Dever intransferível

É tocante (no sentido de patético), como os indivíduos em geral se conformam (no sentido de cômodo) em delegar aos outros, ao outro, o protagonismo que lhes cabe nesta casca de planeta; e não apenas a alguns, mas a todos e cada um de nós.

Hoje somos capazes de especular que tal comportamento pode ter se instalado na psique de nossa espécie desde antes da transição do nomadismo para o sedentarismo, há 12 mil anos, quando a prática da especialização laboral passou a se estabelecer e em definitivo se impôs.

O entrecho da construção da História humana está alicerçado em paradoxos. No plano do intangível, fomos condicionados a enfrentar o desafio de viver sem porquê — leia, por favor, Destinados a ser. Mal e porcamente, ou empurrando com a barriga, como se diz, tocamos nossa vida para frente, jogando pra debaixo do tapete o lixo espiritual gerado por essa contradição. 

No plano do tangível, que denomino de ‘via do prosseguimento’, o paradoxo foi exatamente a prática da especialização do trabalho. Não poderia ter sido de outra forma, afinal, havia diferentes tarefas a serem realizadas e, para o bem da eficácia, da produtividade e do interesse geral, formaram-se grupos específicos de indivíduos para executá-las.

Ocorre que, embora útil e inevitável, a especialização paradoxalmente cobrou seu preço; e ele não foi barato. Aqueles indivíduos por natureza autossuficiente, capazes de absorver os conhecimentos básicos transmitidos pelos mais velhos para garantir sua sobrevivência, passaram a delegar algumas dessas tarefas a outros.

Essa rede de interdependência laboral, necessária e incontornável, produziu sujeição e subordinação. Os indivíduos que antes sabiam porque e como prover seu sustento, esqueceram-se de suas habilidades e/ou as repassaram a terceiros.

Surgiram as especializações e seus desdobramentos, determinados pela complexificação dos conhecimentos setoriais, de tal modo, por exemplo, que hoje um único médico já não dá conta de seu paciente; um só engenheiro não é capaz de projetar toda e qualquer obra; um único matemático não resolve todos os teoremas; um só físico não é capaz de enfrentar a variedade dos fenômenos naturais etc.

Muitas reflexões decorrem dessa completa interdependência. Alguns destacam só as vantagens — e elas são verdadeiras —, mas há quem, como eu (e tantos outros), também apontem o tal paradoxo do comodismo perverso, que se revela exatamente neste adiantado momento da História humana, quando dos indivíduos de nossa espécie se exige mais e mais autonomia reflexiva.

Não se trata de advogar pela volta de um remotíssimo passado, quando aqueles indivíduos sabiam o suficiente e dominavam os fazeres imprescindíveis à sua sobrevivência. Talvez não seja necessário que todos reaprendam a acender o fogo friccionando pedras ou peças de madeira; confeccionar as próprias armas para abater animais e obter a próxima refeição; saber distinguir a planta comestível da venenosa etc.

Mas, a meu ver (e de tantos outros, repito), é imprescindível que sejamos capazes de compreender e fazer uso dos conhecimentos fundamentais e universais deste nosso tempo (equivalentes àqueles do passado), sem nos submetermos à tutela de especialistas.

Por exemplo: quais são as forças que sustentam aquilo que nossos sentidos são capazes de conhecer, e como essas forças se projetam no espaço cósmico? Foi esse o sentido de meu texto de ontem — O que é essencial.