No último texto aqui publicado — A Terra quer sabedoria —, fiz a defesa do valor das redes sociais globalizadas para a execução do que chamo de a 'revolução definitiva', qual seja, a conquista da maturidade, a partir da conciliação da nossa espécie. No entanto, frente às desgraças, horrores e distopias praticadas e disseminadas nessas redes, sinto-me no dever de esclarecer o que penso sobre a questão.
Primeiramente, é preciso registrar que essa defesa não é recente. A base da argumentação dos livros que escrevi — e eles estão aqui: A primeira lição a aprender — traz a (minha e de tantos outros) compreensão de que não se pode descartar o avanço das ciências e as tecnologias delas decorrentes. Sem elas, com certeza, nossa civilização não teria avançado até este ponto.
Não que a civilização que erigimos seja digna de elogios, ao contrário. O que temos construído ao longo dos últimos 10.000 anos, desde que passamos a domesticar plantas e animais no antigo Oriente, configura-se, na verdade, a esquizofrênica coexistência de uma matéria liberta junto a um espírito aprisionado.
Ou seja, temos desde sempre nos dedicado a lutar, preferencialmente, em prol da garantia do prosseguimento do ser humano. Isto é, as necessidades básicas e imediatas impostas pela existência (fome, dor, desamparo) capturaram nossa atenção, esforço físico e convergência cognitiva de tal modo que passamos a delegar a terceiros (promotores de crenças e pregadores de religiões) os cuidados que deveríamos ter tido, individualmente, com as chamadas 'coisas do espírito'.
E por assim termos agido, ao longo de ao menos cem séculos, o que temos hoje é uma fortaleza (civilização grandiosa) assentada sobre alicerces frágeis (indivíduos imaturos). Alguns sábios já disseram que essa é a natureza do ser humano e dela não podemos escapar.
Não penso assim, nem considero que isso seja uma verdade provada, à luz dos conhecimentos já alcançados pela neurociência, ou mesmo pelas técnicas voltadas aos cuidados da mente (psicologia, psiquiatria, psicanálise e outras que se utilizam de gatilhos químicos).
Frente ao desafio que está mais do que nunca posto — a busca da maturidade, a partir da conciliação da nossa espécie —, reafirmo o que me parece uma obviedade: as redes sociais globalizadas constituem um avanço tecnológico fundamental para colocarmos em prática a 'revolução definitiva' que precisa e deve ser feita.
O fato de estarmos, neste exato instante da História, submetidos às consequências da disseminação do ódio e da anti-informação pelas redes socais, este fato em si é a prova daquilo que afirmo: essa tecnologia é poderosa, gera resultados, e não pode ser descartada. Ela só precisa de uma providência, que deve ser negociada e institucionalizada em termos planetários: disciplina no uso e responsabilização no abuso.
Talvez ainda estejamos distantes de nos dedicarmos ao exercício da 'revolução definitiva' (nunca se sabe!), mas ao menos hoje podemos alimentar alguma esperança, pois temos as circunstâncias (o esgotamento deste nosso modelo de civilização calcado no medo), temos os meios (as ferramentas de comunicação globalizada, a serem turbinadas pelo advento da computação quântica) e temos nossa velha e boa cognição para engendrar os modos (disciplinados e responsáveis) de fazê-lo.
As condições estão dadas.