A quem pertence o futuro?

A ideia monoteísta de Deus, o Supremo Criador, deriva da palavra deiwos, da língua proto-indo-européia falada no III milênio aC nas proximidades do mar Negro. O conceito de deidade (a fonte do que é divino) é, portanto, contemporâneo ao Antigo Egito (3100 a 30 aC), onde prevaleceu a visão hermética e panteísta do Tudo.

Deiwos significava "brilhante, celeste", indicando que os seguidores do monoteísmo adotavam uma condição temerosa frente ao mistério da existência, contemplada a partir da Terra. Já o politeísmo hermético egípcio apontava para a ideia do Uno, entendendo que o Universo está dentro da mente do Tudo e o Tudo é a própria Mente (em outras palavras, o Universo está contido em Deus, mas Deus é maior do que o Universo)*.

A via do prosseguimento, qual seja, aquela que reivindica a dedicação da nossa espécie às tarefas destinadas à manutenção da vida, impôs no remoto passado sua forma de compreender o mundo, traduzida numa poderosa visão religiosa e cultural, com reflexos determinantes sobre a caminhada civilizatória empreendida desde então. 

Tal imposição poderia ter sido evitada? Penso que não. As necessidades imediatas da espécie foram (e sempre serão) incontornáveis. Nenhuma força espiritual teria sido capaz de mudar ou harmonizar aquele curso histórico, ainda que os sábios e líderes do III milênio aC possuíssem consciência das implicações de cada um dos dois sistemas espirituais para o futuro do planeta.

A predominância do monoteísmo resultou na evolução da psique da espécie? Também não. Embora tenha servido à lógica terrena e reducionista, com isso sustentando a revolução materialista que se seguiu, traduzida no avanço das ciências e no indomável desdobramento tecnológico, o monoteísmo produziu e aprofundou o despertencimento cósmico. Ou seja, retardou sua consolidação e disseminação.

Passados cinco milênios, quem hoje está espiritualmente equipado para enfrentar a encruzilhada civilizacional em que nos encontramos  aqueles que buscam o brilho celeste, ou os que se submetem ao mistério? Os que reivindicam o perdão Supremo, misericordioso, ou os que se harmonizam com o Universo, sabendo-se parte dele? Esta é a questão que nos interessa.

A caminhada civilizatória empreendida a partir e sob o império das religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo, islamismo) impôs aos indivíduos da espécie os desígnios de uma única entidade que, na verdade, se desdobrava em duas faces (a benevolente/redentora; a malévola/punitiva), mas sempre nos mantendo sob a lógica da submissão. Não poderíamos integrar (e ser) o Tudo; estava-nos destinado almejar um lugar no futuro Celestial.

A condição submissa, esperançosa, trazida pelo monoteísmo, foi (e tem sido) a mesma que justifica a renúncia à autodeterminação por parte da imensa maioria dos indivíduos da nossa espécie. Desobrigar-se de decidir, por receio ou conveniência, é o mesmo que entregar a Deus o nosso destino. É simples, é cômodo e, se não der certo, sempre restará rogar por misericórdia. Zero comprometimento.

Voltando à questão que nos interessa (Quem está mais equipado para enfrentar a encruzilhada civilizacional?), me parece que a resposta pende para o politeísmo professado desde os antigos egípcios, mesopotâmicos, gregos e romanos, passando pelos seguidores do hinduísmo, taoismo, xintoísmo, religiões africanas e indígenas.

Todas têm em comum não um Deus distante, uma luz a ser almejada e, quiçá, alcançada, mas o Tudo, a que pertencemos e que se manifesta entre nós, seres desta Terra integrada ao Cosmos, pela qual e para a qual somos inteira e completamente responsáveis.

*Refere-se ao Panenteísmo, termo criado por Karl Krause (1781-1832), sugerindo que o universo está em Deus, mas Deus não é apenas o universo, uma visão que combina a imanência (Deus presente em tudo) com a transcendência (Deus além do universo).