O que nos aproxima e motiva

Alguém me questionou sobre o porque do texto anteriormente publicado  O futebol nos enobrece —, abordando a paixão produzida por esse esporte entre pessoas das mais diferentes nações e culturas. A explicação é simples: é preciso investigar e refletir sobre tudo o que nos aproxima e motiva.

A espécie humana é um mistério; talvez não haja no Cosmos ser(es) equivalente(s). Mais incompreensível, ainda — porque a solução parece estar ao nosso alcance —, é o fato de até hoje não termos aprendido a lidar com as pulsões que nos movem: Eros e Tânatos, prazer e morte, os extremos identificados por Sigmund Freud (1856-1939) há mais de um século.

Cem anos talvez sejam poucos, quase nada para almejarmos uma inflexão histórica desse porte, qual seja, domar a intensidade de tais extremos. Domar, sim; amansar, refrear, quem sabe administrar, exercer racionalidade sobre eles, pois o que parece inalcançável, e mesmo indesejável, é de alguma forma extirpar tais atributos de nossa psique.

Assim como os medos primitivos parecem ter sido a mola que nos conduziu ao caminho da cognição, e continuam a impulsionar seu aprimoramento ["a dor ensina a gemer", diz o senso comum], a tensão entre criar e destruir parece constituir o fio em que se equilibra a permanência do humano. Aquilo que em outros textos denominei de a via do prosseguimento.

Onde a paixão planetária pelo futebol "se insere nesse contexto", como diziam, com ironia, intelectuais que publicavam no jornal O Pasquim dos anos 1960-70?

Repito: é preciso investigar e refletir sobre tudo o que nos aproxima e motiva. Não será fruto do acaso que metade da população da Terra torça por esse esporte. No texto antes publicado levantei a possibilidade de que isso se deva ao modo como o futebol é praticado.

Ou seja, ao fato de que ele proporciona, tanto àqueles que jogam quanto aos que apenas assistem, a apropriação mental, intuitiva, visceral, instantânea de algumas das 'verdades' mais universais ao alcance de nossa cognição: a agradável percepção da linguagem matemática através da geometria.

Quem assiste a uma boa partida de futebol é capaz de 'antecipar' o melhor movimento dos atletas em campo — para o bem ou para o mal de seus times. Quem está no campo, na peleja, sabe mental e fisicamente, antes mesmo de realizar o movimento, o potencial de sucesso de sua jogada. Só desconhece a capacidade do adversário em neutralizá-la.

Não há verdadeiramente inimigos na partida do futebol ideal (aquela que diminui a participação de indivíduos emocionalmente instáveis, excessivamente oscilantes entre o criar e o destruir); há adversários que se respeitam e ali estão para pôr à prova seus méritos 'matemáticos/geométricos' individuais, ainda que desconheçam formalmente esse valor.

As perguntas que me faço são estas: Não seria o caso de nos dedicarmos a investigar e refletir sobre as competências intuitivas de nossa espécie? A educação formal não seria mais atraente e frutífera se buscássemos sua validação nas manifestações pessoais e sociais espontâneas, radicalizando a aplicação do método* Paulo Freire' (1921-1997)?

Da mesma forma que tantos outros, tenho dito e repito: o ser humano não se reconhece como parte de um Todo. Ou melhor: não se deixa reconhecer. Ou ainda: não lhe permitem que se reconheça. Para rompermos esse impasse existencial, é preciso buscar o que nos aproxima e motiva.

*Está na internet: "O método Paulo Freire busca alfabetizar através de um processo de investigação e problematização da realidade do aluno, utilizando palavras e temas do seu cotidiano para desenvolver a leitura, a escrita e a consciência crítica. As etapas principais envolvem a investigação do universo vocabular dos alunos, a escolha de palavras-chave (palavras geradoras), a criação de situações-problema e a elaboração de materiais didáticos que partem da vivência e dos desafios dos estudantes, visando a transformação social".