Somos átomos tocados por energia, e por isso em movimento. Sendo átomos, nada nos distingue de qualquer mineral, gás ou partícula de energia; de uma pedra, de uma gota d’água, do sopro de ar que movimenta a cortina, da luz que invade o quarto.
Ocorre que os minerais e seus agrupamentos constituintes da pedra, os elementos químicos que, unidos, resultam em água, os gases que se combinam em ar e os fótons que compõem a luz são todos perenes. São entes cósmicos; estão aqui desde sempre, para não dizer (religiosamente) desde o começo.
Se somos átomos e se os átomos são perenes, isto significa que somos imortais? Não! A vida orgânica (isto é, o que nos organiza como um instrumento destinado a cumprir um papel) é essencialmente dissolúvel; está em permanente expectativa de retorno aos elementos primários que a constituem. O próprio Gênesis se encarrega de afastar qualquer ilusão a respeito dos seres geneticamente formados — está lá: Do pó viestes, ao pó voltarás.
Ocorre que nós, este agrupamento de átomos biologicamente organizados, provisoriamente existentes graças (ah, as armadilhas da linguagem...) à energia que nos toca, criamos — sim, criamos! — a ideia da morte como evento funesto, porque nos rebelamos — sim, nos rebelamos! — contra a perenidade atômica e incontornável que nos define.
Criamos e nos rebelamos por que possuímos poderes para tal? Não, ao contrário, porque somos imperfeitos instrumentos do acaso cósmico, fadados a realizar a ação a que estamos destinados (buscar a organização molecular perfeita, tanto quanto são perfeitos a pedra, a água, o ar e a luz), ainda que estejamos aquém dessa tarefa; pelejar contra a imperfeição é o que nos justifica.
O diabo (ah, as armadilhas...) é que nossa condição de instrumentos extremamente complexos (pois reunimos num mesmo indivíduo uma variada e delicada conjugação de átomos) nos proporciona a chance (alguns diriam o dom, a benevolência) de desafiar nossa própria sina, e nos inconformarmos de ser tão somente átomos, pó eterno. Para isso inventamos a ideia de uma perenidade só nossa, humana (e a partir dela erigimos religiões), dando-lhe o nome de consciência, alma (simplesmente outros nomes para energia).
Isto não nos fez melhor, mais seguros, mais fortes, menos dependentes, mais destemidos frente aos trovões e diante dos raios que os céus despejavam e despejam sobre as nossas cabeças, mas nos permitiu construir uma (imperfeita) esperança.
A (esperança) de — ainda que sejamos matéria energizada e, portanto, átomos em provisório movimento, substancialmente perenes — podermos nos apropriar da energia que nos anima e, através de sua (imperfeita) compreensão, conquistar essa improvável eternidade terrena, essa perenidade vulgar, consubstanciada na aquisição e disseminação de conhecimentos.
Desta forma, como organismo, órgão, instrumento capaz de imperfeitamente compreender a alma (ou a energia que nos anima), justificamos nossa interminável busca por explicações. Somos átomos energizados que, enquanto se mostram ativos, perguntam. E quando não perguntam, perdem sua energia e voltam ao que são/somos — pó. Perguntar é o que nos move.
Convivo, eventualmente, com duas pessoas extremamente idosas. Todos os dias elas se aproximam dos mais moços da casa, e lhes perguntam o dia do mês e da semana; anotam numa folha de papel e agradecem pela informação. São pessoas centenárias, que pouco enxergam, quase não ouvem, e que demonstram limitadíssimo interesse pelos assuntos mundanos.
Seus universos se reduzem a expressar difusas memórias (ainda assim, apenas quando provocadas), ao calor, ao frio, ao horário das refeições, aos remédios receitados pelo médico em quem confiam, às preces acompanhadas pela tv, aos esporádicos contatos com filhos, netos, bisnetos e, é claro, a saber o dia do mês e da semana. Trata-se de um genuíno, vivo interesse, sua última pergunta. Penso que — como cada um de nós — só abandonarão sua específica curiosidade quando voltarem a ser átomos.
A escrita é a grande invenção. Foi a escrita, na verdade, aquilo que transformou um certo ser irracional em humano, esta espécie que domina o planeta para o bem e para o mal. Com a escrita, apenas, este blog se propõe a analisar e opinar sobre alguns dos principais temas da atualidade, no Brasil e no mundo, como qualquer cidadão faz ou deveria fazer. Meu nome é Oswaldo de Mello. Sou jornalista.
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