Somos átomos tocados por energia, e por isso em movimento. Sendo átomos, nada nos distingue de qualquer mineral, gás ou partícula de energia; de uma pedra, de uma gota d’água, do sopro de ar que movimenta a cortina, da luz que invade o quarto.
Ocorre que os minerais e seus agrupamentos constituintes da pedra, os elementos químicos que, unidos, resultam em água, os gases que se combinam em ar e os fótons que compõem a luz são todos perenes. São entes cósmicos; estão aqui desde sempre, para não dizer (religiosamente) desde o começo.
Se somos átomos e se os átomos são perenes, isto significa que somos imortais? Não! A vida orgânica (isto é, o que nos organiza como um instrumento destinado a cumprir um papel) é essencialmente dissolúvel; está em permanente expectativa de retorno aos elementos primários que a constituem. O próprio Gênesis se encarrega de afastar qualquer ilusão a respeito dos seres geneticamente formados — está lá: Do pó viestes, ao pó voltarás.
Ocorre que nós, este agrupamento de átomos biologicamente organizados, provisoriamente existentes graças (ah, as armadilhas da linguagem...) à energia que nos toca, criamos — sim, criamos! — a ideia da morte como evento funesto, porque nos rebelamos — sim, nos rebelamos! — contra a perenidade atômica e incontornável que nos define.
Criamos e nos rebelamos por que possuímos poderes para tal? Não, ao contrário, porque somos imperfeitos instrumentos do acaso cósmico, fadados a realizar a ação a que estamos destinados (buscar a organização molecular perfeita, tanto quanto são perfeitos a pedra, a água, o ar e a luz), ainda que estejamos aquém dessa tarefa; pelejar contra a imperfeição é o que nos justifica.
O diabo (ah, as armadilhas...) é que nossa condição de instrumentos extremamente complexos (pois reunimos num mesmo indivíduo uma variada e delicada conjugação de átomos) nos proporciona a chance (alguns diriam o dom, a benevolência) de desafiar nossa própria sina, e nos inconformarmos de ser tão somente átomos, pó eterno. Para isso inventamos a ideia de uma perenidade só nossa, humana (e a partir dela erigimos religiões), dando-lhe o nome de consciência, alma (simplesmente outros nomes para energia).
Isto não nos fez melhor, mais seguros, mais fortes, menos dependentes, mais destemidos frente aos trovões e diante dos raios que os céus despejavam e despejam sobre as nossas cabeças, mas nos permitiu construir uma (imperfeita) esperança.
A (esperança) de — ainda que sejamos matéria energizada e, portanto, átomos em provisório movimento, substancialmente perenes — podermos nos apropriar da energia que nos anima e, através de sua (imperfeita) compreensão, conquistar essa improvável eternidade terrena, essa perenidade vulgar, consubstanciada na aquisição e disseminação de conhecimentos.
Desta forma, como organismo, órgão, instrumento capaz de imperfeitamente compreender a alma (ou a energia que nos anima), justificamos nossa interminável busca por explicações. Somos átomos energizados que, enquanto se mostram ativos, perguntam. E quando não perguntam, perdem sua energia e voltam ao que são/somos — pó. Perguntar é o que nos move.
Convivo, eventualmente, com duas pessoas extremamente idosas. Todos os dias elas se aproximam dos mais moços da casa, e lhes perguntam o dia do mês e da semana; anotam numa folha de papel e agradecem pela informação. São pessoas centenárias, que pouco enxergam, quase não ouvem, e que demonstram limitadíssimo interesse pelos assuntos mundanos.
Seus universos se reduzem a expressar difusas memórias (ainda assim, apenas quando provocadas), ao calor, ao frio, ao horário das refeições, aos remédios receitados pelo médico em quem confiam, às preces acompanhadas pela tv, aos esporádicos contatos com filhos, netos, bisnetos e, é claro, a saber o dia do mês e da semana. Trata-se de um genuíno, vivo interesse, sua última pergunta. Penso que — como cada um de nós — só abandonarão sua específica curiosidade quando voltarem a ser átomos.
A escrita é a grande invenção. Foi a escrita, na verdade, aquilo que transformou um certo ser irracional em humano, esta espécie que domina o planeta para o bem e para o mal. Com a escrita, apenas, este blog se propõe a analisar e opinar sobre alguns dos principais temas da atualidade, no Brasil e no mundo, como qualquer cidadão faz ou deveria fazer. Meu nome é Oswaldo de Mello. Sou jornalista.
Últimas perguntas
O impasse visto de cima
À moda dos programas de tv que mostram o mundo visto do alto, nos proporcionando um olhar às vezes surpreendente da vida aqui embaixo, convido-os para uma visão de cima daquilo que hoje me parece incontornável sobre a nossa existência — o impasse a que chegamos com este modelo de civilização que construímos. O cenário desse sobrevoo são as relações pessoais e internacionais inauguradas após a II Guerra Mundial (1945) e seus agudos efeitos sobre a psique humana.
Parece evidente que todo ato individual produz repercussões sobre a coletividade, tanto quanto toda ação coletiva impacta sobre cada um dos indivíduos. Trata-se de uma via de mão dupla, um bumerangue existencial que, a partir de uma superestrutura(*) essencialmente distópica, adiciona desordem àquilo que já é disfuncional, a mente dos indivíduos e o conjunto da sociedade, dali transportando, de volta à superestrutura, renovados impulsos desordenadores — é o caos permanentemente retroalimentado.
Sempre foi assim, a bem da verdade — o contexto molda o homem, que molda o contexto. O que há de diferente nos últimos oitenta anos é o ganho exponencial na dinâmica desse processo. E o momento emblemático dessa aceleração foi a divisão do planeta em dois blocos tensionados pelo uso da energia nuclear para fins bélicos. Essa corrida por hegemonia patrocinou um inédito salto científico, mas igualmente gestou um novo paradigma psicossocial.
O salto se traduziu na expansão das fronteiras da linguagem matemática, bem como da física e da química, entre outras ciências, acompanhado (particularmente no bloco ocidental) do desenvolvimento de variadas tecnologias de aplicação civil, tendo como maiores consequências um inédito mercado de consumo de massas; um sentimento generalizado de prosperidade; e um ceticismo frente aos impactos ambientais que se seguiriam.
A euforia da parcela majoritária do bloco ocidental, o capitalista, confrontada com os obstáculos estruturais enfrentadas pelo bloco oriental, o socialista, ambos vencedores da II Guerra mas oponentes nesse novo momento geopolítico, esse confronto de realidades e expectativas impediu que as lideranças dos respectivos blocos enxergassem, além da ameaça ao meio ambiente, também estes desastres psicossociais a caminho: a hiperexposição da imaturidade dos indivíduos, o colapso das relações pessoais e a deterioração da vida em sociedade.
Do ponto de vista da psicologia social, o fruto podre dessa dinâmica geopolíticaeconômica foi a exacerbação do individualismo e a retomada, escancarada e intensa, das ideias extremistas predominantes nas primeiras décadas do século passado, que levaram o mundo aos horrores dos totalitarismos de direita (nazifascismo) e de esquerda (stalinismo). Elas haviam sido vencidas nos campos de batalha, mas nunca foram verdadeiramente extirpadas dos corações e mentes dos indivíduos imaturos, que sempre foram a maioria.
O advento da internet e das redes sociais foi o grande impulsionador das intolerâncias (produtos da imaturidade), nas primeiras décadas deste século XXI. Graças à instantaneidade na circulação de informações, e a seu alcance global, cultivamos uma ilusão de proximidade e empatia, quando, na verdade, nossas relações virtualizadas sempre foram em essência superficiais, inteiramente submetidas à imaturidade nunca superada da espécie e, portanto, volúveis, inconfiáveis, constituindo terreno fértil para a frustração e o fortalecimento do individualismo e do extremismo.
Faça-se estas perguntas: Quais de seus verdadeiros amigos, aqueles em que você de fato confia e dos quais recebe de volta empatia e solidariedade, têm origem no mundo virtual? Você tem certeza de que seus amigos virtuais de fato existem, ou são aquilo que dizem ser?
Voltemos ao sobrevoo. A agudização dos nossos problemas existenciais, até o ponto em que nos encontramos hoje, resulta do já referido sistema contraditório indefinidamente retroalimentado — a superestrutura impactando o indivíduo, que responde impactando a superestrutura —, do qual não temos tido forças para escapar. Nossa sina tem sido continuar dançando na borda desse precipício.
Ocorre que nos encontramos a caminho do cerne do Terceiro Milênio (**), e novos ganhos cognitivos se fazem necessários. Não podemos nos limitar, por exemplo, a praticar apenas a novíssima ideia de geoeducação — ou seja, apostar na conscientização dos indivíduos sobre a biodiversidade do planeta, com vistas a desenvolver a percepção do espaço geográfico e fortalecer a relação das pessoas com o meio ambiente — isto já não nos basta. É preciso buscar o amadurecimento espiritual da nossa espécie, traduzido no conceito e na prática de uma verdadeira cosmoinserção.
Não existe uma definição precisa, que eu conheça, sobre o que é e quais os modos de pôr em prática esse conceito. Este texto, naquilo que está a meu alcance, destina-se a propor um entendimento preliminar sobre essa ideia, à luz do que tenho exposto em meus livros — veja aqui —, e do que tenho publicado neste espaço virtual.
Para começar, tais reflexões não são exclusivamente minhas, insisto. Cada ser humano, do mais simplório ao mais sábio, é resultado de sua herança genética, da cultura em que está inserido, das circunstâncias pessoais, familiares, sociais e históricas que lhe coube viver, ou seja, da superestrutura de seu tempo, fatores que lhe proporcionam inclusive a ocorrência de clarezas intuitivas — insights, como bem define a língua inglesa.
O que penso e exponho, portanto, decorre de uma vida de experiências herdadas, mas também de aquisições obtidas através de leituras, observações, reflexões e percepções, exatamente como faz, poderia ou deveria fazer todo indivíduo na casca deste planeta. A particularidade (e aqui não se trata de um mérito, mas de uma obrigação) talvez esteja em que procuro submeter minhas ideias ao crivo da coerência lógica e da factualidade científica, confrontando-as com conhecimentos já consagrados, até que novas provas surjam em contrário.
A que se destina a cosmoinserção que defendo?
Em essência, seu objetivo é a conquista do conhecimento e a interiorização daquilo que verdadeiramente nos falta — a maturidade. Não apenas a maturidade de nos reconhecermos como integrantes e responsáveis (e não possuidores, exploradores e predadores) deste planeta, como defende a geoeducação; não apenas a maturidade de nos aceitarmos como indivíduos iguais e equivalentes (não obstante as diferenças tópicas que nos distinguem), como bem demonstrou o Socialismo Científico.
Essas ‘maturidades’ já estão suficientemente dadas, embora ainda sejam contestadas e/ou combatidas. O que importa agora é adquirirmos a sabedoria que decorre de compreendermos e aceitarmos o nosso pertencimento cósmico, ou seja, a nossa cosmoinserção.
O ponto crucial (e irônico) em que nos encontramos é que a compreensão e a aceitação desse pertencimento parece ser a chave, a derradeira peça que nos falta, exatamente para que conquistemos o conhecimento e a interiorização das duas outras ‘maturidades’ — a social e a planetária.
É como se estivéssemos empreendendo, às avessas, uma viagem em busca da redenção da nossa espécie. Primeiro, nos defrontamos com as necessidades materiais e, ao buscarmos sua superação, produzimos isto que hoje somos — uma civilização fracassada, assentada em privilégios e individualismo. Frente a este impasse, o que nos resta e cabe, agora, é darmos o primeiro passo rumo ao que poderíamos ter sido, se esse passo ainda nos for possível e desejável. Para isso pode servir este voo por sobre a tragédia dos nossos dias.
(*) Superestrutura é o conceito formulado por Karl Marx (1818-1883) para designar o conjunto de ideias, cultura, política e instituições (como leis, religião, arte) que “se erguem” sobre a base material/econômica de uma sociedade, sendo por ela influenciadas.
(**) O que se dará em 2.672, daqui a 647 anos, segundo dizem respeitados astrólogos.
É quase verão aqui no Sul
Não sou (ou talvez me recuse a ser) saudosista. Penso que cada época encerra suas próprias aspirações e gera seus particulares impulsos rumo ao futuro, sempre rumo ao futuro. E é sem nostalgia que tentarei aqui delinear o contexto com que a geração de minha juventude se defrontou, em comparação, se disso for capaz, com o quadro geral destes dias.
Volto a meados dos anos 1960, até o fim dos 1970.
Sim, apesar do ambiente repressivo que literalmente nos envolvia naqueles tempos, a verdade é que nunca de fato capitulamos. Sabíamos que não há mal que sempre dure, porque, como se dizia, não éramos alienados. O ambiente social dos emergentes centros urbanos, em que vivíamos, somado à qualidade do estudo que as escolas de então nos proporcionavam, ainda não havia sido privado dos ideais humanistas (o que aconteceria pouco depois).
As ditaduras vêm e passam, sabíamos, intimamente. Só precisávamos de resiliência (adjetivo emprestado da Física, popularizado neste século XXI por influência norte-americana); só precisávamos aguardar a virada dos ventos. Aguardar ativamente, mas aguardar.
Enquanto isso, nosso espírito se voltava ao novo, todos os novos que o mundo nos trazia, especialmente deste lado do Atlântico. Se as décadas anteriores, pré ou imediatamente pós-I e II guerras mundiais, haviam produzido grandes expressões na filosofia (existencialismo, em especial), nas artes plásticas (expressionismo, cubismo, dadaísmo, surrealismo etc.), na música erudita (atonalidade, serialismo, dodecafonismo etc.) e na popular (jazz, blues etc.), a juventude de minha geração experimentava os ares de renovada e popular rebeldia.
Embalada desde os anos 1950 pela Geração Beat (Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.), seguimos adiante na construção do que se denominou contracultura, sempre em busca de outras experiências existenciais; não aquelas herdadas de nossos pais, pois já as percebíamos como falidas.
Se eu pudesse enfiar uma faca no meu coração
Cometer suicídio no palco
Seria o suficiente para o seu desejo de adolescente?
Ajudaria a aliviar a dor?
Aliviaria a sua consciência?
Se eu pudesse penetrar fundo no coração
Haveria sensacionalismo nos jornais
Isto iria te satisfazer? Passaria desapercebido?
Você acharia o garoto louco? Ele não é louco?
Eu disse que sei que é só rock'n'roll, mas eu gosto
Eu sei que é só rock'n roll, mas eu gosto.
Os Stones desempenhavam nos palcos, nós queríamos mudar o mundo, e o mundo ansiava por mudança. Aqui, em nosso Brasil, sabíamos que um novo tempo chegaria. E chegou com a Tropicália, encetada pelos bahianos, continuada pelos mineiros, pernambucanos, cearenses, piauienses, gaúchos, paulistas e tantos mais. Nenhuma ditadura resistiria a tanta intensidade, como não resistiu, como sabíamos, intimamente, que não resistiria.
O mundo ainda se definia por compartimentos, zonas de influência, certo e errado — a rebeldia de nossa geração não fora capaz (nem a isso se propusera) de mudar a geografia política, a geopolítica. Então veio o esgotamento, o cansaço que sucede toda rebeldia e se transforma em perversão. O que era amor livre virou promiscuidade; o que era usar alucinógenos em busca de experiências enriquecedoras virou instrumento de yuppies, os tais jovens profissionais urbanos; o que era valorizar a comunidade humana virou, gradativamente, explorar com método e crueldade os habitantes da Terra.
Estávamos, então, em pleno século XXI. A (inevitável) rede mundial de computadores, gestada na barriga dos senhores da guerra, deitava seus primeiros tentáculos em direção ao ambiente civil-comercial (e, depois, ao político-ideológico). E nosso mundo já não poderia deixar de ser outro.
Um outro mundo em que, aliás, não cabem rebeldias.
Rebelarmo-nos contra quem, contra o quê, se somos nós mesmos os agentes e pacientes de todos os males que nos afligem? A única rebeldia que nos resta, parece, é a de aprofundarmos esta espiral de impossibilidades em que estamos metidos, até que alguma singularidade seja alcançada. Aí, sim, como um Big Bang existencial, talvez nossa espécie inaugure e expanda uma nova chance.
Tamo junto!
Em postagem no Instagram, não sei se recente ou antiga, o notório Edward Snowden denuncia o estado de monitoramento a que todos nós, usuários da rede planetária de comunicação, estamos permanentemente submetidos pelas plataformas ou serviços que frequentamos na internet.
Não é nada pessoal, eles só querem recolher, registrar, catalogar e empacotar nossos hábitos de navegação na rede mundial, para fins exclusivamente comerciais e usos político-ideológicos, com isso ganhando muito dinheiro em cima das fraquezas de 8,2 bilhões de otários. Talvez um pouco menos, descontando os que ainda não possuem computador e/ou celular, e eles próprios, os caras que nos monitoram.
Ocorre que, nesta altura do jogo da História, sejamos realistas: ninguém pode mais alegar ignorância sobre nada do que acontece no ambiente digital; todos os riscos e perigos estão ditos, expostos e repetidos à exaustão nas próprias redes sociais globalizadas. E mais: elas, as redes, não se importam de serem ‘denunciadas’, enquanto nós, seus usuários, não nos importamos de termos nossos acessos mapeados.
Não damos ouvidos aos alertas, e não nos precavemos porque a exposição de nossos gostos, preferências, necessidades e medos são o preço a pagar pelas conveniências e necessidade de estarmos dia e noite conectados, sentindo-nos pertencentes a este bravo novo mundo. E mais: sabemos que não há saída — talvez nunca tenha havido. O polonês Zygmunt Bauman (1925-2017) nos alertou disso há muitos anos: quanto mais liberdade queremos, menos segurança teremos, e vice-versa.
Fato é que a tal ‘era da inocência’, quando as massas eram manipuladas e submetidas, ficou para trás; não temos mais a quem, ou a quê culpar. Hoje, com graus diferentes de consciência, que vão da indiferença ao cinismo, somos agentes e pacientes de nossas próprias misérias — esta é a ironia deste nosso tempo.
E se é assim, por que personagens como Snowden ainda vêm a público, via redes sociais, para nos alertar de que estamos sendo permanentemente vigiados; de que tudo o que fazemos dentro da rede mundial é identificado, copiado, transferido para bancos de dados que armazenam toda a nossa vida e a combinam com a vida de milhões de outras pessoas, produzindo pacotes de grupos de interesse destinados à venda de produtos, ideias e ideologias?
Alguns dirão: “Alguém precisa denunciar!”
Eu também penso assim; melhor que denunciem. Só não podemos nos enganar esperando qualquer reação institucional a essa nova realidade, a esses novíssimos instrumentos de controle dos indivíduos, dos grupos sociais, das sociedades nacionais, dos países, da humanidade.
Nenhuma organização transnacional, nenhum governo de qualquer país, nenhuma pessoa, acredito, está verdadeiramente interessada — e muito menos empenhada — em pôr fim à nova dinâmica da comunicação globalizada, objetivamente traduzida nas redes sociais turbinadas pela Inteligência Artificial.
Ninguém abre mão das facilidades proporcionadas pela informática; todos querem mais automação de tarefas repetitivas, menos trabalho monótono, mais acesso com apenas um toque a produtos e serviços, menos obrigação de pensar, mais informações geradas por bancos de dados que facilitem suas vidas, mais, menos, mais, menos, mais, menos, e mais rápido.
Nas escolas brasileiras, por exemplo, os estudantes vêm adotando a prática de recorrer às plataformas de IA para realizar suas tarefas diárias e, principalmente, seus trabalhos de conclusão de curso. Não entendem nada do que a Inteligência Artificial lhes fornece como respostas, mas as copiam e entregam como se fossem suas. Não enganam ninguém, porém constrangem seus professores a aceitá-las, embora ambos saibam que com isso não estão se qualificando para o mercado de trabalho, onde se tornarão párias.
O emburrecimento de sucessivas gerações não é fenômeno novo. Tem origem no modelo massificado e tecnicista de ensino (que a partir da segunda metade do século XX passou a priorizar os interesses do mercado de consumo de massas, em detrimento da formação humanista dos jovens), complementado pelo amesquinhamento social do professor (péssima formação acadêmica, péssimos salários, péssimos ambientes de trabalho etc). A diferença para o desastre que se constrói nestes nossos dias é que, hoje, o impacto se dá sobre todo o planeta.
Tamo junto!
Um homem de coragem
Edgar Allan Poe (1809-1849), talvez o mais importante escritor norte-americano de todos os tempos — apontado como o primeiro daquele país a viver exclusivamente de literatura, apesar das necessidades materiais que enfrentou durante sua existência de apenas 40 anos, treze deles ao lado de Virginia Clemm (1822-1847), a prima de 13 anos com quem se casou em 1836 —, considerou antes de morrer que a obra-prima de sua carreira não foi nenhum de seus magníficos poemas existenciais, ou de suas inovadoras obras de suspense, terror psicológico, ficção científica ou policial, gênero este que, afinal, é tido como o inventor.
Não, a obra máxima de Poe, segundo ele próprio, foi “Eureka – Um poema em prosa”, definido como “um ensaio sobre o universo material e espiritual”. Escrito em 1848, um ano antes de sua morte (ele foi encontrado nas ruas de Baltimore, com roupas que não eram as suas, em estado de delirium tremens, e levado para o Washington College Hospital, onde veio a falecer quatro dias depois), contém uma teoria cosmológica em que, por exemplo, previu o Big Bang oitenta anos antes dele ser formulado. Não se trata de um trabalho científico, mas de um ensaio intuitivo e, “ainda assim, verdadeiro”, afirmou Poe.
Destaco, abaixo, alguns trechos de suas reflexões:
“Sendo atração e repulsão inegavelmente as únicas propriedades pelas quais a matéria é manifestada para a mente, estamos justificados de assumir que a matéria existe somente como atração e repulsão. Em outras palavras, que atração e repulsão são matéria, não havendo caso concebível no qual não possamos empregar o termo ‘matéria’ e os termos ‘atração’ e ‘repulsão’, tomados em conjunto, como equivalentes e diante disso conversíveis, expressões da lógica.
“Ora, a própria definição de atração implica particularidade — a existência de partes, partículas, ou átomos; pois nós a definimos como a tendência de ‘cada átomo, etc., para todo outro átomo, etc.,’ de acordo com uma certa lei. É claro que onde não há partes, onde há absoluta unidade, onde a tendência à unicidade é satisfeita, não pode haver nenhuma atração. Isso foi plenamente mostrado, e toda filosofia o admite.
“Quando, na realização de seus propósitos, então, a matéria tiver retornado para sua condição original de una (uma condição que pressupõe a expulsão do éter separador cuja província e cuja capacidade são limitadas a manter os átomos apartados até aquele grande dia quando, não sendo esse éter por mais tempo necessário, a pressão assoberbante da atração, finalmente coletiva deverá, eventualmente, predominar justo o suficiente e expeli-lo), quando, digo eu, a matéria, finalmente expelindo o éter, deverá ter retornado para a absoluta unidade, será então (falando paradoxalmente no momento) matéria sem atração e sem repulsão: em outras palavras, matéria sem matéria; em outras palavras, novamente, não mais matéria.
“Ao afundar na unidade, afundará de imediato naquele nada que, para toda percepção finita, a unidade tem de ser, naquela niilidade da qual unicamente podemos concebê-la tendo sido evocada, tendo sido criada, pela volição de Deus. Eu repito, então, esforcemo-nos para compreender que o globo dos globos final instantaneamente desaparecerá, e que Deus permanecerá total na totalidade.
“Mas estaremos aqui pausando? Não assim. Sobre a aglomeração e a dissolução universais, podemos prontamente conceber que uma nova e talvez totalmente diferente série de condições poderá suceder-se; outra criação e irradiação, retornando para dentro de si própria; outra ação e reação da divina vontade.
“Guiando nossas imaginações por aquela oniprevalecente lei das leis, a lei da periodicidade, não estamos, de fato, mais do que justificados de apascentar uma crença — digamos, mais ainda, de indultar uma esperança — de que os processos que aqui nos aventuramos a contemplar serão renovados infinitamente, e infinitamente, e infinitamente; um inovador universo inchando para a existência, e logo entrando em subsidência no nada, em todo pulso do coração divino?
“E agora — este coração divino — o que ele é? É o nosso próprio.
“Não permita que a meramente ilusória irreverência desta ideia intimide nossas almas daquele frio exercício de consciência, daquela profunda tranquilidade de autoinspeção através da qual unicamente podemos ter esperança de atingir a presença desta, a mais sublime das verdades, e olhá-la serenamente na face. Os fenômenos sobre os quais nossas conclusões têm de, neste ponto, depender, são meramente sombras espirituais, mas, nada obstante, meticulosamente substanciais.
“Nós vagueamos, em meio aos destinos de nossa existência-no-mundo, abarcada por turvas mas sempre-presentes memórias de um destino mais vasto — muito distante no tempo decorrido, e infinitamente péssimo.
“Nós vivenciamos uma juventude peculiarmente assombrada por tais sombras, ainda nunca as confundindo com sonhos. Como memórias nós as conhecemos. Durante nossa juventude a distinção é demasiado clara para nos enganar mesmo por um momento.
“Enquanto essa juventude perdura, o sentimento de que existimos é o mais natural de todos os sentimentos. Nós o entendemos meticulosamente. Que houve um período no qual não existíamos — ou que poderia assim ter acontecido que nunca tivéssemos existido de forma nenhuma — são as considerações, de fato, que durante essa juventude encontramos dificuldade de entender. Por que podíamos não existir é, até a época da maturidade, de todas as indagações, a mais irrespondível.
“Existência — autoexistência — existência desde todo o tempo e para toda a eternidade — parece, até a época da maturidade, uma condição normal e inquestionável. Parece, porque é.
Bom, paremos por aqui — e-Book está disponível na Amazon, em tradução de Paulo Otávio Barreiros Gravina. Não é uma leitura fácil (precisa ser lido e relido, muitas vezes, até que tenhamos incorporado o ritmo da escrita), nem uma fonte de conhecimentos científicos (diz-se, até, que nesse sentido contém muitos erros, à luz do que já se sabia à época e do que veio a se saber depois), mas, sem dúvida, são pensamentos poderosos de um homem de coragem — Edgar Allan Poe.
Para terminar, uma derradeira reflexão:
“Nenhuma alma única é inferior a outra, que nada é, ou pode ser, superior a qualquer alma única, que cada alma é, em parte, seu próprio Deus — sua própria criadora. Em poucas palavras, que Deus — o Deus material e espiritual — agora existe unicamente na matéria e no espírito difundidos do universo, e a nova reunião dessa matéria e desse espírito difundidos não será senão a reconstituição do Deus puramente espiritual e individual. (…) Tenha em mente que tudo é vida — vida — vida dentro da vida — o menor dentro do maior, e tudo dentro do espírito divino. (…) Para que Deus possa ser total na totalidade, cada um tem de tornar-se Deus.”