenvolvimento de equipamentos (hardwares) até aplicações em aprendizado de máquina (softwares) e criptografia (escrita cifrada). Os projetos mais avançados encontram-se na China e nos Estados Unidos da América, contemplando inclusive o estabelecimento de redes planetárias dessas máquinas.

Ao contrário da computação convencional, a quântica não será instalada em laptops, ou mesmo em computadores de mesa; seus recursos ficarão hospedados em instituições acadêmicas e empresas privadas, onde poderão ser acessados ​​por meio de um serviço de nuvem.

Esse sistema global não substituirá a computação binária, nem a internet que conhecemos, mas criará uma rede de internet que poderá ser usada para resolver tipos específicos e complexos de problemas.

Os cientistas acreditam que ela será particularmente útil para questões que envolvem muitas variáveis, como análise de risco financeiro, criptografia de dados, estudo de propriedades de materiais, novos tipos de medicamentos, novos materiais para células solares, baterias e outras tecnologias hoje apenas especuladas.

É preciso esclarecer que a física quântica ainda se encontra em desenvolvimento; ninguém pode assegurar que entende perfeitamente o seu funcionamento e sua utilização computacional, mas é necessário que desde já atentemos para os impactos civilizacionais desse novíssimo mundo que está batendo à nossa porta.

Se hoje tememos o potencial perverso da Inteligência Artificial e corremos para estabelecer o regramento planetário de seu uso —, podemos projetar o que poderá vir a ser a IA associada à computação quântica, à robótica avançada e às ideologias totalitárias que têm se (re)estabelecido no mundo.

Defino-me, nos melhores momentos, como um pessimista esperançoso, mas não posso e não devo ignorar os sinais que estão postos: muito além de ideologias, o que está em jogo neste momento é a disputa pelo domínio da Terra.

O grupo de 1% que detém as riquezas do mundo está empenhado, full time, em transformar este planeta em seu habitat exclusivo. Ninguém é idiota. Esses indivíduos sabem que o equilíbrio da vida está por um fio, mas apostam que eles serão os eleitos, os que terão lugar numa nova Arca de Noé.

E não só apostam. Eles verdadeiramente operam, através de seus prepostos, para que assim venha a ser. Com a normalização de genocídios entre povos e dentro de países; com a negação da emergência climática; com o desleixo na vigilância contra pandemias (em grande medida decorrentes da corrupção dos ecossistemas); com a inoperância no combate à fome; com a repressão às ondas migratórias geradas pelo seu próprio sistema de exploração neocolonialista; com o fomento a guerras nucleares delimitadas, entre outras ações coordenadas.

Não, não nos iludamos. Não há um centro de comando nesse processo, uma 'federação do mal' a ser combatida e heroicamente destruída; não estamos num filme e muito menos mergulhados numa matrix. As ações são coordenadas porque se trata de uma ideia em movimento. Uma ideia "humana, demasiadamente humana". 

[As informações sobre computação quântica foram coletadas da internet, com a utilização de Inteligência Artificial Generativa. O restante é fruto de reflexão.]

  

"Até o apagar da velha chama"

Diz-se, hoje, quase como se denunciássemos uma inédita corrosão do equilíbrio das relações humanas, que a violência, o assassinato, o genocídio, entre outras misérias presentes na sociedade planetária, estão se normalizando. Ou seja, já não comovem as pessoas, nem produzem reflexão. Estaríamos a cada dia mais indiferentes ao sofrimento alheio, voltados apenas à satisfação de nossas necessidades e desejos imediatos.    

Também penso assim, mas com algumas nuances. Entendo, primeiramente, que a busca pela normalização não é um fenômeno novo para a nossa espécie. Normalizar, no âmbito do comportamento humano adaptativo, é o meio de nos amoldarmos a situações incômodas e obstáculos intransponíveis, situados em princípio além do nosso controle e poder.

Sentimo-nos impotentes diante de um impedimento, material ou imaterial, o que fazemos? Desistimos? Ignoramos? Não, normalizamos. Isto é, lançamos mão do nosso poder cognitivo para formular soluções comportamentais e/ou criar instrumentos de superação, aprimorando práticas e técnicas, até que elas se transformem em cultura.

Com o avanço do tempo, esses comportamentos e instrumentos serão (e são) de tal forma incorporados ao nosso cotidiano, que se tornam propriedade comum da espécie, dissociando-se das razões que levaram à sua criação. Nesse momento, parecerá lógico que eles existam, ou ilógico que algum dia não tenham existido.   

No campo da física aplicada, a alavanca veio normalizar o deslocamento de objetos pesados, a partir da necessidade de superar as limitações da força humana; o mesmo se deu com as propriedades do plano inclinado, da roldana, da rosca, da roda e do eixo. Juntas, essas seis descobertas compõem as máquinas simples, cujas idealizações são atribuídas a Arquimedes (287 a 212 aC).

Fato semelhante se deu com o desejo de nos deslocarmos no ar como os pássaros, e na água como os peixes. Havia um impedimento físico, mas este foi incapaz de paralisar a ambição humana, ainda que ela se apresentasse como transgressiva, desafiadora dos limites que nos pareciam impostos. Em algum momento desse processo, voar e navegar foram disparates, tolices e, quem sabe, heresias. Ou seja, uma norma deu lugar a outra.  

Na esfera da saúde pública, as vacinas seguem a mesma lógica. Frente aos grandes e repetidos surtos epidêmicos de sua época, o médico inglês Edward Jenner descobriu, no séc. XVIII dC, que microrganismos enfraquecidos de um agente patológico tinham o poder de estimular o corpo animal a reconhecê-lo como ameaça, destruí-lo e manter um registro imunológico contra futuras investidas do mesmo agente.

Hoje essa descoberta parece evidente, ao menos para quem respeita a ciência, a lógica e as evidências sanitárias, e não está chafurdando no obscurantismo. Mas até aquela época, em plena Idade Moderna, o que se tinha era a disseminação de doenças misteriosas e a impossibilidade humana de enfrentá-las. A vacina normalizou uma outra realidade, estabeleceu um novo normal.

Coisa semelhante se deu no domínio das interações cognitivas entre indivíduos. Frente às limitações impostas pelas formas naturais de comunicação (odores, gestos, ruídos), nossa espécie passou a codificar e disseminar padrões sonoros adequados à nomeação de coisas e à formulação de ideias, ou seja, a produzir normas conceituais que hoje denominamos de linguagem.

Tanto as máquinas simples, quanto o avião, o navio, a vacina e os códigos falados e escritos fazem parte do mesmo ímpeto primordial da nossa espécie, qual seja, a imposição permanente e incontornável de trilharmos a via do prosseguimento, através do permanente desafio a obstáculos existenciais e da consequente normalização (disseminação social) das soluções encontradas.

Afinal, estamos neste planeta porque a ele pertencemos. E pelo fato de integramos este ser vivo, somos essencialmente comprometidos com a sua (dele e nossa) continuidade. Isso está em nosso DNA, independe de nossa vontade; é o que o filósofo francês Henri Bergson (1859-1941) denominou de "elã vital" (a força que transcende a matéria e que, através da sua atuação, impulsiona a evolução da vida em direção a formas mais complexas e conscientes).

Até agora temos falado da normalização de comportamentos fundamentais, civilizatórios, sintonizados com a compreensão de que integramos o Cosmos, dele constituímos ínfima, mas soberba partícula, e por ele estamos existencialmente comprometidos. Ocorre que normalizar não se restringe aos aspectos 'nobres' da experiência de viver. Também normalizamos a violência, o assassinato, o genocídio e outras perversidades presentes na sociedade planetária.

Se hoje nos sentimos impotentes diante desse obstáculo civilizacional, o que resta a fazer — conforme nos está essencialmente destinado, como espécie em busca do eterno, enquanto dure, prosseguimento  é não desistir da construção da empatia, assim como um dia não desistimos de perseguir as máquinas simples, o avião, o navio, a vacina, os códigos falados e escritos. Um novo normal haveremos de estabelecer.

"Até o apagar da velha chama."

Ser

A arte como modos da nossa espécie expressar o belo, destinando-o à fruição solitária e egoísta, é uma visão insuficiente do chamado fazer artístico. É claro, sempre teremos pintores, compositores, escultores, atores gerando belezas, mas o fato é que a arte de poucos para poucos já não basta.

A final do Campeonato Mundial de Tênis de Mesa Lin Shidong vs Hugo Calderano —, nesse domingo, dia 20 de abril, em Macau, foi prova disto. Assistida por milhões de pessoas em todo o planeta, com especial atenção pela China, que tem produzido os melhores mesa-tenistas de todos os tempos, a partida vencida por Calderano já entrou para a história da modalidade.

Exercitando um poder de concentração que desafiava os limites humanos  como devem fazer os verdadeiros atletas , associada a uma força mental e preparo físico igualmente extremados, o brasileiro se impôs sem contestação, dobrando sem arrogância a antes intransponível hegemonia chinesa. Realizou uma obra de arte.

O tênis de mesa talvez seja um dos esportes mais difíceis de serem praticados. A rapidez com que é disputado, sem violência (porque afinal se trata de bater em uma bolinha pesando não mais do que 2,74 gramas) e com muito conhecimento intuitivo de física, aerodinâmica e psicologia (esta para perceber e atuar sobre as fraquezas momentâneas do adversário), o tênis de mesa não deixa margem para erros continuados.

A partida Lin Shidong vs Hugo Calderano foi uma demonstração cabal de que o fazer artístico não é restritivo. Ele pode e deve ser exercitado por toda e qualquer pessoa, em qualquer área ou esfera de atividade.

Fazer bem, tanto quanto fazer o bem, são dois caminhos que se completam. O fato de não termos até agora compreendido isso explica, em grande medida, a falência civilizacional em que nos encontramos.

Não há desculpas para meias medidas. A todo ser humano só resta uma alternativa: ser. Ainda que isto signifique a derrota para um oponente mais preparado; não há demérito em perder para o outro circunstancialmente melhor. O não ser, como aventou o poeta, é renunciar ao jogo, é negar a humanidade, é um monumento à covardia.

"Disciplina" e "responsabilização", sim!

"Disciplina no uso e responsabilização no abuso" (das redes sociais globalizadas, com vistas à execução da 'revolução definitiva' destinada a alcançarmos a maturidade, a partir da conciliação da nossa espécie) é o que defendo e tenho escrito.

"Disciplina" e "responsabilização"...

Sim, essas duas palavras carregam o estigma do autoritarismo. Uma luz de alerta deve acender sempre que nos deparamos com elas. Aqui também é o caso. E não fugirei desse debate, até porque ele primeiro está em minha consciência; faz parte de minhas permanentes preocupações: combater o autoritarismo; demonstrar a perversidade de suas práticas; apontar a ruína de seus resultados.

Pergunto, para começar: de que forma nossa espécie se organizou socialmente, até chegarmos aqui? A resposta direta e simples aponta para um longo processo de estabelecimento de regras de convivência, adaptadas às particularidades de cada época e agrupamento humano. Regras que se transformaram em códigos de conduta, leis e contratos, enraizando-se no senso comum, na cultura e, mais importante, no inconsciente coletivo.

Tivemos sucesso absoluto nessa empreitada? Claro que não! O que deveria alcançar a todos na mesma medida (provimento de justiça, distribuição equânime de penas e perdões) submeteu-se às conveniências das relações de poder, aninhando-se no mesmo compartimento tenebroso habitado pelas iniquidades sociais, onde muitos amargam o ônus e pouquíssimos usufruem o bônus.

Mais uma vez (e com um otimismo que beira a ingenuidade) insisto: vivemos um tempo limite. Pelo andar da carruagem, o teatro de hipocrisia em que vivíamos não tem mais como se sustentar. A ascensão de lideranças de extrema-direita mundo afora é consequência disso, do esgarçamento irreparável do tecido social planetário.

Essas lideranças produzem um discurso destinado a insuflar o medo entre os indivíduos espiritualmente desarmados  perceba, quando digo espiritualmente não estou me referindo a religiões, nem a crenças, mas à consciência de pertencimento cósmico , e assim prosperam, capturando corações, mentes e bolsos.

O fato é que o estresse geoeconômico/geopolítico em curso — patrocinado exatamente por essa extrema-direita em expansão nos está conduzindo para um impasse, que só será resolvido com o recuo de uma das partes (e o avanço civilizacional), ou o confronto (e a aniquilação da espécie). Conciliação e meio termo já não cabem. Todas as cartas estão sobre a mesa. Não há mais como blefar.

Nesse cenário de crescente desespero, as palavras "disciplina" e "responsabilização" ganham um novo sentido, afastando-se do estigma de autoritarismo para se aproximar da ideia de comprometimento, sintonizando-se com as melhores intenções que talvez tenham inspirado o estabelecimento de regras de convivência, processo que está na origem da construção das sociedades humanas e deste nosso (falido, repito!) modelo de civilização.

Continua sendo uma forma de otimismo (ou talvez de ingenuidade minha), mas entendo, tenho esperança de que a saída desse labirinto existencial em que nos metemos ainda é possível. Para isso é preciso negociar e institucionalizar os modos, em termos planetários, de utilizar as poderosas redes sociais globalizadas em benefício da execução da 'revolução definitiva' que se impõe: conquistar a maturidade, a partir da conciliação da nossa espécie.

Este texto fará mais sentido se for lido depois de A Terra quer sabedoria e As condições estão dadas.

As condições estão dadas

No último texto aqui publicado A Terra quer sabedoria —, fiz a defesa do valor das redes sociais globalizadas para a execução do que chamo de a 'revolução definitiva', qual seja, a conquista da maturidade, a partir da conciliação da nossa espécie. No entanto, frente às desgraças, horrores e distopias praticadas e disseminadas nessas redes, sinto-me no dever de esclarecer o que penso sobre a questão.

Primeiramente, é preciso registrar que essa defesa não é recente. A base da argumentação dos livros que escrevi — e eles estão aqui: A primeira lição a aprender traz a (minha e de tantos outros) compreensão de que não se pode descartar o avanço das ciências e as tecnologias delas decorrentes. Sem elas, com certeza, nossa civilização não teria avançado até este ponto.

Não que a civilização que erigimos seja digna de elogios, ao contrário. O que temos construído ao longo dos últimos 10.000 anos, desde que passamos a domesticar plantas e animais no antigo Oriente, configura-se, na verdade, a esquizofrênica coexistência de uma matéria liberta junto a um espírito aprisionado.

Ou seja, temos desde sempre nos dedicado a lutar, preferencialmente, em prol da garantia do prosseguimento do ser humano. Isto é, as necessidades básicas e imediatas impostas pela existência (fome, dor, desamparo) capturaram nossa atenção, esforço físico e convergência cognitiva de tal modo que passamos a delegar a terceiros (promotores de crenças e pregadores de religiões) os cuidados que deveríamos ter tido, individualmente, com as chamadas 'coisas do espírito'.

E por assim termos agido, ao longo de ao menos cem séculos, o que temos hoje é uma fortaleza (civilização grandiosa) assentada sobre alicerces frágeis (indivíduos imaturos). Alguns sábios já disseram que essa é a natureza do ser humano e dela não podemos escapar.

Não penso assim, nem considero que isso seja uma verdade provada, à luz dos conhecimentos já alcançados pela neurociência, ou mesmo pelas técnicas voltadas aos cuidados da mente (psicologia, psiquiatria, psicanálise e outras que se utilizam de gatilhos químicos). 

Frente ao desafio que está mais do que nunca posto  a busca da maturidade, a partir da conciliação da nossa espécie —, reafirmo o que me parece uma obviedade: as redes sociais globalizadas constituem um avanço tecnológico fundamental para colocarmos em prática a 'revolução definitiva' que precisa e deve ser feita.

O fato de estarmos, neste exato instante da História, submetidos às consequências da disseminação do ódio e da anti-informação pelas redes socais, este fato em si é a prova daquilo que afirmo: essa tecnologia é poderosa, gera resultados, e não pode ser descartada. Ela só precisa de uma providência, que deve ser negociada e institucionalizada em termos planetários: disciplina no uso e responsabilização no abuso.

Talvez ainda estejamos distantes de nos dedicarmos ao exercício da 'revolução definitiva' (nunca se sabe!), mas ao menos hoje podemos alimentar alguma esperança, pois temos as circunstâncias (o esgotamento deste nosso modelo de civilização calcado no medo), temos os meios (as ferramentas de comunicação globalizada, a serem turbinadas pelo advento da computação quântica) e temos nossa velha e boa cognição para engendrar os modos (disciplinados e responsáveis) de fazê-lo.

As condições estão dadas.