Há horas (antes eram dias) em que me convenço de que nosso destino é viver a vida que temos, ou seja, nos conformarmos com a penosa (ou seria cínica?) condição de reféns de nossos medos, e ponto final. Mas há outras horas em que me encho de esperanças, busco saídas, proponho caminhos para mim viáveis, porque, imagino, ainda não (suficientemente e/ou corretamente) tentados.
Esse humor pendular, digamos assim, pode ser uma doença do espírito, uma ‘negação’ da possibilidade de construirmos um futuro de harmonia, seguida da ‘aceitação’ da realidade via esperança de mudá-la, e vice versa. Entendo, porém, que não sofro exatamente de um mal, porque, embora não acredite em livre arbítrio, quero acreditar estar no controle de minhas próprias escolhas.
Sou eu (penso), a partir de minhas reflexões e em desafio à realidade que está dada, aquele que decide insistir de novo em busca de soluções, de saídas, ou aquele que se conforma com a impossibilidade de interferir no passo da História. Sou eu, enquanto o coração ainda bate, este que se impõe o direito e o dever de prosseguir, a despeito da contradição fundamental e incontornável.
Vou assim tocando as horas, experimentando conflitos, vendo e vivendo o cotidiano, dividindo aflições e alegrias ao lado de minha eterna companheira. [Ah, minha luz, obrigado!] Nesses momentos sou descrente de que sejamos (nossa espécie) capazes de (re)construir este mundo; de deixar para trás todos os milênios de erros e fracassos nunca admitidos; de produzir e multiplicar justiça; de promover e cultivar alegrias. Recolho-me ao egoísmo, adoto a tese da impotência e me distraio por algumas horas em conveniente autoengano.
Então, olho em volta e de novo vejo as pessoas que me cercam e amo. Pessoas aprisionadas aos seus medianos compromissos, envolvidas com seus desafios menores, absorvidas por suas necessidades básicas, confrontadas com suas frustrações, mas que ainda assim (parece-me) mantêm a esperança de um futuro melhor. Nesses momentos, quase de imediato, passo a buscar saídas, imaginar soluções que, vejam só!, não dependem de mim.
Quem somos nós, estes que buscam soluções?! Somos nada; somos clowns, “palhaços das perdidas ilusões”, como um dia sentenciou o brasileiro Orestes Barbosa. E no entanto ainda respiro, pertenço ao mundo humano, sou um indivíduo, tenho deveres existenciais. Estou presente neste planeta.
Constato que o processo disruptivo de nossa espécie está acelerado e vai se acelerar ainda mais, e sempre. Não vejo alternativa, mas, como um atleta a quem o azo concedeu particulares habilidades, continuo perseguindo o improvável, pois não posso nem devo desperdiçar os dons que o acaso me concedeu. Assim (e por isso) tenho exercido a oportunidade de lidar com essa contradição fundamental: pelejar pela construção de um outro futuro, sem realmente acreditar que isso seja possível.
Em algum momento de minha existência acolhi essa tarefa como um chamamento mandatório pela não desistência, frente ao compromisso que tenho com a minha espécie. Mas, de certa forma, hoje desisto; talvez momentaneamente, mas desisto. Ou melhor, mudo de estratégia.
Embora saiba que possuo leitores ocasionais em tantos cantos (Hong Kong, Estados Unidos, Alemanha, Singapura, Coreia do Sul, Suécia, Finlândia, Canadá, Suíça, Reino Unido, Austrália, China, Rússia, França, Portugal, Emirados Árabes Unidos, Bélgica, além do Brasil e de outros que se escondem atrás de VPNs), reconheço que após seis livrinhos lançados, e um sétimo, robusto, que condensa e aprimora esses primeiros (A primeira lição a aprender); depois de quase duas centenas de textos aqui publicados batendo nas mesmas teclas, cheguei à conclusão de que não convenci ninguém, absolutamente ninguém, da gravidade dos impasses que aponto e das soluções que proponho.
As pessoas, com todas as razões, estão mais preocupadas em como garantir a sobrevivência e de que forma aplacar suas dores físicas e mentais. Tudo o mais lhes parece fora, distante, inútil. Quando muito, apelam ao Desconhecido, e assim pensam aquietar as aflições. Até o próximo desespero.
Quanto a mim, continuo pensando.
Atenciosamente,
Oswaldo de Mello
oswaldofmj@protonmail.com