Menos o cobrador e o motorneiro

Não nos deixemos enganar, nós não somos inteligentes, somos apenas astutos. Ou melhor, não somos inteligentes porque somos ardilosos, matreiros, manhosos…, ou seja, apregoamos inteligência, mas somos só desonestos e, portanto, essencialmente ignorantes.

Vamos trocar isto em miúdos, a começar pela astúcia.

Ser astuto é tão somente dominar habilidades físicas e mentais destinadas sobrepujar o oponente, e assim obter vantagens imediatas — pequenas, médias ou grandes vantagens, mas basicamente vitórias de curto prazo, lucros passageiros, proveitos efêmeros. Isso não é inteligência, repito, é apenas canalhice, patifaria, malandragem e, em última instância, fraqueza, covardia, burrice.

Ser inteligente é o oposto disso. É dispor-se a questionar os fenômenos que nos envolvem e constituem, buscar compreender o mundo, e nos dedicarmos desde criancinhas ao desenvolvimento permanente de nossas capacidades cognitivas e empáticas, com vistas a alcançarmos, se alguma chance nos resta (restasse), a melhoria existencial da espécie humana.

Não nos iludamos, porém. A prática da astúcia é a que tem prevalecido através dos séculos e milênios, e sobre a qual se assentam as relações humanas deste nosso modelo civilizatório. Nos tempos mais recentes, em particular, ser astuto se transformou — vejam só! — em oportunidade de angariar fama e sucesso financeiro. Mas esses astutos, coitados, desconhecem que riem e dançam à beira do velho vulcão.

O pior de todos os astutos não são esses poucos indivíduos alegremente iludidos. O pior é o próprio sistema da astúcia, o manipulador institucionalizado das massas populacionais — este sistema em que vivemos cotidianamente mergulhados. Ele não nos impinge mentiras ostensivas, grosseiras, toscas, em troca de fama e sucesso financeiro. Não!, ele as propaga almejando convencer as pessoas a tomarem decisões e seguirem caminhos convenientes à perpetuação dos interesses das oligarquias planetárias 
 as oligarquias planetárias, sempre elas, que cansativo! Para isso, adicionam algumas pitadas de tênues verdades às suas grandes mentiras.

É o que, desde a Grécia Antiga (490 a.C.), os filósofos chamavam de praticar o sofisma, ou seja, produzir a ilusão de verdade. A diferença é que hoje isto é realizado por algoritmos e Inteligência Artificial, através das fontes oniscientes e onipresentes deste nosso tempo, as denominadas redes sociais, além de todos os tipos de aplicativos, apps, sistema a que no futuro (aquele pouco que ainda nos resta) se juntará a infinitamente rápida computação quântica.

O ponto crucial é que essa estratégia de manipulação não se restringe ao âmbito dos interesses corporativos. O sistema astuto, depois de testado e aprovado pela iniciativa privada, foi incorporado, aprimorado, ampliado e monopolizado pelos órgãos de controle de corações e mentes geridos pelas potências hegemônicas, constituindo-se hoje na mais importante máquina de guerra psicossocial de massas.

Acabou-se a era da possibilidade de pensamento crítico, e da construção de algum futuro (nossa acalentada esperança). Neste instante, o que vem sendo imposto aos habitantes da Terra (cerca de 8,2 bilhões de indivíduos) são as ‘verdades’ que interessam aos oligarcas planetários, aquelas que possibilitam a expansão de suas (vãs) influências e a perpetuação de seus (ilusórios) poderes. Se isto resultar em mortes, extermínios, genocídios, que assim seja. Who cares, quem se importa?!

Temos um antídoto para isso?

Não temos!

E não temos porque o único remédio eficaz seria a disseminação e a promoção da liberdade de pensamento, aquela que (embora condicionada pelo encadeamento determinístico cósmico, planetário, genético, geográfico, histórico, social, familiar) depende da aquisição de conhecimentos, do confronto de ideias, do desenvolvimento cognitivo, da empatia — isto é, exatamente a liberdade capaz de pôr em xeque a permanência das oligarquias planetárias.

Caminhamos, então, para o fim deste modelo civilizacional?

Sim! E num passo acelerado.

Nós, os pequenos, os médios, os grandes astutos vencemos! E isto principalmente significa que todos os humanos, o conjunto dos indivíduos da nossa espécie, perdemos. Somos isto: a vanglória e uma piada no Cosmos.

Como se dizia antigamente, na época em que os bondes circulavam pelos florescentes centros urbanos, tudo na vida é passageiro, menos o cobrador (o Tempo) e o motorneiro (o Espaço).